Jessica Chloe - Vitoriosa
45 Mudanças
Notas iniciais
Cinco semanas de terapia fonoaudiológica intensiva depois, minha fala está quase tão boa como antes. Alguns deslizes aqui, outros ali, mas estou melhor. Ainda assim, porém, evito falar. Você não sabe o quanto é constrangedor você querer falar algo normal e acabar saindo um palavrão... Sim, isso aconteceu, mas não vem ao caso agora.
Hector não processou o doutor — afinal, ele não teve culpa — e até pediu desculpas por todo o transtorno; no dia que saí do hospital, alguns dias atrás.
— Eu que peço desculpas, senhor Daves. — Ele cora. — Bom, pelo menos sua esposa está passando bem.
— E eu não precisarei de quimio? — Pergunto, abrindo a boca pela primeira vez no dia.
— Não, o tumor era benigno. Com a retirada de cem por cento dele, não creio que volte. — O doutor responde.
Sorrio, e Hector me ajuda a me levantar. Já estou bem, então consigo andar direito, sem precisar de ajuda. Mamãe, que me esperava na recepção do hospital junto com Lilian, papai, Missi e Jack, se aproxima de mim e me abraça tão forte que fico sem ar.
— Meu amorzinho, você está bem?
— Estou. — Sussurro, e ela beija minha testa coberta pelo lenço vermelho, o primeiro que ela me deu.
— Seu cabelo vai crescer rapidinho! — Missi também se aproxima, abraçada à Jack.
— Eu sei! Será que ele vai crescer liso ou cacheado?
— Isso pouco importa agora. — Lil fala, e papai concorda. — Vamos pra casa!
Todos concordamos e vamos até o apartamento da Missi. Deus, apesar de ser quase uma mansão de tão grande que é, mas está bem apertado para sete pessoas, já que Jack anda cada vez mais presente lá. Já está na hora de me mudar...
E é isso que estou fazendo, ajeitando minhas malas, enquanto Missi me olha.
— Você sabe que pode ficar mais um tempo, não sabe?
— Sei sim, Melissa. — Repito pela enésima vez. — Mas eu preciso ter minha casa, meu lar. Aqui com certeza é um lar, mas eu preciso do meu próprio.
— Mas eu não me incomodo de ter vocês aqui! — Ela choraminga. — Eu adoro a companhia de vocês... Eu sempre vivi sozinha, quer dizer, com meus empregados, mas não era como é hoje. Eu adoro ver a casa cheia de gente!
— Mas logo vou ter meus bebês, e não tem condições de eu continuar aqui! A casa está lotada!
— Mas a casa já está vazia com seus pais e sua irmã de volta em Seattle... Bem que vocês poderiam ficar mais... Vai, até você fazer os seis meses!
— Eu já estou com cinco... Não, Missi. Eu não vou discutir mais. — Falo, fechando o zíper da mala. — E mais, logo logo você vai querer que Jack venha morar definitivamente aqui. E depois, talvez vocês queiram algo mais sério...
Dou um sorrisinho, e ela me olha com um brilho no olhar.
— Você acha que...
— Eu sei que ele gosta muito de você. Quando eu saí com ele, naquele dia da nevasca, ele me falou que te amava.
— Eu sei... Ele já me falou isso também. — Ela sorri feito uma boba.
— E ele anda cada vez mais aqui, fica perto de você o tempo todo... Quem sabe ele não quer algo a mais?
— Você... Tá sabendo de alguma coisa que eu não sei, Siquinha?
— Bem... — Pisco um olho. — Será?
Rio animadamente e ela joga um travesseiro em mim. Eu não vou falar pra ela que Jack quer pedi-la em noivado! Oh, ele é tão fofo... Mas chega, não posso dizer nada à ela.
— Bem, se você quer assim... Mas promete que vem me visitar?
— Todo sábado, está bem? — Pergunto.
— Pra dormir, não é? — Ela brinca, e eu rio. — Não se preocupe.
Dou um abraço gigante nela. Oh, eu vou sentir tanta falta daqui, da companhia dela... Missi foi muito boa pra mim, um anjo. Em vários momentos difíceis ela esteve perto de mim, me ajudando. De repente vem à minha mente o dia em que conheci ela, que estava assustada e mais parecia ser mais nova que eu. Lembro-me de quando falei pra ela que havia morrido na mesa de cirurgia, descobrindo que ela tem uma fobia enorme de fantasmas. Quando ela me falou que seu irmão havia morrido, pude sentir sua tristeza. Ela se tornou minha melhor amiga. E tenho muito a agradecer a ela.
— Obrigada por tudo.
— Para com isso, Sica! Eu não quero chorar!
Ela me ajuda a pegar as malas e vamos até a sala, onde Hector está conversando animadamente com Jack sobre o último jogo de beisebol.
— Claro que a American League é melhor, Jack! — Hector discute. — Por isso que os Mariners fazem parte dela! Eles são os melhores!
