Jessica Thompson - Anos dos Marotos
4 Capítulo 4

Capítulo 4
Na manhã seguinte, Jessica acordou e se vestiu antes de descer para tomar o desjejum, decidida a não deixar a carta estragar o dia, muito menos o ano em Hogwarts. Na cozinha, a família já estava toda reunida esperando sua chegada. Durante a refeição conversaram bastante e ela ficou grata que ninguém mencionou o bilhete.
O trajeto até Kings Cross foi silencioso, até o Will estava visivelmente cabisbaixo. Todo ano sofriam com essa parte, ela já estava acostumada a ver o irmão desse jeito quando ele percebia que ficaria um ano longe da irmã. Apesar de entender a dor da família, ela desejava internamente que não fosse assim, era uma guerra terrível, sofria por eles e ao mesmo tempo estava animada para ir para Hogwarts e precisava guardar essa empolgação a sete chaves para não chatear ainda mais a família.
A despedida foi mais rápida que o normal, ela só queria entrar logo no trem, o silêncio já estava ficando desconfortável. Sentiria falta deles, mas no momento só queria correr da nuvem preta e depressiva que encontrava-se pairando em cima da suas cabeças.
― Tchau, se cuide ― disse a mãe, dando um abraço apertado ― Tente se divertir um pouco, é o seu último ano lá, admiro sua dedicação, mas cuidado para não perder boas experiências porque está focada só em uma coisa. A vida é como um leque, está na hora de abri-lo.
Jessica se esforçou para não bufar na frente da mãe e pensou que preferia o silêncio àquilo. Para evitar mais momentos constrangedores ela deu um abraço rápido no pai ― Tchau, te vejo nas festas de fim de ano. ― Então, um beijo na testa do Will e rapidamente passou pela parede. Suspirando aliviada assim que pisou na plataforma 9 3/4.
O Expresso Hogwarts já estava quase cheio quando ela chegou, no vagão, procurou a cabine que sempre viajava com Lily. Jessica não queria ficar sozinha, não queria que a mente vagasse em territórios indesejados. Então, ela abriu a bolsa e pegou um livro, decidindo que se ocupar era a saída mais prática para não pensar na carta idiota. Funcionou bem, ela estava começando a relaxar.
― Céus, não me diga que já está estudando! Nem chegamos na escola ainda ― era o Tiago Potter tentando aborrecê-la. Sirius e Pedro estavam junto com ele.
― Só estou lendo um pouco, nunca é cedo demais para começar ― ela rebateu reprimindo uma careta, sabia que soara bem besta e logo tentou consertar. ― Eu tenho muita coisa na cabeça, então achei melhor me ocupar, para não pensar no que não quero.
― Esse é o seu problema, você pensa demais. ― Tiago debochou. ― Relaxe um pouco.
― Não enche Tiago, eu faço o que quero, quando quero e como quero. E posso saber onde está o Remo? ― ela soltou e quando percebeu que tinha perguntado já era tarde demais, os três tinham pontos de interrogações estampados nas testas.
― Remo não está se sentindo bem hoje, deve chegar na escola amanhã ― respondeu Sirius um pouco curioso e confuso.
Foi uma baita gafe, em circunstâncias normais nem teria notado a ausência dele. Jessica decidiu que deveria mudar de assunto e desviar a atenção, mesmo querendo saber mais sobre o Remo e o porquê dele não estar lá.
― Potter, por que veio aqui? Irritar é a única coisa que sabe fazer? ― ela perguntou guardando o livro de volta na bolsa.
― Não, na verdade vim ver se a Lily já tinha chegado, mas como ela não está, vou dar uma volta por aí, quem sabe o Severo já chegou ― disse Tiago e os três partiram rindo.
Com a cabine vazia ela ficou um tempo fitando a porta por onde a gangue tinha saído, observando o movimento no corredor. Inevitavelmente, pensou no Remo, nas possibilidades de ser ele e o que acharia do interesse dela ao perguntar sobre ele. E se fosse realmente ele? Não sentia nada pelo pobre coitado, ia acabar o magoando. Odiava estar nessa posição. Frustrada, ela esfregou o rosto com a mão tentando se livrar daquele pensamento.
― Oi Jess, eu encontrei seus pais lá fora, mostrei meu broche para o Will, coitado está muito tristonho ― Lily começou a falar, sem parar para respirar. ― Eu vim o mais rápido que pude. Fiquei pensando quem poderia ser o monitor e a única pessoa que me veio à mente foi o Remo Lupin. Quero dizer, tem que ser ele. Eu sei que é amigo do Potter, mas ele é o mais responsável, não é? Em vinte minutos eu vou ter reunião na primeira cabine para conhecer todos os novos monitores. Eu aposto que será o Remo.
