Jared Lilly: Aventuras no Colegial!!

5 Capítulo 1 - Primeiro Dia de "Jaula" (Parte 04)


Aturar a aula tediosa do Sr. Jefferson, sem a companhia – mesmo que desconcertante – de Seth, foi uma tortura. Não sei se era por eu estar sentada na frente, mas aquele homenzinho de meia idade tentando nos ensinar mil assuntos de uma só vez estava exalando um cheiro terrível de tabaco enquanto falava. Hilário que um sexagenário como ele tivesse tantas ocupações, ao ponto de nem lhe sobrar tempo para cuidar da higiene bucal. Enfim, eu estava em sofrimento ali – exatamente o oposto do que eu havia previsto para aquele tão aguardado dia.

Pelo menos, o meu irmãozinho querido parecia estar em situação bem melhor do que a minha. É, pra quem não estava nem um pouco a fim de vir à escola, Jared até que estava se dando muito bem com a versão morena e adolescente da Kate Moss que estava sentada ao lado dele. Das duas vezes que me virei pra trás, os peguei em meio a um papinho bastante descontraído. Credo, tudo estava do avesso. Jamais pensei que me pegaria contando os segundos para o término de uma aula, como estava fazendo agora.

Como Seth estaria se saindo?! Sua aula agora era de biologia, lá no prédio 02... Será que alguma garota metida a “cientista maluca” se sentiria motivada a dar em cima dele?! Aliás, será que todo o quórum feminino em sua classe não faria isso?! Céus, ele era tão...

tão...

Ingênuo.

Provavelmente nem perceberia se uma garota estivesse se jogando pra cima dele, mas ainda assim... eu me torturava mais ainda com uma possibilidade do contrário. Era mais forte do que eu. Por mais que o garoto só tivesse olhos para mim – e isso desde sempre – eu o estava maltratando demais ultimamente. Não poderia culpá-lo se ele resolvesse buscar o tipo de atenção que desejava de mim, nas mãos de outra menina. Ai ai ai... como eu queria ser um pouco menos incompetente!

“Como eu queria um pouquinho de sossego...!! Mas nem tudo é perfeito não é, irmãzinha?!”

Jared pareceu encontrar uma oportunidade entre seu papinho de voltar a me azucrinar. Olhei para trás, mas percebi então que a falta de sossego a que ele se referia não tinha mais tanto haver comigo. A parceira de mesa dele, aparentemente, estava comprometendo sua capacidade de se manter arredio ao ambiente escolar, como ele havia se decidido. Fiz questão de formalizar um sorriso abundantemente satisfeito para a sua miséria quando ele olhou na minha direção.

O sinal tocou para o intervalo (finalmente). Os alunos abandonaram as carteiras de um jeito brusco, como se elas estivessem contaminadas, ou algo do tipo. Nem me passava pela cabeça que isso tinha alguma coisa haver com a fome.

Como nenhuma das minhas gentis colegas se dignou a conversar comigo em hora nenhuma, eu não teria outra opção a não ser me sentar com meus familiares no refeitório. Não que isso fosse ruim, de jeito nenhum. Eu apenas esperava mais calorozidade por parte das pessoas.

– E eu confesso que esperava menos! – Jared me alcançou na saída da sala. Engraçado... eu pensei que ele iria manter o máximo de distância possível de mim.

– Ah, qual é?! Você agora vai me dizer que estava achando ruim a sua companhia?!

– Terrível! – ele desabafou. Por mais absurdo que aquilo pudesse soar, ele estava sendo totalmente sincero – Aquela garota não parou de falar nenhum segundo... Eu não tenho esse costume de conversar pelos cotovelos, ainda mais com gente que eu nunca via antes.

– Eu sei! – não contive uma risada malévola. Ele me olhou de viés.

