Jane
2 Distante...
Notas iniciais
Ele não prolongou a conversa com Zapata. Tinha urgência em desligar e agir. Precisava conseguir resgatar suas passagens aéreas e voar de volta para NYC ainda naquele dia.
O contato telefônico foi desanimador. Voos lotados naquele domingo. Mas isso não o impediu de ir até o aeroporto com sua mala e tentar algo pessoalmente. Só faltou implorar para a balconista. Conversou com os gerentes das empresas aéreas. Rezou para que alguém desistisse de embarcar na última hora.
Foi em vão. Nenhuma desistência. Após quase três horas ali em tentativas frustradas, Kurt se deixou arrastar por Allie para fora do aeroporto. Era hora do almoço. Bethany estava com fome e não havia mais nada que pudesse fazer ali.
Não tocou na comida do prato. Sua atenção estava totalmente nas conversas que realizava via chat tentando um voo que partisse de Aspen ou Colorado Springs. Mas que merda! Por que todos esses voos estavam lotados?
— Kurt, olha pra mim! – Allie exigiu. – Você vai embarcar amanhã antes das 6 horas da manhã. Acalme-se!
Ele rosnou algo em resposta aceitando sua triste sina. Voltaram para a casa de Allie. Procurou focar a atenção na filha a partir daí enquanto pedia novas informações sobre Jane aos amigos. Tudo que diziam é “está tudo bem” como se isso fosse suficiente. Mas como exigir mais deles? Já estavam fazendo muito.
O tempo escureceu no final da tarde daquele domingo. Enquanto a pesada chuva castigava as vidraças, sua alma se encharcava de medo. Isso precisava passar, aquele voo tinha que partir na manhã seguinte.
Cada vez mais calado, reduziu a comunicação a expressões monossilábicas e rosnados incompreensíveis enquanto caminhava inquieto pela casa. Allie o observava e recordava que Kurt sempre se fechava nessa concha incomunicável, foi assim nas três tentativas que tiveram de ter um relacionamento. O sexo era ótimo, mas ele inatingível. Ela nunca entendeu como Jane rompeu as barreiras dele com tanta facilidade e ainda repetiu isso mesmo após o decepcionar.
Madrugada adentro, Kurt acompanhou o vento lá fora uivando tanto quanto seu coração aflito. Sempre teve a certeza que tentar dormir seria desperdício de tempo. Mas vestiu o pijama para fingir normalidade diante da filha.
Às 4h30 ele já estava com a mão na maçaneta da porta principal quando Allie o deteve:
— Você não pode sair. Tem uma tempestade lá fora.
— Eu preciso, Allie.
— Não é seguro, Kurt. Além disso, se o tempo continuar assim provavelmente o voo será cancelado.
Havia anos que o meio-oeste do Colorado não era atingido por uma tempestade tão violenta. O alerta de tornado estava em todos os sites. Inferno! É lógico que ele sabia. Tinha conferido o avanço da tormenta hora a hora. Seu voo foi cancelado há 5 minutos, por isso ele precisava deixar a casa já.
— O voo foi cancelado. Vou alugar um carro e dirigir até lá.
— É claro que vai... – Allie disse de forma irônica. – Então, você vai pegar estrada mesmo sabendo que um tornado pode estar se formando lá fora? São mais de 26 horas de carro, Kurt. – questionou já sabendo a resposta e viu a postura firme dele dizer mais que palavras. Ela precisava encontrar uma forma rápida de dissuadi-lo. Kurt era tão teimoso. Como Jane conseguia? E a pergunta lhe trouxe a única possibilidade real de convencê-lo a ficar. – Ok. Faça isso. Alugue um carro e pegue a estrada. Jane com certeza iria amar a sua ideia.
Kurt deu as costas pra Allie e levou a mão de volta à maçaneta disposto a sair pela porta. Jane... Jane... Ele precisava estar com Jane. Primeiro veio a sua mente a expressão de reprovação que ela usou no dia em que Patterson virou a noite trabalhando no apartamento do casal. Depois outra lembrança se seguiu. Os dois na Times Square, minutos antes de desativarem a bomba de ZIP. A voz dela era tão nítida que parecia real:
“- E se eu trouxer o caos para sua vida?”
