Jade
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Estou prensada à parede. Escuto estilhaços de vidro se quebrando no chão e disparos de revólver no andar de baixo. Tento correr para meu quarto, mas mãos percorrem minhas costas, fincando as unhas em mim, me prendendo. Tento pedir ajuda, mas sinto uma mão em minha boca, me impedindo de gritar.
O caos, o desespero e o sentimento de já ter vivido isso antes são tudo o que posso sentir. Não consigo entender, mas no fundo sei que tudo vai dar certo, eu preciso acreditar.
Pela primeira vez, agora posso enxergar. Flashes refletem manchas de sangue, cicatrizes e marcas de tiro na parede. Uma dor no peito e o ar fica rarefeito. Os sintomas logo aparecem.
Mais barulhos de tiro e um clarão. Agora estou andando por um longo corredor. O cenário se transforma: o homem que antes me segurava é agora a gravidade que me puxa para baixo.
Vejo Bennet caído no chão, desacordado. Tento gritar, mas nem eu consigo ouvir minha voz. Meu vestido branco se enche de sangue, meu esmalte preto está lascado. Com uma coroa de rosas vermelhas na cabeça, olho para meus pés: estou descalça e minha pele está acinzentada. Totalmente desesperada, fico sem conseguir respirar e já não tenho forças para me manter de pé, desabo.
Uma vertigem que me faz perder o chão, já não resta mais nenhum pedaço de tecido do vestido sem o sangue que agora brota. As flores da coroa caem: secas, sem vida. Não existe mais nenhum esmalte em minhas unhas. Sinto que vou desmaiar e...
Eu acordo.
Levanto da cama suando frio, ainda com aquela mesma sensação que me percorreu durante todo o pesadelo: certeza, medo, e um frio descontrolado.
Vou até a cama de Bennet. Ele dormia bem. Desde que mamãe morreu, me sinto mais o que uma irmã para ele, pois sei que ele só tem a mim agora, e depois do que aconteceu, tenho total certeza disso.
Titia não estava em seu quarto, o que estava ficando recorrente depois daquela noite, com o homem misterioso, que tenho a vantagem de saber o nome.
Desço as escadas e vou em direção à geladeira. Pego um copo de limonada, e nela misturo groselha. Isso me lembra meu pai.
Vou até o baú da sala e pego a manta e a caixinha de lembranças da mamãe e vou para o jardim.
Lá, deito na cadeira de balanço, coberta pela manta, segurando a caixinha, enquanto a limonada está apoiada na mesa de centro.
Me envolvo na manta mais ainda, e é incrível como o cheiro dela me lembra minha mãe. Suas risadas, seu sorriso, e o jeito de me consolar das formas mais inusitadas possíveis.
Quando percebo, estou chorando. Me deixo levar pela intensidade do momento, sinto falta de carinho, conforto, mas sei que estou ficando velha demais para ter pesadelos.
O que mais intensifica essa sensação é o fato de Bennet sempre precisar de mim, mais como uma mãe do que uma irmã mais velha, e mesmo tendo todo esse peso sobre mim, me sinto bem em poder dar isso a ele.
Me permito pensar em meu sonho maluco. A intensidade dos toques, o jeito da respiração de meu repressor, sei que já senti isso antes, como nunca tive certeza em toda a minha vida.
Perdida em meus pensamentos, adormeço, com o anel de noivado de minha mãe entre meus dedos da mão direita.
=-=-=-=
Sou acordada por Bennet, que desesperado, pula em meu colo, dizendo estar com medo de ficar sozinho em casa.
– Calma meu amor, eu to aqui! – Digo, com um largo sorriso no rosto, o enlaçando em meus braços. – A titia ainda não chegou?
– Não Jade... Ela tá muito esquisita... – Ele fala, apenas constatando o que já percebi. – Ela nem faz mais panquecas... – Diz, com cara triste.
– Bennet, se o problema são as panquecas, não é nada que não podemos resolver certo?
– Acho que sim! – Responde saído correndo de pijama e entrando na casa novamente.
