Jardim Tempestuoso

9 Capítulo 09 - Violetas 6


Notas iniciais
Arthur Storm - Kevin Lutolf Protea Storm - Deddeh Howard Caliandra Storm - Ísis Valverde

Verifico pela última vez as portas e janelas de casa, tendo a certeza de que tudo estava bem trancado antes de sair. O jeep estava estacionado em frente ao meu jardim, bem como a minivan spin.

Aceno para os jovens que estavam dentro dos carros, apenas esperando por mim para seguirmos até a empresa de minha família, onde nos reuniremos com meus parentes para irmos ao Solo.

— Parabéns, pirralhos! — Apoio meus braços na janela da porta do passageiro da spin. Sorrio para os sete ocupantes do veículo. — Way's, Black, Werner, Dubois e Yukimura. Aproveitem bastante o feriado e meu bom humor. Pode ser a única chance de ter contato com ele. — Movimento meu ombro direito, de modo que a alça da mochila desliza por meu braço. Abro o bolso lateral e retiro sete caixinhas de dentro. — A partir de hoje, vocês serão minha nova família e espero que se divirtam com meus parentes. Não vou exigir que decorem cada informação que receberem, porém será importante para que conheçam quem realmente é Violet Storm.

Meu olhar se direciona para os três jovens sentados na fileira do meio. Suspiro antes de passar cada caixinha até que todos estivessem com uma.

— A primeira coisa que a maioria precisa saber é que os Storm odeiam os Way. — Como esperado, Steve pisca para mim e sorri mostrando todos os dentes perfeitamente alinhados. Com exceção dos Way presentes, a surpresa é nítida na face dos demais. — Relaxem. Haverá uma trégua para vocês três, então não precisam se preocupar com ofensas, provocações ou qualquer outra reação negativa. Vou tentar conhecer um pouco mais vocês dois. — Aponto o indicador para Edward e, em seguida, para Ofélia. — Mas tenho quase certeza de que Steve vai se dar bem com alguns dos meus primos. Basta ser a pessoa que demonstrou durante o tempo que ficaram confinados na base.

Outro suspiro escapa de meus lábios ao ouvir a buzina do jeep, apressando-me para embarcar. Retiro a oitava e última caixinha do bolso, abrindo-a e pegando o anel contido ali. Seu desenho era bastante parecido com o que eu usava anteriormente, exceto que havia um raio acima da cobra lateral, de um lado da pequena esmeralda, e um abaixo da cobra do outro lado. Coloco-o em meu anelar direito, no lugar em que meu outro anel ficava e volto a sorrir para meus discípulos.

— A partir do momento que colocarem esse anel, farão parte oficialmente da agência de detetives Nêmesis. Não o tirem para mais nada, a menos que seja para trocar pela joia da equipe que forem liderar. Contudo, isso vai demorar um pouco. — Pisco meu olho direito para eles, em claro divertimento. — Ao menor sinal de problemas, dúvidas, estranhamento ou desconforto, podem me procurar e tentarei resolver. Aos que estiveram sob a responsabilidade de outro instrutor, caso não me encontrem, procurem Frederick Lewis.

Desencosto meu braço da janela, erguendo a mão para mostrar o dedo do meio, após ouvir a buzina mais uma vez.

— A equipe Lupus vai estar conosco, bem como as outras equipes. Só tentem se acostumar com os lobos, pois é provável que seremos quase uma única equipe devido ao meu costume de trabalhar com o Lewis. Se tiverem qualquer dúvida, aguardem chegarmos no ponto de encontro ou vou quebrar a cara do Fred, se ele buzinar mais uma vez. Até logo, queridos!

Ajusto a alça de minha mochila e logo direciono meus passos até o veículo mais a frente. Em resposta às buzinadas, bato a porta do passageiro com mais força do que o necessário, sorrindo para os três pirralhos no banco de trás.

— Bom dia, Ginny, Bruce e Anne! — Saúdo-os com animação, recebendo retribuição apenas de Anne. Havia certa tensão no veículo, mas resolvi ignorar isso por enquanto. — Desculpem estar no horário combinado e o motorista de vocês ser apressado e irritante. Prometo que a diversão vai compensar esse contratempo.

