Notas iniciais
Vamos de dividir opiniões?

Dois anos depois ninguém tinha esperanças ou ilusões do retorno do duque. Há muito tempo Lilian não se pegava criando fantasias românticas, a mais tempo ainda ela não sentia seu coração rachado. Mas Gabriel, maldito seja, conseguia de alguma forma entrar na sua mente. Em alguns momentos pensava nele, quando ouvia uma voz grave ressoar atrás dela em um baile, quando algum cavalheiro sorria por detrás de uma dose de conhaque em um jantar... Sua mente imergia em questionamentos: ele ainda estava na França? Será que havia tomado o mínimo de cuidado para evitar um encontro com seus pais? Quanto tempo demoraria para que voltasse? Voltaria um dia? Havia encontrado uma moça disposta que lhe lembrasse Claire e resolvido criar uma família por lá?

— Senhorita.

Lilian despertou e lembrou onde estava. Não era sensato divagar no meio da passagem para o jardim. Na soirée da recentemente viúva Condessa de Calaham, os comentários eram respeitosos o suficiente para não citarem seu marido de nenhuma forma. Talvez não tão respeitosos para conterem insinuações, ouviu sussurros questionarem onde estava seu amante Lorde Hastings. Aquela era uma história engraçada que vez ou outra ela fazia questão de alimentar. Dizia-se assim pelos corredores e salas de chá "Lady Lilian casou-se com o Duque apenas por sua posição, ela era na verdade apaixonada pelo Marquês de Hastings, com quem tinha um caso a anos e estava falido, eles fizeram um acordo escandaloso para se safarem e viverem ricos. Lilian seduziu Gabriel, o forçou a casar-se e quando ele descobriu o caso de seu amigo e da esposa fugiu envergonhado." Vez ou outra alimentava a história de Nicholas ser seu amante quando dançava mais de uma vez com o Marquês, ou passava mais tempo que o recomendado em sua casa de campo – os verões na casa ancestral de Nicholas eram reconfortantes, cavalgava com Caroline, faziam festas interessantes com amigos nobres pouco tradicionais e novos ricos – que para algumas pessoas era um recanto de devassidão e adultério. Contudo, ninguém dirigia suas teorias diretamente a eles.

— Senhorita?

Apesar de ter dado espaço para que alguém pudesse passar, e agora estar debruçada observando as luzes do jardim, Lilian ainda ouvia aquele termo. O que era de se estranhar, já que não havia uma só alma em Londres que não soubesse quem ela era. A ousadia daquela voz despertou interesse nela.

— Creio que deva referir-se a mim como senhora.

— Não como Lady Kahn? Ou duquesa?

— Então estamos em desvantagem, eu não o conheço, e certamente alguém que me conhece raramente iria me qualificar como uma mulher solteira.

— O que dizem é verdade, a senhorita, perdão a senhora é fascinante milady.

— E o senhor seria?

— Lorde Faulkner.

Imediatamente Lilian associou o nome à pessoa. Lorde Dominic Faulkner, libertino, bon-vivant, artista nas horas vagas – que ela desconfiava ser a maior parte do seu dia – apreciador, como ele mesmo fazia questão de gritar aos quatro cantos, de mulheres bonitas. A última notícia que tivera dele foi algo como ter sido pego pelo Conde de Lavan, nos aposentos do próprio, nu e com Lady de Lavan em seu colo. Escandaloso e imoral de fato, impecavelmente charmoso, e claro uma verdadeira escultura grega.

— Percebo que fez associações. Temos julgamentos associados?

— Não, já que me abordou deve saber que não faço julgamentos precipitados, por outro lado... Não entendo seu repentino interesse.

— Me interesso por pessoas interessantes.

— É claro que sim.

— Vai me dizer que não é tão interessante assim?

— Não costumo faltar com a verdade milorde.

— Não, não me parece que faz disso uma rotina. Lady Kahn, sabe por que lhe chamei de senhorita?

— Não fui agraciada com o dom de ler mentes.

— Eu creio que devam existir uma ou duas regras a respeito do casamento, se possível eu faria disso um projeto de lei.

— O senhor criando um projeto para uma instituição na qual crê tão pouco?

— Gostaria de ouvir minhas ideias?

— Estou fascinada e completamente entretida, por favor, continue.

A conversa estava divertida, e ela não era uma menina inocente a ponto de não entender o propósito daquilo, mas estava disposta a gargalhar um pouco.

