Janela
1 Sete Anos
As rodas de madeira do caminhão colorido, de tinta já descascada, rolavam pelo tapete da sala, empurradas pelas mãos magrelas de um menino de, talvez, sete anos, que imitava o barulho do automóvel com a boca. Vários outros brinquedos o cercavam, todos largados pela sala, em volta da criança e seu caminhão.
Era um aposento bem decorado, com um ar de casa da vovó. Poltronas confortáveis cercavam o tapete, e uma estante com uma televisão um tanto antiga e várias fotografias ocupava toda uma parede. Numa das paredes havia uma janela, que estava sempre fechada.
Assim ficava, pois havia perdido seu propósito quando uma grande construtora demolira a casa antiga que ali ficava, e em seu lugar erguera um enorme prédio de mais de trinta andares. O tal prédio era tão alto que não deixava entrar luz pela janela.
A mãe do menino estava sempre reclamando disso, dizendo que a sala ficara abafada, que era desagradável, que ela iria se mudar. A criança não entendia muito bem o por que disso, uma vez que a mulher nem sequer parava em casa pra ter tempo de se incomodar com falta de ar ou luz em um dos seus aposentos. Ele, por sua vez, não se importava muito com isso; tinha coisas mais no que pensar do que naquele janela idiota.
Mas toda a indiferença do pequeno pela janela estava para mudar, é o que você vai ver.
- Ryan, querido, você está com fome? Acabei de tirar biscoitos do forno – uma voz doce ecoou pela casa, vinda da cozinha. Era Julie, sua babá.
Embora Ryan, do alto dos seus sete anos, insistisse que não precisava de uma babá, sua mãe não se convencia. Enquanto ela trabalhava, Julie cuidava da casa e do menino.
Ryan ergueu seus olhos para a porta da sala para responder Julie, e foi quando algo anormal chamou a sua atenção. Havia luz, e uma luz muito forte, vinda da janela da sala.
Impossível, o garoto pensou, levantando-se de pronto e esquecendo completamente de responder à babá. Corajoso e curioso como era, o homem da casa, nem pensou duas vezes ao dirigir-se até a cortina para afastá-la e descobrir qual era a fonte dessa luz tão forte.
Sua imaginação voava, é claro. Pensou em aliens, em bruxaria, em viagem no tempo e em mundos paralelos. Assim que estava suficientemente próximo, estendeu as mãos para a cortina, e iria abri-la quando...
- Ry, querido, está tudo bem? – ouviu a voz de Julie agora mais próxima, indicando que ela estava na sala também. Automaticamente, ao ouvir seu nome, virou-se para a mulher.
Seus cabelos loiros estavam presos em uma trança malfeita atrás da cabeça, e ela usava um vestido azul claro de cintura alta, com um avental branco, e meio sujo, por cima, e sapatos de boneca também brancos. Seu rosto estava meio cansado, mas ainda assim ela sorria, doce.
Ryan fez que sim com a cabeça, e logo se lembrou do que estava fazendo. Virou-se para a janela, mas a luz sumira. Puxou a cortina rapidamente, e ela apenas revelou a costumeira parede de pedra, que nunca deveria ter saído dali.
O menino franziu o cenho, ficando nas pontas dos pés para aumentar seu campo de visão lá de fora. Sentiu as mãos de Julie em seus ombros, enquanto ela se abaixava para falar com ele.
- O que foi, querido? Não há nada aí! Venha, seus biscoitos vão esfriar, você gosta deles quentinhos, certo? – e levantou-se, puxando a criança pela mão.
Ryan ainda olhava por cima do ombro quando deixou a sala, mas nenhuma luz vinha da janela agora, ela parecia bem fechada.
O garoto permaneceu intrigado com isso por todo o tempo que Julie o manteve na cozinha, dando-lhe biscoitos e leite, e tagarelando sobre o tempo, e a radio novela, e a vida dos vizinhos. Assim que pode sair sem que fosse suspeito, o pequeno correu pelo corredor até a sala, seus olhos indo diretamente para a janela. Que estava fechada e escura.
