Júpiter e Vênus
6 Qual é o problema? Você.
Notas iniciais
GABRIEL
— Mãe, mãe! Gabriel! Pai! — eram os gritos desesperados que vinham do quarto de Pedro, no meio da noite.
Num salto, levantei-me e saí correndo em busca do princesinha. Encontrei-o encolhido na sua cama, com o rosto translúcido molhado. Era uma visão de cortar o coração, ainda mais o meu que sempre foi mole. Sentei ao seu lado e, lhe acariciando os cabelos loiros, chamei:
— Pedro. Acorda. É só um pesadelo.
Tive que remexer seu corpo três vezes para que Pedro finalmente abrisse os olhos. Ele deu um suspiro aliviado assim que me viu. Jurei ter notado um sorriso nos seus lábios finos. O garoto desviou o olhar para o teto. Seu semblante parecia triste e desamparado. Eu não tinha muitas lembranças de Pedro daquela maneira, tão frágil. Na maior parte do tempo, ele colocava a máscara de prepotência.
— Gabriel. — Pedro quebrou o silêncio. — Eu gosto quando você me protege, sabe. Como agora.
Com o cenho franzido, mordi o lábio, sentindo-me aturdido. Sem que eu pedisse, ele continuou:
— Quando a gente era criança, eu te tratava mal. — tratava? — Mas se algum menino viesse caçar conversa... Você se metia na frente. Nunca deixava eu apanhar. Eu adorava aquilo. Você faz isso até hoje. — Meu coração acelerou dentro do peito numa velocidade absurda. — Fala alguma coisa, seu idiota.
— Eu vou cuidar de você. — falei sem pensar. — Pra sempre. — salientei. — Agora dorme porque amanhã a gente tem aula.
Tive o ímpeto de sair, mas Pedro segurou meu braço com força. Meus lábios tremeram.
— Fica comigo.
— Tomou alguma coisa estranha antes de dormir? — inquiri com um olhar desconfiado.
— Não, eu tou te pedindo pra ficar comigo. — o loiro ergueu a sobrancelha. — Por favor, gato borralheiro.
— Amanhã você vai me chutar daqui como um cachorro. — murmurei.
— Exato. Mas fica comigo. — ele insistiu com uma carinha de anjo.
Respirei fundo e me deitei junto a Pedro. Felizmente, ou infelizmente, a cama era grande demais e nós dois podíamos ficar a quilômetros de distância um do outro. Contudo, não foi o que aconteceu. Ao contrário, o loiro achegou-se ao meu peito. Olhei dentro de seus olhos castanhos e rocei os dedos na sua pele de bebê. Ele passou a língua entre os dentes e agarrou-me os cabelos. Aproximou então sua boca da minha e... Acordei.
Dei um pulo da cama. Okay, já não basta ter atacado o playboy, ter ficado com duro e agora isso? Sentei no chão sem saber o que raios fazer. Tudo o que eu queria era que alguém me levasse de volta para a vida normal. Uma lágrima desceu, apesar de não ser nem convidada ou desejada.
Eu não posso ser gay... Não posso ter esses sonhos... Logo com o Pedro! O que tá acontecendo comigo?
Após um tempo, a porta do quarto se abriu e Pedro entrou. Aparentemente, ele já estava pronto para ir à faculdade. Vestia camisa xadrez azul de manga longa e calça jeans escura. Um cheiro inconfundível de perfume caro exalava de seu pescoço branco. Depois da breve olhada, baixei a cabeça e a enfiei entre as pernas. Chorar não era uma coisa legal e ser visto pelo loiro nessa situação, menos ainda.
— O que foi? — sua voz não apresentou o tom de ironia costumeiro.
Engoli toda a saliva que tinha na boca.
— Gabriel, eu nunca te vi assim. Qual é o problema?
Você.
— Dá o fora, Pedro. — resmunguei. — Agora.
Um silêncio tomou conta do ambiente. Julguei que Pedro houvesse ido embora e ergui meu olhar. O sangue gelou dentro das veias ao dar de cara com o garoto. Ele continuava no mesmo lugar, somente me observando. Encaramos um ao outro. Não era mais possível esconder os olhos vermelhos. Pisquei repetidas vezes para estancar a água salgada e irritante. A humilhação estava passando dos limites.
— Sai daqui, porra! — peguei celular e travesseiro ao mesmo tempo e joguei-os contra Pedro.
— Okay, desculpa. — ele meteu as mãos no bolso da calça. — É que já é tarde.
Então, saiu.
[...]
— Okay, tem algo estranho acontecendo. — Iara jogou seu livro de Teoria Linguística num canto qualquer do chão.
Apertei meus próprios dedos, sentindo o nervosismo tomar conta do meu ser. Era a hora. Eu tinha escapado com facilidade no dia anterior, já que a índia foi requisitada pela professora para ajudá-la nalguma coisa. Mas ter sorte durante 48 horas seguidas com Iara... Era simplesmente impossível.
— Como assim? — me fiz de confuso.