— Não! – ele rosnou baixinho, deixando o desespero da vontade de provar a ela que estava errada escapar. “Você só me trouxe amor, Janie. Eu quero viver cada segundo com você mais que tudo” pensou apertando os lábios e sugando o ar para se acalmar. Sua mão soltou a maçaneta em desistência. Colocar sua vida em risco só reforçaria a dúvida dela e como convencê-la a ficar depois disso? Ela acordou. Eles teriam uma segunda chance. Ele precisava provar que ela estava errada. Até essa maldita tempestade passar, ele ficaria no Colorado.
Ao passar por Allie, precisou falar:
— Ela está sozinha lá. Eles precisam trabalhar hoje.
— Kurt... não se cobre tanto. Você sabe que os danos no cérebro dela foram extensos. Jane ter acordado não significa que seja capaz de realizar qualquer tipo de atividade cognitiva. É um estado vegetativo.
Ele expirou insatisfeito. Allie tinha muitas qualidades, mas esse seu lado racional sempre o afastou dela. Ela não enxergava a complexidade das coisas, os detalhes que fazem a diferença.
— Não importa! Prometi que estaria ao lado dela. Se eu passar o resto da minha vida cuidando dela e da nossa filha, vou ser mais feliz do que em qualquer outra vida sem eles.
E saiu pisando duro em direção ao quarto.
Um tornado F4 com múltiplos vértices. Centenas de mortos. A torre do aeroporto danificada. Crateras nas autoestradas inviabilizavam a passagem. Por mais que ele olhasse ao redor e procurasse alternativas, todas terminavam em nada.
Kurt aguardou na sua resiliência inquieta. Fera enjaulada, contrariado pela vida, insatisfeito com o destino. Ao final da primeira tarde, nem Bethany conseguia muita coisa dele. Allie pela primeira vez desejou que ele partisse em breve.
Seu embarque para NYC só aconteceu na quarta-feira. Allie e Bethany o acompanharam. Ela estava realmente preocupada com o desfecho de tudo aqui. Não conseguia ser otimista com os acontecimentos. Achava que o reencontro jogaria Kurt numa triste realidade e queria estar lá com sua filha para oferecer algum tipo de conforto. Precisou orientar a criança muito bem para insistir que o pai fosse com elas até a casa de sua tia. Bethany não falhou, ele cedeu à pequena. Deixaram a criança ali e Allie conseguiu o que queria: seguir com ele até o hospital.
Patterson os aguardava na recepção. Cumprimentou o casal com um sorriso tímido e, então, abraçou Kurt. Após o soltar, recuou um passo para começar a falar. Ela sabia que muito do que diria não eram tão boas notícias assim, por isso preferiu manter seu olhar distante dos olhos do amigo:
— Vamos ver por onde podemos começar... Bem, Kurt, você sabe o que os exames mostraram: os danos causados pelo ZIP no cérebro de Jane foram extensos. Tão extensos que ninguém acreditava que ela fosse capaz de voltar a respirar sem a ajuda de aparelhos e muito menos acordar. Isso significa que ela está de volta, mas tem muitas limitações. Está se movendo, porém o lado direito do corpo parece bem mais afetado, vai precisar de muita fisioterapia. Os testes mostraram que ouve e enxerga, apesar de ter perdido parte dessas capacidades. Mesmo assim, não conseguimos contato visual, ela permanece alheia a tudo e a todos. É reativa ao toque. Não parece compreender nenhum tipo de linguagem que tentamos. Apesar dela estar com respiração espontânea, a traqueostomia precisa ser reduzida aos poucos o que a mantém com a cânula e a sonda gástrica. Jane passou mais de 50 horas acordada. Chegou à exaustão. Então, ontem durante segundo eletroencefalograma que foram realizar, ela simplesmente apagou. Foi tenso. Tememos que ela não voltasse. Manteve a respiração estável, mas nada a acordava.
