Ele retornou para sua casa numa manhã de sexta-feira, embora nunca tenha parecido tão distante de um lar, o Duque estava de volta a Londres. Tinha planejado um retorno discreto, ficaria um tempo recluso em uma segunda casa afastada para se ambientar novamente e traçar estratégias. A fofoca o pegou no meio do porto e arruinou seus planos de tranquilidade. Duas mulheres esperavam para embarcar no navio, quando ele passou por elas percebeu seus olhares indagadores e logo ouviu "Que escândalo! O homem retorna logo agora que estamos partindo. Qual será a reação dele quando descobrir?" Gabriel pensou que não deveria dar atenção a bochichos, mas a curiosidade o corroía.

Lady Lilian sumiu, por meses e assim que retornou não comunicou a seu marido. Como podem recém-casados viajarem para lugares diferentes? Dizem que ela engravidou do Marquês, e deixou a criança no interior todo esse tempo que o Duque esteve ausente. Ela se ausentava periodicamente para o campo, provavelmente para ver o fruto da sua indiscrição. Pobre homem, esperando encontrar uma esposa dedicada e vai se deparar com uma amante indecorosa.

Ora ele também não é inocente, duvido que tenha sido fiel longe dos olhos da Duquesa. Todos sabem que o Duque a abandonou, e em troca ela conseguiu afeição no Marquês. Não era de se esperar que uma mulher como ela ficasse tanto tempo sozinha. Mas abandonar um filho... Antes tivesse criado outra história, uma prima, uma caridade.

Ninguém sabe ao certo se é de fato filho do Marquês ou do Duque. Se for do Duque ela não quis a criança porque não suportou olhar para o menino, que era a cara do pai. Mas correm boatos de que o Marquês, armou o casamento de Lilian com o Duque pois já a havia comprometido. Assim como há boatos que dizem que na verdade, Lady Lilian, para punir o Duque pelo abandono após descobrir a gravidez, resolveu esconder do marido, se está com a criança é porque tem certeza de que o ele jamais poria os olhos no menino.

Mas não é um disparate e ao mesmo tempo uma grande desgraça que não estejamos aqui para ver o que irá acontecer? As notícias vão demorar para chegar na Itália. Imagine se ele encontra com o belo casal de amantes no parque com a criança a tira colo? Lady Annabeth, eu já prevejo os tiros e a euforia do duelo. Uma pena, homens tão bonitos... Uma mulher é capaz de virar a cabeça de um homem, Lady Anderson. De toda forma sinto pela criança, um digno herdeiro. Belo como o pai. Seja qual deles for.

As mulheres olharam para ele, que aguardava as malas serem colocadas na carruagem, ofereceram a ele um olhar de falsa surpresa e alguma comoção. Era preciso dizer que Gabriel não costumava acreditar em fofocas, nem em tudo o que ouvia, não eram fontes confiáveis, eram mais sussurros de pouca verdade e boas mentiras, com toques de ficção para alimentar a sede de curiosidade e destilação de veneno. Mas as fofocas o alertaram uma vez, sobre o tipo de mulher que ele recebeu em sua casa nas vésperas do seu casamento. Seria pouco cordial descartá-la tão rapidamente. Então, ao invés de seguir discretamente para a segunda casa, ele fez um desvio pelo Hyde Park. Infelizmente deveria das crédito às duas fofoqueiras. Em uma cena que deveria ser pinta e emoldurada no museu como retrato da felicidade, estava sua esposa e seu melhor amigo, Lilian sentada sobre a grama gargalhando graciosamente enquanto Nicholas jogava um menino loirinho gorducho de cabelos quase loiros para cima. Vale a pena notar que a criança deveria ter aproximadamente três anos. É válido de nota também, que quando Nicholas levantou Lilian com a criança nos braços, ela o abraçou, e o olhou com ternura.

Gabriel percebeu que segurava com uma força desnecessária o assento, que sua respiração estava tão acelerada que ele podia jurar que estava bufando de raiva. Mas não havia como saber tudo sem perguntar a ela, infelizmente mais uma vez mudaria seus planos por aquela mulher.

