Jogo De Ideias
9 Desenho eufórico
Notas iniciais
O sol fazia cerimonia para se esconder atrás das nuvens obscuras, desse céu lilás de fim de tarde. E o crepúsculo me presenteava com o seu vento gelado, enquanto que as pequenas folhas do outono se bagunçavam no meio da silenciosa estrada.
Subi rapidamente as escadas ate chegar ao apartamento, no 3ero andar. E mesmo sendo um apartamento pequeno, era perfeito. Perfeito para ela, é claro. Pois o apartamento foi convertido mais para um ateliê do que um lugar para morar. Só no final da sala (isso se é que tínhamos propriamente uma sala), se podia vislumbrar uma estante empoeirada com alguns de meus livros de física e estudos da universidade. Isso é claro, se você chegasse primeiro a passar por alguns amontoados de quadros, esboços e retratos esparzidos por toda a casa. E se você tiver ainda a sorte, de não tropeçar com alguma tinta ou marcador de cor esquecidos propositalmente no chão. Mas não adiantava discutir com ela. Ela já o havia convertido no seu espaço pessoal. E mais importante: era ela quem pagava o aluguel.
Fiquei por uns segundos tentando achar freneticamente a chave do apartamento no bolso da minha calça. Carregava comigo a minha mochila da faculdade. E para piorar a situação, trazia comigo a nossa janta na mão: era comida chinesa do subúrbio da cidade.
Bati a porta umas três vezes, não conseguia achar a chave. Talvez o tivesse perdido. Ou talvez apenas estava perdido no fundo da minha mochila.
Ela abriu a porta trazendo em suas mãos uma xicara de café. E se aproximou contra o meu corpo, colocando a mesma mão em que tinha o café nos meus ombros. E esticando o braço, juntando-se bem ao meu encontro, num impetuoso truque de magia, proferiu um beijo audacioso. E os meus lábios sentiram o seu sabor amargo do café, neste impetuoso jeito de boas vindas. Instigável gosto intervindo. Por algo muito mais comprometido no meio do momento em improviso.
Era apenas um beijo tímido.
Quis beija-la novamente, para algo muito mais imponente. Mas genuinamente, os meus lábios não foram correspondidos novamente.
Peguei-a de súbito pelo braço, tentando proferir um novo beijo embriagado. Mas percebi que nem sempre posso ter os meus desejos proclamados. Nem sempre podemos ter o que queremos. Bela decepção aquela. Era apenas uma utopia de uma trágica realidade. Ofuscada pela verdade.
Deixei cair a minha mochila no meio do chão gasto. A procura de um momento mais imperante, que me deixa-se estar mais perto dela. Queria segurar a mão dela. Dê-la por perto. Sentir por perto o se embriagante aroma da sua nuca provocante. E poder beija-la como um meliante. Para estes atos nada mais que relevantes.
Anne seguiu para a sala, jogando o seu corpo perfeito para o sofá estreito. E ajeitando-se entre as almofadas, pegou o que era um block de desenho. Algumas folhas caíram do caderno de desenho, desprendendo-se do que era do aro de metal. Deviam ser umas três ou quatro folhas que caíram debaixo dos seus pés. Fiquei curioso pelo o que era. Agarrei o que eram as quatro folhas de papel que tinham caído e me juntei com ela no sofá estreito. Puxei o seu pé insolente que ocupava o meu espaço; numa tolice brincadeira de criança. E ela, sem dar a menor queixa, puxou a minha perna mais ainda, fazendo-me perder logo o equilíbrio.
As suas bochechas coraram com a minha reação proferida. Bela tentativa falida de ter o meu próprio espaço. E eu não podia fazer nada! Para retornar no meu espaço ferido! Que era meu por direito. Nesse insolente sofá estreito! Com o seu corpo perfeito ocupando todo o meu espaço.
Fiquei no meu devido canto, pela acometida injustiça. E esperei pela desconfiança para a minha devida vingança. Mas o seu pé insolente continuava ao meu lado, acabando com a minha doce paciência.... Resquício inusitado do que ainda era meu em aparência.