— Deus... – Allie suspirou. Era pior do que ela esperava. Um passeio de montanha russa jogando com a vida de Jane e, consequentemente com o emocional de Kurt.
— Tudo bem, já é muito perto do que eu tinha. – ele disse com um meio sorriso e coçou a nuca. – Afinal, nossa perspectiva de futuro era só um funeral... Esse exame mostrou alguma coisa?
— Estava estável com relação ao anterior e bem melhor do que aqueles que fizeram ao trazê-la da Times Square. Mesmo assim, o apagão de ontem preocupou os médicos e eles decidiram realizar uma tomografia hoje. Será no final da tarde. Estavam evitando até aqui, apesar de ser um exame mais detalhado, por conta da gravidez. Mas esse apagão mostrou que precisam de informações mais precisas.
— E isso traz mais riscos a bebê...
— Nada é conclusivo com relação a isso. Pesquisei bastante. Estou certa de que, nesse caso, os benefícios para as duas podem ser maiores que danos. As ultrassonografias mostram que a bebê está realmente muito bem. E... – tentou conter sua alegria, mas não conseguiu — eu não quero ser exageradamente otimista, mas sinceramente percebi Jane muito mais ativa desde sábado quando acordou, mesmo com todos os poréns. Parece que finalmente superamos a fase do arrancar os IVs e sondas. Já consegue se sentar na cama. Hoje a deixaram em jejum, por isso, entre preparado, ela não está de bom humor. Apelamos para o Boston que está lá dentro com “Remi”. – e arqueou as sobrancelhas brincalhona.
Kurt torceu o pescoço para o lado e inflou o peito orgulhoso. Se Jane estava demonstrando o mau humor de Remi isso era ótimo. Não conseguiu dizer mais nada. Tudo que ele precisava era entrar na UTI e vê-la acordada. Caminhou apressadamente para a sala de preparação. Allie teve que se apressar para acompanhá-lo.
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— Olá, Jane. Você está bem? – a voz dele era sempre tão terna, aquecia sua alma em meio aquela escuridão e frio. – Temos tanta sorte ... – ele sempre repetia isso.
A lembrança de seus olhos era outra coisa que a confortava. E aquele seu sorriso torto? Isso somado a imagem e voz de Avery eram tudo que ela tinha agora. Jane repetiu a si mesma que não era pouco, era tudo que ela precisava. Todo o resto se perdeu em tanta escuridão e confusão, mas se restasse isso nessa sua loucura irreal ela seria capaz de seguir e fazer o que precisava ser feito.
Manteve-se assim, firme como o soldado que sempre foi, naquele infinito atemporal em que se encontrava, deixando-se ir.
Foi então que tudo mudou. A voz dele desapareceu de repente. Nem assim ela desistiu. Resiliente, aguardou. Ele voltaria a falar com ela, tinha certeza. Ela precisava disso, ele devia saber.
Silêncio. Silêncio e mais silêncio. Era agonizante. O que aconteceu? Por que ele se afastou? Será que não confiava mais nela. Será que desistiu dela? Não era justo, ela continuava ali tentando e tentando...
Seria um jogo, algum desafio? Ele podia estar ali, mas calado, desafiando-a após ela negar-lhe respostas.
Ela queria falar, mas, por mais que ela gritasse, sua voz silenciava antes de sair de sua garganta. Foi então que ela precisou usar outros recursos. Precisava mover os dedos para sentir se a mão dele ainda estava segurando a sua.
E quanto mais ela tentava, mais a dor e o incomodo a cercavam. A cabeça latejava, algo gelado queimava sua garganta. Ela precisava fazer aquilo parar.
Quando finalmente alcançou seja lá o que fosse que se agarrava ao seu pescoço e puxou, tudo ficou ainda pior. O que queimava sua garganta começou a engasgá-la. Sem forças, ela cedeu à escuridão novamente. Precisava recarregar para tentar novamente. E foi o que fez, recomeçando do zero. Na segunda tentativa, além de puxar aquilo que se prendia ao seu pescoço conseguiu abrir os olhos.