A menina revirou os olhos e disse rapidamente:
— Gabriel. Ontem você ficou de tititi com a Bianca. Depois, vocês se pegaram na faculdade. E pelo que soube mais cedo, pela boca da loira e não da sua, se pegaram no teu apartamento. Considerando que você nem tava afim dela. — tomou fôlego e continuou: — Hoje você aparece com essa cara. Se bem que ontem também tava com ela.
Depois do episódio com Pedro, ereção e dúvidas em relação à minha sexualidade... Me pus como presa fácil de Bianca. Queria provar para mim mesmo que eu não era gay. Porque eu não sou, claro. Puxei uma almofada e a pus no meu colo.
— Eu gostei da coisa e quis repetir. Te avisei. Se tá com ciúmes não é culpa minha... — tentei provocar, mas o tom falho da minha voz me acusou.
— Unrum tá. Tou morrendo de ciúmes. — ela ironizou levantando-se do sofá. — Cuidado que corto teu pinto só por tá chupando a língua da Bianca. — colocou uma mão no queixo e começou a andar pela pequena sala de sua kitnet. Mordi o lábio, só imaginando o que sairia daquela bendita boca. — Tudo bem, acredito que você realmente achou o esquema fodasticamente fodástico. Então por que essa depressão toda? Devia estar feliz, na minha singela e pura opinião.
Baixei a cabeça, amaldiçoando o sexto sentido feminino. Busquei outro argumento, mas...
— Oi? Dá pra responder? — Iara ergueu as mãos com um olhar entediado. — Poxa, eu sou tão legal, tão diva e tu fica escondendo as treta de mim. Magoa, viu?
Sorri amarelo e comprimi os lábios, pensativo. Se eu contasse à Iara sobre a noite que ataquei Pedro ou sobre o sonho, ela diria: “Caralho! Meu gaydar é fabuloso, sempre soube da tua homossexualidade”. E eu não sou gay.
— Vou pra casa. — meti meu caderno dentro da mochila. — Acho que a gente viu todo o conteúdo que vai cair na prova. Tchau.
— Covarde! — a índia exclamou.
— Você tá ficando doida. Não tem nada de errado. — dei de ombros e corri para a porta na velocidade da luz.
[...]
Bianca segurou firme minha cintura, como se quisesse me exibir para todo o pessoal da universidade. (In)discrestamente, prendeu sua boca na minha. Retribuí o beijo, de uma forma quase mecânica. Suas mãos correram para minhas costas e desceram devagar. Rezei em silêncio para que acabasse logo. Até que de súbito, minha bunda foi apertada com violência. Afastei o corpo da loira com uma gentileza calculada.
— Humm. O céu tá azul, sabia?
Ela riu.
— Você parece uma ovelha medrosa às vezes.
— Não é isso. — cocei a orelha. Você que é uma doida tarada.
— Sei. Adoro, tem problema não.
Voltei a atenção para Iara. Ela estava sentada debaixo de uma grande mangueira, na grama. Seus olhos negros não me abandonavam. A índia não desistiria tão fácil. E eu sabia que ela mais cedo ou mais tarde, arrancaria todas as informações possíveis e impossíveis de mim.
— Bianca, eu vou falar com o professor sobre a prova, tô com muita dificuldade na disciplina e...
— Até parece. Tu é o melhor da turma. Mas tá, menino nerd e fujão. — a loira riu com malícia. — Vai lá.
Deixei a loira no meio do campus e saí sem rumo. O professor nem estava na universidade para começo de conversa. Só queria me ver livre da presença da menina. Sem que eu me desse por conta, cheguei à ala das Engenharias. Só percebi isso quando bati a cabeça no prédio de Engenharia Civil. Civil.
— Olha por onde anda, gato borralheiro. — disse a voz familiar de Pedro.
Olhei para trás, para frente e para os lados, mas não vi o loiro.
— Em cima, burro.
Estiquei o pescoço para cima. Avistei no segundo andar, o garoto sentado numa janela com uma garrafa de Coca nas mãos.
— O que está fazendo aí? — perguntei.
— Matando aula, claro.
— Ah. Isso é sua cara. — revirei as órbitas.
— Vem aqui. — ele disse.
— Hum? — franzi o cenho. — O que você falou?
— Disse pra subir aqui. Sala 4.
Entrei no prédio e subi as escadas que davam acesso à sala em que Pedro estava. Era um espaço amplo, no quadro estavam escritas dezenas de equações bizarras. Meu pobre cérebro de Humanas não dava conta daquelas joças estranhas. O playboy não desviou os olhos da janela.
— Senta aqui ao meu lado.
Juntei as sobrancelhas e obedeci.
— Pega. — Pedro deu a garrafa de Coca.
Tomei uns dois ou três goles, sentindo-me nervoso. O que raios ele quer? Nenhum de nós disse coisa alguma. Observei que do lugar que estávamos, podíamos ter uma visão privilegiada da universidade.
— Menti. Não matei aula. — o loiro interrompeu minhas divagações. — Tive prova e saí mais cedo.
— Você colou, não te vi estudando.