=-=-=-=
Enquanto faço as panquecas, Bennet brinca com seu lagarto de pelúcia. Meu telefone toca:
–Alô?
– Jade?
– Sim, quem é?
– Sou eu, April... Liguei para saber se você pode comprar uns remédios pra mim....
– Tia, de verdade, o que está acontecendo com você, nem te vejo mais em casa, até o Beanie reclamou...
– Jade, não posso falar agora – Diz com voz tremida. Escuto vozes do outro lado da linha.
– Entendi... Quais? – Digo ciente da tensão que agora me domina também.
– Jade, preste muita atenção. Só vá até a farmácia e dê meu nome à moça morena, ela vai te entregar minha encomenda. Não faça mais nada, entendeu? Depois vá direto pra casa e me espere lá - Ela responde, com voz trêmula, enfatizando a última frase de um modo absurdo.
–Entendi. Estou indo agora...
– Não! Jade, escute... Espere 30 minutos, e só então vá... Por favor... – Ela diz, me interrompendo.
– Sim titia. Se cuide, tchau.
Ela desliga sem se despedir.
=-=-=-=
Após as panquecas estarem prontas, os próximos 10 minutos foram de angústia.
Resolvo ligar para Joshua, mesmo nossa conversa de ontem não ter sido agradável. Ele é o único que posso confiar no momento.
Nos encontramos na esquina da farmácia. Em instinto, o abraço, mais forte do que deveria...
– Jade, tem certeza de que está tudo bem? – Diz, ainda abraçado a mim.
– Sim, desculpa... – Respondo, me desvencilhando de seus braços, sem jeito.
– Josh, fique aqui, por precaução. Minha tia estava muito nervosa, não sei o que está acontecendo, não quero que você se envolva...
– Jay, EU não quero que você se machuque... – Diz, colocando a mão na nuca.
– Eu agradeço, muito, mas eu preciso fazer isso, por ela...
=-=-=-=
Convenço Josh a me esperar na esquina, ele finalmente entendeu que é melhor assim.
Ao entrar na farmácia, uma jovem morena me atende, e faço exatamente o que me foi explicado no telefone.
Ao esticar o braço para entregar-lhe o cartão, ela recusa e diz que já está pago, e me encara de um jeito estranho, como se o conteúdo fosse pra mim.
Me encontro com Josh na esquina, lhe conto o que aconteceu, e ele também acha estranho.
Sentamos em uma mesa da praça que se localiza do outro lado da rua e abrimos a sacola. Ao ver cápsulas de remédios sem caixa, e sem identificação na parte de trás. Fico frustrada.
– Jay, tudo bem?
– Josh, seu pai era médico não era? Que remédio pode ser esse? – Digo, já exaltada
– Ele era, Jay, mas eu não sou...
– Preciso saber o quê é isso... Preciso saber o que está acontecendo.
– Jade, calma! Eu pesquiso o quê é, prometo que até de madrugada te envio... Relaxa! Só tenho uma pergunta: por que ficar tão preocupada Jay? Sua tia é adulta, sabe o que faz da vida... Não se estresse por causa disso...
– A partir do momento em que as coisas que ela faz começam a interferir na minha vida e na do Bennet, eu devo me preocupar sim! Ela tá estranha... E não é só o fato dela estar com um cara e não me contar... Ela sempre esconde as coisas, me olha de um jeito estranho, sempre parece que está planejando algo... E a atitude doente de guardar os laudos médicos da minha mãe, que nem parente dela era realmente, e se comportar como se a morte do meu pai não importasse... Estou cheia disso! – Digo, e só então percebo meu tom de voz. – Josh... Brigada mesmo por vir comigo, e por se importar tanto...
– Não foi nada... E se acontecer alguma coisa, pode me ligar ok?
– Ok.... Bem, vou indo... Tchau...
– Tchau... Se cuida.
=-=-=-=
Chego em casa com a sacola e examino seu conteúdo novamente: nenhum sinal.