Foi assustador. A claridade a cegava. Os engasgos pareciam que a fariam parar de respirar de vez.
E descobriu que não estava sozinha. Muitas pessoas estavam ao seu redor. Os sons do que diziam não faziam qualquer sentido. Eles a tocaram, seguraram, mas finalmente puxaram parte daquilo que a sufocava trazendo o ar de volta aos seus pulmões.
Seus olhos tiveram dificuldade em se fixar e firmar as imagens. Seus ouvidos não compreendiam os múltiplos sons que chegavam até ela. Nada fazia sentido. E o pior, ele não estava ali, nem Avery. Era só ela rodeada por estranhos.
Logo percebeu que seu corpo também não lhe obedecia. Nenhum movimento era satisfatório. Como podia conseguir com tantas coisas conectadas aos seus braços? Então, ela aguardou, descansando para reunir a força que precisava. Quando se percebeu forte o suficiente, concentrou-se da melhor forma possível para guiar suas mãos puxando os fios.
Foi inútil, mal terminou de fazê-lo e aquelas pessoas já estava sobre ela, detendo-a e colocando tudo de volta. Ela fingiu aceitar. Eram muitos, ela só uma. Assim que pode, tentou novamente. Novo fracasso. Eles eram rápidos. Então, ela decidiu deixar de tentar por um tempo, fortalecer-se até ser capaz de andar, assim poderia arrancar tudo aquilo de seus braços e sair daquela cama antes que a alcançassem.
Tudo era tão estranho. Os sons, as luzes, as cores, tudo incomodava. Ela sentia medo, muito medo. A tinta sobre sua pele formando traços e desenhos era só o que a acalmava. Por isso, ela deixou todo entorno de lado e se concentrava delas. Deixava seu pensamento vagar por cada linha percorrendo os detalhes, isso lhe trazia paz. Elas eram silenciosas, não retumbavam em sua cabeça como as vozes ao seu redor. Um dia, quando estivesse forte o suficiente e arrancasse o que a prendia, ela ia traçar novas linhas, retas e curvas, montando desenhos que a ajudasse a colocar a bagunça da sua mente em ordem...
Estava habituada a isso quando as pessoas se aproximaram. Como sempre, falavam e falavam. Para quê? Ela não as entendia... Tentou continuar navegando pelas linhas de sua pele, mas começaram a colar coisas em sua cabeça e foram a ligando a mais fios.
“Não! Não! Não deixe que façam isso! Não!” seus instintos gritaram. Ela tentou se esquivar, puxar os fios. E mais pessoas se aproximaram a detendo. A tensão foi tomando conta dela rapidamente. Eles eram muitos. Ela queria lutar, mas não podia.
A sensação de impotência era tão grande que começou a sufocá-la. Foi então que tudo apagou novamente.
Quando voltou a abrir os olhos, já sabia que não facilitariam as coisas pra ela. E assim foi, em instantes aquelas pessoas a rodearam, tocando-a. Sentia-se tão exposta. Tão sozinha. Tão fraca e zonza. Voltou a focar na tinta sobre sua pele, era tudo que podia fazer agora. Não restava mais nada além de deixar aquelas pessoas fazerem o que queriam mesmo que isso fosse tão cruel com ela. Talvez nem fosse real como aquele jantar feliz nunca foi...
Por toda a sua vida, ela aprendeu a suportar a fome e a sede. Era um mal a ser controlado. Mas desde que acordou, cada vez isso era mais difícil. Logo ela percebeu que aquelas pessoas cruéis a alimentavam por um tubo no seu abdômen. Não era o suficiente. Por isso continuava fraca, mas como enfrentar? Bem pior era a sede. Tudo que faziam umedecer seus lábios com um algodão embebido em água. Algumas vezes, ela sentia sua respiração pegando tamanho era o desejo de agarrar a mão daquela pessoa e devorar aquele algodão para tentar se saciar. Entretanto, algo dentro dela a impedia. Talvez lhe tirassem isso.
