Amai Maffin aguardou um tiro que nunca chegou, ao invés disso um barulho alto de algo adentrando uma pele lhe chamou atenção, abriu os olhos rapidamente mas um grito ecoou por todo o bosque a desestabilizou-a, fazendo com que ela desse uns passos para trás. Por alguma força divina esse simples ato salvou a sua vida.

Uma flecha voou sobre seu rosto, quase encostando o seu nariz.

— Rápido, me da outra flecha! — uma voz quase gritou. Amai olhou para a direção de onde a voz vinha, encontrando Benny Bury praticamente agredindo Shannon enquanto a outra procurava uma flecha na bolsa.

Amai olhou para frente ao perceber que Creolle não estava mais ali, um rastro de sangue mostrava por onde ela havia fugido e como se só agora percebesse o perigo que corria se desatou a desaparecer do campo de vista de Benny, no entanto, uma outra flecha passou de raspão ao seu lado.

Ela o perseguia.

Amai se pôs a aumentar a velocidade, sentindo mais uma vez o corpo fraquejar, com leves dores no tronco, ainda mais quando os seios batiam sobre sua barriga. Estava tão focada em fugir dali que não conseguia reparar no caminho a sua frente, e as consequências desse ato chegaram quando pisou em falso, caindo ladeira abaixo, sentindo galhos, pedras e terra machucando superficialmente suas pernas e braços.

Ficou um tempo no chão, sentindo a dor lhe atingir por completo, queria reclamar, praguejar, mas se manteve quieta, quieta o bastante pra ouvir um "droga" no alto da ladeira.

— Eu falei que devíamos ter tentado matar a Creolle antes. — Shannon falou alto. — Ela estava parada, morreria logo mas você quis tentar pegar a Amai também.

— Eu teria conseguido matar aquelas duas vacas! — quase gritou Benny suspirando pesadamente em seguida.

— Vamos voltar o caminho. — a outra voz falou com mais calma. — Lembro que nem Amai nem Creolle levaram as bolsas, podemos pegar algo delas. — explicou ante ao olhar indignado de Benny.

Benny pareceu discordar por um instante, mas resolveu acatar a ideia. Pensou que seria bom para ela também já que poderia reaproveitar as flechas que não atingiram Amai e ficaram perdidas no meio do caminho.

Amai finalmente respirou tranquila.

Elas se foram.

Ameaçou se levantar mas o corpo dolorido a impediu, tentou enxergar algo sobre seu corpo, ver se havia algum machucado sério, mas estava tão escuro que não conseguia. Queria fugir dali, queria correr. Mas estava indefesa, e com o cansaço, susto, medo e com o corpo fraco nem sentiu quando sua mente apagou e ela caiu inconsciente no chão.

[...]

Creolle chorava copiosamente, a flecha que Benny disparara em sua direção atravessou seu pulso e doía como o inferno. Ela já não sentia a mão esquerda, a flecha literalmente estava quase pela metade enfiada no seu pulso. Tentou tocar a ponta com a mão livre mas o simples toque a machucava agudamente.

Queria gritar, mas sabia que esse simples ato para se exaurir um pouco da dor revelaria sua localização e Benny e Sharron ainda poderiam estar a espreita.

Odiava as duas, tanto quanto naquele momento odiava Amai.

Um farfalhar chamou sua atenção, olhou para a direita encontrando algumas moitas altas, enrolada ao redor das grandes árvores do bosque.

"Merda!", reclamava. Estava sem forças para correr e não, definitivamente, não poderia morrer ali.

Levou um susto ao reconhecer a alta figura que ali estava, era Yugoslavia, que assim que apareceu em seu campo de visão a encarou com um olhar assustado. Os olhos da russa obviamente encontraram a flecha que parecia brilhar na escuridão do bosque, andou calmamente até Creolle, colocando a bolsa no chão.

— O que foi...?

— Benny. — afirmou. — Aquela vadia, eu vou me vingar Yugo! — cuspiu entredentes e soltando uma exclamação quando Yugoslavia tocou levemente a flecha.

