Jessica Chloe - Vitoriosa
42 Desconfiança
— Graças a Deus! — Hector exclama, beijando minha bochecha.
Todos comemoram, as mães se abraçando, os pais dando apertos de mão e todos depois caem em cima de mim com um abraço coletivo. Deus, só assim para eu ganhar um pouco de esperança.
— Vamos fazer uma nova ultrassom mais tarde, para saber o estado dos bebês. — O doutor sorri, mostrando que médicos também tem emoções. — Agora descanse, senhora Daves.
— Com certeza. — Sorrio. — Obrigada, doutor.
Ele dá um sorriso enorme.
— É meu trabalho. — Ele enfim sai.
— Ah, minha filha! Eu sabia que tudo ia dar certo! — Mamãe exclama, sorrindo como uma boba.
— Eu também sempre soube. — Hector sorri, colocando sua mão na minha barriga novamente.
Estou quase chorando. Sei lá, tem momentos que não consigo chorar, por mais difíceis (ou alegres, nesse caso) que sejam. E eu não pensava que seria uma notícia boa.
— Eu queria descansar agora.
— Tudo bem. — Hector afaga meu cabelo e beija minha testa. — Tenta dormir, certo?
— Certo. — Acaricio sua bochecha.
Ele se levanta e vai até a porta, fica por um minuto olhando para mim e depois sai. O senhor e a senhora Daves vão atrás dele e papai, mamãe e Lilian se sentam ao meu redor.
— Me promete uma coisa? — Lilian começa.
— O quê? — Sorrio.
— Não largue esse homem nunca! — Ela ri exageradamente. — Deus, esse homem é um anjo que caiu do céu!
— Para, Lilian! — Caio na risada também.
— Mas ela tem razão! — Mamãe entra na onda. — Se você algum dia se separar dele, te interno numa clínica psiquiátrica!
— Olha o exagero, Naomi! — Papai, que até agora estava detestando aquilo tudo.
— Não se preocupe, pai. Elas são umas brincalhonas. — Dou um leve sorrio para ele. — E eu não vou me separar dele, bobas. Eu posso ser tudo, menos idiota. Eu o amo.
Eles se entreolham, sorrindo. Como são bobos! Bocejo.
— Vamos deixar você dormir agora, bebê.
— Tudo bem, pai. — Eu me viro para ficar deitada de lado na cama.
Eles se vão, deixando-me aos sonhos.
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— Sica. Acorda, Sica. — Ouço Hector sussurrar no meu ouvido.
— O que... — Falo, sendo interrompida por um longo bocejo. — Que horas são?
— Dez da manhã. — Ele responde. — O doutor disse que a ultrassom vai ser daqui a dez minutos.
— Já? — Sorrio. — Ai, que bom!
— Aham. — Ele me dá um leve selinho. — E ele falou também que daqui a uma semana vão poder tirar o tumor.
— Que rápido. — Bagunço seu cabelo, que inexplicavelmente volta para o lugar certo.
Ele fica sentado, observando cada micro-movimento meu. Suspira, segurando firmemente minha mão.
— E a faculdade? — Ele pergunta. — Você não conseguir começar as aulas no começo do ano que vem.
— Eu sei. — Suspiro. — Mas o senhor Petersburg está sendo o mais compreensível dos malucos, e ainda está me pagando, mesmo sem estar trabalhando.
— Talvez tenha um pouco de ser humano na malignidade dele. — Ele ri da própria piada.
— É, duvido. Acho que ele teve um colapso nervoso. — Sorrio. — Eu posso adiar o começo do meu curso.
— E eu posso trabalhar além de estudar, é claro. — Ele ri. — Sem falar que nossos pais podem nos ajudar.
— Com certeza. — Quando digo, o doutor entra no uarto junto com a doutora.
— Pronta, Jessica? — Ela pergunta.
— Sim. — Sorrio. — Vamos?
Ela me ajuda a levantar a me colocar numa cadeira de rodas e seguimos até a sala, enquanto Hector e o doutor Flinn conversam.
— Soube das boas notícias. — Ela comenta. — Parabéns.
