Je t'aime.

1 Único.


Notas iniciais
Je t'aime = eu te amo; em francês.Escrevi a história lá pelas 4 ou 5 horas da manhã. Pois é.

Por ser uma biblioteca, o local estava bem silencioso. Apenas os barulhos comuns se faziam ali, como os dedos folheando as páginas, o baque suave e surdo de um livro sendo fechado e depois cuidadosamente guardado, o ruído ocasional que a caneta fazia quando arranhava o papel. Sem contar o som da chuva violenta que caía lá fora, que era abafado pelas paredes e janelas bem fechadas.

Estranhamente, não havia tantas pessoas ali como de costume. Uma quantidade razoável de órfãos ficava na biblioteca estudando por algumas horas, visando adquirir mais conhecimento e assim, talvez conseguir o chamado e almejado primeiro lugar do ranking.

Mas, claro, esse lugar já estava muito bem ocupado.

Entretanto, naquela tarde chuvosa, apenas 2 prodígios estudavam na biblioteca.

A e Beyond estavam sentados em cadeiras de madeira. Na frente deles, uma mesa extensa e larga feita do mesmo material. Em cima desta, livros de todas as larguras e de todos os tipos. Alguns fechados, outros abertos. Os que estavam abertos eram os livros de francês.

Beyond Birthday era brilhante em praticamente todas as matérias, assim como raciocínio rápido e dedução. Mas ninguém é perfeito, e todos temos alguma dificuldade em algo.

A dificuldade de Beyond era francês.

Quase não suportava aquele idioma. Tinha aqueles acentos estranhos que não pareciam ter sentido, sem falar da pronúncia complicada em algumas palavras. A gramática também não lhe agrava nem um pouco. Gostava apenas de ouvir as pessoas falarem em francês. Achava lindo, fazia bem aos ouvidos. Principalmente para quem tinha o típico sotaque.

Em especial, ele gostava de ouvir A falar em francês.

A língua francesa parecia trinta vezes mais melodiosa vinda dos lábios do garoto loiro, sendo pronunciada com o leve sotaque e na voz dele. Podia ouvi-lo falar naquela língua por muitos minutos, mesmo sem saber o que ele estava falando.

A sabia do problema de B com aquilo, e por isso se voluntariou para ajudá-lo. De início, o seu gesto altruísta foi recusado devido ao orgulho de Birthday. Era ultraje para ele ter que ser ajudado em algo, e ainda mais por quem teria que ser o seu rival. No fim, acabou cedendo.

E lá estavam eles, em mais uma aula de francês particular sendo dadas pelo professor Alaska Delacroix.

O moreno tinha que admitir: A era um ótimo professor. Explicava quantas vezes eram necessárias e pedidas, sem perder a paciência. Não exigia tanto, mas também não o deixava ficar relaxado e tão lento com os resultados.

O ‘’professor’’ particular deixou à frente de Beyond um livro fino, aberto na página 50 e com um parágrafo grifado com o marca-texto amarelo. O tal parágrafo era um de seus preferidos de todo aquele livro, e já o tinha decorado na mente. Assim, saberia se Beyond estava acertando as palavras ou não. Sem nenhuma palavra, apontara para o livro e depois olhou para o moreno, um pedido mudo para que ele lesse em voz alta.

Beyond assim o fez, indo um pouco mal no começo, confuso com a pronúncia correta daquelas palavras, apesar de saber bem o que elas significavam e a tradução delas. Em sua mente, as frases eram decodificadas, e a sensação de realização era incrível.

— Está melhorando. — elogiou A. — Agora traduza.

A tradução em voz alta fora praticamente perfeita. Alaska sorriu de canto e bateu palmas de leve 2 vezes.

— Avanças rápido. — comentou para o moreno. Este apenas assentiu, ainda focado nos caracteres da folha. — Já era algo de se esperar, claro.

— Você é francês. — B afirmou, mas soou como uma pergunta. Pensava sobre isso algumas vezes, e resolveu tirar a dúvida ali mesmo.

— Basicamente, sou. Tenho ascendência francesa, mas sou inglês. Aprendi francês junto com inglês quando era menor.

Beyond tirara momentaneamente sua atenção do papel para olhar A. Não admitiria, mas era inegável que o rapaz era bonito. Os cabelos eram loiros em um tom bastante claro, os olhos eram azul céu. A pele era pálida, porém um pouco doentia, como se estivesse com falta de alguns nutrientes.

Quando deu por si, percebeu que estava encarando o seu rival, e este o fitava de volta um tanto confuso. Ele não se envergonhou tanto disso, e tampouco parou. Birthday podia não saber lidar muito bem com esse tipo de coisa; a de se comportar normalmente. Fez um breve e simples comentário então:

— Ah. Por isso é fluente.

— Exatamente.

Voltaram assim ao jogo de encarar um ao outro, o barulho abafado da chuva ainda presente ao fundo. Súbita e lentamente, A se levantou de sua cadeira e tirou de dentro de seu estojo um papelzinho branco dobrado.

— Desculpe, eu tenho que resolver algumas coisas essa tarde. Eu te disse mais cedo sobre isso. Então hoje a aula vai ser mais curta mesmo. — arrumou alguns livros apenas com uma mão, já que a outra segurava o papel. — Estou de saída.

O futuro assassino apenas assentiu para ele. Iria aproveitar e estudar uma outra matéria durante o resto da tarde. Fechou o livrinho em francês e o deixou em cima de uma pilha pequena de livros.

A permanecia ali, imóvel, o que o fez estranhar. Ele já não acabara de ter dito que estava de saída? Por que já não foi?

Não que ele necessariamente quisesse que ele fosse logo, claro.

Em mais um gesto súbito, A deixou o papel que antes estava em suas mãos à frente de Beyond, e a passos quase apressados, se foi em silêncio. O moreno o acompanhou com o olhar sair da biblioteca, e quando ele já não mais o podia ver, abriu com ansiedade e curiosidade o pequeno pedaço de papel.

Je t’aime.

Franziu o cenho. Sentia que sabia o que aquilo era, mas não conseguia se lembrar de fato. Não havia tanto problema, mesmo. Depois veria em um dicionário e até poderia fazer isso naquele momento mesmo, já que estava na biblioteca.

O que também o intrigou foi por qual motivo A faria aquilo, qualquer que fosse sua mensagem para ele.

Não muito ao longe dali, um garoto loiro tinha o coração acelerado, a mente quase não conseguindo processar o que havia feito, o sangue parecendo ser feito de adrenalina e um extremo desejo de que Beyond soubesse francês e ao mesmo tempo que não soubesse.

Não importava no fim.

Beyond Birthday não entenderia seu recado mesmo que estivesse escrito em uma língua que ele sabia no momento que nasceu.

Ele nunca ia entender.

Notas finais
Alaska Delacroix = Nome verdadeiro de A. Obviamente, não é canon, já que não temos informações verdadeiras sobre A. Mesma coisa para a descrição da aparência, que também não é canon. É só um nome fictício.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!