Não foi uma tarefa difícil encontrar o restante do nosso grupo, quando chegamos ao imenso refeitório. Bastou apenas acompanhar a direção dos olhares que não estavam voltados para nós dois e – “tcharam” – lá estavam eles, numa mesa próxima à parede de vidraças. Meus pais, minha avó, tio Emmett... e Seth – exatamente do mesmo jeito que eu vi sair mais cedo da nossa sala: com os olhos radiantes fitos em mim. Corei irremediavelmente.

Empurrei meu irmão, pra que se sentasse ao lado dele – o que o imbecil fez, sem se preocupar em disfarçar nem um pouco a sua má vontade com o fato – e fui para a cadeira vizinha à minha avó. Nossa chegada pareceu interromper algum tipo de comoção entre eles. Ela demonstrava estar bastante desgostosa com alguma coisa – o que estava provocando risos neles todos – e eu, aos poucos, descobri que ela havia sido violentamente assediada pelo seu companheiro de mesa, um tal de Collin Preston.

– Ai, que saudade que me deu do Mike Newton, de repente... – ela suspirou, contrariada – Pelo menos, ele nunca se atreveu a sussurrar baboseiras no meu ouvido! Poxa, o que é que há com esses moleques de hoje, hein?! Eles tomam uma dose extra de testosterona intravenosa no café da manhã, é?!

– Cunhadinha querida, parece que você foi condenada quando nasceu a passar por esse tipo de situação! – meu tio disse e acotovelou meu pai, então os dois riram da cara dela.

– Nem preciso comentar o quanto isso é absurdo, Emmett. Eu não passava por esse tipo de coisa, até me mudar pra cá.

– Até parece, mãe! Papai não se cansa nunca de dizer que você sempre foi atraente, mesmo que do seu jeito! – minha mãe replicou, inclinada também em fazê-la sofrer um pouquinho mais.

– Seu pai é um exagerado, filha... O meu jeito de ser atraente não teve nada haver com atributos físicos. Nada mesmo! – vovó disse, emburrada. Eu comecei a me perguntar o que as pessoas ao nosso redor pensariam, se nos ouvissem em uma dessas nossas conversas mais íntimas. Mãe, pai, filha... com certeza não eram formas de tratamento condizentes com as nossas figuras.

– Pra mim teve, Bells. Eu te achei a maior gatinha quando te conheci! – meu pai fanfarreou, e minha mãe articulou um tapa descontraído em seu abdômen. Nem era necessário comentar que esse tipo de piadinha dele não a incomodaria de modo nenhum. Até por que, todos nós sabíamos o quanto uma relação com um Quilleute era sólida e perpétua.

Pensar nisso ali me provocou um calafrio instantâneo. Olhei na direção de Seth e o encontrei rindo tranquilamente da piada do amigo, assim como os outros. Seus dentes naquela posição contra a luz conseguiram até me parecer mais brancos. Me demorei demais encarando na sua direção. Seu olhar logo veio de encontro ao meu e eu tive que o desviar para o meu colo, onde as minhas mãos se espremiam compulsoriamente. Mas que droga!

– Mas que droga! – minha avó reproduziu o meu pensamento e eu fui forçada a prestar atenção outra vez na conversa – Aquele idiota está acenando pra mim lá da mesa dele. Todo mundo vai olhar pra gente!

Ela cobriu o rosto com a mão e o que disse realmente aconteceu: 90% do refeitório começou a acompanhar o que estava acontecendo entre as nossas mesas.

– Não podia ter dado em outra coisa... Edward deu mole demais, te deixando vir estudar “solteira” aqui! – tio Emmett não perdeu a oportunidade e ela lhe lançou um olhar funesto.

– Se você quiser, eu e Seth podemos dar um chega-pra-lá nele depois da aula, Bells!

– Eu te agradeço... mas não, Jacob. Isso seria tremendamente humilhante, além de estranho! Pode deixar, eu mesma vou trucidar esse infeliz assim que ele se descuidar! – ela disse. Mesmo no sentido figurado, aquela sua ameaça seria perfeitamente possível.

