Jeans
1 único
Aconteceu de novo. Sanji, mais uma vez, levou um bolo de Nami. Justo no dia que combinaram em fazer “aquilo” pela primeira vez, todo o cenário estava montado na sua mente, seus pais não estariam em casa e bastasse Nami encontrá-lo no cinema pra rolar. Antes de partirem pra casa, veriam um romance bobo e que provavelmente a faria se emocionar bastante “Tsc, garotas...”, mas Sanji entrara no cinema sozinho e saiu sozinho. Olhava os incontáveis rostos que saiam da mesma sessão, e não via nenhuma garota ruiva de seios fartos. Seios que tanto já sonhou em ter na sua cara e que provavelmente não veria tão cedo, não sabia em que tipo de rolo estava com Nami, mas ela dificultava as coisas e gostava de sumir também, nem mesmo visualizava suas mensagens. Sanji bufou, Usopp de repente estaria certo quando dizia que ela não estava a fim.
No entanto, caminhando no outro lado da rua em frente as numerosas vidraças de lojas, seguia a tomboy “cabelo de mato” da sua turma na escola. Sanji ainda tinha as camisinhas e pensou chegar perto dela pra ver se conseguia algo. Se ele não estava enganado, ela não tinha muitos amigos porque mandava um papo reto de que era homem, mas Sanji tinha certeza que era só uma “fase” e que provavelmente seria muito carente. Garotas carentes eram fáceis de pegar.
Ele atravessou a rua e correu desviando das pessoas, era final de tarde e a rua comercial só ganharia mais movimento dali pra frente, mas diminuiu o passo quando estava exatamente atrás da garota. Coçou a nuca e fraquejou no instante que levantou a mão para tocar o ombro dela, sentiu que não estava fazendo algo certo, mas insistiu quando o seu tesão era maior (e a cabeça de mato era até bonitinha).
Zoro sentiu um toque no ombro e olhou pra trás, deu de cara com um colega da sua turma, um que tinha sobrancelhas enroladas e um cabelo assustadoramente amarelo, sorria para ele com um sorriso um tanto envergonhado. Deve ter se enganado, deu de ombros e voltou a andar.
— Pera! — Sanji voltou a tocar o ombro de Zoro, que reagiu puxando o braço dele pra frente. Quando Sanji piscou os olhos, percebeu que estava no chão. — Ham?!
Havia acabado de passar por cima do ombro de Zoro como se não pesasse nada, garota assustadora.
Zoro voltou a andar, mas parou quando sentiu que algo estava no seu pé. Olhou pra baixo e encontrou Sanji agarrando sua perna, enquanto espumava pela boca muito puto da vida.
Algumas pessoas da multidão agitada ficaram boquiabertas com o que Zoro fez e pararam o passo para continuar observando. O rapaz se incomodou com os olhares, ele não gostava nem um pouco deles e nem podia fugir pra longe dali, porque aquele sobrancelhudo agarrou sua canela. O pior de tudo era que a postura de Sanji chamava mais atenção e juntava pessoas que nem ao menos viu o golpe que Zoro deu nele.
— Me larga, porra!!! — Mandou Zoro, depois de ter dado o que seria sua quarta olhada nas pessoas que paravam ao redor.
Sanji percebeu que ele estava estranho e pensou se estava sentindo vergonha da multidão?
No entanto, um guarda local notou a roda que se formou em volta da dupla esquisita e apitou seu apito antes de se aproximar. Sanji e Zoro começaram a correr assim que ouviram o barulho agudo entrar nos seus ouvidos, e o guarda precisou correr atrás. Estavam desesperados, porque o homem com certeza não era sedentário com aquele vigor todo. Na verdade, faziam os dois se sentirem dois velhos perto dele, de repente Sanji teria que maneirar no cigarro e Zoro pensava que na verdade era um alienígena, quando nem treinando todo dia tinha aquele pique.
Até que Sanji viu a ponte do parque e teve a ideia de se esconder debaixo dela, ele pegou na mão de Zoro e o puxou para baixo, assustando-o no processo, mas ficou quieto quando entendeu o plano do sobrancelhudo. O guarda passou direto pela ponte e nem sequer olhou pra baixo. Ficaram alguns minutos parados, com Sanji abraçando Zoro por trás e prendendo sua respiração ofegante para não levantar nenhum barulho.
— Ele já foi, me solta.
Zoro comunicou e Sanji só havia se tocado que o abraçava depois do aviso, se separou do cabeça de mato num pulo e por algum motivo se sentia envergonhado como se aquela fosse a primeira garota que tocava na vida. Por que seu coração estava batendo tão rápido? É, devia ser a corrida.