Encontro Bennet dormindo, do jeito em que o deixei quando saí. O acordo e lhe dou banho.
Preparo o almoço e vejo que titia ainda não chegou. Não sei por que ainda me preocupo, afinal.
Após o almoço, limpo a cozinha e vou assistir desenhos com Bennet. Perto das 15h, ela chega em casa:
– H idear.....- Ela diz, colocando a bolsa em cima do sofá.
– Precisamos conversar... Respondo
– Claro, o que foi? – Ela inicia a discussão, se fazendo de desentendida.
– Você me diz o que foi tia! Essas dores de cabeça, os mal-estares, as saídas no meio da noite.. Tem alguma coisa acontecendo! Desde que o papai morreu, parece que você não se importa mais, sabe? Que vive escondendo as coisas... Você voltou a me tratar do mesmo jeito que me tratava quando era pequena... Me olhando do mesmo jeito estranho, como se não gostasse de mim! Até o Bennet percebeu!
– Jade... Eu sei que você tá sofrendo também... Só peço pra você confiar em mim... Você não sabe da história toda..
– Ahn, não sei mesmo? Então acho que não vai ter problema em você me contar, já que está me fazendo de idiota há tanto tempo...
– Jade! As coisas não funcionam assim!
– Então como funcionam?
– Tá tudo muito complicado, tem muita coisa em jogo... – Diz, discretamente posicionando a mão sobre a barriga, um gesto que não passou despercebido pra mim. — Eu tinha problemas com você quando era criança, mas acredite em mim Jade! Eu aprendi a te amar...
– Tia, me diz, o que tá acontecendo? Eu posso te ajudar... Eu sei das coisas sim tia. Sei sobre o Oliver, sei sobre seu comportamento estranho...
– Jay, o Oliver não tem nada a ver com isso... E a propósito, como você sabe?
– Puxei o lado perceptivo do seu lado da família...
– Com toda certeza! Mas... Eu estava com ele sim, eu o amo e faz anos que não nos encontramos... Ele mudou, ficou estranho, violento... Mas sei que ele só está tentando me proteger... Jay, escuta... Existem coisas que não devem ser ditas, coisas que não devem ser feitas, e você precisa entender isso...
– Que coisas? – Digo, impaciente.
– Jay... – Ela responde, aparentemente com tontura, se apoiando no braço do sofá.
Me aproximo, mas ela faz um sinal de pare com a mão. Volto a posição inicial.
– Tia, que remédios são aqueles? – Chego direto ao ponto.
– Eu to passando mal há uns dias, minha amiga farmacêutica me receitou uns remédios... A morena que você conheceu. Ela conseguiu pegar os remédios de graça pra mim, por isso não tem identificação... Eu sei o que estou fazendo...
– Tia, calma... Acho melhor você descansar... Mas saiba que não paramos por aqui... Não pode ser só isso...
– É SIM JADE! CARAMBA, ENTENDE QUE PELA PRIMEIRA VEZ VOCÊ NÃO PODE FAZER NADA PRA AJUDAR! EU SEI O QUE EU FAÇO, MESMO NÃO PARECENDO...
– Quer saber? Pra mim já chega... – Digo – Bennet, vem aqui meu amor! Pega sua mochila também por favor – Grito em direção as escadas.
Pego minha jaqueta, minha carteira com meu celular, atitude que assustou titia por um momento.
– Jade, aonde você vai levá-lo? – Pergunta, se referindo a Bennet.
– Você não disse que não posso fazer nada? Bem, talvez você consiga... Estamos saindo, não nos espere pro jantar. E tente disfarçar na frente dele, faça algo de útil...
Bennet desce as escadas, o pego no colo com a mochila e ando em direção a porta. Dou uma última olhada para ela, dando-lhe a chance de fazer algo. Ela não aproveita a oportunidade.
Saio da casa, já chamando um táxi, com Bennet sonolento em meus braços. Pela primeira vez não posso fazer nada, o que significa que posso fazer tudo o que quiser.
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