“Eu adoraria ver isso, só pra variar um pouco dessas emoções nojentas!” – Jared me comentou e, pela primeira vez, tive que concordar com ele. A atmosfera ao redor estava terrivelmente enjoativa. Ele me fez uma cara de “eu te avisei”, e eu respondi com um muxoxo e me levantei para ir providenciar algum lanche.

– Eu te comprei Doritos, Lilly! – Seth me interrompeu no meio do movimento e me estendeu o pacote, com outra variação daqueles seus sorrisos desconcertantes – Toma!

Devo ter ficado tão vermelha quanto o pacote, quando a minha mesa – e boa parte das que estavam ao redor – se enterneceu profundamente com o cuidado dele. Percebendo que a situação havia me deixado constrangida, ele agiu, pondo amostra um segundo Doritos:

– Comprei um pra você também, Jared! – Anunciou. Mentira... Esse, provavelmente, ele havia comprado pra si mesmo.

Uma das sobrancelhas do meu irmão foi lá pro meio da testa, antes dele aceitar a oferta.

– Valeu! – ele assoprou, recebendo o salgadinho de um modo desanimado.

– Valeu também, Seth! – consegui agradecer, insatisfeita pelo que ele havia sido obrigado a fazer por mim. Voltei então pro lugarzinho onde estava antes.

Diário de bordo, primeiro dia de aula. Saldo até aqui: eu sendo desprezada totalmente pela parte feminina da minha sala, além de em meio a um descontrole emocional severo; Jared se entrosando com a parceira de álgebra; minha avó levando cantada de um carinha popular do time de futebol.

É, vamos dizer que ainda não estava tão ruim assim... Pensamento positivo, pensamento positivo!

~~

Meu Doritos acabou rapidinho e, depois que o palhaço número 1 do 2º ano se cansou de ficar chamando a atenção do refeitório inteiro, menos a da minha avó efetivamente, o sinal tocou para o retorno às salas e nós nos separamos outra vez. Quer dizer, meus pais, avó e tio. Seth teria aula de física com a gente. Que ótimo...

Acho que o que mais me irritava nesse cara era o fato de ele não tomar atitude nenhuma no sentido de se resolver com Lilly. Em vez disso, deixava ela se remoendo com um monte de incertezas, e mantinha essa postura totalmente abobalhada – a mesma destes últimos 7 anos, aliás. Ah, qual é... Nem todo o imprinting do mundo justificaria tanta incompetência assim! Esperava, sinceramente, não ter que passar por isso nunca.

– Ok, eu entendo que você não queira se sentar na minha mesa durante o intervalo... – Laura me assustou no meio do corredor. Ela tinha esse jeito estranho mesmo de se anunciar: tagarelando – Não vou te forçar a essa humilhação pública. Sem pressão!

Olhei pra ela e lá estava aquela expressão completamente incólume e peralta em sua face outra vez. A garota era, simplesmente, um mistério pra mim.

– Até parece... – eu sibilei, enquanto continuamos andando.

Não sei como ela entendeu essa minha fala, mas pareceu ficar contente. Eu me referi ao fato de que ela, a despeito da minha ausência, conseguiu se sentar em uma mesa até que bastante movimentada. Ela não era, de fato, o tipo de garota que seria deixada de canto, sob nenhuma circunstância. Mas eu acho que, da maneira que ela me entendeu, ficou acertado que a minha falta de consideração jamais se repetiria.

– Oi, eu sou Lillian, por sinal! – minha irmã esticou o braço na minha frente para cumprimentá-la – Seu eu for esperar pela educação do meu irmão, eu não vou a lugar algum nessa escola!

– Seu irmão?! – ela demonstrou surpresa.

– Pois é... nem tudo é perfeito, não é mesmo?! – Lillian repetiu a minha fala da sala de aula, só pra me perturbar.

– Ah, neste caso... muito prazer, Lillian “por sinal”! – a garota sorriu um sorriso recheado de ternura e descontração, recebendo o cumprimento. Acho que essa sua boa índole impressionou não só a mim, mas à própria Lilly (até agora acostumada apenas com frieza vinda do sexo feminino) – Eu sou Laura. Laura West. Seu irmão não deve ter falado de mim, eu suponho?!

