Jane
8 Capítulo VII - So Cold
Notas iniciais

— Minha prova de Física... Minha vida... Oh meu Deus. – Jane falava consigo mesma durante a viagem toda, sempre seguida de comentários motivadores de Castiel e bufadas entediadas de Luke, que parecia querer avançar nela a qualquer momento para fazê-la calar a maldita boca que só sabia arrumar defeitos para a vida. Claro que ela tinha noção de que talvez estivesse exagerando, mas...
— Não se preocupe, o nosso tempo corre de um jeito diferente. Você nem mesmo estava onde pensava estar quando nos encontramos. – Dizia o ruivo naturalmente como se ela já esperasse por aquilo, e não conteve um sorriso quando viu a expressão espantada que ela fazia. – Mas eu fui até lá e coloquei tudo exatamente do jeito que era. Até conversei com o homem da... Daquilo transparente. – Olhou para baixo antes de continuar. – Ele era tão rude. Orei por ele.
— Ele é gentil, muito gentil. – Disse a morena em um tom baixo tentando processar tudo, o que estava ficando um pouco mais fácil com o tempo. – Mas eu sinto falta. Vou sentir falta da minha família, entende?
— Não muito, mas eu acho que sim. – O anjo sacudia um jornal tentando imitar o que provavelmente vira um homem fazer enquanto estava a Terra em que ela vivia, o que Jane achou engraçado, e acabou o jogando do outro lado do avião. Suspirou rindo. – Deve ser confuso.
— Ter tudo tirado de você de uma vez, é tão... – Sua voz foi interrompida por o som de baque de algo que fora jogado em sua direção, mas bateu na traseira da poltrona que estava na frente. Arregalou os olhos e moveu-os na direção do moreno que a olhava com uma feição severa.
— Pare de se fazer de vítima. – Ele bufou, olhando para o lado. – Tirado de você? Você tem a mera ideia do que é ter tudo tirado de você?
— Luke... – Começou Castiel quase se levantando, com um olhar preocupado focado no outro, que estava começando a ficar extremamente alterado e olhava para cima como se segurasse a raiva. – Está sendo mais difícil para você do que para qualquer um aqui. Nós entendemos, mas não precisa... – Novamente fora cortado pela voz gritante e ríspida do deus.
— “Não precisa exagerar”? Olhe para ela, Castiel... – Levantou-se e se aproximou da garota que estava novamente espantada por ele, e a respiração acelerada. Qual era o problema daquele deus paranoico? – Tudo que você conhece ainda está lá, você não perdeu nada. – Sua voz se tornara rouca, e depois ganhou um tom sussurrante que causou arrepios por todo o corpo de Jane. – Nós podemos conversar sobre isso quando eu destruir a humanidade.
— Não brinque com algo assim. – Advertiu o anjo olhando de maneira já irritada para Luke, que voltara a sentar-se com os olhos voltados para fora do avião. – Deveria agradecer ao invés de jogar sua raiva nos outros, ela está sofrendo também.
— Agradecer pelo meu mundo estar acabando? Ah, óbvio, que deslize o meu, obrigado. – Um novo silêncio havia reinado após ele completar a frase. Nenhum dos outros dois sabia o que dizer tanto para consolar quanto para argumentar contra o que ele dissera. Ambos sabiam que o sofrimento era algo muito delicado e certas feridas eram facilmente inflamáveis, e com certeza eles não queriam um Luke fora de controle naquele momento.
A quietude permaneceu pelo resto da viagem. Jane não tinha coragem para vociferar e nem mesmo para pensar em algo como antes, sentia-se extremamente culpada ao pensar o quanto tudo poderia ser muito pior, e advertindo a si mesma por reclamar tanto da própria vida.
Entretanto, conforme o tempo passou, ela começou a achar o silêncio bem agradável: facilitava para seus pensamentos se organizarem. A parte boa de ninguém falando, também, era que não provocariam nenhuma reação indesejada no deus, que Jane particularmente estava sentindo-se bastante intimidada. Não por ele ser alto, forte ou simplesmente um deus nórdico sádico, mas havia algo... Algo que fazia teme-lo, algo que fazia, ao mesmo tempo, quere-lo por perto.
Tão familiar...
Respirou fundo. Como poderia julga-lo por estar naquele estado? Talvez, toda aquela história de Ragnarok estivesse mudando os instintos dele, suas ações, talvez ele só estivesse muito sobrecarregado. Afinal, nem mesmo sabia o que tivera acontecido no momento que ele chegara no avião! Lembrou-se dele estar extremamente machucado, e tão... Bonito.
