Jogo De Segredos
1 Prólogo
Notas iniciais
Anne sabia que algo estava estranho a partir do momento que chegou ao local. O pequeno bosque durante a noite se tornava algo extremamente assustador. Dez horas da noite e ela estava lá, esperando pela pessoa que havia marcado para lhe encontrar. Apenas o som dos grilos e das corujas enchia a floresta, pois era a única coisa que ouvia além de sua respiração ofegante. O ar da noite entrava e saia com dificuldade de seus pulmões. Suas mãos estavam congelando. Olhou novamente a mensagem no celular e certificou-se de que era o que havia na mensagem “No pequeno bosque de Shadowille as dez da noite, próxima a cabana...”. Anne sabia muito bem quem era, pois não era a primeira vez que se encontravam naquele lugar. A diferença é que todos os encontros anteriores foram marcados durante o dia.
Ela perdeu a noção de quantas vezes enviou mensagens perguntando o “por que” daquele horário, se podiam muito bem se encontrar na casa dele. Mas nenhuma dessas mensagens foi respondias, bastou serem ignoradas para ela pensar realmente que o certo a se fazer era ir para lá e pronto. Sentia que o chão estava mais úmido que o normal. A lama grudava com facilidade nos seus tênis. A lua aparecia com dificuldade pelas nuvens que passavam. Anne sentou-se na soleira da velha cabana. O ar estava muito frio, as pontas de seus dedos ficavam cada vez mais dormentes. Depois de um tempo resolveu que era melhor ir para o carro, pelo menos tinha aquecedor. Os cabelos longos e castanhos chicoteavam no ar enquanto caminhava na direção do seu carro tentando aquecer os próprios braços com o vento frio que vinha ao seu encontro. Entrou no carro e ligou o aquecedor pondo as mãos bem próximas da saída do ar.
— Bem melhor! — disse a si mesma olhando os olhos verdes no retrovisor interno.
Pegou a bolsa e resolveu retocar a maquiagem enquanto esperava por “ele”. Ligou o rádio e viu que estava tocando aquela música irritante daquele grupo de garotos britânicos, mudou imediatamente a estação e deixou onde estava quando começou a tocar “Burning Desire”, umas de suas músicas favoritas de Lana Del Rey.
Esperou um bom tempo. Ouviu um barulho no banco de trás do carro e antes que pudesse se virar para ver o que era, algo começou apertar seu pescoço contra o banco.
Ela gritava sem parar, ou tentava, já que o som saia com dificuldade de sua garganta. Lançou os braços para trás na tentativa de impedir, quem quer que seja de matá-la. Por sorte acertou um dos olhos da pessoa e conseguiu se libertar. Saiu do carro e acabou caindo. Suas pernas fraquejavam enquanto tossia sem parar. Ainda de joelhos ao chão ouviu o som da porta se abrir. Olhou para trás e não acreditou ao ver quem tentou matá-la. Levantou-se com dificuldade e correu. O mais rápido que podia sem ter o risco de cair. Suas pernas tremiam que nem vara verde. Seu coração acelerava. O ar gélido da noite não ajudava muito Anne, que já estava ofegante. Era difícil se guiar no meio da escuridão. Seu celular tinha ficado no carro.
A perseguição continuava sem parar. Ela não via mais ninguém por perto, mas mesmo assim não achava muito bom parar de correr até chegar à cidade que estava a uns sete quilômetros dali. Essa ideia não passou pela sua cabeça, a única coisa que não queria era morrer. Lágrimas quentes jorravam de seus olhos deixando um rastro negro nas maçãs do rosto, levando todo o rímel embora. Agora o céu escurecera de uma vez. Algo molhava seu rosto mais ainda, não eram lágrimas, começava a chover para seu azar. As gostas de chuva batiam tão forte em seu rosto que chegava a doer. Dificultavam sua visão. Os bichos da pequena floresta não eram mais ouvidos, somente a chuva que caia torrencialmente sobre o lugar. As roupas ficavam mais pesadas, os tênis afundavam na lama cada vez mais. Quando pensava que não podia piorar caiu de um enorme desfiladeiro. Escorregou na lama e viu tudo girar enquanto caía. Seu corpo se chocava ao chão com um poder esmagador. As luzes da cidade, bem abaixo giravam várias e várias vezes. Gritava enquanto caia, seu corpo começava a se misturas com a lama. Cortes aconteciam por todo o seu corpo ao passarem sobre pedras e galhos secos. Tudo parou quando parou bruscamente ao bater a cabeça num tronco de árvore caído. Desmaiou e lá estava a pessoa, olhando para ela. Um sorriso doentio apareceu na face do indivíduo que com facilidade arrastou Anne, desacordada, para longe de lá.
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