******

Hoje completavam três anos inteiros sem nenhuma notícia de seu marido além da localização que ela sabia por terceiros, jamais o duque se dignou a mandar-lhe uma mensagem de próprio punho. Na metade primeiro ano imaginou que deveria escrever-lhe, mas o que diria? "Olá, venho por meio desta, comunicar-lhe a não sucedida concepção, siga tranquilamente sua viagem, comemorando sua falta de responsabilidade comigo, já que não há urgência em seu retorno." Ela o autorizou a viver sua vida e esquecer-se dela, parecia o certo a se fazer, devolver ao homem aquilo que tinha lhe tirado, a possibilidade de mandar em seu destino, sentia culpa e ainda restava uma voz insistente alertando que seu coração doía sempre que pensava nele.

Quando se inteirou das aventuras de seu marido, Lilian ficou possessa de raiva. Tudo não passava de boatos, mas sua amizade com Nicholas só a deixava mais certa da veracidade dos fatos. Gabriel escrevia para o amigo, perguntando sobre decisões da câmara dos Lordes, possíveis pendências na administração das terras, e claro sobre os lugares por onde passava, Nicholas havia lhe entregue uma carta certa vez para que ela lesse a argumentação de Gabriel sobre desempenhos financeiros dos arrendatários, e pudesse aplicar nas terras. Parecia uma inocente dissertação financeira, quando uma frase foi interrompida, e seu marido descreveu que tinha assuntos urgentes e mais prazerosos para tratar como uma bela e quente italiana em sua cama. Céus! Ela quase vomitou.

No terceiro ano, lidava com a resiliência, acostumada a dar desculpas, nem precisava mais buscar em sua mente um arsenal de subterfúgios que a deixavam constrangida e nervosa, ela explicava a ausência do Duque com naturalidade, aceitava convites para chás da tarde e bailes importantes com um orgulho que intimidaria a rainha. Lilian estava blindada, preparada para tudo. Se visse seu marido hoje, se por um milagre Gabriel pusesse os pés em terras inglesas novamente, ela tinha total controle de sua reação. O trataria passiva e educadamente, com sorrisos programados e respirações profundas, ele não a provocava mais, a menção do seu nome não a fazia pular como uma menininha entusiasmada, ela era uma rocha.

Mas Lilian não estava de fato preparada para vê-lo, não, quando ela adentrou o salão, quando Nicholas se despediu dela e de Lady Caroline – irmã de Nicholas da qual tinha se tornado amiga –, ela jamais poderia estar preparada para aquilo. Conversava com animadamente com Caroline sobre sua obsessão pelo Lorde Shepard, viúvo aos 26 anos.

— Lilian, como é possível que não ache estranho. O homem é um fantasma.

— Se ele fosse um fantasma não estaria diante de nós nesse momento.

— Ora, não se faça de boba! Eu falo sério. Há algo de estranho com ele, jovem, rico, sem herdeiros, bonito, você já ouviu a voz dele?

— Está procurando em Lorde Shepard um marido?

— Mas é claro que não! Eu só digo que é estranho, vai viajar e sua esposa desaparece, e então de repente o vestido que ela usava é encontrado na costa.

— O que está sugerindo? Não pode acreditar na veracidade dos boatos, a presença dele nunca seria permitida.

— Não estou dizendo que acredito, mas suspeito da inocência dele. Não digo que ele o fez, mas...

A teoria de Caroline foi interrompida por um coletivo som de espanto que se apoderou do salão. Lilian estava virada de costas para a multidão e não se virou, deveria ser a apresentação de alguma dama, um vestido impecável, ou um casal pego em flagrante. Ela olhou para Caroline, sua amiga estava pálida, e a olhava com certo pesar.

— O Duque de Kahn e a Senhorita Serena La Viere.