Mais uma vez, foi até lá. Empurrou um banquinho, para poder ver melhor. Olhou para cima, para os lados, para baixo e tudo que viu foi apenas a parede de pedra do prédio ao lado. Como sempre. Nada demais. Começou a pensar que fosse só a sua imaginação, reflexo, ou qualquer coisa. Mesmo assim, manteve um olho na tal janela pelo resto do dia.
Julie foi embora às cinco. Deu-lhe um beijo estalado e molhado na testa, disse que havia biscoitos no pote vermelho, e comida para esquentar na geladeira, caso ele precisasse, mas que em hipótese alguma ele deveria se aproximar do fogão, era para esperar sua mãe chegar. Meio impaciente, ele concordou. É claro que Julie era um tanto super protetora, e que Ryan reclamava muito disso, mas ele gostava. Ela era como as mães de seus amigos. A mãe que a mãe dele não era.
Aliás, a mãe de Ryan ligou uns minutos depois, dizendo que teria que ficar até tarde no trabalho, e que não era pra ele comer porcarias ou ir dormir muito tarde. Ele até gostava disso, mesmo que se sentisse sozinho às vezes.
Mas ele não podia culpá-la. Eram tempos difíceis. Depois que o pai dele falecera naquele terrível acidente de carro, a mulher – que sempre fora dona de casa – tivera que começar a trabalhar para sustentar a família. Era secretária de um executivo qualquer, e fazia dinheiro suficiente para que não passassem fome. Até levavam uma vida boa, para uma família sustentada por uma mulher, naquela época.
Mas às vezes o tal executivo tinha uma viagem, ou algum assunto importante a resolver, e era a mãe de Ryan que fazia todo o trabalho. O menino já estava acostumado a ficar sozinho; as horas extras e as viagens eram comuns, e não havia dinheiro para pagar Julie além do horário, para que ele não ficasse sozinho.
Sabendo que a mãe não voltava cedo, o menino fez exatamente o que ela havia aconselhado que ele não fizesse. Trouxe um colchão e o pote de biscoitos para a sala, e ficou assistindo à televisão até tarde – coisa que ele não era permitido fazer quando a mãe estava em casa.
Enquanto assistia ao filme preto e branco que a tela exibia – e do qual ele não estava entendendo nada, já que não era indicado para sua idade – aquilo que acontecera à tarde aconteceu novamente. A luz na janela se acendeu, como se o sol brilha-se lá fora, mesmo que já fosse noite.
As coisas à noite podem parecer muito mais assustadoras, veja bem, ainda mais quando se está sozinho. Ryan recuou, protegendo-se inocentemente com suas cobertas.
A luz da janela piscou algumas vezes, e a cortina mexeu-se, como se tivesse vento vindo dali. Lentamente, sem fazer barulho, o menino se levantou e começou a caminhar através da sala. Quando estava meio próximo, ouve-se um estrondo, e um homem caiu pela janela – se vindo Ryan não sabia de onde – xingando ao bater com o joelho no chão.
O homem rolou, levantou-se e apontou uma estranha arma comprida, que emitia uma luz meio esverdeada, para todos os lados. Logo, deu de cara com Ryan, que estava dividido entre o medo e a curiosidade. E a vontade de rir, claro, o homem movia-se de forma meio engraçada.
- Quem é você? – o estranho perguntou, abaixando a arma e erguendo uma das sobrancelhas. A luz da televisão iluminava seu rosto, exibindo seus grandes e brilhantes olhos castanhos, e lábios cheios entreabertos, mostrando dentes bem alinhados. Seus cabelos escuros eram tão bagunçados que parecia proposital.
- Ryan – respondeu o menino, prontamente, um tanto amedrontado – sou Ryan Ross. E quem é o Senhor? Como acaba de entrar pela janela tampada da minha sala?
- Em que ano estamos? – perguntou o homem.
- 1950, é claro, por onde o senhor tem andado? – perguntou a criança, meio incrédula – Quem é o Senhor?
- Sou Brendon – respondeu o homem, virando-se para todo lado para observar bem a sala – onde eu estou?