— Não é por isso não! — Ele exclama. — De onde você tirou que os Mariners são os melhores? Os Mets que são...
— Mas eles são da outra liga!
— Então os Yankees são. — Jack fala, e então eles notam a gente ali, olhando para eles. — Oh, vocês terminaram.
— É, faz uns minutos. — Missi diz. — Mas vocês não perceberam, já que estavam muito preocupados em decidir qual time é o melhor!
— E também qual liga era a melhor. — Hector fala, sorrindo para nós. — Pronta, Jessica?
— Aham. — Respondo, me voltando para Missi. — Bem, eu já vou.
— Venha me visitar! — Ela sorri.
— Bom, a gente já vai. — Hector diz, abraçando Missi e dando um aperto de mão em Jack. — Obrigado por tudo.
— Não há de quê. — Eles respondem juntos.
Eu e Hector vamos andando até a porta, que Missi abre pra gente. Dou uma última olhada na minha casinha. Eu vou sentir saudade.
— Até mais! — Missi exclama.
— Até!
Dou um passo a mais na minha vida.
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Hector abre a porta do nosso apartamento.
Nosso apartamento. Deus... Dois anos atrás eu jamais imaginaria que estaria grávida de gêmeos, com um marido incrivelmente lindo e em um apartamento enorme em Nova Iorque, beeem longe da minha cidade natal.
— Staten Island! — Hector exclama, depois de uma viagem longa até a ilha mais distante do estado. — Eu adorei esse lugar.
— Você já tinha vindo aqui antes? — Pergunto, ele ajudando a pegar as malas.
— Quando você estava no hospital, eu vim aqui. — Ele explica. — Minha sogrinha e a mamãe me ajudaram a por os móveis e a decorar.
— Realmente, aqui é lindo! — Sorrio, olhando para meu lar. É tão espaçoso quanto o apartamento da Missi, mas bem mais aconchegante... Amei.
Ele se joga no sofá assim que coloca nossas malas no nosso quarto. Nosso quarto. Deus, pensar que minha vida tomou esse rumo é assustadoramente alegre. Hector está sorrindo para mim.
— Mamãe escolheu. — Ele dá leves tapinhas no sofá, convidando-me a sentar ao seu lado. — Ela disse que queria que os netos dela crescessem longe do movimento, do caos. E aqui é o melhor lugar pra isso.
— Só é meio longe da faculdade, não acha? — Murmuro. — Não que eu esteja reclamando, aqui é lindo...
— Sim, também achei um pouco longe. E é por isso, — Ele tira algo do bolso da calça. — Que meu pai nos deu isso.
Ele sacode duas chaves de carro, e meus olhos se arregalam.
— D-dois? — Gaguejo, e ele ri.
— Claro! Um pra cada. Estão na nossa garagem. — Ele beija minha bochecha. — Eu sei que você não gosta muito de ter que aceitar presentes caros, mas vamos lá, aproveite!
— Eu... Tudo bem! — Pego uma das chaves.
— Na-não! A Mercedes-Benz Classe A é minha. — Ele tira a chave da minha mão.
— E qual é o outro, então, lindinho? — Ironizo.
— Um Audi A4. Nem reclame que é mais chique que o meu, docinho.
— Ei, só quem pode ironizar aqui sou eu! — Aproximo-me mais dele e o abraço o mais apertado que posso, já que minha barriga de um pouco menos de seis meses não deixa muito.
Ele sorri, ajeitando meu lenço.
— Esses meninos nem deixam a gente se abraçar direito! — Ele sussurra, logo depois levando suas mãos até minha barriga.
Hector a alisa. Ainda é estranho, e tenho muito medo. Sei que vou ter a ajuda de várias pessoas, mas afinal, os filhos são meus, não? Eu terei que cuidar deles, junto com Hector. E sei que essa tarefa não vai ser fácil. Não quero me tornar uma cópia de minha mãe, que mesmo ainda sendo muito bonita, deixou de se cuidar para cuidar de duas filhas. E se, como dizem por ai, meninos dão trabalho em dobro, essa duplinha dentro de mim não me dará sossego!
— Tão pensativa... O que é que tá te deixando preocupada? — Ele indaga, ajeitando sua posição no local.
— Eles. — Acaricio minha barriga. — Cuidaremos bem deles?
— Chega, Sica! — Ele se exalta, me deixando surpresa. — Para de se preocupar com isso... Certo? Nós vamos ser os melhores pais que pudermos ser. Eu amo vocês. — Ele volta sua atenção para meu rosto. — Eu amo você...
Ele enterra seu rosto no meu pescoço, beijando-o. Só o movimento das mãos dele, indo diretamente para minha cintura me faz estremecer. Sei bem o que isso quer dizer...
— Hector... — Sussurro. — Suas mãos bobas não me enganam.