Lilian absorveu o choque do anúncio, olhou para Caroline que apenas balançou a cabeça em afirmativa, ela segurou a taça em sua mão, enviando toda a sua concentração para aquele líquido borbulhante. Respire. Virou-se e percebeu as pessoas divididas em três pontos de atenção. O duque, a atriz e a esposa. Seu coração martelava, rogava que permanecesse impassível por fora, porque por dentro poderia gritar. Gabriel descia as escadas de mãos dadas a mulher ao seu lado, indecentemente bonita, era como Serena era descrita, ouviu que seu retorno para a Inglaterra fora adiantado pois tinha comprometido seu coração na Itália. Seu marido varreu o salão até seus olhos encontrarem os dela, Lilian se arrepiou, queria correr.

Um corredor se abriu deixando livre os metros da escadaria até onde ela estava, mas não, ainda não era o momento de testar seus dotes de atriz. Os anfitriões Lorde e Lady Gibbons se adiantaram em cumprimentar Gabriel, que sorriu e acenou para eles. O silêncio foi trocado por uma efusão de sussurros, até o Duque se pronunciar em alto tom.

— Ora, não se incomodem nem parem a música por mim, a senhorita La Viere estava curiosa para conhecer a mulher que roubou todo meu amor e atenção. Onde se encontra a Duquesa de Kahn?

Agora era a hora, o primeiro ato do resto de uma tragédia shakespeariana. Lilian ouvia os dentes rangendo, cálculos a distância e pensou se suas pernas estariam fortes o suficiente para conseguir caminhar até lá. Lady Gibbons apontou para onde estava, e ela retribuiu com um sorriso afetado. Olhando diretamente nos olhos de seu marido via que ele a desafiava. Quando inclinou a cabeça, mas não saiu do lugar, ele respondeu com um quase imperceptível erguer de sobrancelha. Certo, ela faria isso, engoliu seco, sentindo seu orgulho parar em seu estômago, ao se preparar para caminhar, sentiu o braço de Caroline envolver o seu, sua amiga caminhou com ela.

— Lady Lilian. – Seu marido lhe estendeu a mão.

— Vossa graça. – Ele a puxou para seus braços e a segurou perto demais.

— Oh, como é bom ver o reencontro de um casal apaixonado. Eu só posso rezar para ter o mínimo disso um dia. – Serena se pronunciou e Gabriel a soltou imediatamente.

— Dizem que já tem senhorita, se me permite a intromissão. – Caroline se manifestou.

— Ora, por que tenho a impressão de que lhe conheço?

— Ora, porque me conhece, vossa graça. Lady Caroline Hastings.

— Irmã do seu amigo, Marquês de Hastings. – Lilian completou, como se Gabriel não conhecesse o nome.

— Sim, e pelo que fui informado agora temos isso em comum. – Gabriel se dirigiu a esposa, e ela não conseguiu deter a expressão de dúvida.

— Se me permite, acho que estamos atraindo muitas atenções, deveríamos desocupar parte do salão.

— Sim, tem razão Lady Caroline. Minha esposa, acho que deveria ser informada que eu melhorei bastante as minhas habilidades como dançarino, por isso, senhorita La Viere, me acompanha?

— A primeira dança de um Duque em seu retorno surpresa a sociedade inglesa deveria ser com sua esposa, não acha?

— Ora, vamos, não somos tão tradicionais.

O marido conduziu a atriz para a pista de dança e deixou a esposa plantada. Plantada, fixa como uma rocha, os dois pés fincados no piso marfim. Em algum momento enquanto absorvia a cena que se desenvolvia a sua frente, Lilian sentiu a necessidade de se mover, fúria tomou conta dela. Seus olhos variam o salão atrás da única pessoa que a compreendia nesse momento. Caroline indicou uma porta por onde Nicholas se esgueirava indo em direção a mesa de bebidas. A multidão já havia se conformado e muitos casais dançavam ao lado de seu marido e a atriz. Certa de que não chamaria atenção, Lilian caminhou até Nick.

— Nick, preciso do seu apoio incondicional e sua descrição como grande amigo que é, agora.

