Janela Para o Inconsciente
2 Capítulo 1 - Eu me lembro de...
Notas iniciais
21 de Outubro de 1995
Era outono. Mamãe varria o tapete de folhas alaranjadas no quintal enquanto cantarolava com o som doce e suave de sua voz. Eu tinha três anos de idade e estava a observando e rabiscando em uma folha de papel branco, essa é minha memória mais antiga. Foi meu primeiro “episódio”.
Já havia começado a escurecer, o que significa que papai chegaria do trabalho em pouco tempo. Mamãe me mandou entrar e foi logo atrás.
Mamãe e eu preparávamos o chá. Mamãe olhava freneticamente para o relógio na parede de azulejos amarelos da cozinha, tentando esconder sua preocupação. Já estava escuro. Minha mãe serviu o chá e pingou meu remédio nele. Ela acha que eu não sabia que o chá estava com remédio... Mas eu nunca soube para que servia o medicamento.
A mulher na televisão gritava. “Cinco!” dizia ela, após pegar uma bola entre várias outras. E eu tomava o chá, devagar. “Oito!” gritava mamãe, torcendo para que a mulher da televisão repetisse. E assim foi. Mas mamãe ainda olhava para o relógio. A essa hora papai normalmente já teria chegado. “Oito!” gritava a mulher loura com a voz estridente. Os olhos da mamãe brilhavam. “Dez... Dez...” O tique taque do relógio ficava cada vez mais alto e meus olhos se fechavam a cada tique e tentavam continuar abertos a cada taque. Eu tinha que entregar o desenho para o papai... Eu não podia dormir!
Meus olhos se fecharam completamente por um bom tempo, mas eu relutei e consegui ficar acordada para ouvir o último número. “E vinte e sete!” gritava a apresentadora. “Droga!” repetia mamãe. “Droga, Richard!” repetia mamãe, dessa vez mais alto. “Droga, Richard, cadê você?” gritou, batendo com a mão direita na mesa, fazendo um barulho que me fez abrir os olhos de novo. Eu não aguentei, acabei dormindo no sofá.
Me lembro de acordar no quarto, mas ainda não era hora de acordar. Eu acordei com um grito da mamãe. Esforcei-me para ouvir o que ela dizia. “Isso são horas? Onde você estava?” Então eu abri a porta, com meu ursinho na mão arrastando no chão, fui até as escadas e desci um degrau. “Você tem uma filha, Richard!” Eu desci mais um degrau... “Eu dou o meu melhor nessa casa, e você não valoriza!” Eu desci mais um degrau... “Cala a boca!” dessa vez era meu pai, e o tom de voz dele me assustou. Mas eu desci mais um degrau. “Eu estava com a Elizabeth, sim. E quer saber?”. Desci o último degrau. “Eu a prefiro!” achei que seriam as últimas palavras que ouviria do papai. Ele pegou sua maleta e saiu, batendo a porta. Mamãe chorava, desconsolada. E eu deixei meu ursinho cair, atraindo seu olhar para mim.
— Amy? O que está fazendo acordada?
— O papai foi para onde?
— Eu não sei... — respondeu ela, me abraçando forte. Quando ela me soltou, fui até o sofá da sala e peguei o desenho que eu havia feito para o papai. Então eu mostrei para mamãe, apontando o que os rabiscos significavam.
— Esse aqui é o papai... Essa é você... E aqui sou eu! Gostou? — Perguntei, entusiasmada. Eu não sabia o que estava acontecendo.
— Muito, querida... Mas eu acho que as coisas vão ser diferentes agora. Os seus desenhos não vão mais ter o papai.
— Quem é Elizabeth? — Questionei, revirando os olhos de sono, mas tentando entender o que havia acontecido. E deixando claro que eu ouvi a discussão.
Mamãe não respondeu. Apenas me pegou no colo e me ninou, até me colocar de volta na cama.
Lembro-me de acordar no dia seguinte com a luz do Sol batendo forte em meus olhos. Levantei e fui até a cozinha, aonde mamãe preparava o café da manhã e papai esperava na mesa.
— Bom dia, Amy!
— Papai? — Perguntei, surpresa.
— Sim, querida! Venha aqui, estou esperando o café ficar pronto!
Desconfiada, caminhei até meu pai, encarando-o de uma maneira estranha. “Papai, quem é Elizabeth?”. Ele pareceu constrangido. “É a nova secretária do papai!” gritou minha mãe, da cozinha. Papai ainda olhava pra mim assustado. “Eu a contratei hoje, meu doce. Ela é amiga da mamãe.” Dizia ele, dessa vez mais calmo. “Então por que você estava com ela? Você a prefere?” perguntei baixinho. Papai ia responder, mas o café estava chegando nas mãos delicadas da minha mãe. Ela perguntou se papai havia me falado sobre Elizabeth, mas ele negou. O mesmo com mamãe. Então os dois me encararam da maneira mais estranha que alguém já me encarou.
— Como você sabe da Elizabeth, meu amor? — Perguntava mamãe.
— Bom... Papai falou ontem, antes de sair batendo a porta.
— Ontem? Eu não entendo...
— Ela deve ter sonhado! — Interrompeu papai.
— Mas é estranho que ela tenha sonhado com isso...
— Mamãe, você até chorou ontem!
— Eu? Querida, você ainda deve estar sonolenta...
E o dia correu normal, como se nada tivesse acontecido ontem. Como se o papai não tivesse gritado, como se a mamãe não tivesse chorado. Como se eu não tivesse visto. Mas eu vi, eu sabia disso. Eu sabia que não era um sonho!
Duas semanas depois, eu acordei no meio da noite outra vez com o choro alto da minha mãe. Ela me disse que papai havia escolhido Elizabeth e que as coisas seriam diferentes daqui para frente, assim como semana passada. E no dia seguinte, papai não voltou.
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