Jack, o Caçador
3 Heloise
Notas iniciais
Assim que seu carro virou na rua de seu prédio, Jack pode voltar a respirar normalmente. Havia ocorrido exatamente como ele planejara, ele havia conseguido a prova que tanto queria e, com aquela pasta em suas mãos, seria questão de tempo para que ele descobrisse o autor do assassinato. Passou as informações mentalmente uma, duas, três vezes, sempre voltando e prendendo sua atenção em algum detalhe que julgara importante.
Manobrou o carro e estacionou na sua mesma vaga de sempre. Mesmo que estivesse em casa, enquanto apertava o botão do elevador, continuava atento ao que se passava em seu redor. Poderia julgar isso como paranóia, mas Jack estava sempre alerta. Era um dos requisitos em sua profissão.
Foi só quando pôs os pés em seu apartamento e acendeu as luzes que ele relaxou. Ali estava seguro. Quer dizer, usufruía do máximo de segurança que alguém como ele poderia ter. Colocou as chaves sobre a mesa e se jogou no grande sofá de couro preto. Tudo em sua casa era preto ou branco. Era uma das incontáveis manias dele. Não gostava de cores. Não gostava de chamar atenção.
Se jogando no sofá, ele ligou a tevê para tentar se desvencilhar de seus pensamentos. Mas já era madrugada, o relógio anunciava às duas da manhã e nada de útil passava a esse horário. Desligou a tevê e, ao mesmo tempo em que tirava sua gravata, lembrou-se da conversa que tivera com ele. Henry Miller.
– Então o que acha? – perguntou o homem se debruçando para Jack, com aquele mesmo olhar intimidador de sempre. Olhar que não funcionava com o Valete. – Pense bem, Valete. É uma oportunidade e tanto. Além disso, você ainda terá sua vingança. – o homem sorriu. Sabia que nada poderia persuadir Jack, a não ser isto. Sua vingança. Ninguém sabia do segredo de Jack, mas Henry sim. Quer dizer, parte dele.
Jack se levantou. Caminhou pelo galpão abandonado, galpão este que poucos sabiam que era usado para tais encontros. Não poderiam saber. Henry era de um time diferente de Jack.
– É uma proposta um tanto – Jack pigarreou – convincente. Mas receio ter que recusar. – disse já se encaminhando para a saída, o que se mostrou um desafio, já que os guardas costas de Henry o barraram. Jack já imaginava. Sorrindo, virou-se para Henry.
– Ora, Jack. Pense bem. – o homem sorriu presunçoso – Nós dois sabemos o quanto essa oferta é irrecusável. – e disse isso marcando bem a palavra irrecusável. Jack sabia o porquê. A resposta que ele daria a seguir determinaria se ele estaria vivo no dia seguinte. Mas o que Henry não sabia é que não se pode dominar um dominador.
– Henry Miller, por nossa “amizade” – Jack ironizou – eu aceito. Mas fique ciente que um passo em falso e o jogo terá acabado.
– Digo o mesmo pra você. – o homem sorriu e, fazendo um gesto com a mão, saiu de cena junto com seus guardas costas.
Já fazia uma semana desde aquela conversa. Jack podia muito bem ser um dos mais perigosos agentes daquela medíocre organização, mas ainda assim não pode evitar sentir um tanto de medo. Apenas um pouco. Mas ele sabia as regras do jogo e, mais que isso, sabia como burlar estas regras sem ser percebido.
Depois de um longo banho, o homem já estava deitado em sua cama, pensando nos problemas que aquele jogo traria para ele. Ele agora jogava dos dois lados. Era um agente duplo. De um lado o FBI, do outro Henry Miller. Era um jogo arriscado, ele bem sabia, mas não podia evitar. Jack sentia prazer no perigo, nada o satisfazia mais do que isso. Mas era preciso tomar cuidado, bastante cuidado. Ele agora tinha dois aliados e ao mesmo tempo dois inimigos.
O Valete se pôs a pensar no que fizera esta noite. Enganar Vivian fora algo extremamente fácil, era o que acontecia quando se colocava o orgulho acima de tudo. Vivian tinha um ego enorme. Se deliciava por ter todos os homens aos seus pés, por sempre os manipular, que nem sequer cogitara que era ela quem estava sendo manipulada. Jack poderia jurar que ela agora apenas se vestiria e iria embora. Não procuraria por qualquer objeto que pudesse ter desaparecido. E era isso que tornava o jogo ainda mais excitante.