— Ainda estou aqui ratinha!

Ignoro seu comentário, trocando mensagens com Daisy e Arthur durante o caminho até o prédio da empresa. O ônibus nos esperava e alguns veículos haviam sido guardados no estacionamento subterrâneo.

— Vida! — Abraço minha irmã, que correu em minha direção de braços abertos, ao sair do veículo, acenando brevemente para os outros pirralhos que já estavam lá. — Vamos esperar só a chegada do micro-ônibus para todos acomodarem-se e partimos. Papa me ligou e atualizou sobre a situação no Solo. Sinto muito por você e Artie.

Sorrio de lado ao encarar seus olhos tristonhos, satisfazendo-me assim que escuto seu suspiro incomodado.

— Dispenso sua empatia, Isy. Não vou ficar feliz até mandar Narcisa para o hospital. De preferência, em coma e gravemente ferida.

Sigo até o ônibus, pegando a prancheta que Arthur me oferece logo após nosso abraço ser encerrado.

— Tente não machucar ninguém, Vida. Sei o quanto está furiosa com sua irmã, mas você está levando três Way para nosso recanto mais sagrado. Não estou com humor para aturar suas infantilidades e da Lola.

— Está tudo bem, Artie. Não vou me opor a nada do que seja proposto. O que não significa que irei deixar a traição de Narcisa passar em branco. — Entro no ônibus e coloco minha mochila em um dos assentos do fundo, retornando para a porta sem descer do veículo. — Nunca me interessei por ninguém, muito menos importei-me com a questão de um dia ter de seguir a regra de casar antes de completar trinta anos. O que me irrita é que nós tínhamos um acordo, proposto pela própria Narcisa, e ela quebrou. Somente por esse motivo pretendo quebrar a cara dela.

Assobio para chamar a atenção dos que já estavam presentes e dispersos pelo lobby, iniciando a chamada para que eles entrassem no automóvel. Somente minha equipe final, a de Fred e Hollie estavam completas. Apenas três pirralhos da equipe de Ian e outros três designados para Melanie aceitaram meu convite. A equipe de Damon ainda estava para ser definida e, se houvesse alunos o suficiente, Edgar os levaria depois.

Protea, uma de minhas primas mais novas, ofereceu-se para buscar meus colegas e levá-los direto ao Solo. Suspeitava que sua gentileza estivesse relacionada com algum interesse pessoal, porém não a pressionaria sobre isso agora.

Assim que os convidados estavam sentados, chamei os mais novos de minha família e, como já esperava, a menor de minhas primas e primeira a não iniciar carreira na agência ou na empresa, além de ser a única nascida no Brasil, recusou-se a estar no mesmo veículo que os Way.

— Arre égua! Tu tá se saindo mais diaba que a tua irmã! Tem certeza de que não estão fazendo aquela brincadeira besta de troca? — Os gritos de Caliandra faziam minha cabeça latejar, porém permaneci em silêncio. — Nam, minha filha! Eu é quem não entro nesse ônibus! Viajar com essa gentinha e ainda ter a pseudo xará como tua amiguinha?! É passagem só de ida direto para o inferno. Gosto muito de estar viva, obrigada. Vou no outro ônibus mesmo.

Limitei-me a olhar para Daisy, que visivelmente segurava a risada, em um pedido mudo que controlasse a flor do sertão. Para minha sorte, o micro-ônibus chegou em seguida e minha irmã levou a baixinha para entrar primeiro.

Suspirei antes de continuar a chamar alguns nomes que completariam as quarenta pessoas. Devolvo a prancheta para Artie e ele foi conferir os que estavam no outro transporte.

Encaro os rostos que tinham sua atenção em mim, assim que fiquei no corredor. Esse feriado seria um grande desafio e eu esperava apenas conseguir formar algum laço com minha nova equipe.