- Está na sala da minha casa – respondeu o menino, exasperado, jogando-se no sofá. Perdera o medo do homem. Ele não era assustador. Era engraçado, e desengonçado, e bastante mal informado. Era divertido. E por algum motivo, Ryan sentia que podia confiar nele.
- Sim, sim, isso eu deduzi – respondeu o homem, parando de observar o aposento e virando-se para o menino – mas onde é que você mora?
- Las Vegas – respondeu Ryan – Estados Unidos. O senhor é algum tipo de alien? Viajante no tempo? Veio de um mundo paralelo? O senhor existe mesmo, ou é só fruto da minha imaginação? Como é que veio parar aqui? Quem é o senhor afinal?
- Pare de me chamar de senhor, me faz sentir velho – respondeu o homem, e, sorrindo largamente, disse – eu sou real, é claro, não está vendo. Existo mesmo – apalpou os próprios braços, como que para provar — E... por deus, Ryan, é esse seu nome? – Ryan assentiu — Você me fez muitas perguntas, nem consigo me lembrar.
- Como é que veio parar aqui? – repetiu Ryan prontamente.
- Você nem iria acreditar – disse o tal Brendon, passando as mãos pelos cabelos, e sorrindo largamente de novo.
- Me teste – desafiou Ryan, sério.
Brendon sorriu de novo, e disse:
- Acredito que tenha uma fenda no espaço tempo ligando a sala da sua casa em Las Vegas, Estados Unidos nos anos 50, e os meus Estados Unidos. Do século XXI.
- Você é do século XXI? – perguntou o menino, interessado e boquiaberto.
- Sou, e isso não é bom – respondeu o homem, seu sorriso desaparecendo subitamente — Preciso arranjar um jeito de fechar essa coisa, antes que algo ruim aconteça.
- Que é que pode acontecer?
- Eu não sei.
Ele parou de prestar atenção no menino e começou a analisar a casa. Saiu para o corredor, e Ryan o seguiu. Olhou pela janela, para a rua lá na frente e murmurou:
- Tudo parece normal – de repente, virou-se para o menino – Me diga, Ryan, mais alguma coisa além de mim já saiu da janela? Ela já se abriu alguma vez?
- Não, eu acho que não. Ela acendeu por uns segundos hoje a tarde, foi só.
- Hm, ok.
E começou a caminhar rapidamente de volta a sala. Quando Ryan chegou lá, ele já passava uma perna para o outro lado da janela.
- Espere! Aonde você vai? Fique aqui, me conte o que está acontecendo! – exigiu o menino, batendo o pé.
- Eu já vou voltar, prometo – disse, passando a perna de volta para a sala, e indo até Ryan e se abaixando para ficar da sua altura – com uma fenda no espaço tempo bem no meio da sua sala você não está seguro – disse, passando as mãos pelos cabelos castanhos do garoto – eu vou voltar pra fechar isso aqui, já disse. E pra te manter em segurança.
Dizendo isso, foi até a janela. Pulou para o outro lado, e, por uma última vez, seu rosto apareceu na janela dizendo:
- Eu já venho, é sério – e sorriu amplamente de novo, antes de desaparecer atrás das cortinas.
O pequeno Ryan correu até a janela, abrindo as cortinas novamente, mas de novo, tudo que havia atrás delas era uma parede de concreto. Com um muxoxo de desapontamento, ele foi até o colchão, e sentou-se, olhando para a janela fixamente.
Mas o tal cara, Brendon, não voltou e a janela não acendeu novamente, embora seus olhos não tivessem desgrudado dela por um segundo, até que, lá pelas dez horas, a mãe do menino chegasse em casa e ralhasse com ele por estar acordado.
À noite, Ryan sonhou com seu amigo imaginário, talvez não tão imaginário assim. Sonhou que passava pela janela, e Brendon o levava para ver um mundo onde os carros voavam velozes em volta de grandes e finos prédios que chegavam às nuvens, igual num filme que ele vira em uma das noites que a mãe teve que trabalhar.
Mas ainda assim, nem naquela noite, ou nas várias próximas, Brendon não voltou.
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