Jar of Hearts
2 Parte II
Notas iniciais
Deu passos longos e furiosos no corredor, alcançou a escada com rapidez, e quando ia deixar a casa esbarrou em alguém que passava por ali.
− Cuidado! – Ruby escandalizou o pequeno incidente.
− Por que não olha por onde anda?
− Ora, se não é a Rainha Má, voltando aos dias de mau humor? – Ruby provocou.
− Não me faça perder tempo, Ruby...
− Eu sei como é isso. – Ela perguntou encarando a outra.
− Não sabe do que está falando...
− Eu sei sim, Emma é uma boa amiga... Eu seria cega se não visse.
− Emma, é muitas coisas para muitas pessoas.
− E daqui a pouco ela será casada.
− Percebeu isso sozinha também? – Regina estava ácida.
− Todo mundo comete erros, sabe...
− Do que está falando agora?
− Eu sei que Emma tem o costume de fugir das coisas... dos sentimentos... e eu sei também que você esteve em Oz, mas não estava fugindo.
− É melhor escolher com cuidado, as palavras que vai usar agora. – Regina ameaçou tomando uma postura mais defensiva.
− Eu sei que não contou a verdade a ela.
− Ruby, pelo bem da sua amiga noiva... – ela cuspiu a palavra noiva contrariada. – vai esquecer o que quer que você acha que sabe, o que quer que tenha visto.
− Eu não vou falar nada, não falei até agora... mas é ridículo o que vocês estão fazendo.
− Nem mais uma palavra, essa conversa acaba aqui. – Regina deu as costas e saiu pela porta.
− Quem você acha que encontrou você para entregar aquele convite. – Regina deu meia volta, e em tom de ameaça disse:
− Eu não sei o que você quer ganhar com essa conversa, mas me tirar de onde estava para entregar um convite não foi à decisão mais sábia que tiveram, na verdade chega a ser meio sádica, todo esse circo já não é o bastante?
− Não seja tola! Ela tentou encontrar você antes, e ela sequer faz ideia da história completa... Não está sendo justa, acha que seu orgulho vale tudo isso?
− Não vou discutir isso. E está avisada, Ruby mais uma palavra sobre isso e eu terei que mostrar porque me chamavam de Rainha Má.
− Beleza. Eu tentei, espero que não se arrependa disso.
E então Regina se foi.
Enquanto isso no andar de cima, Emma beirava o histerismo.
− Eu não posso fazer isso. – Disse encarando sua mãe.
− É normal ficar nervosa...
− Não, não é isso, eu me precipitei e fui horrível, eu apenas não posso.
− Emma, pode se arrepender disso mais tarde.
− Não, eu preciso fazer uma coisa.
− Vai se casar? – Snow estava ansiosa, não esperava essa reação de Emma.
− Pode chamá-lo aqui? – Emma pediu.
− Seu pai?
− Não, Killian.
− Não dá sorte ver a noiva antes...
− Eu sei, mãe, não vai haver casamento, pode chamá-lo aqui?
Levou alguns minutos até que o pirata cruzasse aquela porta, apenas para encontrar uma Emma arrasada.
− Amor, o que foi? – Ele perguntou assustado.
− Killian, eu tenho coisas a serem ditas e peço que me deixe falar antes de dizer qualquer coisa.
− Está bem, fale. – Ele se deu por vencido.
− Eu não posso me casar. Eu cometi um erro quando aceitei isso, cometi um erro em pensar que poderia seguir em frente com você. Você deu o máximo de si, e sei que é muito valoroso tudo o que fez, mas merece ser feliz, e sei que não poderei garantir sua felicidade. Eu estou deixando você livre. – Ela disse de uma vez, esperando segundos para que o homem a sua frente processasse tudo.
− Está me dizendo, que não me ama?
− Já amei, mas hoje não mais.
− Esperou chegar esse momento para me dizer isso? Não poderia ter feito antes?
− Eu sinto muito.
− Emma, eu amo você. E farei o que for para garantir sua felicidade, isso é amor, mas eu só preciso saber... Se está fazendo isso por medo, podemos cancelar e dar um jeito em tudo.
− Eu não estou com medo, bem, estou, mas não por isso.
− Regina? Aquilo não foi apenas uma aventura, não é?
−Não.