Balançou a cabeça negativamente. Devia odiá-lo, sim. E iria. Com certeza.
Acabou nem sequer percebendo que havia pegado no sono enquanto imaginava sangues, abdomens e cabelos negros. Ora ou outra, ofuscados pelo sol... Cabelos ruivos e olhos tão cristalinos..
Quando enfim o avião pousou, foi um alivio. A tensão havia se dissipado e boa parte da discussão de mais cedo tinha sido esquecida, e eles conversavam entre si normalmente – mesmo que Luke não falasse mais que uma palavra quando se dirigiam a ele. Levantaram-se ansiosos para saber o que os esperava do lado de fora, e Jane em especial estava empolgada para se aventurar no lugar novo e tão aguardado. Entretanto, o deus não parava de martelar em seus pensamentos a cada segundo, fazendo-a suspirar de vontade de olhá-lo.
Será que ele teria enfeitiçado ela?
Caminharam até a porta que já estava aberta, e seus olhos se iluminaram pela luz excessiva do ambiente que era rodeado de prédios e era possível ouvir música de todos os lados. O “aeroporto” ficava em cima de um grande prédio alto e todo iluminado, com pessoas circulando por ali como se nem sequer vissem o enorme avião que estava pousado, muito acostumadas com aquele pequeno detalhe na longa pista. Juntaram-se, em companhia de Hermes, à elas na caminhada pelo lugar a procura da saída, que era uma portinha modesta de elevador que descia até provavelmente os apartamentos do prédio – que não parecia ter menos que trinta andares, numa jogada mínima. Tudo era enfeitado de luzes e músicas de diferentes tipos, fazendo com que Jane ficasse absolutamente maravilhada enquanto seguia Hermes, com o seu andar confiante, até a saída.
Estavam na fabulosa Las Vegas.
Ω
— Wow, só... Wow. – Dizia Jane impressionada pela arquitetura do quarto em que ficaria pelo tempo em que levassem para achar a Ganância. Imaginou consigo mesma: Por que esse pecado estaria em Las Vegas, a cidade mais gananciosa do mundo? Achou que os herdeiros não tivessem características dos pecados, como se fossem o oposto deste, mas após um curto debate em seu subconsciente concluiu que seria quase a mesma coisa para encontrá-los se eles fossem o contrário, e se eles fossem o pecado em si. Aquilo provavelmente só os deixava ainda mais camuflados, pensou.
Como estava sozinha no lugar, jogou-se na cama onde sabia que deveria dormir até que fosse chamada. Castiel mesmo a tinha pedido gentilmente para que não saísse do quarto, já que poderia ser perigoso para uma humana do lado de fora, e ao julgar pelo que já tivera presenciado não poderia discordar que tinha bastante receio em desobedecer ao anjo. Pensou mais um pouco enquanto fechava os olhos e respirava fundo. Ele parecia muito bondoso com ela, como se sempre a tivesse como prioridade, e talvez realmente gostasse dela. Riu bobamente ao cogitar a possibilidade que martelou em sua mente durante a viagem, mas logo seu sorriso se desfez ao pensar em Luke. Enquanto Castiel demonstrava que amava-a, ele parecia a detestar. Virou-se de lado olhando para o relógio digital acima de um criado-mudo branco e preto muito moderno, que ficava ao lado da onde estava.
23h45min. E adormeceu.
“Querido Diário de Jane...
Ainda estou confusa, mas menos que antes. Alguma coisa fez com que eu aceitasse o fato de ser um pecado e tudo mais, mas não sei explicar o que está acontecendo. Castiel é um anjo – em todos os sentidos possíveis – e ele me faz um bem do cassete. Se fosse só ele... Mas não, tem o deus egocêntrico lá. Ele faz meu coração disparar e meu corpo suar, como se eu já tivesse tido experiências muito pervertidas com ele. Deve ser por que ele é bonitão, mas ainda sim isso me deixa confusa.
No fundo eu queria que ele desaparecesse. Tudo seria mais fácil. Sem contar que ele é muito chato e emocionalmente abalável também, pelo que parece, tipo uma criancinha.
Mas outra coisa que não sai da minha cabeça é a Iniciação. Eu estou muito ansiosa, ansiosa pro que vem pela frente. Não sei se gosto disso.
Não faço ideia de que dia é hoje, acho que é... Quarta, não sei.
Jane Wickdorff. “
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