— Por que se agarrou em mim daquele jeito?! — Zoro tentava recuperar o fôlego, enquanto se lembrava que se meteu naquela fria só por causa de um garoto que nem conversava.
Sanji estava com as mãos no joelho, respirando rápido. — Me perdoe! Eu só vi depois que não estava gostando.
— E quem gostaria de ser preso daquele jeito, idiota?
— Não... — Ajeitou a postura e encarou Zoro. — Eu tô falando dos olhares, eu vi que você se incomodou com as pessoas olhando.
Zoro ficou quieto por uns instantes pra no fim estalar a língua. — Vou nessa, sobrancelhudo.
— Ei, espera! — Sanji seguiu o rapaz, que já subia a grama do declínio. — E pera aí, você disse “sobrancelhudo”?
Mas como Sanji estava ainda pra escalar o declínio, ele viu Zoro na sua frente e notou algo estranho. Acelerou os passos e o alcançou no topo, o garoto já pensava em continuar a seguir, mas Sanji mais uma vez pegou em seu ombro.
— O que foi, encaracolado?!
— Encaracolado?! — Se sentiu ainda mais ofendido com esse insulto e Zoro estava prestes a dar as costas, quando Sanji se lembrou que precisava avisar antes. — Não é isso! M-mas....
Zoro encarava um Sanji tímido que não sabia completar nenhuma sílaba sem um gaguejo. — O que foi?
Sanji fitava o chão, estava desesperado, mas ele precisava falar sobre “aquilo”. — Vo-cê...
— “Você”, o quê?!
— Está sangrando!!
Falou tão alto que se desculpou imediatamente, mas teve uma surpresa ao ver o rosto de Zoro pálido. Ou não era tão surpreendente assim, afinal, garotas sangram todo mês. Mas ele tinha a sensação que aquela, que não gostava de olhares, poderia sofrer mais que as demais.
Os olhos de Zoro desceram até sua calça, afastou uma perna e viu que estava realmente sangrando. Como iria fazer para tampar aquilo? E como pôde sangrar na frente de um garoto da sua turma? Isso era humilhante.
— Pega.
Levantou os olhos e encontrou Sanji suspendendo sua jaqueta. Zoro pegou sem cerimônia e a rodeou no seu quadril.
— Não vou contar para ninguém.
Sanji quis informá-lo para evitar mais constrangimentos.
— Obrigado.
Zoro estava sentado num dos bancos da praça, esperando Sanji voltar da farmácia, enquanto pensava que o sobrancelhudo não parecia ser tão ruim como os outros garotos da escola. Zoro sabia que não poderia andar até a farmácia sem um absorvente, só iria sangrar mais e chamar mais atenção, por isso que Sanji se candidatou a ir no seu lugar. Riu por imaginá-lo no balcão todo vermelho pedindo por absorvente, devia ser demais pra ele. Mas também ficou intrigado por Sanji ter notado que não gostava de quando as pessoas paravam para observá-lo, olhos que sempre julgavam sem dó e que o faziam ter vontade de morrer... será que estava tão visível na sua cara? Ou será que Sanji só era um pouco mais perceptivo?
Notou o sobrancelhudo se aproximando com uma sacola na mão, como imaginava, o garoto estava rosa igual um camarão. Zoro começou a rir, enquanto Sanji se jogou no assento ao lado, ofegante como na corrida de antes.
— É pior que comprar camisinhas.
— Sim.
— Okay, agora bora arrumar um banheiro.
Pararam num restaurante e enquanto Zoro ia no banheiro, Sanji escolheu uma mesa para os dois comerem algo. Ele olhou o cardápio e achou tudo muito caro e, na maior cara de pau, pediu apenas alguns onigiris. Não namoraria tão cedo se os estabelecimentos continuassem tão caros assim, e do nada pensou em como deveria ser o estômago de Zoro. Se ele comesse muito, seria muito ruim namorar com ele. No entanto, viu o garoto sair do banheiro e levantou o braço.
— Aqui, marimo!!!
Zoro se aproximou, pensando o que era marimo e se sentou na mesa. — Eu pago a conta.
— Não precisa, tenho dinheiro.
O marimo revirou os olhos. — Eu faço questão de pagar.
Sanji notou o tom áspero e tirou os olhos do cardápio, só entendeu quando viu o olhar enfurecido de Zoro. — Oh, sim! Você paga! Paga tudo!!
— Não precisa agir como se estivesse pisando em ovos.
— Desculpa. — Percebeu que irritou o outro com as desculpas. — Quer dizer...