— Muito bem. Primeiro, peço desculpas pelo barulho feito por minha prima. Como já avisei meus pirralhos, os Storm não são os maiores fãs dos Way, então esse tipo de situação pode acontecer. Apenas ignorem. — Meus olhos passeiam pelos convidados, percebendo certo constrangimento em alguns e a diversão nos três membros da família citada. — Segundo, aos Storm, não espero menos do que a educação que receberam e que façam jus ao lema de nossa família. Portanto, comportem-se! — Viro-me ao sentir uma mão em minhas costas, abrindo espaço para que Artie fique ao meu lado. — Esse é Arthur Storm, Conselheiro da Décima Terceira Geração. Caso não me encontrem, podem procurá-lo. Algo a dizer, Artie?

— Apenas que não coloquem lenha na fogueira, se virem algum Storm discutindo ou brigando. — O tom de voz de meu primo era tranquilo para aqueles que não o conheciam, porém, eu sabia o tamanho de seu autocontrole e pude notar o cansaço que estava sendo escondido. — Isso serve para vocês também. — Seu indicador esquerdo apontou cada Storm que estava sentado a nos olhar. — Por tudo que é sagrado, não incentivem Lola ou Violet. Tio Paul está mantendo o máximo de tranquilidade. Não estraguem isso!

— Hey! Eu sou muito calma!

Lanço olhares mortais para todos os presentes, ao ouvir a risada estrondosa que preencheu o ambiente. Irritada, caminho até meu lugar e fecho os olhos, cochilando durante o caminho para não ter que me estressar antes da hora.

O toque áspero e um pouco morno em minha bochecha desperta-me do pequeno descanso. Murmuro insatisfeita, ouvindo uma risada rouca que faz todos os meus pelos arrepiarem.

— Vamos, ratinha! Já chegamos e falta somente nós descermos.

Aceitando a triste realidade, abro os olhos para visualizar o rosto de Fred, que estava próximo demais, antes de levantar e pegar minha mochila.

Ao descer do ônibus, respiro o ar puro que parecia haver apenas no Solo, sentindo-me renovada e animada por passar mais tempo no meu lugar favorito. Caminho até o grande grupo mais próximo ao automóvel, reconhecendo o carro de Protea estacionado em frente à fazenda.

— Bem-vindos ao Solo Sagrado! — Abro os braços, sorrindo para os jovens que examinavam os detalhes do local. — Essa é a fazenda Spring Storm! Depois de ser o lar oficial dos líderes da minha família nas últimas décadas, foi oficializada como nossa base. — Lanço um rápido olhar nos Way presentes, ponderando se deveria continuar e só encontro sorrisos nos rostos que, embora tentassem, não aparentavam inocência alguma. — Nosso Solo original ficava em Nova Iorque, o berço de meus ancestrais e onde ajudaram a fundar a agência que vocês trabalham agora.

— Então vocês são donos da Nêmesis?

Foi impossível conter a risada diante da pergunta de Scott Black, sendo acompanhada por Frederick. Balanço a cabeça em negativa, cessando os risos aos poucos.

— Não. Estamos mais para membros de honra. — Reflito um pouco sobre sua pergunta, tentando recordar se havia alguém que chegou a conhecer o dono. — Bem, até mesmo para nós a identidade dos donos da agência é um mistério. Acho que meu avô foi o último a conhecê-los. E isso foi apenas por causa do Dia Negro.

— O que seria esse Dia Negro? — A voz de Evangeline interrompe meus pensamentos.

— É o motivo para os Storm odiarem e serem odiados pelos Way. — Confiro mais uma vez os integrantes da família citada, em busca de qualquer desconforto e não encontro nada. — Muitos anos atrás, as duas famílias eram unidas e ficaram ainda mais próximas por causa dos casamentos arranjados. Até que uma parceria não deu certo e ambos tiveram grandes prejuízos no que mais prezavam. Os Way quase foram à falência e os Storm tiveram o Solo original incendiado, além da morte de quase setenta por cento dos membros e cavalos da família. Nunca se soube o que aconteceu realmente, mas uma família passou a culpar a outra e o ódio vem sendo transmitido através das gerações. Meus avôs, junto com um primo, integravam a tríade que liderava a família na época e aceitaram a proposta de abrir a filial aqui. Os Storm já estavam instalados em Eastmond, bem como os Way, então foi decidido apenas que seria mantida distância entre os descendentes.

