Eu acredito que todos nesse mundo amam beijar na boca. Talvez não todos, mas tenho certeza de que a maioria adora trocar um pouco de saliva no seu tempo livre.

No entanto, poucas pessoas param para pensar o que acontece por trás de um beijo, quantas bactérias são trocadas ou quais estruturas se movimentam para que um beijo aconteça. Mas eu não te julgo, eu também nunca havia parado para pensar nisso até que fui forçado a aprender os músculos da cabeça para a minha prova de anatomia. E, para tentar fazer o conteúdo da prova entrar na minha cabeça, como o bom estudante que eu sou, eu tentei logo criar uma associação com algo que eu acho interessante, isto é, imaginar a minha boca beijando outras bocas — ou uma boca em particular, a de Park Jimin, meu professor de anatomia — enquanto eu tento entender o conteúdo.

Por exemplo, estudar músculos da face é um saco, mas, se eu começo a me perguntar quais músculos estão envolvidos e contraídos durante um beijo, tudo se torna mais interessante e fica mais fácil compreender os movimentos feitos.

E sim, na verdade isso tudo é uma grande desculpa para não admitir que eu não paro de pensar em Park Jimin.

— Então, grande parte dessas fibras do músculo orbicular da boca se inserem na pele e na mucosa dos lábios. — Escutei a voz do meu professor de anatomia e me apressei para anotar as informações que ele dizia no meu caderno, tentando me concentrar, obviamente falhando.

E, por mais chata que estivesse a aula, pelo menos havia ele, o professor mais gato dessa universidade agraciando a minha turma com a sua beleza fodida e com esse corpinho abençoado por Deus, o qual, infelizmente, fica escondido quando ele usa a sua bata dentro do laboratório.

— E, pela inserção desse músculo, dá para perceber o movimento que ele faz ao se contrair. Ou seja, fechando a boca, comprimindo e protruindo os lábios. — Jimin fez uma pausa antes de encenar os movimentos que falava, o que arrancou uma risada de alguns alunos sentados na primeira fila. No entanto, eu só conseguia pensar no formato que os lábios dele ficaram quando ele fez um bico e, na minha cabeça, isso podia ser tudo menos engraçado. Talvez sexy seja um adjetivo melhor. Socorro, como eu quero esse homem na minha vida. — Então, alguém tem alguma ideia de em quais atos esse músculo participa?

Mordi meu lábio inferior antes de levantar a minha mão. O professor correu o seu olhar pela sala antes de perceber a minha mão levantada.

— Ah, Jungkook. — Ele sorriu. — Pode falar.

E é óbvio que o meu coração só faltou parar com a forma como ele disse o meu nome.

— Como é um músculo que fecha a cavidade bucal, eu imagino que ele deva participar do ato de beijar — falei, sentindo-me envergonhado, mas sem desviar o olhar de Jimin, que me fitava atento enquanto eu falava.

E bom, se tem uma coisa que eu sei nessa vida são os músculos envolvidos em um bom amasso. Afinal, a minha estratégia para decorar esses malditos nomes para a prova foi essa.

Escutei algumas risadas atrás de mim pela minha fala, mas pouco me importei, não desviei o olhar do professor a minha frente um segundo sequer. Jeon Jungkook sabe ser pura ousadia quando quer.

Jimin ergueu a sobrancelha, surpreso com a minha resposta.

— Está certo. O músculo orbicular da boca contrai os lábios no momento do beijo. Mas ele é apenas um músculo dentre vários outros que auxiliam nesse processo. Não se esqueça que cada movimento é resultado da ação combinada de várias partes do corpo. Logo, é claro que outros músculos da expressão facial, como, por exemplo, o músculo levantador do ângulo da boca ou o zigomático menor, vão auxiliar no processo que você citou. Isso sem mencionar os músculos da língua que também estão presentes — ele disse, sorrindo. E por Deus, que sorriso. Ele consegue me deixar tonto só de olhar para mim. — Fora o citado pelo Jungkook, quem mais sabe me dizer outro processo no qual o músculo orbicular da boca está envolvido?

Após ouvir ele terminar de falar, soltei um suspiro, aliviado por não ter falado uma completa besteira, e observei enquanto Jimin se dirigia a outro aluno que havia dito algo.

