Jogo Perigoso
11 11 Assalto - Minha Esposa
Notas iniciais
11º Assalto – Minha Esposa
"Como alguém pode ser tão odiável num momento e nem tanto no outro?"
Kuchiki Rukia
Paz. Era tudo o que Kurosaki Ichigo queria, mas ao que parecia, nunca iria conseguir.
“Tresloucada...”, sussurrou para si enquanto tomava um gole de café. O líquido desceu aquecendo sua garganta de uma forma extremamente calmante.
Ah, desfrutar de um café da manhã sozinho. Nada como sentir o aroma do café em meio a um silêncio... Espera! Quase silêncio.
De soslaio, viu Rukia ser rodeada por dois chefs do hotel que insistiam em saber o que a Sra. Kubo gostaria de comer. Ela parecia meio deslocada, fitando-os quase acuada.
Para uma garçonete de bar suspeito ela parecia quase sufocada ali e isso que mal duas ou três pessoas a cercavam. Pois é, ser a Sra. Kubo não era exatamente a tarefa mais fácil.
Ichigo sentiu vontade de rir da forma como ela se afastava em direção à mesa, praticamente fugindo dos chefs.
“Mil e uma faces, hã, Kuchiki Rukia”, pensou.
Ainda lembrava perfeitamente da face que vira aquela manhã e era diferente de tudo o que conhecera sobre ela. Uma que ainda não conhecia.
Artes marciais?
Queixo caído e boca aberta. Fora essa a reação dele ao sair do banho e encontrá-la treinando movimentos de chute e soco.
O que diabos está acontecendo aqui?, foi o primeiro pensamento coerente que conseguiu formar ainda com os botões da camisa todos desfeitos e o cabelo molhado.
Ela não pareceu lhe dar a mínima atenção naquele momento, ao contrário, parecia tão concentrada no que fazia que mal parecia ter percebido que ele tinha saído do banheiro ― onde até então ela queria estar, infelizmente não junto com ele.
Recostando-se contra a parede, deixou a toalha úmida sobre os ombros e puxou as pontas para secar mais os fios molhados enquanto a observava. Ela tinha um bom jogo de pernas e movia bem o punho direito... Mas havia algo... Errado.
Antes que se desse conta, encontrava-se atrás dela e parava seu soco, prendendo seu pulso e a prendia entre si e a parede.
― O que diabos você acha que tá fazendo? ― dissera ela, tentando se soltar, sem sucesso.
― Como eu imaginei ― sussurrou, como se não tivesse prestado atenção à pergunta feita.
Seus dedos deslizaram entre os dedos dela, testando a firmeza dos mesmos para depois viajar para coxas torneadas e...
― Ichigo! ― gritou, acertando-o na mandíbula. ― Seu idiota! Quem você acha que é para...
O ruivo se afastou e tocou o queixo, movendo-o de um lado para o outro, numa massagem.
― Também como eu imaginei...
― O que diabos você quer dizer com isso? ― perguntara, claramente irritada.
― Você tem força o suficiente para acertar, mas você tem medo de fazer isso.
― Medo? ― perguntara, já começando a rir.
― Tem sim ― respondera, rápido.
― Eu não tenho...
― Então porque você só se soltou quando eu ameacei tocar você?
Rukia não respondeu, mas continuou fitando-o. Era verdade. Ela poderia ter se livrado dele com facilidade, mas por que ela sempre parecia temerosa de entrar num combate? Não era para isso que treinava todos os dias?
― Venha, tente me acertar.
A morena arregalou os olhos. O que ele estava sugerindo.
― Eu não vou machucar você.
― Eu nunca disse que você vai conseguir, eu disse para tentar.
― Você está me subestimando?
― Eu? ― perguntara, dando de ombros. ― Quem sabe... ― um sorriso insolente se formou em seus lábios.
Rukia mordeu levemente o lábio inferior. Não iria cair nessa provocação barata. Ela era melhor do que isso. Pegando sua toalha começou a caminhar para o banheiro. Iria tomar um banho e descer para o café, era a melhor coisa que fazia.
― Tá desistindo?
― De bater em você? ― perguntou, dando de ombros. ― Não faço questão.
― Eu já sabia que você não teria coragem ― disse, sua voz monótona.
Rukia abriu a porta do banheiro e arqueou uma sobrancelha.
― Você tá me desafiando?
― Estou.