— Violet, a presença do Steve, Ofélia e Edward não vai causar problemas com a sua família? — Dou de ombros para a pergunta de Aimee, apreciando o cuidado que a garota demonstrava desde que a conheci. — Vocês parecem à vontade com a situação, mas ficou claro que nem todos se sentem assim.

— Eles fazem parte da Nêmesis. Não importa a qual família pertencem, é uma tradição da nossa família receber os novatos da agência. Além disso, eles têm que obedecer a mim, minha irmã gêmea e o Artie. Nós aceitamos o pedido do presidente Simmons. — Passando por alguns jovens, caminho em direção à fazenda. — Agora vamos! Vocês vão ter a chance de conhecer os irmãos Phobos e Deimos.

— Phobos e Deimos? — Torno a sorrir ao ouvir os murmúrios animados às minhas costas. — Você está falando mesmo dos lendários irmãos que foram os líderes das equipes fantasmas?

— Sim.

Ainda sorrindo, continuei meu trajeto até a fazenda, abrindo a porta após subir os três degraus que davam acesso à varanda.

Dou dois passos para trás, tentando manter o equilíbrio ao ser abraçada por alguém. Levo um tempo para reconhecer os fios lisos e escuros, passando meus braços pela cintura do corpo magro e pequeno.

— ¡Buenas tardes, Sue! — Sussurro em seu ouvido, fechando ainda mais meus braços em torno de minha irmã caçula. — ¿Cómo estás, pequeña? Fazendo essas dietas malucas, com certeza. Está tão magrinha que sinto como se estivesse abraçando a mim mesma.

Ralho de brincadeira, notando o leve rubor em suas bochechas quando nos separamos. Minha mão vai até o topo de sua cabeça, verificando sua altura.

— Cresceu bastante desde a última vez que nos vimos.

— Nós paramos de crescer ano passado, Violet.

A voz carregada de zombaria e certa rebeldia em seu tom quebra meu pequeno monólogo com Susan. Meus olhos vão direto para a fonte da fala, me surpreendendo como duas pessoas podem ser tão iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Nem mesmo Lola e eu éramos tão distintas quanto Susan e Jasmine.

Os olhos azuis, herdados de papa, eram igualmente cristalinos; os narizes possuíam a mesma pequena curva na ponta, que deixava-os levemente arrebitados; as suaves sardas abaixo dos olhos e no queixo, que ambas escondiam com maquiagem, estavam nos mesmo lugares e eram na mesma quantidade; até a altura e formato do corpo eram exatamente os mesmos.

Minhas irmãs caçulas possuíam tudo para seguirem meus passos e os de Lola como gêmeas completamente idênticas, contudo, suas personalidades e preferências divergiam.

Susan estava vestida com uma saia leve e camisa de tecido fino, ambos de cores pastéis. Seu longo cabelo preto descia em poucas ondas por suas costas, muito parecidos com os de Daisy, e uma franja ajudava a compor sua imagem de boneca. Jasmine, não. A morena escorada no batente da porta que dava acesso ao corredor dos quartos passava uma imagem mais intimidante e provocante. Se não soubéssemos sua idade verdadeira, Jasmine poderia tranquilamente acompanhar Lola, Daisy e eu em nossas saídas.

Os fios tão negros quanto os de Susan estavam bagunçados, fazendo as pontas irem até os lábios pintados de um vermelho vivo. Enquanto nossas irmãs e eu gostávamos do cabelo longo, todas com o comprimento quase no quadril, a caçula tinha o seu em um corte Chanel. Como sempre, ela tinha um pirulito nos lábios, o que trazia um pouco de inocência para sua aparência. Sorrio ainda mais por ver o vestido preto, justo e curto de alcinha em seu corpo, parecendo uma segunda pele. Mama enlouqueceria se a visse recebendo os convidados vestida assim. E era exatamente por isso que ela era minha preferida.

