Jamais engane um duque
14 Capitulo 14
Notas iniciais
Amanhecer em um quarto diferente não a assustou, o que a preocupou foi a badalada que acertou seu coração quando ela percebeu que Gabriel não estava ali. Não foi um bom dia do seu marido que a acordou, imaginava que assim eram assim que as coisas funcionavam, quartos separados.
Lilian revirou-se na cama, e memória da noite anterior a confortaram, o Gabriel de ontem parecia encantado e devotado a ela, como se nenhuma outra mulher já tivesse existido em sua vida. Ela poderia lidar com esse Gabriel, poderia se divertir. Mas havia outro, havia aquele que tinha deixado ela na cama e corrido para o outro quarto. Será que ele tinha medo de chamar o nome de Claire enquanto dormia?
Doroth entrou no quarto e a ajudou a se despir para o banho.
— Senhora, todos estão comentando sobre como o duque foi romântico, carregando-a pelas escadas.
Lilian se limitou a dar um riso fraco, e aproveitou a deixa.
— Doroth, por acaso sabe onde se encontra meu marido?
— Ele está no escritório, pediu que fosse informado assim que a senhora estivesse pronta para o café.
— Certo, pode avisá-lo que descerei em instantes.
Arrumada, mas não muito, ela aguardou o marido para o café da manhã. A mesa imensa preenchida de ponta a ponta poderia alimentar dezenas de pessoas. Ela nunca comia tanto pela manhã.
— Olá, se importa em me dizer para onde vai o que sobra dessa comida?
Lilian se dirigiu a um dos homens que esperavam para servir.
— Perdão senhora?
— Bem, não acredito que eu e o duque comeremos tudo isso.
— O restante é jogado fora.
— Toda essa comida... Qual é o seu nome rapaz?
— Christopher, milady.
— Pois bem, Christopher, estou certa de que deve haver pessoas necessitadas por aqui, incertas sobre o pão de cada dia.
— Como em toda a Inglaterra, senhora.
— Vou deixá-lo encarregado de uma tarefa. Conversarei com a cozinheira, certamente não precisamos de tanta comida, mas quero que ela continue a fazê-la em grande quantidade, iremos distribuir para quem precise.
— Senhora...
O rapazote estava pasmo. E Lilian riu, esquecendo-se que aquela não era uma atitude comum a nobreza da qual agora ela fazia mais parte do que nunca.
*****
Gabriel estava concentrado quando o avisaram que sua esposa o aguardava. A vergonha o assolava, nunca imaginou submeter uma dama a tal tratamento, não dera a Lilian uma primeira noite como ela merecia, adequada e respeitosa, em uma cama com lençóis ao invés de um tapete na biblioteca.
Ele foi até ela obstinado a desculpar-se. Precisavam chegar a um acordo sobre o casamento. Lilian não merecia um marido ausente e distante, mas ele tão pouco poderia prometer amá-la, não se senti livre para isso. Tinha imaginado outra vida, desistir de um sonho justo quando estava perto de realizá-lo leva tempo. Foi impossível não comparar Claire e Lilian na igreja. No dia do seu casamento ele sentia culpa. Teria que lidar com as consequências do seu ato, ele não era um poço de inocência, tinha desejado Lilian, sonhado indecentemente com ela... Mas ela não poderia ser a mulher onde ele descontava suas frustrações, nem poderia ser uma eterna lembrança da sua culpa e do seu fracasso com o amor perdido.
Ao entrar na sala, viu a esposa conversando alegremente com um rapazote que servia o café. Quando Lilian o olhou, seu sorriso sumiu, e ela corou. Droga! Não podia se esquecer que ela também não tinha planos de ser sua esposa, era uma mulher livre e independente até ele a seduzir. Essa ainda era uma ideia absurda para Gabriel, nunca se imaginou seduzindo uma moça relativamente inocente.
— Bom dia! – ela o saudou.
— Bom dia!
Gabriel ia sentar-se na outra ponta da mesa, quando ela ergueu a mão e pediu que ficasse perto dela.
— Gostaria de lhe informar de uma decisão seríssima que tomei, e que encarreguei Christopher para executá-la.
— E qual seria essa decisão?
