João e Maria
10 Uma Chance
Era estranho porque apesar de estar no sofá de casa, Dandara não se sentia realmente em casa. Sentia que algo havia ficado para trás... A morena juntou uma mão na outra, entrelaçando os dedos enquanto esperava René encontrar as palavras certas. Já havia passado pouco mais de um minuto durante o qual os dois desviavam o olhar, desconfortáveis, quando Dandara não aguentou e rompeu o silêncio.
'O João demorou a dormir? Como ele ficou, melhorou a febre?'
'A febre?' René repetiu a última coisa que ouvira, pois não estava prestando atenção. Ele passava a mão na nuca, a fim de disfarçar o nervosismo, enquanto, aos poucos, olhava Dandara e reparava em sua roupa amarrotada — nos cabelos amassados, que aos poucos escorriam do coque...
Consciente do olhar do ator, Dandara esticou a blusa e reforçou o nó no cabelo.
'Ele teve mais alguma coisa?' Ela repetiu, 'Tosse, alguma dor, ou só febre mesmo?'
'Febre...' René limpou a garganta. 'Só isso, e febre baixa. Na verdade o que eu acho que deixou o João doente mesmo foi você ter saído.' Dandara acusou o golpe virando o rosto na direção oposta do galã. 'Não estou falando por mim, só que ele me parecia bem. Reclamou um pouco, disse que você o abandonou—'
'Eu não abandonei ninguém, eu já tinha marcado com o Gael e não conseguia falar com ele para avisar que não ia poder ir!'
'Eu sei. A gente tinha combinado de cortar os eletrônicos, mas eu acabei deixando ele ver televisão para se distrair ontem e ele dormiu. Quando eu fui levá-lo pro quarto encontrei isso...' Ele tirou o celular de Dandara do bolso e entregou à morena. '...entre as almofadas do sofá. Acho que ele já estava burlando o castigo...'
Dandara pegou o aparelho e olhou-o pensativa.
'O que foi?'
'É que eu não sei se ele pegou o telefone para burlar o castigo... Sei lá, Antes de sair eu procurei o celular por todos os lugares! Inclusive para avisar o Gael que eu ia cancelar nosso jantar. Até imaginei que o João pudesse ter pego o celular, mas perguntei pra ele e ele disse que não.'
'Ele pegou escondido, claro.'
'É, pode ser, mas porque ele não me entregou quando eu precisei usar? Quer dizer, e se ele estava escondendo o telefone justamente pra que eu não fosse encontrar o Gael?'
'Bem, se foi isso não deu muito certo, né?' René levou novamente a mão à nuca, desconfortável. Dandara desviou o olhar e encarou o chão.
Após alguns instantes, ela voltou a olhá-lo nos olhos.
'René... A verdade é que eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente e nem se vai acontecer alguma coisa! Mas você tinha razão, eu preciso dar uma chance para o que eu estou sentindo... Tomei a minha decisão e estou muito feliz.' Pensar na noite anterior trouxe um sorriso iluminado ao rosto de Dandara. 'Tive uma noite ótima, realmente per—'
'Eu não preciso saber de detalhes.' René interrompeu-a, ríspido.
Ela assentiu.
'Claro, me desculpa. Mas de qualquer forma eu queria te agradecer por ter vindo. E te pedir desculpas, de novo.'
'Não precisa se desculpar. Olha, Dandara,' ele se sentou na ponta do sofá e virou seu corpo em direção ao dela. 'Eu voltei atrás de uma coisa que eu queria' ele pausou um pouco e, jogando a cabeça para o lado, seguiu 'e que, por sinal, ainda quero: você.'
'René...'
Dandara se encabulara, mas Rene sorria de forma amigável.
'Relaxa, Dandara, eu respeito sua decisão. Mas eu também precisava te dizer isso com todas as letras. Eu mandei muito mal no passado, não vou estragar sua chance de ser feliz com o Gael... Mas você precisa saber que eu adoraria que você pudesse ser feliz comigo.'
'E o seu filho?' Dandara questionou, sem saber como reagir.
'O João também, claro, ele é parte da razão que me trouxe de volta. Mas ele vai sempre ser parte de mim. Já a mãe dele... Eu fui muito burro e deixei escapar.'
Dandara ainda encarava o chão quando René se levantou.
'Se vocês precisarem de alguma coisa de novo, eu estou aqui. Eu não sou mais aquele babaca de antes.'
'Eu sei que não.' Ela assentiu e agradeceu novamente, levando-o até a porta. 'René...' Da porta do elevador, ele voltou tentando conter as esperanças. 'Só... Não comenta nada com o João não, tá? Sobre eu ter chegado a essa hora... Não decidi ainda o que vou falar pra ele.'
O galã tentou disfarçar a decepção.
'Claro, claro, ele não vai ouvir nada de mim.'
'Muito obrigada.'
Com uma última troca de sorrisos amarelos, os dois se despediram e Dandara fechou a porta, atrás de si. Caminhava em direção ao banheiro sem se dar conta do que fazia. Em menos de 24 horas tanta coisa havia mudado em sua vida... De um poço de confusão ela havia se sentido segura, e depois insegura, e agora não sabia o que sentia. Emocionalmente, sentia medo da reação do João, além de medo de ter feito sua escolha. Embaixo da água quente do chuveiro, seu físico lembrava do toque firme de Gael em sua cintura... Das mãos dele deslizando por entre suas pernas enquanto a barba roçava em seu pescoço.
Debaixo da água morna, respirando profundamente, seu corpo ainda lembrava do toque do lutador quando um grito a trouxe de volta a realidade.
'Manhêêêê!'
Ela respirou fundo, novamente.
'Já estou indo, filhote!'
Dandara gritou de volta, girando a torneira que abria a água fria. Seu corpo ardia com as lembranças da noite anterior e ela precisaria de todo o foco do mundo para ter a conversa a seguir com seu filho.
Não deveria ser tão difícil, afinal, o menino – assim como todos os alunos da Ribalta – sabia da enorme atração que a professora de canto e o lutador de Muay Thai sentiam um pelo outro. 'Isso com certeza não é uma novidade pra ele. A gente inclusive já namorou, ele não pode encarar tão mal...' pensava Dandara enquanto se secava. Com a toalha enrolada no corpo ela seguiu confiante de volta a seu quarto, onde encontrou Joao esparramado sobre sua cama.
'Filho! Que susto que cê me deu! O que aconteceu?'
'Ah, mãe, eu ainda to cansado... Meu corpo tá meio mole, aquela cama já tava pequena, sabe como é...' Ele falava de forma arrastada, fazendo manha. Dandara ria, como ela sempre fazia com o menino, enquanto separava o vestido que iria usar. 'Aí eu levantei e resolvi vir visitar a cama da minha mãe, quentinha, espaçosa e imagina a minha surpresa com a quantidade de espaço que eu achei! Cama feita, dona Dandara?'
'Ué, João? Já viu que horas são?' Entrando no banheiro para se vestir, ela respondia para ganhar tempo. 'Você não estava doente? Eu deixei você dormir e faltar a aula, mas já já eu preciso ir pra Ribalta. Vamos comigo?'
A porta do banheiro estava encostada e eles conversavam à distancia.
'Só na Ribalta que você vai ou você vai passar numa certa academia de lutas antes? Aliás, mãe, acho que esse vestido aí que cê escolheu é um pouco inadequado pra lutar Muay Thai – a não ser que... – não! – a não ser que a sua intenção seja desconcentrar os lutadores, aí tá perfeito. Aaarg' ele fazia uma cara de nojo 'só de pensar naqueles marmanjos te olhando já sinto que to ficando doente de novo!'
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