Jiban End
19 A odisseia de Ayumi

Ayumi iniciou aquele dia com as energias renovadas e estava pronta para sair à procura de seu amigo, Ryu.
Os três hospitais de sua pequena lista não ficavam muito distantes, e qualquer adulto chegaria até eles sem grandes dificuldades, mas Ayumi, apesar de tudo o que já havia enfrentado, ainda era apenas uma criança. Ela era muito inteligente, é verdade, mas mesmo assim, não deixava de ser uma criança. Ela não tinha dinheiro para desperdiçar com passagens, portanto o trajeto teria que ser feito a pé. As poucas moedas que ainda lhe restavam no bolso, estavam sendo guardadas para uma emergência, como por exemplo, comprar alguma coisa para comer quando seu estômago realmente já não aguentasse mais esperar.
Então, munida apenas de sua coragem e sua disposição, ela iniciou a caminhada que seria bastante longa.
Ela não sabia exatamente como chegar aos locais e as informações não muito certeiras dos pedestres que ela encontrava pelo caminho, tornaram a missão ainda mais demorada.
Foi somente pouco depois do meio-dia que ela finalmente vislumbrou seu primeiro ponto de parada: o Hospital da Universidade de Tóquio.
Timidamente, ela entrou na sala de recepção e seguiu para o balcão de informações. As atendentes acharam um pouco estranho uma criança sozinha estar pedindo informações sobre um paciente, e a princípio, não queriam passar a informação, mas depois de alguma insistência da menina, finalmente foram verificar, mas a notícia não foi a que ela gostaria de ouvir. Ninguém com o nome de Ryu Hayakawa havia dado entrada naquele dia, nem no dia anterior.
Um pouco desapontada, ela seguiu para seu segundo destino, o Hospital da Cruz Vermelha de Tóquio.
Horas depois, ela finalmente encontrou o hospital. Lá ela recebeu os mesmos olhares de desconfiança ao perceberem que ela estava sozinha. Dessa vez, ela realmente pensou que eles chamariam a polícia ou a assistência social para levá-la dali. Quando finalmente conseguiu a informação que queria, saiu de lá apressadamente. Seu amigo também não estava lá.
A tarde estava chegando ao fim e nada de encontrar Hayakawa. Ayumi além de desapontada, também estava muito cansada. Seus pés doíam e começavam a apresentar bolhas e feridas depois de tanto caminhar. Seu estômago também havia começado a reclamar de fome com uma certa insistência e ela foi obrigada a gastar suas últimas moedas, que só foram suficientes para comprar uma garrafa de água e um pacote de salgadinhos.
Enquanto comia, ela aproveitou para descansar e recuperar um pouco de suas forças, porque o seu terceiro alvo estava bem próximo e, apesar das dificuldades, ela ainda não tinha desistido.
O Hospital Central de Tóquio era um prédio muito alto e ela já conseguia vê-lo à distância, de onde estava. Geralmente o percurso de pouco mais de um quilômetro seria feito em cerca de 15 minutos, mas devido à dor que sentia, ela levou quase o dobro do tempo, ao caminhar mancando lentamente.
A estrutura imponente do lugar deixou a menina um pouco intimidada. Aquele era o maior hospital em que ela já tinha estado. A área da recepção era enorme e estava repleta de pessoas aguardando para serem atendidas. Ela relutou um pouco para pedir informações, devido às reações de desconfiança que havia obtido nas visitas anteriores, mas antes que ela conseguisse tomar coragem para ir até lá, ela acabou, inadvertidamente, chamando a atenção de uma das enfermeiras, que achou que a menina estivesse perdida.
- Oi, garotinha. Tudo bem com você? – perguntou a simpática enfermeira.
- O-oi. – respondeu timidamente. – Tudo bem.
- Eu vi você andando por aqui sozinha. Por acaso você está perdida?
Ela pensou um pouco antes de responder e achou melhor mudar ligeiramente de estratégia e não contar cem por cento da verdade.
- Eu vim com o papai e a mamãe para visitar o titio, mas saí sozinha para ir ao banheiro e agora não sei onde eles estão.
- Ah, entendi… E qual é o nome do seu tio? Vamos ver em qual quarto ele está, aí eu te levo até lá.
Ela não sabia se Ryu estava mesmo por lá, mas como não o havia encontrado nos outros dois hospitais, rezava para que aquele fosse o certo, ou então ela não saberia mais onde procurar. Se ele não estivesse, a enfermeira imediatamente descobriria sua mentira e ia ser pior ainda. Nesse caso, o plano era correr pra longe, mesmo com as dores nos pés.