Mas as aparências muitas vezes enganam. E foi isso que entendi quando vi esse belo sorriso à minha frente. Com o seu corpo sutilmente apoiado ao meu encontro, tirando de mim o que ainda restava do meu folego. E os seus lábios levemente proferindo um belo riso. Graças as suas atitudes impertinentes que tiravam o meu aconchego. E o seu sorriso não saía dos seus tênues lábios, pois tudo isso era divertido para ela. Achava graça deste imprudente momento. Inoportuno acontecimento da minha trágica sorte. Mas o belo sorriso não saia do seu lábio, nesse divertido momento. Pois Anne via um belo sentido em tudo, principalmente nos pequenos divertimentos.
Fitei por um momento as quatro folhas que tinham caído. Eram as folhas soltas do seu caderno batido. E no que me restava de canto nesse sofá grisalho, olhei com cuidado essas folhas caídas. Percebi os mais lindos desenhos, esboços a lápis e alguns coloridos. Se tratam de uma sequencia de desenhos, e me preguntava porque que eram tão mal tratados. Pois cada desenho tinha o seu próprio significado e a sua própria nstigável beleza.
Um desses desenhos chamou a minha atenção. Se tratava apenas de um esboço em preto e branco. E mesmo não tendo cor definida, se podia ver claramente que se tratava de um casal de namorados. Ambos seguravam o que pareciam um guarda-chuva. Tendo as suas mãos sobrepostas com a mera desculpa de ter que segurar o mesmo guarda- chuva, como se fosse uma tarefa difícil que precisava a ajuda dos dois. E os dois se olhavam mutuamente, e o que parecia ser uma forte chuva no momento, era apenas simplesmente irrelevante, pois havia algo muito mais importante na mirada de aqueles dois.
Me aproximei do seu corpo, juntos neste sofá super inconveniente, com a intenção de incomoda-la mais ainda com a minha presencia insolente. E trouxe o curioso desenho comigo, mostrando-o bem para ela. E ela parou de imediato o que estava fazendo, com o fim de por no presente ato a sua total concentração no conveniente desenho.
As suas bochechas logo tomaram conta dessa cor característica da biologia feminina.
– É um dos meus desenhos preferidos. Onde o encontrou? – ela perguntou sutilmente com um leve sorriso nos seus lábios.
– O achei bem debaixo dos seus pés. – falei.
A sua mirada ficou logo seria. Um pouco preocupada eu diria. Mas o que havia de errado nesse desenho tão peculiar? Indaguei...
Fitei por um segundo os seus olhos azuis safira, tentando em vão achar a essa resposta no mistério do seu profundo olhar. E com um rápido movimento, bem no meio desse sofá estreito, pegou a minha mão e me abraçou avidamente. Não era um sentimento sincero aquele. Era mais por uma necessidade aparente. Um fingimento carente. Aquele abraço indigente. E ela ficou por um bom tempo perto do meu corpo comovente. Apenas para ter em mãos os quatro desenhos habilmente.
Senti o seu queixo se apoiar no meu ombro, e levemente senti o aroma do seu cabelo. Podia escutar a sua lenta respiração bem perto do meu ouvido. E era um som penetrante aquele: o batimento cardíaco do seu coração crítico. Por um desejo algo cínico. E assim foi o abraço, sem nenhum sentimento aparente. Ou motivo benevolente. Ela apenas estava ausente.
– Por acaso há algo errado, Anne? – perguntei confuso. Havia algo estranho com esses desenhos que ela não me queria contar.
Ela apenas sorriu e delicadamente me respondeu:
– Não...não, nada Icaro. – falou despreocupadamente. – é que fazia tempo que os estava procurando. Só isso. – E voltou a recostar-se no sofá estreito. Colocando os seus fones de ouvido para escutar a musica do seu Mp3. No sublime do acontecimento menos congruente. Ignorando toda a minha presença inconveniente, e, é claro, negligenciando a minha pergunta inocente. Mas Anne, eu sei que o seu forte nunca foram às mentiras, por mais convincentes que sejam os teus lábios nunca foram capazes de proferir a mais inocentes de todas as mentiras.
Havia algo de errado com esses desenhos sobressalentes, ou tudo era obra da minha paranoia inconsistente?
Ela voltou tranquilamente para o seu desenho habitual. Continuando em ter o seu corpo insolente ocupando todo o espaço deste sofá nada atraente. Não podia discutir com ela. E muito menos com o seu corpo espreguiçado de maneira tão competente. Percebi que quando se ama, tem que se aturarem muitas coisas. Isso sim, somente quando se ama.