― Desafio aceito.
Ichigo sorriu ao vê-la se aproximar. Parados um em frente ao outro, Rukia tomou uma respiração profunda e franziu o cenho. Ele podia ver que ela estava irritada com sua provocação, mas não ia desistir. Não tão fácil assim. Ela queria fazê-lo engolir as palavras que dissera momentos antes.
Ótimo. Era assim que ele queria vê-la.
― Quais as regras?
― Sem regras.
― Como assim?
― Me acerte como quiser.
― Mas...
― Sem mas. Só me acerte.
― Que seja ― disse, movendo-se em direção a ele.
Ichigo continuou imóvel, só esperando que ela o acertasse. Ela havia preparado os punhos para acertá-lo no rosto, mas ao vê-lo parado, Rukia franziu o cenho e moveu o golpe para golpeá-lo no estômago. Mas antes que seu punho alcançasse seu destino, ele a bloqueara. Suas mãos envolvendo os pulsos finos e os torcendo para trás, até fazê-los encostar em suas omoplatas.
Rukia gemeu de dor, mordendo o lábio inferior, enquanto tentava usar as pernas para acertá-lo, mas Ichigo introduziu a coxa direita entre as pernas dela e a derrubou no chão. Ela grunhiu em protesto e vergonha, mas não conseguiu se soltar.
― Não vale! Você trapaceou!
― E você me subestimou ― dissera ele, soltando-a. ― Nunca subestime seu oponente, você pode se arrepender por isso.
― Idiota! ― resmungou.
Ignorando o xingamento, estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, mas Rukia recusou, tentando se levantar sozinha. Com um suspiro, Ichigo puxou-a pelo braço sem cuidado algum e a colocou de pé.
― Eu não pedi a sua ajuda!
― Deixe de ser infantil ― disse, repreendendo-a. ― Você se movimenta bem e você ia de fato me acertar, por que você parou?
― Porque você estava parado, oras!
― Então você confiou que eu ia ficar parado e receber o golpe? Tsc! Quanta inocência da sua parte.
― Olha, eu...
Antes que pudesse completar a frase, estava pressionada contra a parede. Os dedos da mão direita dele enroscados em seu cabelo e a mão esquerda prendendo seus pulsos. Nenhuma chance de movimento com as pernas.
― Está vendo? Você é muito distraída e confia demais na honra do seu oponente.
― O que...
― Eu nunca disse que eu tinha acabado com você. Você simplesmente deduziu isso porque eu tentei ajudá-la a se levantar ― disse, voltando a puxar os cabelos dela um pouco, sua boca colada ao ouvido dela. ― Eu posso não te conhecer há muito tempo, Rukia, mas eu sei que você não treina porque gosta. Você tem um objetivo e se for matar alguém, você deve fazer isso sem pensar duas vezes. Está vendo como seu pescoço está nas minhas mãos? Eu poderia matá-la agora. Tão fácil fazer isso...
― E por que você não faz? ― perguntou, seus olhos lacrimejados com a vergonha de ser repreendida dessa forma.
― Por que você não é meu alvo ― disse, soltando-a. ― Agora nós terminamos.
― E por que eu deveria confiar em você?
― Você não deve.
Após alguns minutos de silêncio, Rukia voltou a dizer:
― Você não joga limpo.
― Ninguém joga. Talvez você já deva ter ouvido falarem que no amor e na guerra não há regras.
― Mas isso não é uma regra, nem mesmo um relacionamento.
― Pois é, mas eu aplico essa regra para tudo na minha vida.
Voltando da lembrança, concentrou-se em sua xícara de café e em como um terceiro garçom a cercava.
― Ótimo. Era tudo o que precisava ― murmurou, jogando o guardanapo na mesa e se aproximando deles.
― Querida... ― disse, numa falsa voz enjoativa. ― Você está bem?
― Sr. Kubo ― disseram os chefs e o garçom com uma rápida, mas educada mesura. ― Nós sugerimos torradas com Crème Brûlée e...
Ignorando-o, Ichigo se voltou para Rukia e disse:
― Vá para a mesa. Eu levo o seu café.
― Mas como você...
― Dispense a comida francesa ― disse, voltando a olhar para o chef. ― Minha... ― Ichigo a encarou por um momento, pensativo, depois continuou, ignorando o que iria dizer mais cedo. ― Traga o tradicional japonês. Bolinhos de arroz, ovos cozidos e talvez algo como pepinos em conserva.