— Obrigada. Você não sabe o quanto eu estou contente.
Ela dá um leve sorriso, e quando chegamos na sala ela me ajuda a me deitar na maca. Ela abre minha bata hospitalar e começa a espalhar o gel frio na minha barriga. Ela começa a passar o aparelho, e as imagens borradas começam a aparecer na tela.
— Você está vendo? — Ela aponta na tela. — Essa é a menina.
A menininha se mexe, como se tivesse entendido que estavam falando dela. Sorrio, por que é a coisa mais linda que já vi.
— E este — ela desloca o aparelho para a lateral da minha barriga. — É o menino.
Ele não se move, como se estivesse dormindo.
— Espere um pouco... — A doutora fala.
— O que houve? — Pergunto.
— Nada... É que me parece que o menino é um pouco menos desenvolvido que a menina... Mas isso é normal em gravidez de gêmeos.
— Aham. — Sussurro, totalmente desconfiada.
Ela termina, limpa o gel e olha diretamente nos meus olhos.
— Vou pedir para você fazer um exame de sangue novo.
Olho para ela. Meu rosto com certeza não demonstra tranquilidade.
— Por que, doutora? Tem algo de errado com os bebês?
— Você engravidou pouco depois do tratamento do câncer, o que já era mais difícil de acontecer. — Ela dá um suspiro. — Há uma chance de seus óvulos ainda estarem danificados por causa da quimioterapia, e isso poderia causar alguma síndrome nos fetos.
— Síndrome? — Desespero-me.
— Calma, Jessica. É por pura precaução. Como eu disse, é normal que um dos bebês se desenvolva melhor que outro, por isso que sempre em partos de gêmeos um é maior que outro, mas nada de mais.
— Bem... E quando isso pode ser feito?
— Agora mesmo, só preciso entrar com um pedido para você. Assim que tudo estiver permitido pelo seu convênio, faremos o exame.
Assinto, ainda preocupada. Eu já sabia que isso seria uma possibilidade, mas saber que existem chances maiores agora me deixa nervosa. E se meu menino, tão menorzinho, tiver alguma síndrome? E a menina? Teria ela alguma coisa também? Como vou cuidar deles bem? A doutora me leva até meu quarto. Hector não está aqui ainda, então tudo o que me resta é esperar ser chamada para o exame em silêncio.
O que julgo ser meia hora depois, a mesma doutora entra no quarto e me guia até essa sala. Deus, eu estou muito apreensiva. Espero que tudo isso não passe de uma suspeita errônea. Ela me deixa nas mãos de uma enfermeira, que retira meu sangue. Quando termina, ela me leva de volta para meu quarto. Percebo que Hector e mamãe estão no quarto.
— Descanse. — A doutora diz. — Prometo que assim que tiver o resultado, que vou colocar em prioridade, venho aqui te dizer.
— Que exame? — Hector, que estava me esperando no quarto junto com mamãe, pergunta.
— Um exame de sangue. Senhor Andersen, será que você poderia me acompanhar?
— Para quê? — Ele pergunta, olhando para mim desesperado. — Aconteceu algo de ruim? Sica...
— Não. — Ela se apressa a falar. — Mas preciso falar com você sobre isso.
Ele fica me encarando com um ar de preocupação, e assinto com a cabeça. Ele beija minha testa e segue atrás dela.
— Que exame é esse de que ela está falando? — Mamãe pergunta.
— Um exame que indica se o feto possui alguma... — Quase não tenho coragem de falar o resto da frase. — Síndrome.
— Síndrome? — Ela arregala os olhos. — Por que ela pediu isso?
— Ela achou o menino um pouco pequeno. — Sussurro, deixando uma lágrima descer. — E a senhora sabe, a quimioterapia afetou meus óvulos... Deus, meus bebês não merecem isso!
— Calma, Sica. Ninguém tem certeza de nada, não é?
Assinto.
— Pois bem, descanse. — Ela diz, num tom de voz bem baixo. — Tudo vai dar certo.
Tento dormir, mas é inútil. Não consigo pregar os olhos, pensando no que pode acontecer com meus filhos. Fico encarando mamãe até a doutora voltar.
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