— Cristo, que susto mulher! Quero dizer, assustou-me Lady Kahn.

— Não tenho tempo para decoros, preciso que me tire daqui o mais rápido possível.

— Tirá-la daqui? O baile mal começou, eu estou na sala de jogos e com uma maré de sorte surpreendente.

— Lorde Hastings, estou implorando.

— Certo, me acompanhe.

Passaram discretamente pela lateral do salão, em passos apressados tentando evitar olhares atentos. Que escândalo, o Duque dançando com uma mulher que todos estão se perguntando se é sua amante, e ela saindo às pressas com outro homem, já previa os boatos. Infiltraram-se numa porta com saída para um corredor longo e vazio.

— Certo, qual é a urgência? Não compreendo por que precisou se esconder, mas sugiro que seja algo rápido, se nos virem aqui sozinhos amanhã junto com a fumaça dos pães quentinhos sairão os comentários.

— Eu preciso, necessito urgentemente verbalizar a minha raiva, ou serei taxada como uma mulher com os nervos fracos. E nós dois sabemos que isso não seria verdade, mas Gabriel realmente está me testando.

— Pois bem, fique à vontade, embora não compreenda como um homem que não está presente pode irritá-la, fico feliz em ser seu...

Nicholas mal conseguiu terminar, pois foi atingido diretamente na face pela mão cheia de Lilian. Estava perplexo, o rosto permaneceu numa posição estranha, um tanto rodado para a direita, a bochecha ardendo mais do que ele poderia pensar. Céus! Já havia recebido alguns olhares atravessados, sapatos arremessados de amantes loucas, e uma dúzia de pisadas dolorosas, talvez até um ou dois tapas de amantes rejeitadas... Mas aquilo? Aquele era um tapa poderoso, e nem ao menos o merecia. Ainda aturdido, com bochecha em chamas e possivelmente marcada pelo anel de Lilian, Nicholas à olhou, e ela nem ao menos parecia arrependida.

Lilian não parava de falar, quando sua mente finalmente focou, preferiu que não o tivesse feito. Ouviu uma enxurrada de palavras que chocariam a mais experiente das prostitutas, ela praguejava como um marinheiro francês revoltado, certamente algum capitão após a perder a guerra emitiu aquele cântico de palavras nada honráveis.

— Aquele maldito desgraçado!

— Lilian, minha cara, não entendo o porquê dessa raiva latente por quem nem mesmo está aqui.

— Você não o viu?

— Como?

— Gabriel está de volta Nick, o desgraçado continua lindo.

— O tempo nunca lhe fez mal, querida.

— Não, ele não ousaria. Eu só estou dizendo que, depois de anos numa vida de libertinagem, eu esperava, olhos cansados, algum cabelo branco, uma barba por fazer, que ele ao menos tivesse se envolvido numa briga de bar e adquirido uma cicatriz de brinde que cortasse seu rosto.

— Senhora? Deseja mal a seu próprio marido?

— Por mim Gabriel poderia ter morrido e seria mais útil. Antes viúva a uma Duquesa abandonada e feita de chacota.

— E por que está fugindo dele?

— Eu não estou fugindo, eu não sabia que ele havia chegado, eu não tinha notícias do Duque há anos. E ele tem a coragem de quando finalmente dá as caras, aparecer lindo e ao lado de Serena La Viere. Eu vou ser a piada do baile Nick.

— Não consigo imaginar que Gabriel faltaria ao respeito com você dessa forma, nem mesmo com a o título, trazendo uma atriz estrangeira a um baile tão tradicional? Seria um escândalo, nem mesmo eu.

— Parece que já não conhece seu amigo também.

— É estranho que ele tenha voltado e não tenha me avisado. Quando chegou?

— Acho que não compreendeu milorde, que o Duque não destina suas satisfações a mim.

— Não compreendo, será que a consciência lhe apertou?