Observei o corpo pequeno dele e me perguntei como alguém pode ser tão malditamente lindo. Não sei se é o fato dele ser muito inteligente — confesso que homens inteligentes me seduzem — ou se é aquela boca maravilhosa que ele tem que me dá vontade de convidá-lo para malhar os nossos músculos da língua juntos.

Desviei o olhar para o meu atlas de anatomia na minha mesa e suspirei.

Aquieta esse fogo, Jeon Jungkook. Você tem prova daqui a uma semana. Esquece um pouco esse homem e foca em estudar.

E, tentando colocar a mente no lugar, fui para a biblioteca depois que a aula acabou e tentei estudar até o horário da minha próxima aula. Só que, com menos de dez minutos de estudo, eu já estava mexendo no celular e procurando o perfil do meu professor nas redes sociais que eu uso.

— Maldição, Jungkook. Deixa de ser otário. Tu tá fodido nessa prova. Vai estudar, porra — falei comigo mesmo antes de bloquear o meu celular e o colocar longe de mim, voltando o olhar para o meu caderno onde eu havia feito algumas anotações da aula.

. . .

— Eae, Kookie, confiante para a prova? — Escutei a voz do meu melhor amigo e levantei o rosto, vendo Taehyung ao meu lado, enquanto andávamos os dois pelos corredores do centro de ciências da saúde.

— Não muito, Tae — admiti. — Eu não tô conseguindo me concentrar nem um pouco agora. Parece que não entra mais nada na minha cabeça.

Bom, nada que não seja sobre Park Jimin, completei essa última parte mentalmente.

Pois é, é o que dá ficar pensando no meu professor ao invés de pensar nas coisas que ele fala durante a aula.

— Sério? — o Kim perguntou, admirado. — Mas o professor explica tão bem. É um dos únicos que ainda dão aula de verdade nesse lugar.

Respirei fundo, sem negar o que ele dizia.

— Eu sei, Tae. É só que o assunto é difícil — murmurei desanimado, sem força de vontade de explicar o verdadeiro motivo para eu ficar disperso na aula.

— E o Jimin sempre é tão disposto a tirar dúvidas dos alunos. Tenho certeza de que se você for até ele, ele vai ser super paciente.

Mordi meu lábio inferior.

— Você acha? — Arqueei a sobrancelha.

Não que eu realmente quisesse tirar alguma dúvida, mas eu queria ouvir a voz de Jimin enquanto ele fala de maneira inteligente sobre o corpo humano. E quem sabe, talvez eu possa o provocar um pouquinho falando coisas com duplo sentido.

E sim, definitivamente eu devo ter algum problema por achar isso tão sexy.

— Tenho certeza. Você pode ir falar com ele na quinta-feira, assim que a aula terminar.

E, motivado pela ideia de Taehyung, eu me matei de tanto estudar para que na quinta-feira eu pudesse fazer alguma pergunta inteligente a Jimin e não parecesse tão idiota enquanto falo. Ele é tão inteligente que eu não quero que ele me ache alguém burro.

— Professor — chamei a atenção dele assim que a aula acabou, na quinta-feira.

— Oi, Jungkook — ele disse enquanto guardava as suas coisas na sua bolsa.

Olhei para os lados, vendo que a maioria dos alunos já havia saído da sala de aula e estavam indo para o laboratório, para ter a aula prática.

— Eu queria tirar uma dúvida — comentei como quem não quer nada.

— Ah, claro, pode falar. — Ele levantou o seu olhar para me fitar enquanto passava os seus dedos pequenos por seu cabelo, jogando alguns fios para trás.

— Eu não entendi direito aquilo que você falou na aula passada. — Sentei na mesa dele, sem desviar o olhar de seu rosto atento.

Jimin franziu a testa e eu me apressei em explicar.

— Sobre mais de um músculo estar envolvido em mesma ação. Ou um músculo ter mais de uma função. Achei isso confuso. — Dei de ombros antes de o olhar nos olhos antes de continuar: — Sobre o músculo orbicular da boca, por exemplo, eu vi que ele serve para outras coisas além de beijar.

Jimin arqueou a sobrancelha.

— Como o que? — ele indagou, sério.

Sorri malicioso.