Mas mesmo sem que ela tivesse tido qualquer reação a tudo que faziam com ela, parece que merecia ser castigada. Não a alimentaram naquele dia. A fome a consumia deixando-a ainda mais zonza.
Cansada de manter-se resiliente, ela reagiu. Empurrou as mãos que tentaram tocá-la, fechou a expressão do rosto. Podia estar fraca, mas lutaria como podia mesmo assim. Isso manteve a maioria das pessoas afastadas dela naquela manhã. Deus, isso era bom.
Só uma pessoa continuava ali ao seu lado. Um vigia falante. Como falava e falava. Ela pensou em ser hostil com ele também, mas o cara umedecia seus lábios com o algodão e isso não era algo dispensável. Além disso, ele levantou a cabeceira da sua cama deixando-a quase sentada o que também era bem-vindo.
Ela estava ali, olhos nos traços sobre sua pele, divagando por quanto tempo suportaria aquilo e se teria forças algum dia para escapar quando sua visão periférica acusou um vulto que vinha rápido sem sua direção pela direita.
Jane fingiu não perceber. Essa era sempre sua melhor estratégia. O vigia ao seu lado se levantou a espera do visitante. Ela se preparou. Lutaria mesmo sem forças. Então, o que ela menos esperava aconteceu. A voz dele a alcançou, não com a mansidão de antes, estava bem mais emocional e urgente:
— Oi, Janie... eu... Meu Deus, você está realmente aqui. Você conseguiu, Honey.
Ela fixou os olhos no nada a sua frente apenas absorvendo o som doce... Ele estaria mesmo aqui ou seria só seu cérebro falhando de novo? Seria só mais uma ilusão? E se ao encontrar os olhos dele tudo escurecesse de novo? E se ela o esquecesse completamente? Não! Seria insuportável!
Aos poucos, foi criando forças e coragem para buscar a direção de onde a voz vinha, sentindo o coração explodindo no peito. Lentamente foi virando seu rosto até encontrar o olhar dele.
As palavras ainda não faziam sentido. Mas aquele olhar... era exatamente como ela se lembrava, doce, acolhedor, ofertando tudo que ela jamais ousaria pedir. Ficou por alguns instantes ali, deslumbrada, sentindo a vida e a esperança voltarem para ela. Ela não enlouquecera afinal. Aquele looping maldito que durante tanto tempo a lançava do seio de uma família feliz para a solidão e escuridão total num sinal de sua sanidade se fora por completo chegou ao fim. Ele exista. Era real, tão real quanto a fome que a castigava nesse momento.
E ele continuou falando. Deus, como ela era grata por aquilo. Algumas vezes, seus olhos se encheram de lágrimas, então ele precisou parar por alguns segundos, puxando ar antes de recomeçar. Ele parecia... se importar com ela. Sim! Ele sempre se importava quando aparecia na sua ilusão. Sempre perguntando se ela estava bem. Era isso. Ele compreenderia e a ajudaria. Talvez forçasse os outros a alimentá-la.
De repente, a mão dele veio em direção ao rosto dela. Com uma delicadeza sem igual, afastou uma mexa de seu cabelo e colocou atrás da orelha. Mesmo que o toque tenha sido breve, só por alguns segundos, ela sentiu o calor da sua mão. Era tão terno...
E, enquanto sua mão se afastava, ela observava. Era tão igual à suas lembranças... tão familiar. E o anel? Até o anel estava ali. O coração dela disparou ainda mais. Havia algo muito importante naquele anel, ela sabia. Algo realmente especial.
Encorajada por isso, ela concentrou-se da melhor forma que podia, reunindo tudo que restava de sua racionalidade pra fazer seu corpo obedecer-lhe. E conseguiu levar a mão trêmula em direção a ele. Precisava tocá-lo, mostrar-lhe que era recíproco, que ele sempre estivera lá no seu coração...
— Olá, Jane! – Allie cumprimentou, apoiando a mão direita no ombro de Kurt e a mão esquerda em seu braço para conseguir lançar o corpo pra frente e entrar no campo de visão de Jane. – Como é bom te ver acordada. – E continuou falando.