– Falou sim! – Lilly a consertou, e então me lançou um olhar malévolo – Disse que gostou de você, e que você tem um papo com muito conteúdo!

Eu, sinceramente, não acreditei que essa pirralha tinha acabado de fazer isso comigo! E o pior é que eu nem poderia fazer nada a respeito, sem piorar as coisas... Laura me olhou com uma expressão ainda mais surpresa que a de antes e eu senti que estava começando a corar. “Eu te mato quando a gente chegar em casa, Lillian!” formulei esse aviso à mente oca da minha irmãzinha, que largou um risinho satisfeito e continuou a conversar com a garota até que chegamos na sala – eu entre elas o tempo todo, sem conseguir sair. Seth também foi apresentado e incluído na conversa, e o “sanduíche de Jared” ganhou mais volume.

– Eu vou ter aula de filosofia no prédio 03 agora! – Laura anunciou, no limiar da porta.

– Ah, que pena... Eu adorei você! Espero que vá lá em casa um dia desses, hein?! – Lillian disse. Essa pirralha destrambelhada realmente não tinha noção nenhuma na cabeça... Onde já se viu, convidar uma pessoa que ela mal tinha acabado de conhecer para ir à nossa casa?! E eu nem digo isso pelo fato de a nossa família ser como era... Ninguém faz esse tipo de coisa, sendo normal ou não! Mas esse era o retrato de alguém que estava com o nível de empolgação ligado no máximo. A pobre saciou boa parte da sua ânsia social reprimida naqueles poucos minutos de conversa de corredor com Laura.

– Sem problemas, Lilly! – ela disse, meio surpresa de novo, mas ainda assim sem perder o jeito amistoso – Então a gente se vê amanhã. Você também Seth, foi um prazer te conhecer!

– Igualmente, Laura! Até amanhã!

Minha irmã e seu namorado então terminaram de entrar na sala.

– O “até amanhã” foi pra você também, Jared! – Laura me alfinetou, já se afastando de costas para ir embora, o que não escapou aos ouvidos poderosos de Lilly, que espirrou um riso de onde estava.

– Até amanhã! – eu consegui projetar, com o timbre de voz errado. Ela sorriu com um olhar arteiro, se virou definitivamente e eu logo a perdi de vista entre o mar de alunos no corredor.

Inexplicavelmente, uma coisinha estranha me incomodou ao saber que ela não assistiria a próxima aula junto conosco. Ela, de algum modo, começou a me inspirar curiosidade. Mas que raios estava acontecendo comigo?! Eu só podia estar ficando doente mesmo! Isso era tudo culpa dessa bendita escola... eu disse que não queria vir!

– Ow, vai ficar aí na porta, Jared?! – Lilly inquiriu, com um tom maldoso.

Me despertei e tentei voltar rapidamente para o meu lugar também, antes que ela resolvesse chamar a atenção da classe inteira. Mas, na minha afobação, acabei esbarrando em um garoto e ele foi direto pro chão, tornando inúteis os meus esforços: todos acompanharam a cena, soltando exclamações automáticas. Ainda bem que o choque aconteceu quando eu ainda estava principiando o movimento, senão ele teria voado muito mais longe. Olhei em pânico para Lilly e Seth. Eles primeiro ficaram sem ação, mas depois me sinalizaram o garoto e eu então corri para oferecer depressa uma mão para ergue-lo do chão, antes que a coisa piorasse. Ele precisou catar seus óculos antes, que despencaram do rosto com o tombo.

– Aprenda a andar, monstrengo! – um outro garoto, provavelmente o mais metido a besta da sala, fez gozação do coitado e uma boa parte da turma riu daquela idiotice.

– Você está bem?! – eu perguntei a ele, tentando remediar o que tinha feito limpando um borrão que tinha manchado a sua blusa.