― Eu acho que não Lily... ― disse Jessica, ignorando o estômago que se contorcia. ― O Remo nem está no trem hoje, ele só vai chegar em Hogwarts amanhã.
― Ah, isso é um problema, então não deve ser ele, mas quem mais poderia ser? ― Lily pausou, pensativa. ― Como você sabe que o Remo não está aqui?
Jessica contou sobre a visita de Tiago, queria contar logo sobre a carta, mas julgou que não era a hora certa, Lily parecia bastante agitada e achou melhor esperar.
― Então o Potter veio aqui me procurando? Para quê? Ele disse mais alguma coisa?
― Não, também achei estranho ― O trem estava entrando em movimento e Jessica olhou um pouco pela janela antes de continuar. ― Lily, não sei se vou querer jogar Quadribol esse ano. Acho que não consigo sobreviver ao Tiago como capitão.
― Claro que vai, não vou deixar você desistir ― disse Lily. ― Você é uma excelente batedora, não pode deixá-lo mexer com sua cabeça assim.
― Obrigada Lily, vou precisar do seu apoio esse ano ― disse Jessica, agradecendo antecipadamente pela ajuda que receberia com o tal admirador.
― Acho que vou tentar ir lá na primeira cabine ― ela disse, indo para porta. ― Vou ver se já tem alguém por lá. Não vou demorar.
Quando ela abriu a porta da cabine, escutaram gargalhadas estridentes vindo do corredor. Os gritos raivosos de Lily logo denunciaram que tinha encontrado com Tiago e que desaprovava o motivo dos risos. Jessica levantou para averiguar a agitação, mas não teve tempo de chegar até o corredor, pois Severo entrou na cabine dela com olhos pretos arregalados. Sirius e Pedro apareceram em seguida, com sorrisos estampados nos rostos, mas ao se depararem com o olhar ameaçador de Jessica decidiram continuar em frente. Procurando a amiga, ela colocou a cabeça para fora da cabine e avistou Lily caminhando determinada para frente do vagão com Tiago logo atrás dizendo alguma coisa.
Jessica e Severo se conheciam desde a primeira jornada para Hogwarts. Lily e Severo moravam na mesma vizinhança, já eram amigos, e estavam dividindo a mesma cabine quando Jessica perguntou se ela poderia se juntar a eles. Quando chegaram na escola, Lily e Jessica ficaram na mesma casa e Severo foi para outra. Mesmo estando em casas diferentes, eles ainda conseguiram manter uma amizade, mas em várias ocasiões Jessica e Lily admitiram que o laço seria bem mais forte se estivessem na mesma casa.
― Oi Jessica, teve um bom verão? ― perguntou Severo, nem mencionando o ocorrido no corredor.
― Sim, tive. E você, Severo? ― ela perguntou, tentando ignorar o fato do cabelo dele estar mais oleoso que o normal.
― Não, odeio férias de verão, prefiro estar em Hogwarts ― ele disse encarando a janela.
― Acho que já encontrou com o Potter e a gangue hoje?
― Sim, já tive o desprazer, não suporto mais isso ― ele disse cheio de ódio. ― Eu juro que um dia desses eu amaldiçoo um com algum feitiço proibido, isso irá lhes ensinar uma lição.
― Severo, nem pense nisso, não teria coragem de fazer uma coisa dessas ― ela brincou e ele não disse nada, isso a deixou desconfortável.
O garoto continuou olhando pela janela e Jessica decidiu fazer a pergunta, sabendo que se arrependeria mais tarde, mas ela precisava saber. ― Severo, por que é legal comigo? Quero dizer, todo mundo sabe que você não é fã dos nascidos-trouxas.
Ele permaneceu quieto por um tempo.
― Não vou mentir Jessica, não sou fã mesmo dos nascidos-trouxas, não gosto de nada relacionado aos trouxas ― ele explicou. ― Mas sei reconhecer que todo caso tem sua exceção, nesse caso específico, você e Lily. Eu admiro sua paixão por magia, você é muito talentosa com poções, partilhamos do mesmo dom e não vou ignorar o fato de você ter ajudado a me livrar várias vezes da gangue do Potter. Mesmo não tendo orgulho de confessar que uma garota me ajudou com isso, não posso negar e sou grato.
Jessica ficou um pouco surpresa, aparentemente ela significava algo para ele e não fazia ideia. O que realmente queria saber era se esses sentimentos eram o suficiente para fazê-lo enviar a carta não assinada que recebera.
Lily entrou na cabine um pouco depois que Severo terminou de falar.
― Oi Severo, você vai viajar com a gente? ― ela perguntou entusiasmada.
― Não, já estava de partida. Estou dividindo uma cabine com alguns garotos da minha casa. Até mais. ― E então partiu.