Fiquei inquieto por culpa desses curiosos desenhos. Queria descobrir de que se tratavam. Queria descobri mais ainda o seu mistério. Porque que estavam ai? Porque que eram tão importantes? E o que ela fazia nesse insólito sofá, com um caderno em mãos? O que ela estava fazendo, com o lápis e o block de desenho? Por acaso era mais um desenho? Que não podia ver? Que não era da minha imprópria incumbência? Insólita displicência? Nesses eufóricos desenhos. Mais importante que a minha constante existência?
Arrisquei olhar cinicamente o que ela estava desenhando. Enquanto continuava concentrada com o seu lápis e block em suas mãos, sendo apoiada desconfortavelmente com o seu dorso. Mas isso não importava, pois ela seguia desenhando cada traço em seu devido espaço. Com cada linha traçada no contemplo do branco espaço, no que era no peculiar desenho encontrado. Sombreado em alguns espaços, e com distintos tipos de traços, de finos a mais fortes, e de visíveis a contorneados. Ainda assim o desenho não estava terminado. Continuava um mistério, pois não sabia muito bem do que era.
Pude notar o fino esboço de um corpo humano. Tinha o cabelo fortemente preto, desajeitado, despenteado, sem definida forma, que se mistura com certas ondulações insolentes junto com as suas mechas pretas. Bem podia dizer que era o meu retrato.
Fiquei bem curioso com esse desenho que estava sendo criado. Realmente estava concentrada. Inquieta, enquanto trabalha escutando música, sem saber o que acontecia e muito menos sem saber dos mínimos detalhes que aconteciam ao seu redor: pois nem sabia se estava chovendo lá fora, não sabia se ainda era de dia, não sabia das pessoas na rua ou por acaso se tinha estrelas lá fora. E duvido se notou que tinha comida chinesa na mesa.
Depois entendi porque que ela estava tomando café bem nessa hora; a razão era obvia nessa tênue aurora. Embora ela não fazia graça e não via a sua constante demora, era só uma questão de tempo para chama-la e desperta-la para o mundo que vivíamos agora.
Ela notou a minha presença inquietante, infantilmente curiosa para o seu desenho realmente atraente (como quando um pai esconde um presente de um filho). E certamente aquele desenho era um mistério, pois ela o escondia, colocando a suas costas contra mim. E eu não entendia: porque daquela atitude de desprezo? Total ironia do acontecimento ou má jogada da vida? E eu não entendia a sua constante negligencia. Tentando de esconder de minha todo resquício do seu desenho inusitado.
As suas mãos agarravam fortemente o desenho, tirando- o do meu campo de visão. E eu, perseguindo-a com a minha vista para ver do que se trata. E ela continuou fortemente agarrando o desenho, apoiando- o contra o seu dorso, ficando de costas para mim no minúsculo de espaço desse sofá estreito. E eu, insolentemente me juntei a esse sofá inconveniente, apoiando-se nas suas costas, colocando os meus braços sobre o seu ombro, para ter um resquício de visão desse desenho tão peculiar que ela tanto estava escondendo. Mas ela não deixava, não dava espaço para contemplar aquele desenho tão intrigante, obra da nossa briga.
Ela correu desse sofá estreito, correndo para o outro lado da mesa por perto. A minha meta apenas se concentrou nela. Perseguindo-a, indo de um lado para o outro, mas ela não se deixava, se esquivava, corria e se escondia no minúsculo desse apartamento pertinente.
– Me deixe Icaro! – ela gritou. – Não é do teu assunto!
– Ah? Então se não é do meu assunto, porque você não me deixa ver o desenho Anne? O que tem de tão misterioso nesse desenho?! – gritei para ela.
– Nada que te importe Icaro! É apenas um fútil desenho. Não te interessa! – ela gritou, enquanto se esquiva de mim no outro lado da mesa. Podia ver as suas bochechas corarem vermelhamente dado ao esforço físico. O seu cabelo, preso no que era um coque se desprendia mecha por mecha, enquanto que pequenas gotículas de suor estavam esparzidas na sua branca testa.
Fiquei brincando desse jogo de pega-pega. Insolente, impertinente, incoerente, mas lucidamente conveniente. Com um desejo latente em tê-la em minhas mãos e poder der posse desse desenho tão inconsequente.
Ela fugia, corria avidamente, tendo em mãos a amostra desses desenhos pertinentes. Fugiu para a sala, nessa grande espaço aberto, redecorado por um amontoado de quadros e esboços. Um espaço vazio, perfeito para ser pega.