A morena o encarava, boquiaberta. Como ele sabia sua comida favorita? Não se lembrava de ter dito alguma vez. Ou tinha?
O chef se curvou novamente e com um sorriso os deixou dizendo:
― Sr. e Sra. Kubo.
― Vamos ― disse o ruivo, colocando a mão em suas costas e a guiando para a mesa.
Enquanto caminhava, Rukia, com os olhos muito arregalados, tentava compreender o que havia acabado de acontecer. Os empregados do hotel que passavam por eles, os cumprimentavam curvando as cabeças num gesto respeitoso.
Ichigo puxou a cadeira para que ela se sentasse e logo após tomou assento à frente dela com um sorriso quase inocente em seus lábios:
― Feche a boca ou comerá moscas.
Percebendo o ridículo da situação, rapidamente fechou a boca e pigarreou um pouco antes de perguntar num sussurro:
― Como você sabe minha comida favorita?
― Eu não sei ― respondeu, sacudindo os ombros.
A resposta dela veio rápida e através de um olhar enviesado e mau humorado. Pegou o suco de laranja que o garçom trazia e agradeceu sorrindo amavelmente antes de se voltar para ele.
― Estou esperando uma resposta.
― Pepino, ovos e bolinho de arroz são suas comidas preferidas. Coelhos são fofos e lindos e você acha lindo um coelho estúpido chamado Chappy e sua cor favorita é o branco e sua estação preferida do ano é o inverno e você detesta verões fortes.
A surpresa fora tamanha que a fez engasgar. Rapidamente ele estendia um guardanapo de pano para que ela pudesse colocar sobre a boca.
Os olhos dela lacrimejaram durante o acesso de tosse que se seguiu enquanto Ichigo a fitava quase preocupado.
― Você está bem?
Mas sua pergunta não obteve resposta. Rukia estava chocada demais para processar qualquer informação. Um calor desconhecido preencheu seu peito, algo que ela não conseguia compreender. No entanto, essa sensação não era ruim. Era... aconchegante. Parte dela estava realmente feliz ― sem motivos ― pelo fato de que Kurosaki Ichigo sabia essas pequenas coisas sobre sua vida que ela não contava para ninguém, porém havia outra, que estava amedrontada ― sem motivos também ― pelo fato de que ele soubesse algo sobre si. A parte que não queria se desnudar para ninguém.
Medo? Aquela ideia era ridícula. Rukia estava irritada. Muito na verdade. Estar em desvantagem não era a melhor coisa do mundo. Kurosaki Ichigo já sabia muito sobre ela, mas o que ela sabia sobre ele?
“Tem nome de fruta, é um cretino mentiroso, trapaceiro, mas luta bem e é bonito?”
Não havia mais nada que soubesse. Comida, cor, animal e estação favorita. Não sabia nada disso? Mas, afinal, homens tinham essas preferências? Isso eram coisas de mulheres.
― Onde você soube disso?
― Não ache que eu me importo com você. É só parte do meu trabalho ― disse, mas ao ver a sobrancelha arqueada, completou: ― Reli seu dossiê.
Ufa. Essa foi a reação de Rukia. Felizmente, ele só sabia disso por um pedaço de papel e aquelas informações eram tão irrelevantes quanto as que ela não sabia sobre ele. Ainda bem...
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Tão logo ambos abandonaram a mesa e o café da manhã silencioso, Rukia se deparou com um folder sobre um evento local depositado no balcão da recepção.
Gardenia Festival.
― O que é isso? ― perguntou para o recepcionista.
Ele deu um sorriso simpático antes de responder educadamente:
― É um dos eventos temáticos sobre flores da cidade, Sra. Kubo. Acontece sempre no começo do verão.
― Onde é? ― perguntou, subitamente interessada ao ver que Ichigo arqueava uma sobrancelha.
― Tokugawaen.
Os olhos de Rukia brilharam a menção de um dos parques mais famosos e antigos de Nagoya. Ela havia lido sobre o lugar diversas vezes, mas nunca tivera a oportunidade de visitá-lo. Sua beleza era algo muito conhecida e comentada em Tóquio.
Assim, ela se virou para Ichigo. Olhos suplicantes.
― Nós...
― Sem chance ― ele a cortou com um aceno negativo.
― Mas...