— Você que disse que podia fazer até os oito meses! — Ele entrega suas segundas intenções, e eu não posso deixar de rir de leve.
— Mas eu não sabia que eram dois. — Explico. — Não acho melhor fazer nada, afinal, gêmeos sempre nascem prematuros. Além do mais, não sei como você pode achar atraente uma mulher com uma barriga desse tamanho!
Ele suspira alto, sentando-se no sofá.
— Tudo bem, então. — Ele responde, ligando a televisão e me deixando praticamente plantada onde estava.
Ele quer o quê, que eu diga "sim, senhor!" e vá direto pra cama? Ah, se ele pensa que vou ser escrava sexual dele, não vou mesmo!
Vou para meu quarto e deito-me na cama, olhando para o teto bege. Oh, estou tão cansada... Decido tomar um banho. Pego uma das malas e ponho-a na cama, para ficar mais fácil de pegar as roupas. Levo minha toalha e meu sabonete até o banheiro e tomo um demorado banho. Quando meus dedos ficam enrugados, saio da banheira.
— Oi. — Hector já está no quarto, deitado na cama.
Continuo em silêncio, pego minhas roupas e as visto. Noto que ele está segurando um papel azulado em suas mãos. Ele tenta escondê-lo rapidamente em seu bolso. O que ele está aprontando?
— O que você está segurando?
— Uma carta que escrevi pra você. — Ele sorri, um pouco tímido. — Já faz um tempo, foi quando descobrimos que você está grávida... Eu estava planejando te entregar depois que nós tivéssemos nossa lua-de-mel. Pensei que poderia entregar hoje, já que estamos na nossa casa, mas pelo visto ainda não.
Ponho minhas mãos na minha cintura.
— Quer dizer que você só vai me entregar a carta quando transarmos de novo? — Dou uma risada afetada. — Você é bobo mesmo, hein?
Ele cruza os braços contra o peito, desviando o olhar.
— Hector... — Aproximo-me dele, que fica olhando para mim. — Você tenta fazer tudo perfeito demais, sem perceber que o simples fato de eu estar aqui com você já é perfeito para mim. Mesmo que fique com raiva fácil demais.
Ele dá uma risada alta, e me deixa furiosa.
— Eu não fiquei com raiva, boba! — Ele põe as mãos atrás da cabeça, ainda deitado. — É só que...
— Vê? Não entende!
Ele fica com os lábios franzidos.
— Eu que não entendo o quanto você pode ficar sexy com raiva. — Ele se levanta e me põe contra a parede, mordiscando minha orelha. Não sei se são as mãos dele no meu quadril, seu perfume ou sua expressão de cafajeste que me faz estremecer por dentro...
Ding-Dong! A campainha toca, eu sou salva pelo gongo. Eu e Hector vamos atender a porta.
— Mãe? — Hector exclama alegre. — Que surpresa! O que faz aqui?
— Oi, filho! — A senhora Daves o abraça. Logo minha sogra se volta para mim e sorri, olhando para minha barriga. — Oi, Jessica! Como andam esses anjinhos?
— Eles vão bem, Carlie. — Sorrio para ela, abraçando-a também. — Entre.
Ela deixa seu casaco no porta-chapéu e senta no sofá. Hector se senta ao lado dela, e eu me sento na poltrona em frente aos dois.
— O que faz aqui? Pensei que estivesse em Seattle... — Hector sussurra, ainda agarrado a ela. Coitado... Tanto tempo sem um abraço verdadeiro de mãe deve ter deixado-o carente.
— Eu vim visitar vocês. John está segurando as pontas do escritório enquanto vim dar uma passadinha aqui. — Ela explica, sorridente. — Ah, eu sabia que esse apartamento era a cara de vocês... Tão bonito!
— Eu também adorei, Carlie. É bem espaçoso, vai ser perfeito pra quando esses meninos estiverem correndo por aí! — Digo, e ela sorri. — Muito obrigada.
— Não precisa agradecer, meu amor. Você fez tanto por meu filho que jamais poderia pagar com nada. Mas isso não impede que eu tente! — Ela pisca um olho.
Hector olha para mim, sorrindo. Sua feição mais aliviada me deixa tão alegre que esqueço de todos os pequenos conflitos que a gente tem, e também os grandes que a gente teve no passado. Não acontece, mas sinto-me abraçada por ele. E isso me deixa incrivelmente feliz.
— Bem, eu quero convidar vocês a ir jantar comigo hoje. Aceitam?
— Não sei, mãe... A Sica tá cansada e, convenhamos, eu também. A viagem é longa até aqui.
— Vamos, Hector! Acho que um jantar não nos fará mal. — Eu o contrario. — Por favor.
— Se você fica feliz... — Ele dá de ombros, mas sei que ele também está feliz.
— Já vai dar seis horas. Melhor irmos? — Carlie pergunta.
— Sim. — Respondemos em uníssono.
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