Jimmy Strikes
1 Prólogo
Notas iniciais
O cigarro repousava ainda aceso no cinzeiro em cima da mesa. As cinzas caíam lentamente e a tênue fumaça branca formava figuras incompreensíveis no ar.
A lareira estava acesa, mas a sala continuava fria para ele.
Estavam em profundo silêncio, a não ser pelos passos de um estressado pai ao lado de fora.
O garoto deitado no divã de couro respirou fundo. Não estava psicologicamente preparado para as perguntas que viriam.
Dr.Fong, o psicólogo, tinha como método mergulhar seus pacientes em suas piores memórias e fazê-los voltar ao passado perturbador para lhe dizer o motivo do problema.
– Quando aconteceu pela primeira vez? – perguntou o chinês,dando uma tragada no cigarro –
– Quando eu tinha cinco anos – gemeu o garoto levemente desconfortável -
– Feche os olhos e me conte como aconteceu.
Jimmy fechou os olhos e as memórias voltaram rápidas em um flash desagradável.
Aconteceu quando morava em Hampshire
O dia amanheceu ensolarado, o sol parecia sorrir para o pequeno Jimmy.
Calçou os chinelos do Batman e foi saltitante para o banheiro escovar seus dentes.
Depois disso, sentou no vaso e ainda eufórico começou a balançar os pés, ele queria ir para cozinha logo e depois de terminar seu delicioso café, iria brincar lá fora com seu novo carrinho de controle remoto.
Distraidamente ele virou a cabeça para o lado e a imagem que se seguiu, foi tão perturbadora que fez seu pequeno coração parar de bater por alguns segundos.
Ele caiu do vaso e bateu a cabeça no chão.
Seu pai chamava pelo seu nome, mas sua voz não conseguia passar pelo frio véu sepulcral em que a criança estava envolvida.
Sua pele se tornou pálida e fria e a respiração não saía mais com tanta facilidade, mas ele não estava morto, a morte estava com ele.
Quando a insanidade de seu primeiro acesso sobrenatural se dissipou como fumaça, seus olhos se desgrudaram e o ar finalmente pode circular em seus pulmões.
Acordou suado, como quem tivesse corrido uma maratona e para piorar, uma crise de soluços começara, fazendo seu peito subir e descer enquanto pedaços de frases eram cuspidos para fora.
– Jimmy? – perguntou seu pai assustado –
– Minha...Minha, mãe.
– O que tem ela Jimmy? – interrogou seu pai, ligeiramente assustado –
– M-minha mãe...
Ainda espantado, autorizou que uma dose de sonífero fosse injetada em seu filho, para que os resquícios de sua loucura não o atormentassem pelo resto do dia.
Por fim, a criança estava certa.
Lucy Buckler se enforcou com um lençol no boxe de seu banheiro as 17h e 15 min de 1993.
Era ela quem o pequeno Jimmy havia visto.
Foi a imagem de sua morte que o ceifeiro soprou para Jimmy naquela manhã.
Depois daquilo a morte passou a seguir seus passos, mostrando a morte de cada pessoa em todo lugar que ele fosse.
Quando ia a uma sorveteria, perdia a fome por ver várias e várias vezes as pessoas ali morrerem, as vezes de causas naturais, outras de formas mais esquisitas.
Se fosse a casa de um amigo, não conseguia se concentrar na brincadeira, pois a imagem de seus pais, ou até a de seu amigo morto o aterrorizavam pelo resto do dia.
Se fosse a escola, as folhas de seu caderno ficariam molhadas de lágrimas, pois todo dia ele via o crânio de professora favorita ser esmagado por um pneu de caminhão.
Por fim, decidiu ficar em casa, onde a morte certamente não o alcançaria. Afinal, trancado nas sombras de seu quarto que presságio poderia ver? Certamente não veria sua cama ou seu abajur morrendo.
No seu décimo quarto aniversário, todos aqueles presságios pararam de acontecer . A morte parecia ter desistido de penetrar em seu mundo e tudo parecia bem.
A escola era um lugar agradável agora que não havia sangue ou dor, porém a pirâmide social começou a esmagar Jimmy como um inseto em um para-brisa de carro. Quem iria querer fazer amizade com o garoto que tem medo da sombra de todo mundo?
Felizmente, o fato de não ver pessoas mortas fazia de Jimmy o menino mais feliz do mundo. Ele conheceu até algumas pessoas interessantes no tempo que se seguiu até o segundo ano do ensino médio.
Mal sabia ele que naquele Outono de 2004, sua vida mudaria novamente, e não seria de um jeito bom.
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