— Vossa graça come tanto pela manhã? Não creio que tenhamos essa necessidade de comida. Gula é um sórdido pecado, muito traiçoeiro.
— Como todos os outros imagino.
— Sim. Mas esse é pior, é dissimulado, quase não parece um pecado até ser. E leva a outros, ira, avareza, soberba, preguiça, inveja...
— Só poupa a luxuria.
— Que se você pensar com cautela, não deixa de ser uma gula destinada a outros... veículos de excesso e satisfação.
Gabriel admitiu que a inteligência de sua esposa o divertia.
— Então devemos pecar menos? Acho que há muito excesso em nossa satisfação.
— Vossa graça, devemos nos exceder menos quanto a um pecado, quanto ao outro acho que devemos nos esbaldar.
Lilian piscou para ele, e Gabriel sentiu-se imediatamente pronto.
— Vossa graça, não deve começar conversas que não pretende terminar.
— Ora, mas eu pretendo. Como eu dizia... – Lilian virou para o rapazote que Gabriel deduziu ser Christopher.
— Christopher está encarregado de redistribuir uma grande porcentagem do nosso café, instrui a cozinheira que restringisse nossas refeições e que fizéssemos uma distribuição imediata, para os que necessitarem.
— Quer minha aprovação?
— Na verdade, não. Eu estou o informando. Hoje tomamos café tarde para o horário que pessoas acordam e fazem o seu serviço. Christopher me informou que o adequado seria uma hora mais cedo.
— Já que outra pessoa irá distribuir o café, por que está preocupada com o horário?
— Porque eu gostaria de ir algumas vezes, e se quiser sempre a minha companhia sugiro que se levante mais cedo.
Gabriel estava curioso com a súbita animação de Lilian, pensou que a encontraria calada e reflexiva, mas ela parecia feliz. Quanto a si mesmo, não poderia dizer que estava triste, os acontecimentos recentes tinham o deixado satisfeito. Sua esposa seria uma duquesa mais adequada do que ele havia pensando.
Gabriel pediu um momento a sós com a esposa, e ela o olhava de modo curioso.
— Creio que devo me desculpar com você.
— Pelo que?
— A lista é imensa. Desculpar-me por tomar sua liberdade, por arruiná-la, e principalmente por ontem. Não deveria ter perdido sua inocência em um tapete.
— Acho que está procurando inúmeras desculpas para a principal. A verdade Gabriel é quer se desculpar comigo por não me amar, e talvez nunca poder.
— Eu não acho que seria o homem que você pretendia passar sua vida.
— Não estava pretendendo passar minha vida com homem algum.
— Justamente até eu...
— Gabriel!
Lilian aumentou a voz. Pelos céus, não ficaria naquela ladainha a vida toda, autopiedade era algo que detestava.
— Eu não o amo, você não me ama, nós não nos amamos. Você gostaria que sua esposa fosse outra e eu não gostaria de ter esposo algum. Vamos chegar a um acordo que favoreça a nós dois sim?
— Por favor.
— Certo, é inegável que desejamos um ao outro, e sua companhia é mais que tolerável. Não nos conhecemos, é fato, mas podemos tentar. Desejo e amizade bastam para mim, não preciso que me ame, e não estou certa de que você precise ser amado.
— E se por acaso eu precisar?
— Como?
— Se eu precisar ser amado, por você, ou você precisar ser amada por mim. Se mutuamente precisarmos de amor...
— Me esqueço de como você é romântico. Nesse caso, teremos a honestidade. No momento em que se sentir inclinado a me amar, falará comigo, e eu posso fazer o mesmo.
— E conversaremos racionalmente sobre isso.
— É claro.
— Sabe alguma coisa sobre se apaixonar Lilian?
— De certa forma.
— Então quando se sentir ansiosa para me ver, ou ciumenta, ou possesiva, ou quando ficar nervosa apenas pela menção da minha presença, você vai me avisar, certo?
Lilian engoliu em seco. Seu marido havia se aproximado perigosamente dela, e começou a causar-lhe arrepios.
— Eu tenho alguma noção sobre a sensação. Agora se me der licença, preciso ver a governanta, tenho que... coisas a resolver.
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