J'ai Trouvé
1 Capítulo 1 Bobagens
Notas iniciais
"Você é menino ou menina?" "O quê?" "Você. É. Menino. Ou. Menina?" "Por quê?", penso ter feito alguma careta neste momento, porque o garoto mudou de expressão por um instante e, além do mais, o questionamento é digno de uma careta, "Sei lá. Você tem cabelo grande, parece um pouco uma menina, mas também parece um menino. Você usa roupas de menino. Você joga futebol com a gente. Você não brinca com as meninas e está sempre com os meninos. Você não faz as coisas como uma menina. Sei lá.", por mais boba que pareça, esta pergunta mexeu comigo de maneira estranha. Realmente não sabia como responder: "É... eu..." "Ela é uma menina! Uma linda menina.", lembro da minha professora chegando e me dando a mão, me levando para a sala de aula. Me senti protegida, amparada. Conversamos brevemente em seguida e ela foi realmente muito atenciosa comigo. Porém, não era sempre que havia alguém para me livrar de situações do tipo. Perguntas do gênero tornaram-se algo quase que corriqueiro, incluindo algumas um pouco mais... pesadas, digamos. Meu desconforto não era nem de longe evidente, gostava de me passar por durona. Aquela a qual por nada era afetada. Penso que enganei bem. Detalhe: no ocorrido inicialmente citado eu tinha cerca de sete anos.
Lembro bem da minha primeira série. Meu pai tentou me transferir de colégio (durou dois meses, depois voltei para o anterior) e o pouco tempo no novo ambiente me proporcionou algumas experiências... curiosas. Desde que era um bebê, estudei em um colégio pequeno perto de minha casa. Lá os professores e funcionários sabiam da situação de minha família e, portanto, eram extremamente atenciosos comigo e com meu irmão mais novo. Quando tinha sete anos, passei o início do ano letivo em um colégio grande, mas logo voltei em função do ensino lá ser atrasado perto do que eu tinha. Continuei indo ao colégio grande duas vezes por semana, durante a tarde, para fazer alguns esportes, que eu amava, lá disponíveis. Voltei para o colégio pequeno ainda com alguma parte do colégio grande em mim. Eu havia me apaixonado. Ainda podia vê-la sempre que ia lá durante a tarde. Fazíamos uma das atividades juntas. Era um ano mais velha do que eu. Cabelos castanho claros, olhos amendoados, tez lisa e macia. Fora o sorriso, que sorriso. Seu nome, Catarina, eu acho (só lembro que tinha “Cat” como apelido). Eu gostava dela, como costumava dizer. Um dia, lembro-me bem, durante uma aula de inglês no colégio pequeno, escrevi uma carta de amor. Meu plano era deixá-la sob a mesa da garota na tarde seguinte. Após preencher as linhas com as mais belas palavras e elogios que conhecia, passei para uma amiga (que inclusive reencontrei anos depois e ainda tenho algum contato), pedindo sua opinião. O problema foi que, nesse meio tempo, a professora recolheu o papel.
Resultado: Minha carta de amor foi parar na coordenação, a qual entrou em contato com o meu pai, pois estavam “preocupados com a situação”. Para resumir a história, meu pai não gostou muito do ocorrido.
Ninguém mais da minha família soube sobre o que aconteceu. Ninguém mais soube o que aconteceu. Eu tinha medo. Por toda a minha infância amores daquele tipo me foram apresentados como algo ruim (isso sem falar no posterior colégio católico no qual fui internada matriculada).
Lembro de sempre pedir para minha avó contar sua história para com o meu avô. Era linda. Eles haviam se conhecido ainda muito jovens. Começaram a namorar quando ela tinha 15 e ele 17. Assim que ela completou 18, casaram-se. Tiveram três lindos filhos e são felizes até hoje. Lembro dela falando sobre um estalo que você sente quando encontra aquele alguém especial. Tudo é diferente, você sente. Lembro dela sempre me alertando sobre gravidez indesejada e vangloriando-se sobre ter deitado com meu avô pela primeira vez só na lua de mel. Lembro das minhas interrupções, dizendo que queria ter seis filhos, mas sozinha. Não queria marido. “Meninos são legais, homens são chatos”, eu dizia. “Eu nunca vou ter um namorado!”, eu dizia. “Não seja boba, meu amor, logo você vai encontrar aquele alguém especial. Alguém com quem você será muito feliz e por quem será muito apaixonada. O homem perfeito para você.”, boba era ela.
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