Ficou quieta por um instante, se escondendo detrás de um dos seus quadros. A imagem era colorida, se tratava de um circo no meio da cidade, com uma pequena menina tendo em mãos um algodão de açúcar, olhando, perplexa, para todas aquelas luzes e brincadeiras desse circo encantado. Mas aquela imagem era um paradoxo, bela ironia com o que acontecia com a vida, pois Anne tinha a mesma mirada perplexa diante dos meus cálidos olhos. As suas bochechas estavam coradas avidamente, trazendo esse tom característico do cansaço físico. Podia escutar a sua respiração ofegante, cansada, e o seu peito, batendo fortemente debaixo da fina blusa. Pequenas mechas claras do seu cabelo grudavam-se com o suor da sua testa. Enquanto podia ver a sua mão suando, segurando insolentemente aqueles desenhos impertinentes.
A minha respiração também estava ofegante, e o meu coração, talvez batendo em taquicardia. Ficamos quietos no minúsculo desse pequeno tempo. Tendo os nossos corpos cansados, enquanto não desprendíamos o olhar de um do outro, vigiando atentamente quem saia de ai primeiro. Nessa insolente brincadeira bem cativante. E ela, bem na minha mira, no meu domínio. Ela era a minha caça perfeita no domínio do meu presente. Intensamente evidente como a vitima do meu inconsciente.
E ela, não mostrava nenhum sinal de medo ou de covardia. Pelo contrario, devia estar tão entusiasmada quanto eu. Tendo como pretexto essa brincadeira insolente para o momento atraente, cativante, para o golpe triunfante das miradas juntas e dos apertos evidentes, ao longo do momento infringente com os nossos toques insistentes e palavras nada inocentes, num momento corpo a corpo nesse amor nada carente.
Ela correu bem ao meu lado, deixando cair o quadro de bom grado das suas mãos. Houve um som agudo quando o quadro tocou o chão, ficando abalado no toque do chão ofuscado. Os meus olhos seguiram a queda do quadro conhecido, no instante do momento em câmera lenta. Jogado sem clemencia ou pertinência, como um objeto a ser jogado fora, sem utilidade ou sentimento de verdade. E nem notei quando o seu corpo esquio passou bem ao meu lado, trazendo consigo o movimento do seu cabelo no meu ombro. Demorei alguns segundos para perceber que a minha caça havia fugido bem na minha dos meus olhos distraídos.
Foi quando um sentimento de desespero passou por a minha mente, e uma sensação de angustia pelo o meu corpo. Foi quando, sem pensar por nenhum segundo corri atrás dela com todas as minhas forças, com o berrante intento de pega-la pelo braço. E nessa fracção de segundo, peguei-a levemente pelo braço. Peguei por impulso a circunferência do seu pulso. Mas não pude agarra-la firmemente, nessa fração do minuto por uma questão de insulto. Era a lei de física atuando contra a minha vontade. Pois um corpo em movimento sempre continuara em movimento a não ser que outra força seja aplicada nela. Mas a energia resultante do movimento continuara em movimento, pois a energia não se anula, a não ser pela colisão de outro corpo em movimento ou pela interação de uma força maior. E o impacto da queda se enquadrava na expressão f= m . a (força= massa x aceleração), pois não haveria impacto se não houvesse uma força que influencia-se na colisão dos corpos. Era o principio fundamental da dinâmica que estava interagindo contra a minha vontade.
O meu corpo foi jogado para frente, tropeçando nos meus pés e caindo em cima do corpo da Anne. O meu óculo preto foi lançado com a mesma velocidade vetorial a qual estava submetido antes da queda, na mesma relação e intensidade com o que o meu corpo que foi lançado para o chão, tendo ainda a mesma força e velocidade em que eu estava submetido no movimento uniformemente retilíneo (MUV). A queda do impacto só não tinha maior força porque a minha aceleração não era maior do que podia.
Era a perfeita interelação de dois corpos em movimentos. Juntos pela má obra do destino, ou deveria dizer pela má jogada da física? Certamente Newton tinha total razão quanto aos princípios do estudo dos movimentos dos corpos. Os corpos em trajetória eram apenas mais um dos problemas para ser resolvido com a mecânica clássica. Mas o que me dizia da inercia? A primeira lei de Newton, sendo aplicados nos nossos ridículos corpos imóveis?
"Um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento."