— Ora, ele não deve saber o que é uma consciência há muito tempo. Minha mente está girando tentando compreender o motivo do retorno, ele não veio em paz, se fosse assim não teria me afrontado com aquela... Oh, maldito seja! Ele me abraçou, me abraçou no meio do salão e em seguida manifestou seu desejo em valsar com outra mulher. Você entende o que pareceu? Eu fiz o papel de mulher passiva que aceita livremente as amantes de seu marido.

— Lilian, acalme-se! Talvez ele só tenha vindo para a temporada e irá embora assim que ela acabar.

— Com qual proposito Nick? Preciso que descubra o que ele estava fazendo aqui.

— Receio que se ainda resta algo que conheça bem em Gabriel, o fato dele não me avisar que estava em viagem de retorno pode significar que ele não está aberto a uma conversa.

— Inferno!

— Lady Lilian. – Nicholas a repreendeu com razão. Estava perdendo a linha deixando-se levar por premissas das sensações que Gabriel lhe provocava.

— O que eu farei? Irei para casa sozinha na carruagem ou ele irá comigo? Devo esperá-lo para sair do baile? Ele dormirá na casa Kahn? Não faço ideia de como ser casada Nick.

— Bom, tem algumas horas para tentar aprender. Enquanto isso eu direi o que faremos. Caso Gabriel ainda esteja com Serena ao retornarmos, eu a tirarei dos braços dele, e vocês dançaram.

— Não posso. Eu e Gabriel nunca dançamos, não em circunstâncias tão adversas, eu poderia vomitar.

— Caso vomite, eu lhe socorrerei.

— Lorde Hastings, o senhor é o melhor dos homens.

— Encontra-se melhor?

— Sim, vamos encarar os lobos!

De volta ao salão, era o mínimo dizer que o duque e a duquesa de Kahn seriam o assunto da temporada. Gabriel continuava de braços dados com a graciosa Serena, enquanto Lilian permanecia ao lado de Nicholas, a cada passo tornava-se cada vez mais tensa. Seu marido a avistou de longe, e encurtou o trajeto caminhando até eles.

— Hastings, não tinha notícias suas há tanto tempo que quase achei que houvesse se casado.

— Deixo essa instituição para aqueles que a valorizam de algum modo.

— É peculiar que não valorize a instituição, mas cobice seus membros.

— Como? O que está sugerindo Kahn?

— Que para um homem solteiro você passa muito tempo na companhia de uma dama casada.

Nicholas gargalhou.

— Ora, Gabriel, alguém tinha que cuidar de sua esposa enquanto estava fora, pode me agradecer depois por ter lutado bravamente pela honra dela. Agora se me permite, acho que devo estar na companhia de uma dama que não esteja casada. Senhorita Serena, me acompanha na dança?

Nicholas retirou Serena dos braços de Gabriel com uma graça arrebatadora e a mulher que olhava para o marquês com muito desejo, mordeu os lábios e ajeitou o decote antes lhe jogar as mãos.

— Vossa graça, receio que fomos abandonados. Perdoe-me senão puder aplacar a inquietude de sua alma, hoje iremos dançar.

Ela sentiu o cabelo da nuca se arrepiar quando Gabriel mencionou o primeiro encontro deles próximo ao seu ouvido, engoliu em seco esperando não ser pega.

— Desde quando você dança?

— Os bailes franceses são muito convidativos.

— Acho que não seria educado negar o meu próprio marido.

Lilian deixou-se conduzir para os braços de Gabriel, e se impressionou com a desenvoltura do marido. Sim, ele de fato havia aproveitado os bailes franceses.

— Conte-me sobre os boatos.

— De quais deseja saber? Muita coisa aconteceu nos últimos anos. Lady Phillipa casou-se, Lorde Tandarin foi pego com a gravata virada em certo baile, questionam a todo instante o nascimento do herdeiro do Yahen apenas 7 meses após o casamento do visconde. Enfim, todo o tipo de coisa aconteceu. Imagino que tenha se atualizado sobre a política e não queira saber a meu respeito, então deve ser mais claro, vossa graça, sobre o que deseja saber.