— Colei. — ele confirmou. — Não tenho dom pra Engenharia. Não sou de Exatas. Mas também não sou de Humanas. — suspirou. — Só tou aqui porque meu pai quer. É só um diploma. No fim de tudo, vou voltar pra fazenda quando ele morrer.
Esfreguei as mãos e olhei para o rosto pálido de Pedro. Ele tinha uma expressão meio séria.
— Você não precisa ficar... Se sujeitando às ordens dele. Devia ter trilhado o caminho das Biológicas, acho que você tem cara de médico.
— Idiota. — ele riu. — Quando eu era criança, eu gostaria de ser um. Mas... Enfim. Não sei o que me deu quando pus Engenharia Civil no Sisu. Mas e você? Por que quis Letras? Sei que tua nota foi uma das maiores do estado. Você podia perfeitamente fazer Direito.
— Você é muito elitista! — exclamei. — Quero ser tradutor.
— Juro que nunca vou entender. — Pedro mordeu o lábio. — Tinha mais chances de ser rico com Direito. Pelo nerd que é...
— Também posso ser rico com Letras. Só preciso ser bom no que eu faço.
— Sonhador. — ele balançou a cabeça. — Além de pobre.
Dei de ombros.
— O dinheiro não me interessa muito. Não quero me tornar...
— Arrogante e chato como eu. — Pedro completou.
— Não era isso!
— Era sim. — ele sorriu com certa tristeza. — Eu sei.
Um silêncio seguiu-se por alguns segundos.
— Eu sei que no fundo é uma pessoa boa.
— Não sou.
— Todo mundo tem um lado bom e ruim. Você quer mostrar somente o lado mau. Como se desejasse isso. Você pensa que as pessoas vão te ver como fraco se conhecerem a tua bondade interior.
Pedro cruzou os braços e achegou-se mais ao batente da janela, afastando-se.
— Você é totalmente bom.
— Não sou.
— Claro que é. — ele riu. — É sim. Se não fosse, não me suportaria.
Soltei uma breve gargalhada.
— Você só é difícil.
— Por que estava chorando ontem? — Pedro mudou de súbito o rumo da conversa.
Ah não.
— Eu não tava chorando.
Ele ergueu a sobrancelha transparente.
— Foi um sonho.
— Tão ruim assim?
— Não... Foi bom. — admiti para mim mesmo. — Esse é o maldito problema.
— Você anda estranho... — Pedro sorriu. — Começou a andar com aquela loira, por exemplo. Ela não tem nada a ver contigo. Não gosto dela.
— Por quê? — indaguei surpreso.
— Não sei. — ele fez careta. — Mas não gosto dela.
[...]
O resto da semana passou-se muito rápido. Tive duas provas seguidas na sexta. Assim que elas terminaram, o pessoal praticamente correu como criança para casa. Os ânimos de todos estavam exaltados pela festa que haveria durante a noite (madrugada). Seria dada pelo povo de Agronomia, segundo a lenda, os melhores festeiros da universidade.
— Vocês vão hoje? — Nicolas cutucou Iara e eu, dentro do ônibus.
Nicolas – popularmente conhecido como Nick – era o cara que rendia mais assuntos dentro do campus. Sempre havia uma fofoca rolando a seu respeito sobre alguém importante que levou pra cama, como professores ou alunos riquinhos. Abertamente gay.
— Eu vou se a Iara for. — respondi sabendo que Iara não curtia as festas da Agronomia, pois tinha uma antiga ex no curso.
— Se fudeu. Ela vai. — Nick riu sacudindo os cabelos ruivos artificiais.
— Você vai? — arregalei os olhos para a índia.
— Eu vou. Decidi ir.
— Vaca! — exclamei bem alto.
— Desculpa, mas sinto cheiro de cachaça e a cachaça me atrai. — ela fez uma expressão de inocência.
Nick passou a mão no queixo fino.
— Você não bebe, né Gabriel.
Neguei com a cabeça.
— E virgem, você é? — ele continuou.
Iara deu um sorrisinho malicioso.
— Não. Quem é virgem aos 18?
— Acho que você... — minha amiga provocou e deu-me um tapinha nas costas. Passei as mãos nos olhos, xingando silenciosamente a garota de nomes impublicáveis.
[...]
Por algum mistério do Universo, Pedro e eu chegamos ao mesmo tempo em casa. Logo, tivemos que dividir o elevador até que chegássemos ao nosso andar. Ele não me deu muita bola, apenas ficou mexendo no seu celular. Sem querer, observei que a calça jeans que o loiro vestia contornava de uma maneira especial sua bunda. Não tou olhando pra bunda dele, não tou olhando pra bunda dele.
— Vai pra festa? — Pedro perguntou interrompendo a sessão mental de negação.
— Vou. Você vai?
Eu tinha que ir. Bianca havia mandado quarenta mensagens lembrando-me do evento. Desconfiei que ela já se considerava minha namorada e queria me mostrar para as pessoas. E Iara não me deixaria em casa.
— Gato borralheiro, querido pobre, quando foi que eu dispensei festa?
Sorri. Era verdade. Ele iria. E algo dentro de mim ficou feliz por isso.
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