JogaNoTatame

1 Capítulo 1 - Ops! Luta errada?


Ela dormira novamente pensando nele. Mas sentia que desta vez alguma coisa dentro de si havia mudado.

Na noite anterior lembrara-se do primeiro beijo deles, na Praça José Wilker, meses atrás. A canção “Valsinha” de Chico Buarque e Vinícius de Morais irrompera de seu peito e saíra tão naturalmente que mal percebia que cantava até René aparecer. A lembrança viera tão forte naquele momento que trouxe uma saudade praticamente palpável. E, quando acordara, podia sentir a presença dele: o corpo quente e comprido deitado ao seu lado. Feliz, virara-se com um sorriso largo para encontrar o lugar vazio. Seu brilho reduzira expressivamente quando tocara os lençóis frios da sua cama espaçosa e resmungara para si mesma: “você não tem jeito mesmo, Dandara”. Mas não podia negar, era tanta a saudade sentia dele!

Levantou-se, arrumou-se, tomou um bom café da manhã e saiu para trabalhar. Chegou à Ribalta com o coração aos pulos. Queria ao menos ter um vislumbre do seu ex-namorado.

Levando em conta os últimos encontros, ficou surpresa quando, logo ao chegar, o dito cujo viera falar consigo. Arredia, desconfiou, afinal ainda estava magoada com ele. Mas Gael educadamente pediu apenas para conversar um pouco. Achou engraçada a grande coincidência quando ele lhe falou que estava com saudade e foi com a sensibilidade da noite anterior que o ouviu falar que havia se lembrado do primeiro beijo deles. Também. Toda a emoção ameaçou transbordar pelos seus olhos ao escutá-lo cantar um trechinho da música tão marcante que agora continha outro significado para si.

Gael viu toda a saudade que sentia refletida nos olhos lacrimosos da sua ex-namorada. Segurou a sua mão querendo afastar toda a dor que via ali, mas Dandara retraiu-se. Ele sabia que tinha sido muito duro e muito grosso com ela, mas esse era o seu jeito quase sempre e sentia dentro do peito a mágoa que proporcionara. Estava apaixonado por ela e, apesar de todas as coisas, via que ela também estava. Não costumava desistir fácil do que queria e com ela não iria ser diferente. Segurou firmemente a sua mão e, olhando em seus olhos, puxou-a para que sentasse na lateral do ringue da academia. Ela sentou-se na ponta de uma das extremidades e ele sentou à sua esquerda. Gael não soltou a sua mão quando falou.

- Por que você acha que a gente não deu certo?

Ela olhou para cima e parou para refletir sobre a sua pergunta: por que é que a gente não deu certo? Uma vez escutara de um pensador que tudo depende do ponto de vista, e concordara. Realmente depende. Só porque terminaram não quer dizer que não deram certo, quer dizer que eles deram certo até um ponto. O ponto em que terminaram, pelo menos. Não se pode dizer que a parte é o todo.

- De repente o “certo” é a gente ter ficado junto o tempo que ficou, Gael. – respondeu séria.

- Isso é o que você acha? – se ela achasse isso mesmo estaria ferrado. Queria dizer que eles não teriam mais jeito? Melhor seria começar a preparar o funeral das suas esperanças, porque aí é que não teria volta mesmo. Será que ela estava dando um fora nele? Será que ele teria perdido para sempre a segunda parceira da sua vida? Doía por ser a segunda vez que perdia alguém, e doía ainda mais por saber que agora boa parte da culpa era sua.

- A diferença é tão grande, entre o que eu acho, e o que eu quero. – sentiu um sopro de ar fresco em seu coração. Alívio. Poderia ter esperanças então, não é? Agarrou aquela brecha como um náufrago agarra uma bóia salva vidas. Como um mendigo agarra uma nota de dois reais perdida no chão ou como alguém que andando num deserto encontra um oásis.

- Sabe o que eu queria? – perguntou quando tocou gentilmente o seu cabelo.

- O quê? – ela respondeu.

- Ficar com você numa ilha deserta. Só eu e você, sem ninguém para atrapalhar. – sua tentativa de quebrar o gelo funcionou e Dandara riu. Ela lembrou-se de que em quase todas as vezes que brigaram foram influenciadas por motivos externos: filhos ou René. – Eu acho que a gente ia ser feliz.

Uma imagem de Jane e Tarzan misturada a Lost e Jogos Vorazes preencheu a sua mente. A falta de água doce, a dificuldade da comida, os insetos, as doenças.

- Ou ia se matar em uma semana, né? – riu ela.

Gael riu também e eles caíram na gargalhada. O riso continha muita, muita saudade e um pouco de alívio, pois viam que ainda conseguiam se dar bem. Quando por fim a risada cessou, Gael falou.

- Pelo menos a gente ainda ri junto, não é?

Dandara sorriu e os seus olhos percorreram as feições dele, relembrando para recordações posteriores. A nostalgia ameaçava transbordar do seu peito. – É. – respondeu e Gael sentiu a sua saudade misturar-se à de Dandara puxá-lo para perto. – Pode ser um bom começo, né? – a atração era inegável, a paixão então, nem se fala. A saudade, a vontade. O desejo. E, sobretudo, o amor.