− Ela sabe?
− Eu a perdi, a magoei, a afastei.
− Eu não vou mentir e dizer que estou feliz... mas eu vou sobreviver, só tem uma coisa, eu não vou assumir isso para os convidados. – Ele disse dando as costas para Emma. – Na verdade, eu sou corajoso pra fazer isso, mas acho que é sua vez de ter uma atitude de coragem. – E ele a encarou uma última vez antes de partir.
Levou alguns minutos para que Emma descesse. Ainda em seu vestido branco, caminhou até o altar como se estivesse mesmo se casando. A ansiedade tentava fazer com que ela tropeçasse, mas manteve-se calma o suficiente para ir à frente de todos.
− Eu quero agradecer a presença de todos aqui hoje. – Disse em voz alta para que todos pudessem ouvi-la. Em seguida muitos olhares de pena e cochichos se espalharam entre os convidados. – Eu queria contar-lhes uma história.
“Há um tempo, eu pensei ter encontrado meu verdadeiro final feliz. Eu amei uma pessoa, e ela me amou de volta. E estava tudo bem por um tempo, mas eu senti que a minha escolha fosse desapontar as pessoas, meu filho Henry, meus pais, meus amigos... a todos em Storybrooke. Então eu fugi, porque fugir parece à coisa mais fácil a se fazer. Então, aqui estava eu... Noiva e prestes a casar. Eu magoei uma pessoa pra chegar aqui hoje, a mesma pessoa que eu prometi amar e cuidar, e eu perdi o amor da minha vida. Não haverá casamento porque eu não posso me casar com alguém que eu não amo. Então a cidade terá bastante assunto para comentar por um tempo.” – Emma disse deixando a todos surpresos com suas palavras.
Já havia se virado para ir embora, quando tornou a voltar-se para os convidados.
− E só para que vocês saibam, eu amo Regina Mills, e se ela estiver ouvindo, sinto muito, sei que não tenho perdão, mas pela primeira vez estou fazendo a coisa certa.
Burburinhos começaram por todas as partes, as pessoas estavam surpresas pela revelação de Emma.
− Emma! – Snow chamou indo atrás de Emma no meio da multidão. – Nunca pensou em me contar tudo isso?
− Não achei que fosse aprovar. – Ela disse nervosa.
− Eu não tenho que aprovar você, eu sou sua mãe, vou amá-la incondicionalmente.
− O que eu faço agora? – Emma disse perdida.
Snow não disse nada, procurava as palavras certas para dizer a sua filha, mas não parecia capaz de encontrá-las.
Emma deu alguns passos se afastando. Sombras de confusão cobriram seus olhos, e sem pensar mais deu as costas e correu sem direção. Já estava próxima da praia quando os tecidos do vestido a impediam de correr direito. Correu sem rumo pela areia, quando tropeçou em seus próprios pés e caiu envolta ao excesso de tecidos. Agitou-se tentando desfazer todo o emaranhado daquela bagunça, quando se virou de costas para o chão. Seu peito arfava em busca de oxigênio, e seus olhos embaçaram com as lágrimas.
Não era apenas um embolado de tecido, era um embolado de sentimentos confusos e emoções bombardeando-a incessantemente. A sensação de desconhecido, de se olhar no espelho e não se reconhecer. Anos criando uma imagem de como a vida deveria ser, de como ela seria, de quem se tornaria, passo a passo, e agora tudo era controverso. Tantas respostas soltas, e perguntas mal feitas, tantas decisões para tomar e muitos olhares atentos ao que ela faria. Mas agora o palco estava vazio e os holofotes apagados, Emma estava sem sua plateia, era hora de se permitir desmoronar, se permitir a confusão e a dor de perder. E chorou, chorou como jamais havia chorado, não por culpa de Regina, mas porque ela não sabia se deveria haver um culpado, se deveria haver esse sentimento de culpa.
Desde criança aprendeu que amar era bom, mesmo sem receber amor algum, sabia que amar era uma coisa nobre, porque você não precisava ser amado de volta para poder amar de verdade. Mas agora ela se julgava por amar o desconhecido, o socialmente proibido, e os sentimentos da noite em que rompera com Regina voltaram à tona. E então não sentiu culpa, mas sim medo. Emma teve medo de se permitir ser sincera consigo mesma.