— Precisamos tirar. — falou suavemente. — Eu vou puxar, está bem? Vai doer mas preciso tirar isso rápido.

Creolle ponderou por um momento, mas no fim pareceu aceitar a ajuda, fechou os olhos e colocou um pouco da camisa que usava na boca, para assim abafar um grito e morder para aliviar a dor aguda. Yugo colocou ambas as mãos na flecha e a puxou rapidamente, tão rápido que pode-se ouvir o som de algo quebrando e respingos de sangue voaram pelo ar. Creolle chorou, o braço caiu inerte no chão, olhou para ela alguns segundos antes de virar o olhar para Yugoslavia.

— Obrigad...

Mas nunca terminou a frase.

A flecha que estava no seu braço agora perfurava seu crânio com uma força absurda. Yugo cravou a flecha mais ao fundo e só parou realmente quando um "crac". Creolle caiu completamente no chão, a terra fofa começou a se banhar com sangue.

Yugoslavia deu alguns passos para trás, tirando do bolso um pequeno aparelho que mais parecia um pager, só que este era redondo e apitava tão baixo. No visor daquele aparelho indicava apenas uma esfera brilhante numa área de 1km, que Yugo concluiu que era somente ela.

Soltou um suspiro.

Quando saiu do velho cabana por último e ouvira Renata lhe falar "sua bolsa é a melhor" acreditou que teria recebido a melhor arma do jogo, mas sua decepção era perceptível ao ver que além dos itens básicos o que ela recebera como arma fora um machado, por sorte revistou mais ao fundo da bolsa, encontrando um pequeno embrulho onde a palavra "brinde" brilhava. Rasgou este embrulho e encontrou um rastreador, o pequeno papel de instruções falava "Parabéns! Você foi a sortuda que conseguiu o brinde. Este pequeno rastreador mostra os colares das pessoas que ainda estão vivas no raio de 1km...", o resto não lhe era interessante. Mas iria fazer bom proveito daquele aparelho.

Olhou novamente para Creolle no chão e ao redor, como se procurasse alguma bolsa, arma, qualquer coisa útil, mas como não achou saiu dali tranquilamente observando a tela do rastreador.

[...]

Estrelina estava agachada, não se lembrava de quanto correra nem aonde estava, deixará o mapa cair quando escutou o primeiro som de tiros, saiu em disparada para qualquer lugar e só relaxou mesmo quando encontrou uma construção abandonada, entrou sorrateiramente e ficou ali que para ela já fazia um bom tempo. Respirava ruidosamente, sentindo o rosto molhado, voltou a chorar.

Estava assustada demais.

Abriu levemente a mochila, e quando sua mão mergulhou para dentro dela, sentindo um toque leve o frio do metal da arma — uma Smith & Wesson, de calibre 38 — e encontrou a garrafa d'água, sorvendo um pequeno gole e a guardando novamente. Continuou ali sentada por mais alguns minutos, até que em sua cabeça uma voz se fez presente:

"Você sempre quis ser escolhida para algo, vai realmente ficar parada aí só esperando a morte? Você está com uma arma. Você pode sair dai e atirar em qualquer um."

Uma pequena chama de confiança pareceu surgir em seus olhos, Estrelina pegou a arma que estava em sua bolsa, saiu daquela construção segurando a alça com força no ombro e na mão direita a pequena pistola empunhada.

Ia começar a andar quando algo passou ao redor de seu pescoço, alguma coisa grossa fora enrolada bem ali. No susto, largou a pistola, fazendo com que ela caísse no chão com um baque surdo, tentou tirar aquela coisa que a enforcava de seu pescoço, mas estava tão fundo, tão grudado a si que não conseguia. Tentou também atacar de alguma forma a pessoa que lhe enforcava, mas está parecia grande demais para que conseguisse se quer lhe tocar. Não demorou muito tempo para que o ar lhe faltasse de seus pulmões e cérebro.

Caiu insconsciente no chão.

Fae puxou o cipó que usou para estrangular Estrelina e o amarrou, guardando novamente dentro da bolsa. Aquela não havia sido a arma que recebera, encontrou assim que saiu da cabana e acreditando que poderia ser útil o enrolou e começou a caminhar.