Jane segurou a respiração por alguns segundos, surpresa com aquela nova pessoa que surgiu do nada sem que ela percebesse. A voz dela retumbava em sua cabeça como as vozes das outras pessoas, estridente e trazendo a dor latejante de volta. E a forma como ela segurava ele? Era como levar um chute no peito, fazendo seu coração lutar para continuar batendo apesar do baque.
Foi incontrolável. Seus instintos tomaram conta das suas reações já que sua racionalidade estava tão fragilizada. Primeiro, Jane arremessou o próprio corpo para trás tentando se afastar. Recuou tanto que só não caiu da cama porque Boston estava do outro lado e a amparou. Então ela jogou a perna para a frente e chutou com toda a força que tinha, obrigando-os a se afastarem. Exausta, se encolheu na cama como pode, tentando abraçar os próprios joelhos. Cobriu a cabeça com os braços. Não foi fácil. Aquele negócio em seu pescoço deixava a respiração muito difícil nessa posição.
Não demorou muito até que houvesse muitas pessoas sobre ela, tocando-a e forçando-a a retomar a tradicional posição deitada. Ela não tinha forças pra resistir. Mas ainda podia chorar. Então chorou e chorou, deixando os seus soluços se fazerem mais altos que as vozes ao seu redor.
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Algumas pessoas da equipe de enfermagem e Allie arrastaram Kurt para fora. A reação de Jane o chocou. Ela foi rápida, seu quadril sentia a pancada, mas já não tinha a mesma força que antes. Os soluços dela podiam ser ouvidos mesmo aquela distância. Por isso, ele lutou para voltar lá. Queria abraçá-la, tomá-la em seus braços e aconchegá-la no seu peito enquanto sussurraria palavras de segurança para acalmá-la. Mas todos ao redor o impediram dizendo que era melhor manter a distância até que ela se acalmasse.
Andou de um lado para o outro da antessala da UTI lutando contra a agonia de ouvir os soluços dela logo ali, tão perto e tão inalcançável para ele. A medida que os sons foram recuando, ele se aproximou do vidro para observá-la. Viu os soluços darem lugar a espasmos silenciosos até que seu olhar ficou vazio, distante de tudo e de todos.
Allie disse alguma coisa. Tentou mais umas duas vezes. Ao ver que não tinha sua atenção, desistiu.
“Ela me odeia. E eu mereço isso... – pensou ainda a observando. – Eu te deixei sozinha...” e engoliu as lágrimas.
— Sr. Weller. – o médico o chamou – conseguimos acalmá-la. Infelizmente preciso que o senhor se afaste por hoje. Precisamos dela calma para o exame.
Abaixando a cabeça, concordou e se retirou.
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A tomografia seria realizada as 16 horas. Avery devia chegar no hospital aproximadamente nesse horário. Era algo mais com o qual Kurt teria que lidar. Só lembrou de ligar para a enteada no dia anterior informando sobre a mudança no quadro de Jane. Ela não estava feliz por ter sido esquecida por tantos dias. Como explicar que um tornado e a culpa roubaram sua sanidade? Ontem quando ligou para ela, achou realmente que a garota relembraria o compromisso com os estudos e deixaria a visita para o futuro, talvez nas férias.
— E você só está me contando isso agora? – disse com tom de decepção. – Estou embarcando amanhã. – e bateu o telefone na cara dele.
Kurt passou a mão pelos cabelos e respirou fundo. Tasha e Rich a buscariam no aeroporto e trariam até o hospital. Talvez conseguissem aplacar sua ira. Ou não. Era filha de Jane, a mulher que o recebeu com uma nova versão de uma voadora no quadril. Ele riu. Era tão bom ter um pouco disso de volta.
Avery chegou as 15h10, bem antes do previsto. O cumprimento foi frio, seguido do pedido de atualização. Ficou impávida diante dele esperando que o relato se concluísse. Não reagiu nada bem ao saber que não poderia ver Jane antes do exame.
