Vinte e seis anos.

Esta é hoje a exata quantidade do tempo dele.

Essa será para sempre a exata diferença de tempo a nos separar.

Mas mesmo assim, eu escolhi acreditar.

Eu confesso que a minha idade nunca foi, a meu ver, um assunto digno de maiores atenções. Sempre fui um conformado por excelência, e o destino, este infeliz, fez questão de marcar ainda mais esta característica na minha personalidade. Estava de bem comigo mesmo e com esse negócio de envelhecer. Medo da morte foi algo que eu perdi ainda jovem, no mesmo momento em que a vida pareceu perder qualquer sentido.

Mas isso mudou depois que o João Pedro passou a fazer parte do meu cotidiano, especialmente depois que ele começou a demonstrar peculiar interesse por mim. Era fácil compreender o motivo de minha consequente inquietude: ele poderia ser meu filho, oras! Aliais, minha filha teria quase a idade dele, se ainda estivesse viva.

Minha mente foi logo invadida por inúmeras indagações, afinal, o que estaria aquele ‘menino’ querendo com um ‘tio’ como eu? O que eu poderia ter de interessante e atrativo a alguém tão jovem? Caso fosse dinheiro, bem, ele havia encontrado o cara errado, afinal eu não passava de um pianista falido que levava a vida tocando em festas de casamento e restaurantes elegantes... Mas disso ele deveria saber, afinal, foi num restaurante desses que nos conhecemos.

Eu, o pianista, ele, o jovem e belo barman que incentivava as mulheres a se levantarem de suas mesas a cada cinco minutos em busca de drinks e visões que lhes clareassem os olhos. Forte, negro, jeito de surfista, andar leve e descontraído. Sempre sorridente, simpático ao extremo, de voz grave a fala alegre.

Meu total oposto.

Sempre fui anti-social, do tipo que prefere a companhia silenciosa de uma xícara de chá e melodiosa de um bom piano alemão. E o quesito estético eu deixei de atender há alguns anos, muito embora na minha juventude fosse considerado um rapaz de grande formosura.

O tempo se mostrou um inimigo ingrato. Ele vem com pressa e requintes de crueldade; deixa a pele já não tão viçosa, os músculos já não tão fortes, as mãos já não tão belas e os olhos já não tão brilhantes. Ele, o maldito tempo que te obriga a ter diária decepção, toda vez que se encara o espelho.

O maldito tempo que criou a invisível e sensata barreira que se coloca entre nós.

O maldito tempo que não me permitia compreender, tampouco aceitar os motivos de João Pedro.

Por que ele seguia me convidando, seguindo-me, olhando-me, tentando-me? Em qual aspecto eu poderia ser desejável? Como alguém como eu poderia ainda ser amado?

Essas perguntas me torturavam a cada a cada anoitecer, a cada intenso olhar negro recebido, a cada convite licencioso, a cada singela declaração.

Mas minha principal angústia, até hoje, é não compreender como eu me permiti acreditar neste amor e por fim embarcar nesse sonho... Logo eu, sempre tão maduro e precavido... Quando foi que a solidão se apossou de tal maneira de minha alma, ao ponto de me obrigar a abandonar todos meus conceitos, tudo aquilo que eu conhecia como moral?

Aquilo não estava errado?

E aquele erro não ia além da nossa simples diferença de idade?

Afinal, onde estavam minhas dúvidas sobre a integridade de um relacionamento entre dois homens? Onde estavam meus ensinamentos de infância recebidos na Igreja Anglicana? E minhas preocupações a respeito da opinião das pessoas, da sociedade, de Deus?

Engraçado, pois hoje os únicos questionamentos que ainda me perseguem são exatamente os primeiros que tive. A sociedade e Deus ficaram como preocupações secundárias. O que permanece é apenas a sombra do tempo. Maldito tempo que serve apenas para me mostrar o quão imaturo e pequeno eu sou de fato, indigno de toda admiração que vejo no brilho dos olhos dele, nas suas carinhosas palavras, nos seus cálidos toques.

Chega a ser patético –especialmente para um homem de minha idade- flagrar-me muitas vezes com lágrimas prestes a rolar, desesperado para conseguir pensar que algo que me torne melhor, algo mais digno dos sorrisos que ele me lança toda vez que nos vemos; da voz forte que volta e meia me presenteia com juras de amor eterno. Da mera presença que me encanta, dos abraços e beijos que me envolvem. Do cheiro másculo que me prende e intoxica, da pele escura que me acalma e acalenta. Da sua beleza que me deixa tão inseguro, tomado pelo insuportável medo de um dia perdê-lo. Por fim, meu maior desejo é fazer jus a tudo que torna mais tangível o medo que ele um dia note que eu não sou nada, que ele merece um homem melhor, que ele não tem porque escutar desta sociedade tola coisas piores do que ele escutaria se estivesse com alguém da sua idade.

Tenho medo que um dia ele note que eu, como afirmam seus amigos, realmente sou velho demais, que ele não tem porque sair ‘catando velho por aí’. Tenho medo que com isso ele vá embora, deixe-me sozinho, despido do calor daqueles carinhos; sem a mão para segurar nas noites frias, nas ruas desertas. Medo de um dia não ter aquela pele contra a minha, não ter aquele corpo forte na minha cama, não ter aqueles olhos olhando os meus... Não ter seu riso me alegrando, e a sua voz me acordando de um dos meus tantos devaneios...

“O que houve, ‘Thur?”

Medo de um dia não poder encarar sua bela face levemente preocupada. Medo de não poder sorrir e responder-lhe:

“Nada, amor...”

Medo de não ver mais a desconfiança que o intriga, como se eu fosse uma criança aprontando algo. Medo de não ter o momento de silêncio que me obriga a falar mais:

“Estava a pensar se não estou velho demais... Ando meio cansado.”

Medo de não poder ouvi-lo suspirar em reprovação, medo de não ver nunca mais seus traços se contorcerem levemente em já conhecido e brando tipo de malícia.

“É? Você não parecia nada cansado ontem de noite...”

Medo de nunca mais poder rir com você, fazer piada, provocar também:

“Hum, mas não é melhor nós testarmos, para termos a certeza que eu não envelheci de ontem para hoje?”

Medo.

Notas finais
A meus amados leitores, espero que gostem dos dois contos curtos lançados simultaneamente ^^' Um ano se passa, e cá está Samila (esse é meu nome) cheia de projetos atrasados... Eu peço sinceras desculpas pelas minhas demoras em Purest Form Of Love, Trilo do Diabo, Relatos da Queda e especialmente Blind Angel. Se forem capazes de perdoar, gostaria de convidar vocês a me acompanharem em 2011, pois a presença de vocês, o apoio, as broncas, são todos preciosos demais para mim. Eu não escreveria, se não fossem vocês e o carinho que eu sinto em cada comentário que recebo. Muito obrigada! Samila Lages ps: Não vamos esquecer que 2011 será ano da publicação da lenda de Fausto! Conto mais uma vez com vocês para mostrarmos ao mercado editorial o poder do yaoi! =*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!