— Vejamos, todo casamento deve ser consumado, isso é um fato inegociável, a única vantagem de se casar é ter prazer a uma mão de distância e isso não deve ser de forma alguma negado a nenhuma das partes. Mas também não deve ser forçado, violência ou qualquer tipo de agressividade só deve estar num matrimonio se for para ganhos satisfatórios.

Ele terminou a frase e Lilian percebeu que ele estava com o rosto estrategicamente inclinado para ela. Esperava um beijo? Era nessa parte que as mulheres cediam? Sua sobrancelha se ergueu e Lilian entendeu que ele imaginou chocá-la.

— Concordo, nenhuma violência, todo prazer.

— Outra regra, todo abandono de lar será penalizado, a pessoa deixada para trás poderá recorrer de forma que seja possível reaver a perda de suas expectativas por meio de dinheiro e liberdade.

— Mas não é para isso que existe o divórcio?

— Milady, isso é bem melhor que o divórcio, sem o alarde, sem a problemática, sem ter que comprovar adultério. Agora vem a melhor regra, um casamento em casos de abandono deve ter prazo de validade, se dentro de dois anos e uns quebrados o marido não atender as expectativas da esposa, o laço simplesmente passa a não existir. Como num passe de magicas, nunca foram casados.

Lilian notou imediatamente que o projeto seria algo como Lei de Lady Kahn, para esposas abandonadas.

— E por que em dois anos?

— Espere, eu tenho a argumentação perfeita para isso. Em um ano a dama ou o cavalheiro, está se recuperando da partida, juntando pedaços. Em dois anos consagra a certeza de que foi de fato largado sem retorno, os quebrados que representam uma grande problemática.

— É mesmo? Fale mais sobre os quebrados.

Lilian cruzou os braços sobre o peito e percebeu que atraiu o olhar do homem, pobre controlado pela devassidão.

— Lorde Faulkner? Estava me falando sobre os quebrados.

— Ah sim. – Ele pigarreou – os benditos quebrados. Nos quebrados uma mulher pode passar a se sentir sozinha, impulsos carnais são mais fortes, elas ruborizam por besteira, elas anseiam por um toque, uma chama de prazer, um flerte leve as enlouquece.

— Entendo, então tudo é sobre os prazeres carnais?

— Não Lady Kahn, tudo é sobre liberdade para aproveitar o único benefício do casamento fora de um casamento, sem os apelos da virtude virginal.

— Existem outros benefícios em um casamento milorde, companhia, amizade, amor, respeito.

— E diga-me Lady Lilian, quais desses você está aproveitando no seu casamento solitário?

Certo, talvez tenha calculado errado as intenções desse homem. Imaginou um flerte e uma proposta indecente, mas recebera um golpe direto e bem arquitetado.

— O que faz o senhor pensar que não estou os aproveitando?

— Não foi o que eu disse. Eu nem mesmo sugeri. Mas vamos concordar que quando, e se seu marido voltar para casa ele será um completo estranho, por que não enquanto isso e até mesmo depois aproveitar uma companhia familiar?

— O que está sugerindo milorde?

— Que aproveitemos a companhia um do outro.

— Por acaso não se inteirou que eu tenho aproveitado a companhia de Lorde Hastings?

— Nicholas jamais faria isso.

— E por que acha que eu faria?

— Não acho, mas resolvi tentar a sorte, eu posso ser bem convincente.

— E argumentativo.

— Sim. Eu fico consternado em ver uma dama linda, divertida e passional, no auge da sua idade, desperdiçando sua diversão, é simplesmente injusto.

— Por que eu sinto que diversão para o senhor sempre tem um apelo sexual?

— Eu sou uma criatura naturalmente sexual, infelizmente cedo facilmente a meus instintos primários.

— Não deveria ser a sobrevivência um instinto primário?

— Como a senhorita acha que posso viver sem uma companhia feminina? Eu nem mesmo sei como a senhorita aguenta.

— Milorde, existem outras maneiras de uma dama se satisfazer sozinha, e eu estou muito bem nesse quesito, obrigada.

— Minha nossa Lady Lilian! Agora me ofereceu imagens que eu só poderei sonhar. Tem certeza de que não precisa de uma visita minha em sua cama?

— Imagino que deva ser extremamente habilidoso, mas vou passar minha vez.

— Sempre terá um lugar reservado em meu coração. Sejamos amigos então? Agora não consigo imaginar uma mulher que me divirta na cama tanto quanto a senhorita fora dela.

— Acho que deve referir-se como senhora, Faulkner. – A voz de Nicholas ressoou atrás dela.

