Eu estava correndo. Correndo, correndo.. Eu podia sentir meu coração batendo na minha garganta. Meus pés — já não conseguia senti-los. Porém eu prosseguia correndo.

Se eu olhasse para o meu horizonte, a única coisa que eu conseguiria enxergar eram luzes. Pequenos pontos de luz em uma imensidão escura, a qual conforme eu me aproximava, meus olhos foram captando que aquela escuridão na verdade se tratava de um matagal.

O que diabos você está fazendo em um matagal, Tawna?

Por algum motivo, eu tenho super sentidos de repente. Consigo ouvir tudo à minha volta, inclusive o monstro assustador cheio de dentes que está me esperando dentro de um dos arbustos gigantes.

E como eu sei que é um monstro assustador cheio de dentes? Justamente por esse barulho infernal que ele está fazendo. Você não consegue ouvir? Presta atenção. Pi pi pi...

[7h15]

— TAW, VOCÊ VAI SE ATRASAR, PELO AMOR DE DEUS! É A SEGUNDA VEZ QUE EU TE CHAMO! — meu Deus mãe. Sério que você precisava me acordar bem quando eu estava prestes a destruir a vida daquele monstro nojento?

É, quem que eu quero enganar. Eu estava pronta para correr e chorar, feito uma criança de 3 anos com medo de um palhaço.

Hoje é dia 4 de março de 2019. Sabe o que isso significa? Para muitos, nada mais do que um dia normal. Mas para mim, é o dia em que a minha vida vai mudar. Apenas uma palavra: Korassy.

Korassy é a faculdade mais difícil do país. E eu, euzinha, e-u-z-i-t-c-h-a Tawna Mirandez consegui entrar. Dizem que entrar na Korassy é simples, o difícil é conseguir sair de lá. Vários gênios se formaram nessa faculdade, e eu como uma boa aluna que fui, sinto que é uma honra apenas de eu poder colocar o meu pézinho lá dentro.

É complicado ter 18 anos. As pessoas geralmente pensam que é essa a idade em que você mais se diverte, que você curte a vida, que você faz várias coisas empolgantes. E eu sou a prova viva de que fazer 18 anos não te torna uma pessoa ultra-mega-blaster adulta e descolada. Só te torna alguém viciado em séries, e ansioso. E ah, com unhas horríveis.

Me arrumei o mais rápido possível, e consegui estar dentro do carro da minha mãe 8h em ponto. Quando minha mãe virou a chave e ligou o carro, senti um choque percorrer o meu corpo. É isso. É aqui que a minha vida começa. A partir desse dia, eu não serei mais a Taw-taw — apelido ridículo que minha mãe me deu quando eu tinha uns oito anos -, eu não serei mais a não-quero-admitir-que-sou-adulta Tawna. Conforme eu olhava para a janela, conseguia ver como rapidamente nos distanciamos da cidade e estávamos adentrando uma parte mais arborizada. É estranho de ver como as coisas acontecem tão rápido.

Olhava as árvores passando rápido e tentava contar quantas tinham, mas sempre perdia a conta. Admitir que agora terei que ser uma pessoa mais responsável, e tentar ser menos atrapalhada — tentar, só tentar, porque eu nasci com dois pés esquerdos — era um desafio.

Me perdi em pensamentos e quando vi, estava na porta de um campus imenso. O carro pequenino da minha mãe se perdia na frente daquilo. Era um prédio extremamente alto — deveria ter uns 8 andares. Alto demais para uma faculdade. Que sonho. Olhei em volta, e logo na calçada consegui observar os rostos de quem frequentava ali. Várias pessoas chegando com malas, umas alegres e outras nem tanto. Foram tantos abraços que eu consegui contar naquela multidão que eu me senti mal por ter ficado ali, parada, tonta com tudo o que estava acontecendo que nem me toquei em me despedir da minha mãe.

Quando me virei, a mulher que me criou com tanto carinho e paciência, que enfrentou a pior fase da minha vida junto comigo, estava ali. Com lágrimas nos olhos, esperando um abraço. Eu não me contive e senti algumas lágrimas rolarem do meu rosto, mesmo eu tendo me tornado uma pessoa um tanto quanto forte para esse tipo de coisa. Com os olhos embaçados, abracei minha mãe o mais forte que eu consegui.

— Tawna? — ela disse baixinho, enquanto afagava meus cabelos e fazia eu me sentir a pessoa mais segura do planeta terra.

— Sim dona Teresa?

— Por favor, aconteça o que acontecer, estude. Estude muito. E cresça com isso. — revirei os olhos.

— Pode deixar, mãe.. — disse em tom de risada.

Nos despedimos e quando notei, lá estava eu, com duas malas e um coração disparado. O que eu vou fazer agora?

É, eu oficialmente estou em Korassy.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.