— Não deve ter crescido o suficiente para deixar de me abraçar. Venha aqui, Minnie! — Assim que ela dá seus primeiros passos, percebo seus pés descalços e minha risada sai mais alta do que esperava. — ¡Te extraño todos los días, pequeña! ¿Cuando me vas a visitar?

— ¡Mentirosa! — Sua voz irritada me causa ainda mais risos. — Papa disse que você não tem tempo para ficar conosco. Só por isso prefiro morar com a Isy.

Passo o braço por sobre seu ombro, a puxando para meu lado ao me virar para a porta.

— Senhores e senhoritas, essas são minhas irmãs caçulas. Susan, a de cabelos longos, e Jasmine, esse anjinho ao meu lado. — Passando meu outro braço pelos ombros de Sue, inclino levemente a cabeça para a direita. — Pequeñas, esses são meus convidados e vocês vão ter tempo de conhecer cada um. Agora, se nos dão licença, preciso encontrar papa ou Narcisa.

— Eles estão nos estábulos, Vida. — Susan me informa e meus olhos se direcionam para ela. — Foram verificar os cavalos antes de ir ver a reforma do terceiro anexo. Mama está irritada e não é uma boa ideia ir vê-la agora.

Apenas meneio a cabeça em concordância, saindo da casa para levar o grupo até o segundo anexo, onde eles ficariam hospedados, e encontro Protea junto com Hollie, Ian, Melanie e Damon.

— Olha só quem resolveu deixar de ser um velho rabugento e curtir a vida!

— Dessa vez vou ter que te dar razão, Storm. — Damon responde minha provocação, exibindo um sorriso acanhado. Não havia muito do homem que gostava de me irritar por implicância, graças aos erros do irmão. — É uma das raras oportunidades de conversar com o velho Deimos.

Reviro os olhos com o efeito de sua frase nos novatos, contando mentalmente até dez para não gritar com eles devido aos cochichos e alguns gritinhos histéricos, como se eles fossem um grupo de fãs lunáticas às vésperas da apresentação do ídolo.

— Já chega! — Frederick perdeu a paciência antes de mim e grita mais alto do que eles. — Vocês são adultos e não adolescentes cabeças-ocas, então passem a agir como tal ou vou castigá-los para me divertir.

Nenhum som é emitido por mais ninguém, então aproveito a abertura para seguir até o anexo. Havia deixado minha mochila com Jasmine, já que meu quarto era dentro da fazenda, portanto tive que esperar eles guardarem suas coisas e decorarem quais seriam seus aposentos antes de ir até o estábulo.

Meu pai me nota quando faltavam cinquenta metros para que eu chegasse até onde ele estava. Seus braços se abrem e seus joelhos são levemente flexionados, em um claro convite para um abraço. Esquecendo por um momento as pessoas que estavam comigo, corro até o homem de um metro e noventa, pegando impulso ao ficar há menos de um metro dele e pulo em seus braços. Deito a cabeça em seu ombro para não ficar tonta ao ser rodopiada.

— Olá, papa!

Recebo o costumeiro beijo em minha testa ao colocar os pés no chão e logo passo pela inspeção de Don Paul Storm. Ao constatar que não há nenhum ferimento em mim, ele me abraça novamente.

— ¡Mi ventania! — Beijos em nossos rostos são trocados. — Deveria colocar você de castigo por demorar tanto a vir!

— A culpa não foi minha! Dessa vez. — Sussurro a última parte, voltando-me aos convidados. — Veja, papa, esses são os novos agentes. Minhas cobrinhas fieis são Evangeline, Aimee, Dylan e Steve. — Os quatro vão erguendo a mão, aparentando incerteza sobre como reagir. Seus sorrisos quase não existem e logo vão sumindo. — Edward era um lobinho, mas agora solta veneno. Ofélia e Seiji eram raposas. Minha equipe não é linda? — Tiro meus olhos de meus novos aprendizes para olhar meu pai, que sorria e bagunça meu cabelo em resposta. — Também foram minhas cobrinhas: Alec, Jacob, Annelise e Vladmir. Odette e Lis, o senhor já conhece.