Aguardaram em silêncio enquanto o tempo passava. Breves trocas de olhares acabaram se transformando em sorrisos.
— Eu tô feliz demais pra ficar brava com você. – ela disse por fim.
— Obrigada, Avery. Eu também estou muito feliz. Por favor, me desculpe por ter esquecido de te avisar. Foi muito difícil pra mim estar longe quando ela acordou.
— Acho que entendo. É uma mistura de necessidade de ver que é real com o medo de estar perdendo a última chance, né?
— É, exatamente assim. Eu já consegui sentir que é real. – ele disse com um meio sorriso passando a mão no quadril onde foi chutado por Jane.
— Uma excelente prova de que as limitações não a impedem de ser Jane. – e fez uma pequena pausa antes de continuar. — Consegui um afastamento da faculdade por 15 dias. Vou fazer estudos à distância.
— Bom. Tenho certeza de que lá no fundo do coração ela vai entender e ficar muito feliz por sua decisão de vir até aqui.
Ficaram num canto discreto observando quando passaram com Jane. Ela podia parecer firme, quase perigosa para todos, mas os dois sabiam ler aquela reação.
— Ela está insegura. – Kurt foi o primeiro a falar.
— E Jane sentindo-se acuada é um perigo. – Avery confessou sem esconder o orgulho.
— Melhor descermos para acompanhar o exame mesmo que tenham dito para ficarmos aqui.
— E é bom sermos rápidos. Escadas?
Desceram voando os degraus. No andar de baixo, a resistência de Jane podia ser percebida mesmo antes de entrarem na sala de exames. Um dos médicos veio a seu encontro.
— Temos evitado sedá-la por receio de que ela não acorde mais. Mas acho que não teremos outra opção.
— Não! – Avery disse rápido – Por favor, me deixem tentar.
O médico parecia incrédulo quanto a eficácia de qualquer outro método além da sedação, mas aprendera que, na sua profissão, é preciso tratar a família tanto quando o paciente. Ele poderia esperar a garota tentar, então autorizou sua entrada na sala de tomografia.
Avery ultrapassou a porta com determinação e se colocou dentro do espaço de forma imponente. Jane estava sentada na mesa de exames, abraçada aos joelhos, cabeça apoiada na entrada do tubo e olhar vagando pelo nada. A garota apertou os lábios e engoliu o nó que se formou na sua garganta. Nunca tinha visto a mãe assim. Nunca foi tão nítido aos olhos dela que a dureza de Jane era o melhor disfarce para sua fragilidade. Sua mãe parecia tão cansada e assustada.
Então respirou fundo. Por mais que muita coisa possa ter morrido dentro daquele cérebro, mesmo sabendo que palavras não teriam sentido algum, ainda era Jane ali. Logo, ela lidaria com a mãe do jeito que sempre fez.
— Ei! – disse baixo, mas com firmeza. – O que você pensa que está fazendo, Jane?
Ao contrário do que aconteceu com Kurt, ao ouvir a voz da flha, Jane colocou os olhos sobre ela imediatamente sua respiração ficando pesada imediatamente. Era tão bom ver Avery de novo, poder ouvi-la. Tão bom que ela sequer se importava em questionar se aquilo era real. Mesmo que fosse apenas a loucura fazendo mais uma brincadeira cruel, ela estava disposta a se deixar ferir no final para ter aquele momento com a filha.
Assim como a voz de Kurt, a voz de Avery não retumbava dentro de sua cabeça. Entrava mansa e suave, como um balsamo aliviando suas dores.
— Eu não voei sobre um oceano inteiro pra chegar aqui e te ver dando chilique na sala de exames, entendeu? – e com passos firmes foi se aproximando enquanto observava Jane. – Você não imaginou que eu deixaria de vir, não é? – disse assim que estava ao lado da mãe.
Jane moveu devagar a mão trêmula em direção à filha. Avery bufou e revirou os olhos. Tomou as mãos da mãe entre as suas e levou até o próprio rosto.