— Como o movimento de sugar. — Eu passei a língua pela minha bochecha, fingindo uma elevação ali, e depois passei a ponta da língua pelos meus lábios. Jimin engoliu em seco e eu percebi o seu olhar se demorando algum tempo na minha boca. — E aí eu fiquei imaginando, em que situações será que a gente usa esse músculo?

Percebi que Jimin respirou fundo e eu soube que ele entendeu a minha provocaçãozinha barata, porque desviou o seu olhar do meu, corado por eu estar tão claramente flertando consigo.

— Você tem um jeito bem peculiar de estudar, Jungkook — ele disse com a voz baixinha.

E percebendo que ele não me cortou em momento algum, eu dei de ombros, antes de me aproximar mais dele, decidido a provocá-lo ainda mais. Jimin arregalou os olhos.

— Professor, será que você pode me mostrar um exemplo de um dos músculos da língua envolvido no beijo, só para eu entender isso melhor — eu disse, chegando ao auge da minha ousadia. — Eu sempre fui o tipo de aluno que aprende melhor na prática.

— E-eu... é... — Ele abria e fechava a boca, completamente nervoso, e eu só conseguia pensar no quanto ele é fofo. — Jungkook, acho melhor irmos para o laboratório. Lá você pode perguntar as suas dúvidas para os monitores.

Ele terminou a sua fala já com a voz mais firme, sem desviar o olhar do meu mesmo que estivesse envergonhado.

— Mas, professor, nenhum monitor explica tão bem quanto você. E... como eu disse, eu vou aprender muito melhor com alguém me mostrando. — Aproximei-me mais do seu corpo, vendo ele recuar e se encostar na parede. — Você sabe, realmente na prática.

— Na prática? — Ele piscou os seus olhos pequenos algumas vezes, tentando assimilar as minhas palavras.

Assenti com a cabeça.

— B-Bom... se é pra te ajudar... — Ele engoliu em seco. — Acho que tudo bem.

Sorri, aproximando nossos rostos até que só alguns centímetros nos separassem.

— E então, professor? — Arqueei a sobrancelha.

Ele respirou fundo e piscou os olhos antes de começar a falar baixinho.

— Dentre os músculos da língua, nós temos os intrínsecos e os... — ele parou de falar ao me ver umedecendo os lábios — extrínsecos.

Levei a minha mão até a cintura do Park e fui colando os nossos corpos enquanto ele tentava balbuciar alguma coisa que fizesse sentido.

— Dentre os extrínsecos, nós temos o genioglosso...

— Hum, e o que esse músculo faz, professor? — perguntei sem tirar o meu olhar do seu rostinho corado.

— E-ele atua na protrusão e depressão da língua. — Ele mordeu o seu lábio inferior.

— Será que você podia me mostrar? Eu acho que eu não estou entendendo muito bem — sussurrei no ouvido dele e vi seus poucos pelinhos da nuca se arrepiarem enquanto eu me afastava, quase colando as nossas bocas.

— Ah, sim... — Suas palavras soavam quase abafadas pela nossa proximidade.

Jimin, colocou a ponta da língua para fora, imitando o movimento que havia me dito.

— Hum, acho que estou entendendo. — levei as minhas mãos até o seu cabelo e ele fechou os olhos quando sentiu os meus dedos entre os seus fios.

Não resisti e findei o resto da distância entre nós, levando a minha língua de encontro a sua, aproveitando que a sua boca já estava entreaberta.

Quando as nossas bocas se encostaram e eu senti a textura de seus lábios, quase suspirei tamanha satisfação que me invadiu. Nossas bocas se encaixam tão bem que chega a ser desumano.

Quando afastamos os nossos rostos, Jimin estava com o rosto todo envergonhado.

— Obrigado por me ajudar, professor.

— Ah, tudo bem. É para isso que eu estou aqui. — Ele sorriu sem graça.

— Mas, professor, agora eu tenho outra dúvida. — Olhei em seus olhos, divertindo-me com a sua falta de jeito.

— O que foi agora, Jungkook? — perguntou desconfiado.

— Será que eu posso continuar tendo aulas de anatomia particulares com você mesmo quando eu passar nessa cadeira? É que, você sabe, o senhor explica tão bem. — Sorri.

Jimin tentou conter o riso, mas depois assentiu com a cabeça.

— Sim — ele disse. — Mas só porque você é o meu aluno favorito, Jungkook.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!