― Jessica você não vai acreditar nisso... aliais, eu não vou ser monitora, eu me recuso ― disse Lily como uma criancinha manhosa.
― O quê? Já tiveram a reunião? ― Jessica perguntou. A amiga não tinha ficado muito tempo fora, por isso estranhou.
― Não vou participar da reunião. Você não vai acreditar quem é o monitor ― ela respondeu com os olhos marejados.
― Quem? ― Jessica pressionou.
― Tiago Potter ― ela enraiveceu.
― Quê? Não pode estar falando sério. Deve ser uma brincadeira ― Jessica riu.
― Não, eu também pensei que era piada, mas estava enganada ― Lily se jogou no banco. ― O Potter foi até lá atrás de mim, falando um monte de baboseiras, você sabe como ele é. Quando entrei na cabine ele continuou me seguindo, então me virei para expulsá-lo, afinal não era o lugar dele. Para minha surpresa ele tirou o broche de monitor de dentro no bolso e prendeu no uniforme. Você precisava ver o sorriso cretino que tinha no rosto, juro que quase perdi a cabeça, fugi antes que fizesse uma besteira. Não acredito que Dumbledore fez isso, eu vou falar com ele assim que chegar. Tem que ser um mal entendido.
Da melhor forma possível, Jessica tentou acalmar a amiga. Sentia a dor dela, pois a conhecia bem. Lily era dedicada e gostava de reconhecimento, não de uma maneira gananciosa, mais no sentido de querer fazer a diferença. Ter que dividir o posto com alguém que levava tudo nas coxas realmente era injusto. Depois de muita conversa, Jessica conseguiu convencer Lily de esperar até entender os motivos que levaram Dumbledore escolher o Tiago. Pelo menos tiveram a sorte de não receber mais visitas dele durante a viagem. Para distrair a amiga, Jessica resolveu mudar de assunto e contou sobre o bilhete, suas teorias e a conversa que teve com Severo.
― Ah, Jess, sinto muito ― Lily disse mais calma. ― Eu estava tão preocupada com meus problemas e nem pensei que você poderia estar passando por uma crise pessoal. Não faço ideia de quem mais poderia ser, suas escolhas me pareceram sensatas.
― Não importa agora, eu resolvi que não vou deixar que isso me abale, me recuso ― disse Jessica com um sorriso, imitando a amiga ― Vamos ficar juntas esse ano e sobreviver.
― Está certa, eu vou te ajudar e você me ajuda, como sempre ― disse Lily. ― Já consigo ver Hogwarts, é melhor nos trocarmos.
As amigas se trocaram e esperaram o trem esvaziar antes de sair, não curtiam muito encarar a plataforma de Hogsmeade lotada de estudantes. Caminharam sem pressa até as carruagens e pararam ao lado do Severo.
― Não tinha espaço na carruagem dos meus amigos ― ele explicou. ― Ofereci para ficar e pagar o próximo.
― Que bom ― disse Lily. ―Assim podemos colocar o papo em dia.
Os três entram na carruagem, Lily e Jessica sentaram em um banco e Severo sentou no outro. Quando estavam de partida escutaram passos ligeiros se aproximando.
― Opa, espera aí ― alguém chamou.
Com a carruagem parada, esperaram. Severo mudou de banco, sentando do lado de Jessica, deixando um banco vazio para quem fosse que estivesse chegando.
― Obrigado, não queremos esperar o próximo ― disse Sirius enquanto entrava, até que notou a presença de Severo e congelou. ― Talvez isso não seja uma boa ideia, Tiago ― ele disse.
― Podemos todos nos comportar, somos pessoas e não animais ― disse Tiago entrando e a carruagem partiu em seguida.
Jessica e Lily ficaram surpresas que o percurso foi tranquilo. Severo permaneceu quieto, Sirius olhou para o lado de fora praticamente o tempo todo e Tiago fitou Lily o tempo todo fazendo comentários esporádicos. Apesar da falta de conflitos, o clima era tão pesado que Jessica não se atreveu abrir a boca.
A ceia estava maravilhosa como de costume, era muito bom estar de volta. Jessica sentia o peito aquecer com cada detalhe que via, matando a saudade da escola, observando tudo e todos a sua volta, não conseguia parar de sorrir. Acompanhou e aplaudiu com entusiasmo durante o sorteio do chapéu, satisfeita de poder presenciar a cena pela última vez. Depois do jantar, caminharam para os dormitórios, a essa altura ela já estava sentindo-se cansada, pronta para cair no sono e começar o dia seguinte com o pique de primeiro dia de aula. Quando sentou na cama, encontrou uma caixa de chocolate, com um pequeno bilhete dentro.
Você estava linda hoje no trem.
Nos vemos na aula amanhã.
Boa noite e bons sonhos.
Seu admirador
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