— Sou eu. Estou aqui. – e envolveu a mãe num abraço deixando sua testa cair e encostar-se a dela. – Mas você sabe que não vou facilitar as coisas assumindo que estou mega feliz que tenha acordado.
A equipe médica e Kurt acompanharam tudo pelo vidro que os separava da sala de tomografia.
— Eu não entendo as reações dela. – o médico confessou.
— É Jane. Ela é sempre imprevisível. – Kurt respondeu com orgulho.
Deram as duas o tempo que fosse necessário e ficaram aguardando.
Após algum tempo abraçadas, Avery conseguiu deitar Jane na maca.
— Eu preciso que você fique aqui e fique muito quieta. – Avery disse e sinalizou silêncio com o dedo sobre os lábios – shshshshhshsh – depois repetiu o gesto sobre os lábios da mãe.
Quando fez menção de soltar a mão que segurava as dela, Jane reagiu tentando segurá-la. Então, Avery repetiu o pedido de silêncio rezando para que mãe entendesse que precisaria ficar sozinha e totalmente quieta durante o exame.
Jane não reagiu. Aceitou. Não entendia o que a filha dizia, mas ter aqueles momentos com ela já tinha sido a melhor de todas as brincadeiras insanas que sua mente pregava. Avery não ficaria, ela sabia. Avery nunca ficava por mais que ela desejasse ter a filha sempre com ela. Observou enquanto a garota deixava a sala e recolheu-se ao seu mundo de nada enquanto a máquina a levava para aquele estranho túnel branco.
Foi mais rápido do que ela esperava. Quando a cama recuou, trazendo-a para fora, Jane ficou ainda imóvel aguardando os estranhos que se aproximariam e a manipulariam como se fosse um objeto. Mas não aconteceu. De repente, Avery estava de novo lá. Isso era tão bom. E foi a garota que manteve os estranhos afastados ajudando-a a mudar para a outra cama. Depois seguiu ao lado dela pelos corredores de volta ao lugar estranho onde ficara nos último dias ou sonhos, ela não sabia direito.
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O final da tarde foi quase tranquilo. Jane foi alimentada e, com a presença de Avery estava bem mais calma. Allie voltou para o hospital para encontrar Kurt e juntos decidiram que era hora de fazer uma nova tentativa de encarar a fera.
Dessa vez não houve chutes ou empurrões. Jane se agarrou às mãos da filha enquanto ouvia a voz dele. Mas assim que o casal contornou a cama para ficarem de frente para ela, uma nova crise de choro os afastou depressa. Até mesmo Avery demorou bastante tempo para acalmá-la. E, quando finalmente aconteceu, Jane adormeceu pesado.
A garota aproveitou a oportunidade para sair conversar com o padrasto e comer alguma coisa.
— Kurt, você precisa conversar com os médicos. Ela fica muito exposta nesse ambiente. Se for possível levá-la para um quarto, isso a deixará mais segura e confortável.
— Vou ver com eles se é possível. Concordo com você, esse lugar deve parecer horrível pra ela.
— Ei! – disse cobrando que os olhos do padrasto estivessem sobre ela – Ela teve um dia muito difícil. Amanhã as coisas estarão mais tranquilas. Então a gente tenta de novo.
— Ela está decepcionada comigo e não posso culpá-la. Eu também estou. – ele respondeu triste.
— Kurt, ela não está decepcionada com você. – Allie interferiu na conversa. – Ela sequer sabe quem você é. Por favor, não faça se castigue dessa forma.
Antes que qualquer um deles pudesse dizer algo, o celular de Allie tocou e ela se afastou para atender.
— Como eu disse, hoje o dia dela foi muito difícil. Também não acredito que Jane esteja decepcionada com você, Kurt. Não vá por esse caminho. Mas algo na sua aproximação a descontrola, isso é fato. – Avery retomou quando se viu sozinha com o padrasto.
— Talvez se dermos mais alguns dias pra ela...
— Não! Tenho outra teoria. Venha amanhã para a visita sozinho, sem Allie.
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