Ambos se inclinaram e os seus lábios se encontraram. E assim ficaram por vários segundos. Apenas parados. Um apreciando o contato dos lábios do outro. Sentindo o calor da pele sensível e macia. Ele sentindo o cheirinho levemente acre de canela. Ela sentindo a fragrância amadeirada que ele usava. Os seus lábios separaram-se e riram quando suspiraram ao mesmo tempo. Fora um riso breve, logo as bocas saudosas impuseram um ritmo cadenciado ao beijo longo. Eles se envolveram num abraço apertado e então mãos, lábios e línguas matavam toda a saudade que podiam naquele beijo. Gael se aproximara a ponto de quase não sobrar ringue para Dandara sentar, mas sem que nenhum dos dois percebesse, envolvidos no ósculo como estavam. Após longos e intermináveis minutos separaram-se com um gostinho de quero mais. Sem fôlego, Dandara procurou o apoio do ringue que estava ali minutos antes, mas encontrou apenas o ar. Tomados pelo susto, Gael tentou segurá-la, mas seus dedos escorregaram pelos dela e ela desabou no tatame. Estatelada no chão, Dandara caiu na gargalhada com o repentino da situação. Preocupado, ele agachou-se ao seu lado, mas a professora apenas ria com as mãos na barriga.

Dos seus olhos escorriam finas gotículas de lágrima por conta das risadas e só percebeu que Gael deitara-se ao seu lado quando ele lhe beijou a bochecha e envolveu a sua cintura. Ela olhou para ele e tentou se levantar, mas viu em seus olhos maliciosos e sentiu no braço que envolvia a sua cintura que ele não deixaria. Alegre, riu de novo quando ele lhe beijou o pescoço.

- Gael, me deixa levantar. – mas nem bem concluíra a frase quando ele estirou todo o seu peso, calor e tamanho em cima dela. Seu rosto estava muito próximo e os olhos cor de mel brilhavam como já não via há muito tempo. A emoção que via ali a inebriou.

- Como eu senti a falta da sua risada, morena. – a sua voz assumiu aquele tom mais baixo e mais vibrante de que ela tanto gostava e Dandara se sentiu derreter toda por dentro. Ela sorriu para ele e tentou falar: — Gael, os seus alunos podem chegar. Eles podem encontrar a gente aqui... – tentou colocar alguma luz dentro da cabeça daquele homem, tentou colocar alguma clareza na sua própria, pois ali não era o melhor lugar para eles fazerem aquilo – não que eles estivessem fazendo alguma coisa, mas não funcionou. Ele apoiou-se nos cotovelos fazendo o seu corpo e a sua mente lembrarem-se dos momentos íntimos que nunca mais tiveram quando as suas coxas fortes encaixaram-se entre as suas. Extremamente próximos, conseguiu ver as pupilas de Gael dilatarem quando ele também se lembrou. E aí percebeu que estava perdida. Agarrou as mangas da sua camisa branca em busca de apoio.

- Que alunos? – ele perguntou sério. Dandara iria rir se não estivesse se sentindo tão quente. – Eles vão demorar. – respondeu. A ficha às vezes demora, mas sempre cai. Os seus olhos intensos eram de um mel líquido. Ela viu a língua umedecer os lábios secos e involuntariamente copiou o gesto. Gael acompanhou o movimento e sentiu-se atraído pela boca úmida e avermelhada da ex-namorada. Dandara percebeu e mordeu o lábio inferior.

Impaciente que ele estivesse a torturando tanto, ela içou o pescoço e o beijou. Quente. Ou melhor, muito quente era a melhor definição para aquele beijo. O primeiro havia sido muito mais romântico, de mais saudade. Este beijo continha muita saudade também, mas era carregado de sensualidade. Involuntariamente os seus corpos ondulavam um contra o outro. Gael agarrava os seus cabelos e produzia um gemido rouco proveniente lá do fundo da garganta. Dandara tentava manter o controle sobre si mesma e sobre a situação, pois sabia como Gael reagia a ela. E lembrava-se facilmente de como ele a deixava louca. E sabia como fazê-lo perder rapidamente o controle, não era preciso muito. Entretanto, contrariando a si mesma, pois o perigo e a adrenalina são bons de vez em quando, desceu as palmas das mãos por suas costas até a barra da camisa da academia. Insinuou os dedos por debaixo do tecido e encontrou a pele macia. Gael parou de beijá-la quando ofegou em seus lábios. Sentia a sua epiderme arrepiada sob os dedos.

- Dandara, Dandara. – sua voz ainda mais rouca tinha um tom de aviso quando ela subiu as mãos por suas costas. – Assim eu vou fazer uma loucura aqui. – a alertou. Uma das coisas que ela mais adorava era o poder que tinha sobre ele. Do quanto ele era sensível a ela. Suas unhas arranharam suavemente a coluna dele e obteve como resposta os seus quadris aplicando um pouco mais de pressão. Gael gemeu e mordeu o seu lábio inferior. Eles voltaram a se beijar por longos e bons intermináveis minutos no tatame da academia. O clima esquentava cada vez mais e sabiam que precisavam parar. Caso contrário, uma de duas coisas poderia acontecer: algum aluno de qualquer um dos dois encontrá-los naquela pegação no tatame sagrado do mestre. Ou o avanço da praticamente preliminar que estavam tendo ali mesmo. A primeira era bem ruim. A segunda era muito boa, mas de jeito nenhum que poderia ocorrer ali ou em qualquer outro lugar público.

Dandara se preparava para parar o beijo quando Gael afastou repentinamente os lábios dos seus. Ela olhou em seus olhos quentes um pouco confusa, mas alguns segundos observando a sua expressão e percebeu por que ele parara imediatamente o beijo. Ele quer mais, pensou, mas aqui não dá. O vinco entre as suas sobrancelhas sumiu e ela relaxou. O lutador beijou a sua bochecha e afundou o rosto em seus cabelos, sentindo o aroma de canela mais concentrado. Dandara o envolveu entre os seus braços e eles ficaram por alguns minutos assim até conseguirem acalmar a respiração.

(Continua)

Notas finais
Pessoa com imaginação fértil dá nisso, kkkkkk. O que acharam? Continuo?

Beeijo, Cella
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.