— Ora, quem disse que não desejo saber a seu respeito, quando tudo o que quero saber agora diz respeito a você.

— Pois então diga.

— Sim ou não?

— Sobre o que?

— O que há entre você e Hastings? E não me dê respostas evasivas.

— Então não faça perguntas evasivas. O que tenciona saber sobre mim e o Marquês?

— Está dormindo com ele?

Lilian deu um tropeço. Gabriel admirou sua surpresa, era por que não esperava que ele soubesse ou porque de fato não tinha dormido com outro homem?

— Não.

— Certo, e pretende dormir com ele?

— O que diria se eu dissesse que sim?

— Que aproveitasse e adiantasse seu interlúdio para hoje, pois ao alvorecer Hastings estaria morto.

Ela riu. E ele se retraiu ao ouvir aquele som que o agradava tanto.

— O curioso caso do marido que desaparece e acha que tem algum direito sobre sua esposa.

— Não me tente Lilian.

— Senão me engano é a graças a isso que estamos aqui.

— É graças a você que estamos aqui.

— O que veio fazer aqui Gabriel?

— Senti saudades do familiar ar pútrido da capital inglesa.

Lilian emitiu um som abafado na garganta em total descrença.

— Conte sobre o outro boato, a criança.

— Que criança?

— Vou refrescar sua memória. Contam, que ficou grávida do meu herdeiro, e que como punição pelo meu afastamento você deu a criança me punindo ao negar a continuação da minha linhagem. Ou que teve um filho com Hastings e o esconde a sete chaves, visitando o bastardo sempre que pode acompanhada do pai da criança.

— Está acreditando em fantasias de vendedores de jornal.

— Então nega?

— Ainda pergunta?

— Não é o suprassumo da honestidade querida.

— Pois bem, querido deixe-me testar as águas.

— Não se prenda por mim.

— E se eu lhe disser que gasto metade da sua fortuna em um fundo para o sustento de uma criança que eu amo, e em quem você jamais irá pôr os olhos, e que sim, eu passeio com ela ao lado de Lorde Hastings, seu amigo, pois ele o trata bem de uma maneira que eu desconfio que você jamais faria.

— Vamos embora!

Gabriel esperou que os músicos parassem, e assim que o fizeram, puxou Lilian contra o seu braço e caminharam em direção a saída. Ela olhava afoita durante todo caminho até a carruagem, imaginando o que aconteceria se ficasse trancafiada em um espaço consideravelmente curto e abafado com ele. Seu marido a ajudou a subir, e colocou-se no banco a sua frente, fechou a porta com um estrondo e deu uma batida no teto para começarem a se mover.

— Para onde vamos?

— Para casa.

— Então pretende ficar?

— Eu disse que estava de volta, querida.

— Sim, mas não disse onde e nem por quanto tempo.

— Não pretendo aumentar o falatório, ficarei em minha casa.

— Um falatório que você mesmo causou.

— Oh, não minha esposa, quem cria pautas para as sessões de fofoca é a senhora.

— Não lembro de ter voltado a Londres diretamente para um baile com minha amante.

— Mas fica passeando com uma criança ao ar livre ao lado de outro homem.

— Preferia que fizesse passeios noturnos? Com uma criança é um pouco difícil.

— Prefiro que me diga a verdade!

— Sabe é curioso que pense que alguma dessas teorias é verídica, conversamos sobre isso, sabe que jamais negaria a mim o convívio e criação de um filho.

— Você esquece que isso foi há muito tempo.

Lilian olhou pela janela, perguntando-se se nada restou do Gabriel recém-casado. Um homem doce, educado, gentil que a tratava com respeito, que conversava com ela sem conceitos prévios, que de fato a ouvia.

— Viemos de lares aparentemente reconfortantes. Eu odiaria criar uma criança, o seu herdeiro como disse, nesse lugar onde estamos.

— Me parecia... – Ela o interrompeu.