– Acho que sim... – ele fez uma afirmação tímida, pouco confiável. Na hora, eu o vi friccionando o cotovelo, pelo menos.

– É melhor nós irmos à enfermari...

– Não! – ele me interrompeu – Eu estou legal. Foi só o susto mesmo, está tudo bem!

– Tem certeza?! – eu insisti

– Ei, bom samaritano – percebi que o mesmo idiota de antes estava agora falando comigo –, tá na boa, esse daí é desajeitado por natureza. Deixa ele aí, que ele se “regenera” sozinho!

Outra sessão de risos bobos, que eu ignorei. Mas o coitado do menino ficou completamente sem graça diante de mim – como se, depois de tudo, fosse ele a pessoa que deveria se desculpar. Apesar de termos praticamente o mesmo porte, ele mantinha uma postura meio encurvada, como se pensasse que deveria caminhar a um nível mais baixo que o dos demais. Usava os cabelos pretos partidos simetricamente no meio, camisa pólo com um tamanho maior que o dele, calças jeans simples e tênis esporte. A pele tinha um tom pálido, meio doentio. Seu estilo de não atrair atenções se virava exatamente contra ele, marginalizando-o na turma como o “esquisito”. Alguém tinha que fazer alguma coisa pra melhorar a vida desta pobre alma, com urgência.

– Deixa eu te convidar, pelo menos, pra ser o meu companheiro de mesa então?! Essa aula parece que vai ser bem chata, e seria legal ter alguém pra conversar! – disse, não deixando de me sentir bem esquisito ao fazer um convite dessa natureza.

Ele estranhou inicialmente, mas não pelos mesmos motivos que eu, claro. Parecia apenas nunca ter recebido um tratamento parecido antes. Sorriu timidamente depois de uns 10 segundos e assentiu. Olhei outra vez para Lilly e Seth e recebi seus incentivos à minha “boa ação”, então nós dois seguimos juntos para a minha mesa. Aquele desfecho pareceu surpreender a todos.

O professor Spinoza chegou finalmente à sala. Teríamos aula de física nesse horário, em seguida eu teria aula de educação física – sozinho, graças a Deus –, e depois estaria livre outra vez. O simples pensamento já me encheu de felicidade.

– Ei... Jared, não é?! – um garoto sussurrou para mim e, quando me virei em sua direção, percebi que era o engraçadinho das provocações – Aquele tranco foi impressionante... Seria bom você fazer um teste para entrar no time, sabe?! Aperfeiçoar essa técnica, andar com as pessoas certas...

Ele indicou com o queixo o meu novo parceiro de mesa, evidenciando toda a sua arrogância, depois sorriu pra mim, querendo me oferecer sua cumplicidade suja. Só por ter que sentir na pele a nojeira que eram as suas emoções, eu tive vontade de largar um murro na cara dele. Mas, ao invés disso, concentrei toda a minha irritação na minha resposta:

– Não, obrigado. Se for pra andar com gente feito você, eu prefiro virar bailarina!

A cara de tacho que o cretino fez me deu a entender que ele levaria ainda alguns segundos mais, até perceber por completo a essência das minhas palavras. Me virei, sem intenção nenhuma de presenciar quando esse momento acontecesse.

Aquela mera frase me fez descarregar uma tonelada de raiva, e, de repente, eu até comecei a me sentir mais leve. Algo naquele dia realmente valeu a pena. Nem me preocupei com nada... Afinal, o que um palhaço como aquele poderia fazer contra mim?!

– Oi, meu nome é Jared! – disse, depois que me virei de volta para o garoto inseguro do meu outro lado, e lhe estendi a mão novamente, agora com outra finalidade.

– Friedrich Engels Wade! – ele vomitou aquele nome, envergonhado, em seguida retribuiu meu cumprimento.

Friedrich Engels?! O filósofo francês?! Oh, meu Deus... que tragédia!

– Sério?! – eu perguntei por impulso no meio do gesto, mas percebi um pouco tarde que aquilo o deixaria desconfortável outra vez. Droga, Jared, pare de ficar fazendo merda – Quer dizer... Sério que você se apresenta assim pras pessoas?! Dando o seu nome todo?!