Podia sentir bem de perto a sua respiração, enquanto que os seus olhos cativavam o meu olhar. O meu cotovelo continuava apoiado no que agora era o chão frio da noite, no que era um arco circunferencial entre o espaço do seu pequeno peito e o meu. Os nossos lábios quase se tocando; e os nossos corpos apenas se separando pelo pequeno intervalo ridículo de matéria microscopia que chamamos de vácuo. Se não fosse pela existência destas pequenas partículas de pó e das diferentes moléculas esparzidas pelo ar, certamente os nossos corpos estariam se tocando, e os nossos lábios proferindo um movimento físico mais audacioso.
Anne sorriu levemente, achando graça em tudo aquilo. Certamente ela acha um sentido em tudo que podia. E com o sorriso, as suas bochechas coraram com o tom característico da biologia feminina. Podia ver pequenas gotículas de suor esparzidas na sua testa. E o seu cabelo claro, jogado ao chão frio, desfazendo-se do coque.
Sorriu novamente, mas desta vez proferindo um beijo comovente. Atraente. Re- encadeando o principio da “força de atração dos corpos” e o seu consequente principio de “ação e reação”. A reação foi claro, os meus lábios comoventes nessa atração tão competente no beijo completamente. Foi o meu beijo correspondido novamente.
Senti as suas mãos segurando os meus pulsos, numa tentativa de levantar-se e sair do vácuo espaço definido pelo o meu corpo. Vi os seus pés tomando um pouco de impulso, levantando-se dessa maneira do chão frio, enquanto que o meu braço dava espaço para a sua fuga.
Virei-me de costas, apoiando a minha espalda com o chão frio. Fiquei deitado por um intervalo de tempo no chão inerente, colocando as minhas mãos debaixo da minha cabeça como apoio. Vi Anne arrumando a sua saia e o coque do seu cabelo que tinha sido despenteado com a queda. Ela logo me deu a sua mão, para ajudar-me a me levantar desse chão nada inocente. E de imediato vi que ela estava segurando um pedaço de papel na mão esquerda. Estava claramente rasgado, e se podia ver que tinha um desenho nele. Lembrei-me nitidamente do que se tratava.
“Que droga!” — pensei
– Desculpa Anne- falei suavemente. Ela olhou para o desenho calmamente, e um suspiro saiu da sua boca. Era o mesmo desenho que segundos atrás queria tanto proteger da minha presença.
Procurei ao redor o pedaço faltante do desenho. O encontrei bem atrás, jogado no chão.
– Desculpa Anne – disse novamente enquanto entregava o desenho. Ela apenas olhou para o desenho, respirando fundo.
– Não importa Icaro. Também não é o fim do mundo. –me respondeu sem mais e menos, sem se lamentar com a sua obra rasgada.
– Deixa Icaro, realmente não importa mais. Não se pode fazer mais nada.
– Mas – disse com um intervalo de tempo, sem realmente não saber o que disser. – Mas Anne, se não fosse pela a minha curiosidade infantil, o desenho não teria se rasgado. Desculpa.
– Deixa Icaro, já não se pode fazer mais nada – ela falou bem perto da minha orelha, enquanto colocava o seu braço no meu ombro num abraço incompleto. – Deixa- ela sussurrou por uma ultima vez.
Juntei o que eram os dois pedaços para tentar descobri qual que era a imagem original. Pude percebe que se tratava do mesmo casal do outro desenho do guarda-chuva. Ambos olhando-se mutuamente, a mesma fisionomia, os mesmos rostos, as mesmas miradas.
– quem são eles? – perguntei. Anne, pegando o desenho me respondeu:
– É uma surpresa Icaro.
– Como assim? O que há de errado nestes desenhos que eu não posso ver? – me alterei
– Não há nada de errado neles. E que é apenas uma surpresa Icaro.
Não estava entendo nada. Realmente porque que ela estava atuando tão estranha? O que havia de tão misterioso nesses desenhos? E o que aconteceu com a nossa comida chinesa?
– Vem Icaro – ela disse enquanto vendava os meus olhos.
Ela me guiou no que era um lugar estreito, dizendo-me quando que tinha que me esquivar dos tantos objetos jogados no chão. Passamos por uma mesa, e talvez uns dos ou três esquinas, e eu, tentando para não parpadear as paredes, apenas confiando na mão que me guiava.
Percebi que estávamos no nosso quarto. Mas todavia queria que ela me quitasse a venda para ver do que se trata. Ela se sentou ao meu lado na cama, desvendando o nó que tanto teimava em tirar a minha visão.