Jack gostaria de ter aquela pasta em suas mãos agora, a verdadeira e não uma cópia. Mas ela já estava em posse de outro alguém. Era o jogo. Os dados agora estavam rolando, sua sorte fora lançada. Mas Jack bem sabia o resultado, nesta rodada o prêmio era seu.
***
Não demorou muito e sol já se levantava. Mas Jack não. Fora preciso que Heloise abrisse as imensas janelas, para que o sol pudesse acordá-lo. E como sempre acontecia, ele levantou ainda mais cansado de quando fora se deitar. Isso porque ele não chegara a descansar. Seu corpo sim, sua mente não. Ele tivera um pesadelo. O mesmo pesadelo. E ao abrir os olhos pode comprovar que o pesadelo não tinha acabado.
Como todos os outros dias, Heloise já havia preparado seu banho e ele, sem dizer uma só palavra, seguiu para o banheiro, parando apenas para beijar os loiros cabelos da jovem garota.
De banho tomado, se dirigiu até a sala de jantar, onde seu café da manhã já estava posto. Por Heloise, mais uma vez. Ela era a única coisa que o fazia sorrir. Sorri de verdade e não aqueles sorrisos presunçosos. No meio de tanto caos na vida dele, era ela quem o ajudava a caminha por esse mundo com mais facilidade. E por isso ele fazia o que fazia. Para compensá-la. Por isso sua vingança. Apenas por ela. Só por ela.
– Bom dia, J. J. – a menina sorriu se sentado-se à mesa – Dormiu bem?
– Do mesmo jeito de sempre, pequena. – ele sorriu cansado. A menina fez menção de colocar seu café, mas Jack a impediu. – Já lhe disse antes, Helô. Você não é minha empregada. – a garota suspirou
– Eu sei disso. Mas eu quero cuidar de você. – ela disse sorrindo – Você cuidou de mim a vida inteira, por que não posso fazer o mesmo?
Jack poderia ter argumentado, mas não o fez. A conhecia a tempo suficiente para saber o quão teimosa aquela garota poderia ser.
– Jack... – a garota interrompeu o silêncio que havia caído entre eles. O homem a observou sério. Heloise só o chamava pelo nome quando se tratava de algo sério e ele bem sabia o que ela queria agora.
– Sim? – ele arqueou as sobrancelhas
– Eu sei que isso o perturba, mas – ela suspirou — Sexta vai ser o meu aniversário e eu – outro suspiro – eu queria sair uma só vez.
Jack passou a mão por seu cabelo, cansado. Ele já imaginava. Doía ter que lhe dizer não, ele não gostava de negar nada ela, mas isto? Não. Ele não podia lhe dar.
– Helô, me desculpe, mas creio que já conversamos sobre isso. – ele fez menção de se levantar, mas a garota o segurou. Apenas um toque dela era capaz de refreá-lo.
– Jack, não fale comigo neste tom. Não sou um de seus colegas que você pode manipular a hora que quiser. – ela começou firme, mas em algum momento sua voz começou a vacilar – Eu sei o quanto isso é arriscado. Não sou nenhuma garotinha, eu só – ela suspirou e baixou sua cabeça – queria ver o mundo. Apenas uma vez.
Jack a abraçou. Sabia o quanto ficar ali, presa, a machucava. Mas era um sacrifício necessário. Pelo menos ali estaria segura e era tudo que lhe importava. A segurança dela. Ele gentilmente levantou a cabeça da menina e limpou suas silenciosas lágrimas.
– Eu prometo que um dia eu deixarei. Só... não agora. Está bem? – seu olhar era gentil, protetor. Era raro vê-lo, mas não com ela. Heloise era a única que despertava isso nele. Era a única que podia enxergá-lo do jeito que ele realmente era.
– Sim – ela meneou a cabeça. Jack beijou sua testa e sem falar absolutamente nada, saiu do apartamento.
Foi só dentro do carro que ele pode se permitir chorar.
Fale com o autor