Obviamente, ele percebeu a minha tentativa tosca de me concertar. Mas, incrivelmente, isso o fez esboçar um sorriso um pouco menos contrito, como seu eu tivesse incentivado a sua afeição com aquilo, mesmo com a falta de sutileza. Vivas!

– Acho que sim! – ele respondeu – Quer dizer, não que eu tenha costume de me apresentar a alguém. Nem me lembro qual foi a última vez que fiz isso, ou se já fiz isso alguma vez, na verdade...

– Sei. Mas, e então... Seus velhos gostam de história?! Friedrich Engels, quer dizer... é um nome com peso! – procurei demonstrar interesse. Não era muito fã de história.

– Meu pai é sociólogo e foi professor em Duke. Minha mãe foi a sua melhor aluna e eles acabaram tendo um romance de bibliotecas e palestras.

– Que legal! E você é o futuro sociólogo da família, certo Fred?!

Ele riu, depois balançou a cabeça negativamente:

– Eu quero ser engenheiro civil!

– Uau! Um caminho totalmente diferente!

– Com certeza! – ele reergueu com o dedo os óculos que estavam escorregando pelo nariz. Aquela era uma faceta típica de um nerd mesmo. Mas eu não tinha nada contra nerds. De fato, se era pra eu desenvolver uma amizade com alguém naquela escola, melhor que fosse mesmo com alguém tão estranho quanto eu.

A aula fluiu imperceptível em meio ao nosso papo e, quando eu pensei que não, o sinal tocou para a última aula. Me despedi de Fred e me dirigi à porta. No limiar, o babaca de antes – muito provavelmente, já cheio de raiva de mim – tentou me dar um travão com o ombro, pra retribuir o meu desprezo. Mas acabou apenas machucando si próprio, prendendo um gemido de dor, para não deixar que ninguém percebesse o seu ato estúpido. Ri interiormente. Acho que eu havia me enganado sobre a escola... Haveria muita diversão para mim, se eu apenas seguisse a minha vida normalmente.

Educação Física foi uma aula que se transformou mais em Educação Mental, já que constantemente eu tinha que me cuidar para não atingir as bolas – ou o corpo de alguém – com força demais. O “professor” Emmett embaraçosamente me nomeou como monitor da turma, ao que eu não pude me opor por mais de 5 segundos, por que senão eu chamaria ainda mais atenção pra mim. Dava pra sentir os olhares hostis da parte masculina da minha turma nas minhas costas – liderados pelo meu “amiguinho” recalcado – e, ao mesmo tempo, os olhares frívolos da parte feminina passeando pelo meu corpo inteiro.

Treinamos Handball e, na metade da aula, todas essas menininhas já estavam se equilibrando na arquibancada, implorando que eu ou Emmett socorrêssemos seus músculos “cansados”. Na verdade, o que elas queriam mesmo era mostrar umas às outras que conseguiriam ter a nossa atenção exclusiva para elas – outra coisa que estava começando a intensificar o ódio direcionado a mim pelos meus colegas machos. Eu nem cogitei a idéia de realizá-las nesse sentido, deixei que Emmet cuidasse de seus músculos. Imaginar a erupção emocional que qualquer toque meu provocaria no corpo daquelas garotas abrasadas já era suficiente para me provocar náuseas à distância mesmo.

Ao final de uma hora de alerta total, eu pude relaxar os nervos com o término definitivo das aulas. Estava livre agora para tomar uma bela ducha nos vestiários e esperar o resto da minha família terminar suas atividades também – a aula de educação física acabava mais cedo do que todas as outras.

Fui o primeiro a chegar aos chuveiros. Bom. Eu poderia, pelo menos, escolher o melhor deles – lá no fundo, escondido. Depositei meus pertences no armário coletivo e entrei no boxe. O burburinho eufórico dos demais garotos começou a se aproximar do local logo em seguida.