— Eu juro que houve momentos em que eu fiz uma prece silenciosa para que estivesse grávida, porque eu não lhe contaria. Eu o privaria Gabriel, anos da convivência do seu próprio filho, apenas para te magoar. Para te ver desconsolado e arrependido, por seus anos de libertinagem tardia. Implorando para que pudesse reaver os anos perdidos, os primeiros passos, o primeiro sorriso.

— E não foi capaz nem mesmo disso, de construir uma boa vingança, e prender o seu marido.

— Eu nunca quis te prender, na verdade nunca quis... Não interessam as minhas vontades. As imagens se manifestaram de maneira muito clara em minha mente, e eu desejei avidamente ter uma criança, e no instante seguinte eu me odiei, odiei você ainda mais por me fazer desejar isso... Impor a uma criança tamanho flagelo ao ter que conviver com pais que se mal se toleram. Imaginou como seria? Cafés silenciosos, passeios silenciosos, jantares tediosos, oh céus e aniversários? Presentes diferentes. E em decisões importantes? Viveríamos competindo para saber quem é melhor. E a criança seria única, edição limitada já que, obviamente com o passar dos tempos não nos entenderíamos e então talvez você tivesse um ou dois bastardos, e eu tivesse um amante, e assim viveríamos, ano após ano, até você morrer e eu me tornar uma Duquesa viúva fria e amarga. Não, não é esse o futuro que desejo a qualquer criança, muito menos a minha.

— Como tem tanta certeza de que eu morreria antes?

— Esse não é sempre o destino dos homens?

— Parece que sim.

Silêncio povoou aquele considerável metro quadrado. Gabriel olhava sua esposa que perdeu-se olhando pela janela. De repente sentia-se nostálgico, melancólico, assim como Lilian ele também imaginou uma criança, e por mais que a ideia de ela tê-lo privado da companhia do seu filho o deixasse possesso, ele desejou que fosse verdade, talvez ver o resultado de sua união com Lilian projetado em um mini ser acalmasse seus nervosos, dispersasse sua mágoa. Ali recostado no banco e vendo a luz fraca da lua banhá-la ele esqueceu-se queria esquecer algumas coisas, há muito tempo não ficava tão próximo dela. Será que seus cabelos ainda eram macios, será que ela ainda cheirava a flores frescas e damascos? Passara pouco mais de um mês com Lilian depois do casamento, sua esposa era uma mulher de hábitos diferentes pelo que se lembrava, mas lembrava muito pouco ou quase nada a respeito dela, agora mais do que nunca, eram estranhos um para o outro.

— Lilian, não me respondeu o mais importante.

— E o que seria?

— Quem é a criança?

— Receio que este é um assunto que não posso compartilhar.

Gabriel foi interrompido pela porta da carruagem se abrindo, sua esposa saiu com a ajuda do lacaio, ela subiu as escadas com uma postura rígida enquanto ele a seguia silenciosamente, ao entrar Gabriel foi saudado pelo mordomo e dispensou a reverência. Sua esposa ia subindo a escada quando se virou para ele, de repente dando-se conta de que ele estava ali.

— Perdoe-me, não estou acostumada a ter um marido presente. Eu avisarei a governanta que lhe prepare um banho e...

— Não precisa se incomodar, vim apenas deixá-la em casa.

— Sabe que já esta tarde, não é?

— Da última vez que eu verifiquei ainda sabia olhar as horas.

— Então não dormirá em casa?

— Por acaso estava me esperando para esquentar sua cama?

— E agora você conta piadas, hilário querido. Passe bem, onde quer que você não durma.

Lilian subiu as escadas e Gabriel absorveu a sensação de enfim estar em casa, sorvia doses de angústia e inquietude, sua esposa o deixava inquieto, e a tranquilidade dela ao dispensá-lo o desapontou, esperava alguma emoção, que gritasse, que derramasse uma lágrima, ou que simplesmente sua voz tremulasse. Nada. A cabeça de sua mulher permanecia um mistério, mas não por muito tempo, isso ele iria garantir.