Jhon
1 Capítulo Único
Encaro o computador, o Word ainda em branco. ‘Preciso escrever, droga!’ penso, desesperada. Pela milionésima vez, me pergunto por que diabos eu resolvi aceitar esse desafio. Gosto de escrever. Mas não sobre pessoas que existem. Não sobre amigos meus. E, com certeza, não sob pressão. E meu desafio e contra todos esses ‘nãos’.
Só aceitei por um motivo: essa história é um pedido de desculpas. O motivo da ‘briga’ que me levou a ter que pedir desculpas é totalmente idiota. Mas por ele eu até aceitei o prazo de três dias. O único problema é que o Jhon não é clichê! Ele não se encaixa em nenhuma das categorias pré-estabelecidas no universo dos livros.
Decido escrever uma oneshot. Gênero? Romance. Sou boa nisso, e eu quero escrever uma história no mínimo aceitável. Preciso do nome de uma garota. Pego o celular e abro o whatsapp.
“Jhon.
Um nome para garota.
Que vai ser o par romântico do Jhon da fic.”
Jogo o celular em cima da cama e volto minha atenção para o Word mal-amado. Desisto.
Resolvo ver minhas histórias antigas, ver se dá para usar alguma apenas trocando o nome. Nenhuma delas serve. Desisto.
Encosto na maldita cadeira, fecho os olhos e imagino o Jhon em todas as categorias possíveis. Na falta de um nome de menina, decido chama-la somente de Garota.
Imagino Garota em uma torre. Ela está lá a muito tempo, desde que a pesada porta de metal foi trancada pelo lado de fora. E agora estava presa.
Opa… furo no enredo. Ela não sobreviveria sem comida… hmmm…
Todos os dias uma refeição mágica aparecia sobre a sua mesa, e ela comia sozinha, apenas com sua própria sombra. E assim foi por dias… meses… anos? Garota não sabia. Até ouvir um barulho vindo do lado de fora da torre. E então a porta se abre, e o Príncipe Jhon entra, toma a Princesa Garota nos braços e….
E nada! Jhon, um príncipe? Não! Jhon pode ser bonito, e pode fazer qualquer garota se sentir segura do lado dele, mas príncipes são gays, mimadinhos e irritantes demais para Jhon se encaixar nessa tão brega categoria. Porque diabos eu fui pensar nisso?
Garota está tentando pegar um elevador em um corredor movimentado. Jhon está ao seu lado, também esperando. Os dois se odeiam com todas as forças, mas no fundo, Garota se sente estranhamente atraída por ele. As portas se abrem, e os dois ficam finalmente sozinhos. Começam a discutir, mas se calam com um súbito bei…
Espera… o quê?! Mais clichê que o príncipe só os dois idiotas que se odeiam e na verdade se amam e não admitem! Nunca que ele se encaixaria nessa categoria. Em minha opinião não tem como odiá-lo, nem que por fingimento. Ele é adorável.
-Eu vou com você! – Diz Garota, segurando seu braço.
-Você não pode. Aqueles ladrões vão invadir um banco. E não posso ligar para a polícia, porque tenho que fazer isso sozinho.
-Eu vou te esperar… — e por fim, Garota o bei…
Não. Ele não se encaixa na ideia de Rapaz-Com-Complexo-De-Super-Herói! Isso é para idiotas, sinceramente. Eu o admiro mais do que admiraria um super-herói, mas ele com certeza não iria a uma missão suicida sem ligar para a polícia. Resumindo: ele não seria um belo de um babaca.
Garota não sabia o que fazer. Estava dividida. De um lado… Garoto. Bom. Honesto. Um futuro promissor. Do outro lado… Jhon. Vingativo. Mentiroso. Com um futuro cheio de incertezas.
De um lado o certo. Do outro o errado. Os dois se odiavam. E ambos eram apaixonados por ela.
Não… recuso-me a imaginar a imagem de um Jhon bad-boy idiota, ainda mais apaixonado por uma guria mal-comida. Completamente ilógico. Não quero nem comentar mais sobre isso.
Eles eram amigos desde sempre. Jhon sempre esteve do lado dela. E com o passar do tempo, ela se apaixonou. Simples e complicado assim.
Sorrio para mim mesma. De todos os clichês, o único em que ao menos uma porcentagem de Jhon se encaixa é o de melhor-amigo-pegável-de-infância. Ele é realmente um ótimo amigo. Fofo. Engraçado. Um daqueles garotos que podem fazer qualquer garota cair de amores em pouco tempo. Mas também não consigo imagina-lo em uma história assim, quanto mais escreve-lo nela. Seria… forçado demais.
Passo um tempo assim, na cadeira. Um turbilhão de pensamentos na cabeça.
O celular vibra. A resposta dele.
“Laura”
Meu nome.
Sorrio involuntariamente e respondo qualquer coisa. E então franzo a testa. Oh droga, e agora?! Não dá para simplesmente colocar nós dois em uma fic sem parecer meio pessoal demais.
E eu nem consegui pensar em nada ainda… Nenhuma categoria idiota serve!
Jhon não é um príncipe, um bipolar, um pseudo-heroi, um bad-boy ou um melhor-amigo-pegável-de-infância. Ele é simplesmente o Jhon. Um garoto bonito, engraçado e muito legal. Que me faz sorrir, não importa se ele está dizendo algo estranho, engraçado ou fofo. Que me faz sorrir, só por estar ao meu lado. Que é mais alto que eu, mas é capaz de me fazer não ligar para o fato de ser baixinha. Que fala pouco as vezes, e em outras raras fala demais. Que cantou bolinho de arroz quando estava com sono demais para saber o que estava fazendo. Que é meu maior rival no Just Dance. Que dá os melhores abraços do mundo.
Que eu abracei no cinema quando ainda não o conhecia, e ele disse que sabemos que uma pessoa é legal quando ela chega para o desconhecido e o trata quase como um irmão. Que me mandou mensagem naquela mesma noite, dizendo que eu tinha olhos bonitos.
Que é um idiota louco por jogos. Que gosta de paintball. Que teve a proeza de me suportar quando eu resolvi que era uma ótima ideia faze-lo me carregar nas costas em uma piscina. Na verdade, que sempre me suportou, apesar de eu saber que sou chata as vezes.
Meu deus… é tanta coisa.
“Laura: Ta fazendo o que alem de esperar uma história que não é exatamente uma história?
Jhon: Falando com você que vos falo ;-;
Laura: Nada mais? kkkk
Laura: Assim me sinto especial XD
Jhon: Mas você é especial”
Oh god…
“ Laura: Jhon
Jhon: Laura
Laura: Eu te amo
Jhon: Também te amo ♥ ”
“Não caramba, eu te amo de verdade!” Tenho vontade de escrever. Ah deixa para lá. Escrevo mais alguma coisa, e volto a jogar o celular na cama.
Novamente, errei. Ele não é simplesmente o Jhon. Ele é o Jhon, e não há nada de simples nele. Mais do que isso. Ele é meu Jhon, só não sabe disso. Encaro o Word mal-amado.
Já sei o que escrever.
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