― Mas o quê? Sua saúde, tá tentando piorá-la?
Rukia franziu o cenho diante do comentário dele e mordeu o lábio inferior já quase irritada com essa história de doença.
― Vamos ― chamou, virando-se para deixar o hall. ― Você precisa descansar.
“Eu odeio você”, Rukia pensou ao segui-lo, meio passo atrás, mãos para frente e um suspiro de derrota a escapar pelos lábios.
― Kubo-sama ― chamou o recepcionista num tom baixo. Só quando Ichigo se virou para olhá-lo, continuou: ― Se me permite dizer, eu acredito que tal passeio faria bem a saúde da Senhora Kubo.
Rukia sorriu, aprovando as palavras do recepcionista que continuou, agora num tom de voz mais firme:
― É um local calmo e familiar, além de muito bonito.
― Mas e o festival? Isso poderia afetar a saúde da minha... ― pigarreou baixinho, e logo acrescentou: ― Dela.
― É começo do festival, poucas pessoas vão, ainda mais em dia de semana.
Rukia ergueu a cabeça para ver Ichigo, um sorriso delineando seus lábios quando ele acenou positivamente, sussurrando baixo ao vê-la passar por ele:
― Certo, você venceu dessa vez.
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Ichigo colocou as mãos nos bolsos da calça enquanto continuava a segui-la, dois passos atrás, observando-a. Ele não conseguia entender por que raios ela estava tão feliz olhando e apontando para tudo naquele maldito parque.
O que havia de tão interessante ali? Um parque secular e histórico? Era seu conhecimento acadêmico falando alto naquele momento? Ou era simplesmente retardada? Ele simplesmente não conseguia entender a alegria dela.
Eles estavam há horas rondando aquele parque. Tinha certeza que só pelas placas que havia lido, já conhecia toda a história do Japão da Era Edo.
“Bom, posso ser jardineiro ou florista quando me aposentar”, pensou com ironia, lembrando-se que passaram por diversos stands na entrada do Parque onde senhoras explicavam ― exaustivamente, admitia ― sobre diversas flores. Gardenia era símbolo de sinceridade ― mais um motivo para ele não presentear Rukia com uma, desde que ele era um cretino mentiroso na concepção dela ―, significavam também agradecimento ― pelo quê, por todos os diabos, ele iria agradecê-la? Só se fosse por deixar a vida dele. E tinha também mais um monte de significados que ele não prestara a mínima atenção. As outras flores, já que não eram o tema do festival, não tinham a menor importância.
Aquele tema era chato. Tema de mulher.
Tema que só poderia deixar alguém simples como Rukia feliz.
Em partes, ele gostava de vê-la assim. Sorridente. Ela parecia simplesmente relaxada ― para não mencionar quase infantil ― tomando sorvete e olhando para o céu azulado. Seus olhos violetas brilhavam ― ele poderia dizer, numa felicidade genuína. Algo que o surpreendeu, pois sempre parecia haver uma pitada de tristeza a cobri-los.
Quando ela parou e apontou para uma diferente flor azul e sorriu, Ichigo se viu sorrindo também. Por um motivo que ele não conseguia explicar, tampouco queria compreender. Era meramente bom vê-la feliz.
― Você conhece isso? ― ela perguntou de repente, virando-se para ele.
Pego de surpresa, o ruivo apenas acenou negativamente, assistindo-a levar a flor azulada ao delicado nariz e sorver de seu cheiro. Algo dentro dele, que ele não sabia expor em palavras pareceu ser atingido naquele momento. Sua expressão era terna ao observá-la fechar os olhos e sorrir levemente. E então a realização do quanto estava soando ridículo se importando com alguém como ela bateu nele.
“Por que eu estou reagindo assim?”
Quando Rukia reabriu os olhos foi apenas para encontrá-lo lhe dando as costas e caminhando para longe dela.
― Hey, aonde você vai?
Alguns passos a frente dela, Ichigo virou o rosto para trás. Cenho franzido.
― Para que você quer saber? ― perguntou, não evitando uma pitada de grosseria em seu tom.
― Você pode desfranzir a cara? Você parece que chupou um limão azedo!
Como se fosse possível, Ichigo franziu ainda mais o cenho e rangeu levemente os dentes. No fim, estava desgostoso por estar naquele lugar ridículo, vendo aquelas flores ridículas e na companhia ridícula dela. Vê-la se divertir não era reconfortante, era... Irritante.