Meus colegas apresentam suas novas equipes, bem como a formação anterior, despertando o interesse de meu pai. Damon, que estava mais calado do que os demais, uma vez que sua equipe estava indefinida e apenas quatro de seus aprendizes estavam presentes, aproximou-se e apertou a mão de meu pai.

— Como vai, Deimos? Parece que o tempo foi generoso com você.

O silêncio que se seguiu foi tão grande que era possível ouvir as batidas dos corações aceleradas. O som da risada de meu pai preencheu o lugar e ele deu dois tapinhas no ombro de Damon.

— Faz muito tempo que não sou chamado assim, pequeno Dam. Espero que essas rugas não tenham sido causadas por mi ventania. — Puxando Lola, que até então não havia notado a presença, e eu para suas laterais, meu pai continuou o diálogo. — O segredo de minha juventude está nessas duas flores, meu caro. Lola e Vida cuidam dos nossos negócios como ninguém! Então só me resta aproveitar minha aposentadoria.

— E Phobos? Soube que haveria um descendente dele na agência. Ainda estou surpreso que a Miss Simpatia seja sua filha.

— Tyler está dormindo agora. Quando ele acordar vamos preparar algumas brincadeiras pra vocês. — Um arrepio percorreu minha espinha ao imaginar o que meu tio estaria planejando junto com meu pai. — Quanto a descendência, dos cinco filhos dele, somente pequeno lírio seguiu nossos passos. Você deve conhecê-la como Katrina Lis. A propósito, onde estão os Storm que entraram nessa remessa?

— Não faço ideia, papa. — Respondo com sinceridade, já que não vi meu irmão e primos desde que desci do ônibus. — Tony deve estar com Isy; Oliver deve ter ido nadar no rio com Caliandra e Lis, bem, já deve estar correndo em cima de Hermes.

Suspirando em reprovação, meu pai permite que os visitantes conheçam a propriedade, informando que eles poderiam pedir ajuda a qualquer Storm e que o jantar seria servido em breve. Acompanho a dispersão das pessoas com o olhar, fingindo que minha irmã gêmea não existia.

— Façam as pazes antes da reunião. Já está sendo insuportável ter de lidar com sua mãe e seu tio discutindo. Aguentar vocês duas e os anciãos vai além das minhas capacidades físicas, mentais e emocionais. — Com a falta de resposta tanto de minha parte quanto de minha irmã, meu pai suspira e dá um passo à frente, virando para olhar em nossos olhos. — Minhas filhas, de todos os Storm da sua geração, é de vocês que mais orgulho-me. Não falo isso por ser seu pai, muito menos por ser seu líder anterior, mas por todo o trabalho que ambas vêm fazendo em conjunto. Nossa família cresce a cada dia e foi sob a gestão de vocês que aumentamos nosso Solo sem tirar espaço de nossos fiéis companheiros. — Seus olhos azuis como o céu de verão sem nuvens se direcionam para o estábulo atrás de nós. — Foi a união de vocês que fez os anciãos cederem para que a sua tríade liderasse em conjunto com a minha, antes de vocês completarem os trinta e cinco anos. Se perderem isso, não vão conseguir convencer nem mesmo sua mãe, quanto mais um grupo de velhos que possuem apenas nossas tradições como motivação para continuar vivendo.

Não tiro meus olhos da figura de meu pai em nenhum momento. Eu sabia que algo grave aconteceu para a decisão repentina de minha irmã, mas não conseguia encará-la. Sua feição abatida, ainda que ela sustentasse sua pose arrogante com maestria, era como um letreiro em neon apontando sua traição para mim.

— Até o mais vil dos homens merece um momento feliz.

Recito nosso lema em um sussurro, aproximando-me de papa para beijar sua bochecha e seguir até a fazenda, onde poderia tomar um banho e me preparar para o jantar.