— Tá tudo bem... — Zoro suspirou e pegou o outro cardápio. — Já estou acostumado.
Sanji sentiu tristeza na voz do marimo e ficou refletindo bastante sobre isso. Ele pensou que acostumado estavam eles e não ele, e estavam mal acostumados por sinal. Mas Sanji preferiu dizer nada, porque antes de tocar em seu ombro, ele pretendia levá-lo pra cama e ainda pensava em Zoro como uma mulher.
— Você é um cara legal! — Deixou escapar sem querer e Zoro desviou o olhar do cardápio.
— Obrigado pela parte que me toca.
Sanji estava novamente todo rosa e Zoro não conseguiu deixar de rir.
— Você também, sobrancelhas.
Então, Sanji parou de ficar nervoso com o olhar seguro que o marimo transmitia e, portanto, sorriu.
— Minhas sobrancelhas são muito enroladas?
— Ham?
— Minh-
— Eu entendi, só achei que você perdeu a hora certa de perguntar isso.
— Ué, eu só tô conversando...
— São sim.
— Ham... — Ficou muito triste, ele tinha esperanças de que Zoro seria mais bonzinho depois de ter o chamado de “cara legal”.
Zoro riu com a expressão triste de Sanji. — Se eu fosse gay, eu namoraria contigo.
— Ata. — Assentiu, mas a ficha caiu e ficou de boca aberta. — N-namoraria c-comigo?!?!
— Sim. Por quê?
Sanji estava muito feliz com o que Zoro disse, e naquele momento ele não se estranhou, na verdade estava ocupado demais pensando que poderiam ser amigos.
— Fico feliz. — Suas bochechas estavam rubras. — Eu namoraria com você de qualquer forma. — Zoro abriu os olhos com o que ouviu e, ao ver sua expressão, Sanji ficou desesperado. — Te ofendi?!
— Já disse pra não agir comigo como se estivesse andando em ovos.
Mas antes que pudesse se explicar, o garçom veio com os onigiris e Zoro ficou muito contente com a escolha. Depois pegaram um trem até a casa de Zoro e dali em diante, Sanji seguiria pra casa dele. Era noite de lua cheia, estavam em frente da casa do marimo se despedindo. Ao ver o quanto o esverdeado parecia feliz, Sanji se lembrou que precisava dizer algo.
— Marimo... eu quero pedir desculpas por ter te visto como garota até hoje.
Zoro não ficou surpreso com o que ouviu, era de se esperar de um garoto como ele. — Eu sei disso. — Sorriu para tranquilizar Sanji, mas notou que ele ficou ainda mais nervoso, desviando o olhar daquela forma.
— Você não acha estranho eu ter me aproximado de você do nada?
— É verdade! — Zoro se lembrou. — Você pegou no meu ombro e não me disse o motivo.
Ele ainda estava sorridente e Sanji se sentia mais merda do que nunca, provavelmente tudo o que rolou nessa noite desapareceria com o que ia confessar. — Eu ia cantar você e eu... pretendia dormir com você.
Zoro parou de sorrir e franziu a testa, levemente. — O quê?!
— Eu pensei que você seria carente por andar sozinho e cairia na minha conversa facilmente.
Um frio cobriu o coração de Zoro, que chorou ao compreender o que estava acontecendo. Ele realmente caiu na sua conversa durante a noite inteira... Sanji chorou logo em seguida. O marimo retornou pra casa correndo, deixando o outro ainda parado na calçada até que desse as costas para voltar a sua vida normal de pilantra. Não se sentiria uma pessoa boa mais, pois só se sentiu assim quando esteve ao lado de Zoro.
— Sobrancelha enrolada!!
Ouvir a voz de Zoro nunca fora tão prazeroso, se virou e o encontrou se aproximando. Quando estava um passo à sua frente, desamarrou a jaqueta da cintura e a estendeu para ele. — Toma.
Sanji pegou a peça de roupa manchada com o sangue de Zoro e agradeceu num aceno.
— Obrigado por ter me dito... e sim, eu sou carente e sozinho.
— Não.
— Ham?
— Seus olhos me transmitem confiança e justiça, por isso me senti mal em mentir para você. Independentemente do que aconteça com a gente, eu lembrarei do seu olhar.
Zoro ficou sem graça. — Ok.
— Agora eu vou indo, marimo.
— Tá, sobrancelha enrolada. — Fez uma pausa e assim que Sanji retomou o caminho, decidiu dizer algo. — Até segunda na escola.
Sanji parou e sorriu, se virou chorando. — Quer ser meu amigo?
— Sim.
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