Sacudindo levemente a cabeça, continuou a se distanciar dela. Ela viera aqui para se divertir não fora? Então que se divertisse sozinha. Ele não estava nem um pouco a fim de ajudá-la nisso. Ajudar sua querida... Fosse o que quer que ela fosse.
― Estúpido! ― gritou atrás dele.
Deu de ombros. Reação simples. Reação de quem não se importava em ser xingado.
Ichigo continuou caminhando, com uma Rukia, agora já muito irritada, em seus calcanhares. Reclamava pelo fato dele tê-la acompanhava. Reclama por ter ido e não dar atenção a ela. Reclamava pela expressão em seu rosto. Reclamava por ser grosseiro. Reclamava por tudo. Só sabia reclamar!
Com passos rápidos, alcançou a ponte que cortava um pequeno lago quando uma grande gota de chuva caiu em sua testa. Olhou para cima e encontrou o céu totalmente acinzentado.
Chuva!
Mas que droga!
Odiava chuva!
Só não detestava chuva mais que... aquela palavra.
Também queria odiá-la. A pessoa que o fizera odiar aquela palavra que parecia entalar em sua garganta toda vez que tentara pronunciar naquele dia.
Mas não podia.
Nunca conseguiria odiá-la.
Ela era muito boa, mesmo quando o apunhalava pelas costas. Mesmo quando lhe dizia em uma face contorcida pelo choro, num pranto dolorido e sensível que não o amava mais.
Mas que ainda se importava com ele.
Que fosse para o inferno com sua mania de se importar e sentir muito pelos outros.
Não queria sua pena.
Não queria mais nada que viesse dela.
Muito menos qualquer coisa que pudesse evocar alguma mínima lembrança.
E era exatamente isso que Rukia estava fazendo: evocando lembranças.
Estava praticamente terminando de atravessar a ponte quando Rukia o alcançou, sua voz alta e extremamente irritada.
— Por que está tão nervosinho?
Ichigo não respondeu, sequer a encarou.
— Não vai responder?
— Por acaso sou obrigado?
— É! — rebateu. Suspirou. A verdade é que não sabia o que dizer. — O que há com você? Ficou doente?
— Por que se importa? Você não é nada para mim. Não é minha...
— Sua o quê?
— Esposa de verdade! — gritou, finalmente voltando-se para ela.
Esposa de verdade...
Minha... Esposa...
Essas palavras ressoavam em sua mente bem altas. Tão altas que pareciam ensurdecê-lo. A ele e a ela. Mas ele sabia que as havia pronunciado em tom relativamente baixo — ao menos perto do que elas soavam em sua cabeça.
Também traziam um gosto amargo como o fel à sua boca.
Não.
Era pior. Bem pior.
Pareciam como cacos de vidro cortando seus lábios por dentro. Doía. Machucava. E muito.
Ele tivera alguém para chamar de minha esposa um dia, mas ela o abandonara. Trocara-o.
Desde então, Ichigo relegou tal palavra infame para o fundo de sua mente. Banindo-a para sempre.
Não tivera nenhum problema em pronunciá-la enquanto parecia apenas uma brincadeira. Mas aquele dia a brincadeira parecera real demais...
— Olha só, eu nunca pedi pra ser! — rebateu, também alterada. — Você que inventou essa história tod—
Não pode terminar sua frase, pois ele a interrompeu:
— Então por que veio se comportando o dia todo como se fosse? Fazendo até ceninha pra vir nesse maldito parque! Adivinha? Eu detesto isso aqui!
Rukia tinha os olhos arregalados em descrença.
— Se você tivesse devolvido o meu colar já eu não teria te forçado a vir aqui. Além do mais eu nunca pedi a sua companhia, você veio porque quis!
— Você e essa sua papaguaice com o colar! Eu já disse que não o tenho mais!
— Pegue-o de volta!
— Pra você perder pro próximo que passar no seu bar?
Os olhos de Rukia se arregalaram ainda mais quando ele disse isso.
Ela sabia o que ele insinuava com essas palavras e elas doeram. Doeram muito mais do que ela sequer um dia chegaria a admitir.
Voltando-se para trás, caminhou o resto da ponte para o outro lado, deixando-o sozinho. Um baixo, porém ainda audível esbravejo saiu de seus lábios.
— Eu te odeio, Ichigo!
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