João e Maria

15 Um outro tipo de explosão


'A gente já tá chegando?'

'Ai meu saco!' exclamou Gael e Dandara deu uma risada. 'Me desculpa, desculpa’ ele adicionou, querendo se justificar. 'Eu achei que tivesse me livrado das meninas mas elas tão encarnando em você!'

A morena deu uma risada.

'Ah, amor, é difícil não saber pra onde a gente vai!'

'Mas a gente não combinou? A gente vai pra cachoeira.'

'Sim, mas onde? Existem várias cachoeiras na cidade! Pra que esse mistério todo?’ Ela passou uma mão pela nuca dele e ele desviou o olhar para encará-la.

'Essa cachoeira é uma das minhas favoritas... Ela termina num lago, eu... Eu acho que você vai gostar... Não é numa área de turista, fica...' Ele hesitou 'Fica na Floresta da Tijuca, ali pertinho—'

'Da Clareira dos Macacos.' Ela completou, virando-se no banco para sentar em direção a ele. Ele assentiu com a cabeça. 'Já entendi tudo, Gael! Você tá preocupado porque foi onde a gente se separou...'

'Não é só isso é que... Esse lugar costumava me trazer ótimas memórias até esse dia, ver você indo embora... Ver você beijando aquele—melhor eu nem falar o que eu penso do René.' Ela respirou fundo.

'Eu tenho boas memórias de lá, sabia? É sim! Eu me lembro de ver você dando aula... Sabia que eu acho lindo você com seus alunos? Lembro também de um lutador me oferecer um shoyu para temperar meu macarrão...'

'Posso te oferecer outras formas de tempero, também,' ele jogou de leve a cabeça para o lado, interessado. Ela ignorou e seguiu.

'Sabe que você ter vindo naquela viagem... Mexeu comigo. Eu fui dormir todas as noites pensando em você... Pensando que você ia invadir a minha barraca.' Ela olha pra baixo, meio sem graça de ter revelado essa esperança a ele.

'Eu adoraria ter feito isso. Mas não, tive que dividir a barraca com o esquisito e o capiroto.'

'O João dormiu com você, né? Tinha me esquecido.'

'Ah, mas eu não vou esquecer nunca!' Ela ri.

'A gente vai criar novas memórias, memórias muito melhores para substituírem essas lembranças...'

'Eu adoro isso em você, sabia? Essa habilidade que você tem de ver o melhor em todo mundo...' Terminando de estacionar o carro, ele tirou o cinto e virou-se para ela. 'Você é incrível, Dandara.'

'Você também é incrível, meu amor.' Ela tocou o rosto dele e o beijou-o com carinho e cumplicidade. 'Você tem esse seu jeito, que as vezes eu não entendo, mas você tem um coração enorme. A gente pode deixar o passado no passado e viver nosso novo futuro, pode ser?'

'Pode ser...'

Saindo do carro, Gael pegou as mochilas no banco traseiro e entregou a de Dandara à morena.

'Obrigada' ela agradeceu, colocando a mochila nas costas e em seguida puxando seu vestido para a frente, devolvendo o decote no lugar. Gael parara o que estava fazendo para observá-la.

'Amor, a porta! Vai deixar aberta?'

'Ah, desculpa.' Ele bate a porta e eles começam a caminhar em direção à cachoeira. Em seus pensamentos Gael se perguntava se algum dia ele deixaria de ser fascinado por aquela mulher. E ela ainda cantava! A voz de Dandara preenchia o silêncio enquanto eles caminhavam e Gael sentia-se mais leve só de ouvi-la. Por vezes ele deixava-a ultrapassa-lo para que ele pudesse absorver mais do momento.

'A sorrir eu pretendo levar a vida... Pois chorando eu vi a mocidade perdida...'

'Eu nunca ouvi ninguém com uma voz como a sua.'

As bochechas dela coraram.

'Obrigada.'

'É sério, e eu tenho certeza que não sou só eu que acho... Como é que você foi parar dando aulas de canto? Quer dizer, não que isso não seja bom mas é que com uma voz como a sua a gente imagina casas de shows lotadas... Turnês esgotadas...'

Dandara riu da imaginação de Gael mas ele reparou que parte dela parecia condoída.

'Ah, a vida leva a gente para onde ela quer, não é?'

'Leva, eu sei, olha pra mim! Meu sonho era ser lutador profissional, ganhei vários campeonatos... E acabei pai de família – o que eu não trocaria por nada!'

'É, mas a verdade é que eu não tive escolha, né Gael? Eu fiquei grávida muito cedo, o René estava terminando a Ribalta, ele começou a se envolver com umas drogas mais pesadas... Não aparecia em casa, eu tinha um grupo de teatro que cantava comigo mas eu perdi o ânimo, sabe? Ficava muito enjoada na gravidez, cansada, e sem ninguém pra ajudar...' A voz dela foi diminuindo e Gael não resistiu.

'Que ódio que eu tenho desse cara,'

Eles continuaram andando e ele segurou a mão dela, protetor.