— Não precisa se preocupar Hastings, Lady Lilian recusou bravamente todas as minhas maquinações. Mas aviso que deve ficar atento, pois agora somos amigos, e posso roubar a companhia dela a qualquer momento.

Lorde Faulkner se aproximou e beijou a mão de Lilian sobre a luva antes de se afastar.

— O que foi isso Lilian?

— Ah Nick, ele é divertidíssimo.

— Sim, é por esse motivo que ele consegue levar tantas mulheres para cama.

— Está com inveja?

— Não, sim, talvez... O maldito tem a lábia que todo homem gostaria de ter.

— Sim, ele é fascinante.

Mas Lilian não ficou nem mesmo tentada. Não conseguia se imaginar com um homem, e quando conseguia ela não podia correr para os braços dele porque ele estava distante em um bordel qualquer se esbaldando com beldades, enquanto ela criava teias de arranhas. Talvez daqui a um ano conseguisse ser infiel a ele, droga de escolha que sua alma havia feito, ela não conseguiria.

*****

Dois anos e oito meses depois, Lilian se viu alegre demais de tanto vinho, e com um calor que fazia sua alma suar, naquele momento, enquanto tomava um ar fresco nos jardins de uma festa ela lembrou-se da conversa com Lorde Faulkner. Cristo, desejou ter aceitado. Algo estava errado com ela naquela semana, havia pensado naquela conversa um milhão de vezes e em Gabriel vez nenhuma. Pela primeira vez sentiu vontade de ser tocada, beijada, via casais se escondendo para aproveitar momentos de paixão e desejou que ela mesma tivesse seus momentos de paixão.

Como se tivesse sido invocado, Dominic apareceu em sua frente. Ela apertou os olhos para ter certeza do que via.

— Eu não sou uma miragem, minha querida. – Ele retirou a taça que ela nem mesmo lembrava de estar segurando.

— O que faz aqui fora sozinha? Há homens que se aproveitariam de você.

— Ou eu me aproveitaria deles.

— Não, você dificilmente faria isso.

— Não sei, estou me sentindo tentada.

— O nome disso é vinho.

— E um pouco de carência, talvez?

— E muito de carência.

— Dominic. – Eles de fato haviam se tornado amigos, e socializavam como tal, mas nada que levantasse uma onda de rumores, Dominic estava agora com Marie Galard, uma atriz.

— Sim minha musa?

— Pare de me chamar assim.

— Mas você é, prometo que um dia eu irei lhe mostrar tudo que você já me inspirou a pintar.

— No dia que eu pisar na sua residência, eu estarei consideravelmente arruinada.

— Sim, a não ser que vá acompanhada do seu marido.

Ela gargalhou.

— Não conte piadas. Dominic... Se eu te pedisse um beijo?

— Lilian...

— Você implorou meses para que eu fosse sua amante.

— Sim.

— E agora me nega um beijo?

— Querida, você não sabe como isso será uma grande mancha em minha reputação, e como me doí recusá-la.

— Então não recuse.

— Se eu te beijar, não estou certo de que conseguirei me conter.

— Não estou pedindo que se contenha.

— Não.

E Dominic se aproximou de Lilian. Ele tinha plena certeza de que aquela era a pior decisão da vida dela, e ele estava prestes a colaborar com ela, mas não podia deixar uma amiga na mão. Lilian era fiel ao marido por diversos motivos, mas principalmente porque o amava, embora ela negasse veementemente dizendo que o amor de Gabriel para ela era mais uma vaidade do que uma necessidade ou um fato. Então Dominic, como um bom amigo, ofereceu-se lentamente a ela. Primeiro tocou seu cotovelo, depois aproximou-se lentamente, tocou-lhe o queixo e esperou uma respiração. Nem mesmo um santo esperaria tanto. Foi o tempo necessário para ela chegar tão perto que ele sentia o calor do hálito de Lilian. Ela poderia beijá-lo, ele quase achou que iria, ele quase se afastou, mas ela o fez antes. Nada que ele não soubesse ou esperasse.

— Inferno! Não consigo, será sempre assim? E se ele nunca voltar Dominic? Eu nunca conseguirei beijar outro homem?

Lorde Faulkner a puxou para um abraço apertado e sussurrou em seu ouvido.

— Ele irá voltar, é impossível passar tanto tempo longe de você musa, e mesmo que ele não volte, e você precise recorrer a auxílios externos, você conseguirá. Ninguém é mais forte que você.

Como um canalha conseguia ser tão bom amigo, era algo que ela nunca entenderia.