Ainda receosa, Ayumi acompanhou a enfermeira até a recepção, mas felizmente, para o seu alívio, havia um Ryu Hayakawa internado naquele hospital desde o dia anterior. Ela não tinha certeza se aquele era o seu amigo ou apenas alguma outra pessoa com o mesmo nome, mas tudo levava crer que, dessa vez, ela o tinha encontrado.
- Você passeou mesmo por esse hospital, hein? O seu tio está no quarto 256, no segundo andar. Eu vou te levar lá, porque os seus pais já devem estar preocupados, mas não saia mais sozinha, ok?
- Pode deixar, moça! Muito obrigada! – agradeceu a menina, com um largo sorriso e uma reverência.
Ayumi seguiu à simpática enfermeira até o elevador, tentando disfarçar ao máximo seu andar manco e as caretas ocasionadas pelas dores, e rapidamente elas já se encontravam à porta do quarto de Ryu. Para sua sorte, como a segurança havia sido retirada por ordem da comandante de polícia, não havia ninguém por perto que pudesse desmentir sua história. Porém, quando a menina entrou, não conseguiu disfarçar o choque ao vê-lo naquele estado e começou a chorar. Fingir que não estava com dores ao andar era uma coisa, agora fingir que estava tudo bem ao ver seu único amigo desfalecido em uma cama de hospital, era outra bem diferente.
- Você não tinha visto o seu tio antes? – perguntou a enfermeira, sem entender bem a reação da menina ao reencontrar o tio.
- É que o papai e a mamãe entraram primeiro e disseram pra eu esperar do lado de fora um pouco, que depois eles me chamavam.
- Entendi. Mas fica tranquila. – acalmou-a a gentil enfermeira. – Olhando aqui no prontuário dele, eu vi que realmente o acidente foi bem feio, mas ele vai ficar bom. Ele machucou a cabeça, por isso está dormindo. Ele vai ficar inconsciente por algum tempo, até o inchaço no cérebro dele diminuir. Quado isso começar a acontecer, ele vai acordar. As pernas vão levar um pouco mais de tempo para se recuperarem, mas não se preocupe, porque depois de um pouco de fisioterapia, ele vai conseguir voltar a andar sem problemas.
- Verdade, enfermeira? – perguntou a menina, já um pouco mais aliviada, enquanto secava as lágrimas com as mangas da blusa.
- Sim. Não se preocupe. Agora fique aqui com ele e não saia de novo até os seus pais voltarem ou então vocês vão acabar se desencontrando. Acho que eles saíram para te procurar. A sua mãe devia estar tão preocupada que até esqueceu a bolsa aqui na cadeira, olha.
- É verdade. – concordou a menina, mas sem fazer ideia de quem seria a dona aquela bolsa. – Eu vou ficar aqui com o titio, eu prometo. Obrigada pela ajuda, enfermeira. – agradeceu a menina, enquanto olhava curiosa e preocupada para a bolsa abandonada, que certamente não pertencia à sua mãe imaginária.
A enfermeira saiu, pois tinha muitas coisas a fazer e deixou Ayumi sozinha com Ryu.
- Oi, Ryu. – disse ela, baixinho, enquanto segurava uma de suas mãos. – Me desculpa por isso. Eu queria ter ido embora, como você mandou, mas não consegui. Primeiro eu tinha que ver como você estava. Obrigada, por tudo. Espero que você sare logo e que seja muito feliz. Prometo que não vou causar mais problemas para você.
Ao dizer isso, a menina deu um pulinho para conseguir dar um beijo de despedida no rosto do amigo. Não era bem assim que ela gostaria que as coisas terminassem, mas era o melhor que ela podia fazer naquele momento. Ela ainda não sabia para onde iria, mas sabia que precisava se afastar, porque ainda mesmo sem entender muito bem tudo o que acontecia ao seu redor, ela sabia que ela era a culpada por todos os infortúnios daquele rapaz. Apesar de querer ficar mais um pouco, a menina achou melhor que a visita fosse breve, pois sua mentira poderia ser descoberta a qualquer momento.
Ela já estava de saída, mas quando pegou na maçaneta para abrir a porta, ela girou sozinha em sua mão. Alguém estava abrindo a porta pelo lado de fora. Instintivamente, ela deu um pulo para trás, assustada, e assim que a porta se abriu, ela viu uma mulher. Ela não sabia quem ela era, mas tudo levava a crer, que a dona da bolsa abandonada havia retornado.
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