'Eu também tenho. Mas esse cara não é mais o René, ele mudou.' Gael engoliu em seco e ela continuou 'Não é nem um pouco fácil viver de música, ainda mais sustentando filho pequeno e as dívidas que o René me deixou... Chegou uma hora que não dá pra pensar em CD quando a gente tem que pensar em fralda, né?'

'Queria que você tivesse pensado, eu compraria todos os seus CDs.'

Ela riu.

'Acho que os CDs só não iam pagar nem uma semana de fraldas! O que dá o dinheiro mesmo são os shows... Para CD começar a dar dinheiro tem que vender muito... Eu tentei, por um tempo, continuar na música mas cada vez o João precisava mais de mim e o René estava mais afundado nas drogas... Aí eu resolvi dar aula mesmo, dava aulas particulares quando o João era menor e depois em algumas escolas até chegar na Ribalta...'

'E me ganhar por nocaute.'

Eles trocaram um sorriso e Gael puxou-a pelo braço para um beijo rápido.

'Chegamos.' Ele ajudou-a a descer uma pequena trilha e ela se surpreendeu ao ver um lago, cercado de mata e com uma fina cachoeira ao fundo. 'É um dos meus lugares preferidos.'

Eles desfizeram as mochilas perto de uma árvore, onde Dandara estendeu uma toalha que trouxera. Eles poderiam ter sentado nas pedras, mas ela gostava do ambiente com a toalha.

'Amor, esse lugar é perfeito! É de uma paz, uma tranquilidade... Você vinha muito aqui?'

Ele demorou um pouco para responder e quando pronunciou as palavras era baixo, quase com vergonha. 'Desde que a Ana morreu... Eu nunca trouxe ninguém aqui.'

'Tá de brincadeira.' Ela questionou, incrédula. 'Mas é perfeito! Para vir com as meninas... Pra trazer as mulheres...' Ela adicionou com um ar de dúvida e ele virou-se para o lado.

'Ninguém valia a pena.' Sussurrou.

Virando a cabeça para o lado de leve, para que ele não visse sua emoção, ela também se declarou.

'Eu vou te falar uma coisa e você vai me achar boba, mas eu achava que a gente tinha um olhar diferente... Desde o primeiro dia.'

'Você sabia, né?' Ele riu, ficando leve de novo. 'Você sabia disso e abusava de mim! Só não do jeito que eu queria.' Ele virou a cabeça, sugestivo e ela riu, empurrando o ombro dele. 'Tudo quanto era ideia maluca daquele pessoal das artes, quem vinha me pedir? Aquele bando de vagabundo, desocupado, ficava inventando festival e sarau e enchendo a minha academia de gente... Mas você pedia e...' ele soltou um suspiro. 'Ainda bem que hoje você me recompensa.'

Ele deitou na toalha, puxando-a pela cintura e deitando-a em seu colo.

'Eu sempre reparei em você, lutador... Mas também tinha uma coisa com esse esporte de vocês, até agora ainda não me acostumei com a violência toda... E ainda tinha a rixa entre a Ribalta e a Academia...' Ela deu de ombros 'Tenho que agradecer a Bianca, né? Pelo convite pra jantar...'

'Que bom que eu não me assustei quando você recusou, né?'

'Olha ele fazendo charme!' Ela riu e virou-se para um beijo. Sua língua percorria todos os cantos da boca dele, e ela sentiu o corpo dele arrepiar. Com as unhas passando pelas costas do lutador, ele descia depositando beijos pela superfície do corpo dela. Descendo até o fim da toalha, Gael debruçou-se no chão na altura dos pés de Dandara. Ela o observava, curiosa. Ele levantou o calcanhar dela e começou a beijar, delicadamente, o interior das pernas dela. Em alguns segundos ele trocou para o outro lado.

'O que você tá fazendo?' Ela perguntou, quase rindo. Fazia cócegas, mas também era inacreditavelmente bom.

Lentamente, ele seguiu beijando o corpo dela até chegar na batata da perna, dando bastante atenção ao interior de cada uma. O coração dela começou a bater mais rápido e seguiu acelerando até ele alcançar pouco além da altura dos joelhos.

'Gael...' Ela repreendeu sem muita força 'Não aqui...'

Ele sorriu de canto, como quem aprontava algo.

'Por que não?'

'Pode aparecer alguém!'

Ele havia passado um pouco mais da altura dos joelhos, beijando o interior das coxas dela, ainda alternando entre uma e outra. Ela engoliu em seco, tentando ao máximo se segurar.

'Você é que sabe... Se você quiser que eu pare, é só dizer.' Ele agora estava no meio do caminho entre as pernas e a cintura dela, dobrando o vestido dela enquanto ele subia.

A respiração dela tornava-se díspar, e ela sussurrou como se pensasse alto 'pensando bem, eu sempre achei meio rude recusar um presente...'

'Pode ter certeza que é' ele concordou com um sorriso. Piscando pra ela, ele puxou o vestido por cima de sua cabeça.

Gemendo suavemente, ela deixou seu corpo cair, apoiando-se na árvore e fechou os olhos. Ao longe, ouvia-se as águas da cachoeira caírem no lago, mas Dandara estava focada em um outro tipo de explosão.