E o que vi foi simplesmente surpreendente.
Havia um monte de desenhos coordenados na parede branca do quarto. Alguns eram esboços e outros mais trabalhados. Mas todos tinham o mesmo tema: continuava a ser aquele casal tão peculiar do desenho do guarda- chuva e do desenho rasgado. A menina sorrindo levemente, em outros se podia ver ela rindo, em alguns pulando e ate desenhando. Na maior parte do tempo a menina estava desenhando. Podia notar que ela tinha olhos azuis, e o seu cabelo, algumas vezes num coque, outras vezes com uma trança embutida ou com um chapéu, mas sempre tinha o cabelo claro. Era a mesma menina que se repetia. E ele estava em cada desenho. Assim como com o garoto.
Fiquei perplexo olhando para todos aqueles desenhos bem elaborados postos na parede do quarto. Aquele trabalho deve ter custado horas, dias ate para Anne. Pois os desenhos não estavam somente colados na parede, mas faziam entre si outro desenho, dependendo de como estavam postos e da agrupação da tonalidade, e o mais incrível era que de longe, se podia ver nitidamente um desenho bem maior, que cobria quase toda a extensão da parede do quarto. Eram eles juntos se abraçando. E era realmente incrível, pois os pequenos desenhos pareciam minúsculos pontos, apenas fragmentos independentes, mas que visto de longe formava um desenho ainda maior, criando uma perfeita ilusão ótica, criando outra imagem bem maior. Era uma imagem formada por imagens. Era surpreendente.
Todo aquele mistério dos desenhos se tratava para forma este autentico desenho, pois se tratava de nosso mero retrato. Anne era aquela menina dos olhos claros, que desenhava, que ria, que se expressava. Enquanto que eu era aquele garoto com o cabelo desajeitado. Mas eu estava com ela. Em cada desenho. Em cada esboço que preenchia o espaço dessa parede. Estávamos juntos. Talvez disso se trate o amor: apenas estar junto.
Notei que havia um desenho um pouco maior que os outros, e se tratava do desenho que pouco tempo atrás havia sido rasgado. Este havia sido reparado com uma grande fita de durex transparente no meio. Era o ultimo desenho que faltava para completar a obra.
– Anne, por quê? Quero disser, isso esta magnifico....
– É um pequeno presente para ti Icaro.
– mas por quê? – perguntei
– porque me dei conta de que estava desenhando o mesmo casal de sempre Icaro. E porque também me deu conta que o amor não tem forma, e entretanto pode ser entendido por diferentes formas. É engraçado porque o não possui cor, tamanho ou textura, é apenas uma criação abstrata, mas um mesmo sentimento definido pelas concepções humanas. E é por si só: o sentimento em excelência Icaro; o que quer dizer que é o sentimento primário e inicial de todo e cada ser humano, animal ou qualquer outro ser dotado de sentimentos e capacidade de raciocínio natural. É o principio de grandes coisas Icaro. Por isso. É o principio de estar com você. É o principio para escrever a minha vida. É o mesmo principio que me faz escutar a música que eu gosto ou ler os livros que admiro. É o principio que me permite melhor e talvez aprender. É mais importante, é o principio que me permite continuar em frente, respirando. E é o único principio capaz de realizar grandes coisas Icaro, por isso. É por que noite que o amor não tem forma, eu talvez, desenhando-o adquiriria uma forma. Eu queria te mostrar a forma do amor, Icaro. Somente por isso.
“Queria me mostrar à forma do amor. Somente por isso”. E engraçado, esse principio que governa a união e criação dos elementos não tem forma, simplesmente não tem forma... que ironia” – pensei.
Ficamos assim, olhando por um grande tempo os desenhos criados. Cada um era peculiar, tinham diferentes cores e poses. Eram desenhos que tinham algum significado. E ficamos deitados, lado a lado. Senti a sua cabeça se apoiar no meu ombro, enquanto segurava a sua mão, posto bem perto do meu nariz. Contemplávamos a imagem, assim como eu contemplava o momento. Talvez Anne achava mais graça e sutileza naquilo tudo. Mas pra mim somente me importava tê-la comigo em meus braços.
Notas finais
Desculpa mais não sabia onde utilizar a expressõ "Inutilia Truncat" no capitulo, mas talvez em outro capítulo, quem sabe.....
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