Naquela praia, a muitos metros de distância de onde deveria estar acontecendo sua festa de casamento, ela se esvaziou.
− Eu a amo, e ela se foi. – Pronto, estava dito, uma vez dito em voz alta, aquilo se tornara realidade. – Lide com isso.
Segurou os soluços que ainda lhe escapavam, não era o fim do mundo, não era a primeira nem a última pessoa a sentir o que estava sentindo. Percebeu por um momento que aquilo não era ruim, não era um fim, nem mesmo uma tragédia. Precisava apenas colocar os pensamentos em ordem e perceber que, aquilo não iria lhe machucar.
− O amor não machuca. O amor não machuca. O amor não machuca. – Começou a repetir em voz alta para se convencer.
Aos poucos foi se recuperando de seu súbito ataque de histerismo.
− Eu achei que você fosse sufocar no próprio choro. – A voz de Regina surgiu entre as pedras.
− E-eu achei que você tivesse ido.
− Eu tinha pra falar a verdade, eu voltei pra pegar uma coisa, e não pude deixar de ouvir uma parte do seu discurso de casamento.
− Não teve um casamento.
− Eu sei. Eu percebi isso durante seu discurso, e tive certeza depois que te vi correr uma maratona.
− Então, o que faz aqui?
− Eu corri atrás de você, não é óbvio?
− Eu entendo, realmente entendo Regina. – Emma ainda estava jogada no chão.
− Não, não entende. – Regina disse olhando de cima para a outra no chão.
− Eu causei isso tudo.
− Bem, você pode ter começado, mas não foi à única responsável.
− Do que está falando?
− Antes de você e eu, você sabe... Eu estive em Oz. – Emma estranhou a confissão de Regina.
− E o que teria de errado nisso?
− Eu descobri uma possível chance de trazer Robin de volta.
− Você o ama.
− Eu o amei muito. – as duas concordaram. – E então descobri que poderia haver uma maneira de trazê-lo de volta.
− E por que não o fez?
− Eu fiz, mas algo deu errado. O que vem ao caso é que eu tive que dar meu coração por uma chance, e isso significava não poder estar com mais ninguém. Robin e eu estaríamos atados um ao outro por esse feitiço.
− E você o fez... Eu não entendo.
− Eu fiquei cega com a chance de trazê-lo de volta, não estava pronta quando ele partiu, e não estava pronta para parar de tentar encontrá-lo. Meu coração não era forte o bastante para o feitiço.
− Você fez isso enquanto, estávamos juntas?
− Sim, só não contei porque não havia dado certo.
− Me deixou carregar a culpa de ter acabado com você para ficar com Killian, quando você já havia feito uma escolha diferente.
− Sim.
− Vadia. – Emma disse incrédula.
− Eu sei. – Regina disse. − Não muda o fato do que você fez, e eu quase cometi um terrível engano.
− Trazer Robin seria um erro?
− Seria um erro estar atada a ele, não quando eu iria querer estar com outra pessoa.
− Parece que temos milhões de razões para não estarmos juntas. – Emma concluiu.
− Mas, se houvesse um bom motivo...
− Não há um motivo. Você me ouviu lá trás. Eu a amo, e por isso cometi erros. – Emma a encarou com intensidade.
− Talvez seja hora de apenas, não insistir.
− Você vai fugir? Sabia que Henry ainda não a perdoou por isso?
− Henry e eu, saberemos encontrar um caminho para concertar tudo.
− Pretende concertar mais alguma coisa?
− Eu não sou boa em concertar as coisas... – ela a fitou. – Não sozinha. – Regina enfim estendeu a mão para que Emma se levantasse.
− Talvez, eu possa encontrar um caminho com você também.
− Eu esperava que você pudesse me dar um bom motivo pra ficar.
Encaram-se por alguns segundos em silêncio. Regina achava que jamais voltaria a estar onde estava, que jamais sentiria as borboletas agitarem-se em seu estômago outra vez.
− Regina Mills, eu prometo...
− Chega de promessas. – Ela disse finalmente encurtando a distancia entre seus corpos e a beijando.
− Chega de fugir. – Emma sussurrou com seus lábios juntos aos de Regina.
− Chega de fugir. – A outra concordou sorrindo.
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