Observava o corpo de Estrelina no chão, riu sem vontade, pegando a arma que a outra deixara cair no chão, abriu para ver quantas balas tinha. Riu ao perceber que a sonsa nem sequer colocou munição na arma. Fae pegou a bolsa, procurando as balas e encontrando uma pequena caixa, preencheu os cinco buracos e encaixou a arma próximo ao cinto. Analisou seu redor rapidamente, encontrando uma grande pedra, pegou-a tranquilamente e repetida vezes esmagou a cabeça de Estrelina com a pedra, para certificar de que ela estaria morta.

Satisfeita, pegou as duas bolsas e saiu daquele quadrante.

[...]

— O que você viu? — questionou Gina quando Dobby finalmente desceu da mesa envelhecida, olhando pela alta janela daquele lugar que já havia sido uma casa.

A casa estava aos pedaços, mas por alguma razão ainda tinha eletricidade, testaram mas logo apagaram as luzes, queriam chamar menos atenção possível.

Dobby contou sem muitos detalhes para Gina ao ver Fae assassinar Estrelina sem piedade, sabia que Fae seria uma das pessoas que entraria de cabeça no jogo. Ela era louca e lunática o bastante para tais coisas.

Gina e Dobby voltaram a analisar o mapa com mais cuidado, usando a lanterna que Dobby recebera para ver os quadrantes e ao redor, tentando analisar quantos quilômetros cada quadrante deveria ter. As duas se encontraram próximo as ruínas de uma casa e andaram vagarosamente até alguma que aparentasse estar intacta e que não desabaria sobre a cabeça delas no meio da noite.

As duas tiveram um plano idêntico ao de Gallatea e Metalica, queriam encontrar o maior número de gente e conseguirem escapar daquela ilha de alguma forma.

Uma pequena lista foi feita, anotando o nome daquelas que poderiam ser confiáveis:

MetalicaCleoInmMarriaAlice

A menção do nome fez Gina ponderar. Sabia que Alice era uma pessoa ambiciosa, mas será que ela faria de tudo para ganhar? Entraria de cabeça no jogo?

Não comentou nada com Dobby porque a forma com que a portuguesa enchia a boca para falar bem de Alice a fazia recear em jogar um balde de água fria agora e criar alguma desavença entre ela e Dobby, ainda mais agora onde ela mais do que nunca precisava de uma companheira naquele jogo. Gina roçou os dedos levemente na foice que recebeu como arma, sentindo o toque frio.

Balançou a cabeça, fazendo com que Dobby a encarasse estranhamente.

Soltou um "não foi nada" e voltaram a planejar como encontrar aliadas.

[...]

Marria caminhava desesperadamente de um lado para o outro, olhava para o mapa tentando se localizar, mas depois de alguns segundos desistiu guardando o mapa em um dos bolsos. Rodou entre os dedos a arma que recebeu — FN Browning N1910, pequena e compacta até demais —, nervosa, não sabia para onde ir, não sabia o que fazer.

Não podia andar sozinha. Precisava encontrar alguém para se aliar, uma amiga. Mas... E se ela fosse traída? E se fingissem ser amiga dela como Renata, Lila, Sillum e Willy fizeram ai longo desse tempo todo e mesmo assim a jogaram nesse jogo doentiu?

Resolveu ficar sentada ali. Onde exatamente? Ela não sabia. Mas ficou ali, estava escuro demais para poder correr, seria até um pouco burro tentar fugir naquela escuridão, sabia que ficar parado também era burrice, só que em sua cabeça as chances de confrontar alguém enquanto fugia era maior do que se ficasse parado.

Confiou em seus instintos e ficou ali, apenas por pouco tempo até ouvir o barulho de algo caindo perto de si. Andou sorrateiramente, ouviu a voz de Benny e de mais alguém.

Não respirou.

Uma eternidade pareceu se passar até que a vozes sumiram, voltou a olhar para a direção do barulho e de longe reconheceu os grandes seios de alguém desmaiado no chão.