Júpiter e Vênus
8 Não vou atrás dele, não vou atrás dele, vou atrás dele
Notas iniciais
GABRIEL
— Não vou lembrar. — Pedro arrumou seu corpo no banco. — Ou pelo menos, espero que não lembre. Porque iria ficar traumatizado com essas boiolagens.
Sorri e acelerei a velocidade do carro. Uma parte de mim se sentia lisonjeada pelo raro elogio vindo de Pedro. Outra parte estava morrendo de medo que o loiro lembrasse disso no dia seguinte. Eu estaria muito, muito ferrado. Principalmente porque confessei que também o achava bonito. Ele desconfiaria da minha sexualidade pelo resto dos séculos. Ou eu estava paranoico?
— Também espero que não se lembre.
Ele grudou o nariz no vidro da janela, meio pensativo.
— Nessa semana eu tive um sonho com você. — ele falou baixinho. — Mais pra pesadelo, claro.
Hum?
— Que sonho? — questionei curioso. — Como assim?
— Você estava ao meu lado no sofá e... — Pedro balançou a cabeça. — Não vou dizer isso. Não é porque tou bebo que...
— Fala logo, seu mauricinho fresco.
Ele mordeu a gola da camisa, aparentando nervosismo.
— Dei de cara com você só de toalha... Chupando meu mamilo. E depois...
Meu sangue congelou dentro das veias.
— Apertei suas partes íntimas. — completei involuntariamente.
Pedro franziu o cenho.
— Você... Você... Não.
Digo o mesmo. Não! Como assim ele tava acordado? Filho da mãe!
Enxuguei com o ombro o suor gelado que escorria da minha testa. Pisei fundo no acelerador, sem saber o que raios fazer. Esforcei-me tanto para esquecer daquela recordação e pam! Pedro do nada diz que sabe o que aconteceu!
— Gato borralheiro, pára a porra desse carro! — ele gritou. — Pára agora!
Fingi que não escutei.
— Falei pra parar a porra desse carro, seu idiota, seu pobre, seu brutamontes, seu filho da puta, seu...
Dei um longo suspiro e parei o carro na beira da estrada deserta. Encostei a cabeça no volante, rezando a algum deus qualquer que tivesse piedade de mim, porque aquilo já era sacanagem com minha vida. Percebi meu corpo duro, estático, tamanha era a tensão que passava por meus nervos. Mordi o lábio inferior com muita força. De repente, escutei o som da porta se abrindo. Ergui os olhos e vi Pedro sair.
Não vou atrás dele, não vou atrás dele, vou atrás dele. Como sou um digno trouxa, nem se passou dois minutos e saí também. O loiro estava no meio da pista, com uma expressão que misturava raiva, ódio e outra coisa que não pude distinguir. Ele puxava seu próprio cabelo, resmungando algumas palavras ininteligíveis. Cocei a orelha.
— Pedro, eu...
— Como é que você tem coragem de fazer aquilo comigo?
Meti as mãos no bolso da calça. É o que tou me perguntando desde segunda-feira...
— Desculpa!
— Desculpa? — Pedro zombou. — Desculpa?
Ergui as mãos.
— O que eu posso dizer?
— Não sei, mas não me venha com essa de desculpa. Porra, Gabriel! Porra! Eu não acredito que fiquei de pau duro de verdade por tua causa. Caralho! — ele chutou um buraco da estrada. — Puta que pariu! E etc! Não posso acreditar que isso aconteceu!
Arregalei os olhos e acabei me engasgando com a minha própria saliva.
— O que você disse?
— Eu não vou repetir isso, seu gay filho da puta! — Pedro levantou o dedo no ar. — Não é porque eu tou bebo que... Porra! Que ódio de mim!
— Eu não te abusei. — exclamei. — Caralho, você estava acordado!
Pedro lançou o seu melhor olhar maligno.
— Não quero saber! Porra que eu sou homem, viu?
— Quer um consolo?
— Não.
— Também fiquei duro.
Ele começou a dar voltas em torno do buraco que havia chutado.
— Isso é consolo? Isso é consolo? Tu tá doido?
Eu sorriria se a situação não fosse tão trágica.
— Não, não é consolo. — suspirei. — Mas Pedro... Vamo pra casa. Entra no carro. Tá tarde. Tá frio.
— Eu não entro em lugar nenhum contigo. — Pedro resmungou. — Nem em um milhão de anos. Nem que o papa peça. Nem que o Obama me jogue uma bomba. Nem que... Eu te odeio, Gabriel Mendes! Gato borralheiro de merda.
Olha que interessante, ele sabe meu sobrenome. Abri a boca para responder o mauricinho, mas uma luz ofuscante me cegou momentaneamente. Olhei para trás, um carro descontrolado vinha na mais alta velocidade. Era quase certeza que o motorista estava bêbado.
— Eu não gosto de macho! Tendeu? — ele continuou, sem perceber a presença do veículo.
O coração bateu num ritmo descompassado ao notar que Pedro seria barruado em pouquíssimos instantes.
— Olha o carro, seu idiota!
— Você é um filho da puta!
Céus, me deem paciência para lidar com esse jovem. Corri para cima de Pedro e o empurrei para longe, num impulso de adrenalina. Senti sua pele lisa contra a minha, senti seus cabelos finos roçarem no meu peito. A estrada subitamente ficou silenciosa e escura. O carro já tinha passado. Percebi então a posição em que nós dois estávamos: agarrados no asfalto, eu por cima, ele por baixo. Sua respiração quente contra a minha clavícula fazia todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. Levantei a cabeça e olhei-o dentro dos olhos.
— Dá muito trabalho ter que te manter vivo, sabia? — resmunguei.
Ele tremeu os lábios e ficou calado por uns segundos. Mas só por uns segundos.
— Não me joga no chão desse jeito. Não estamos num filme de Hollywood. Isso machuca.
Sorri.
— Mas você tá bem?
— Maravilhosamente, exceto pelo fato de você está em cima de mim. Se der licença, eu digo obrigado.
Revirei os olhos e me afastei, sentando ao seu lado. Uma dorzinha no joelho me incomodava, devia ter arranhado no momento da queda. Cruzei os braços, o tempo estava realmente frio. Pedro também sentou-se com uma cara emburrada.
— Vamo pra casa. — falei. — Sério.
— Eu não quero!
— Então fica aqui, no meio da BR. — dei de ombros. — Porque eu vou.
— Não, você não vai. Vai ficar aqui comigo.
Ergui a sobrancelha. Diabos de menino bipolar.
— Não tava puto comigo agorinha?
— Eu continuou puto! — Pedro bufou. — Mas é pra ficar comigo.
— E por quê?
Ele suspirou.
— Porque eu quero fazer uma coisa e não posso lembrar. Por isso, tenho que aproveitar a bebedeira de hoje.
— O quê?
O playboy ficou de joelhos e enfiou-se entre minhas pernas. Então, aproximou o rosto do meu, deixando que nossos narizes roçassem um no outro. Cerrei os punhos, muito nervoso. O que ele tá fazendo?
— Pedro... — baixei a cabeça. — Isso...
— Xii. — ele pôs um dedo nos meus lábios. — Eu tou bêbado, finge que você também tá e foda-se o resto da história. E não era o que você queria quando foi me atacar no meio da noite?
— Mas...
— Sem mas.
Pedro segurou meu queixo e me fez levantar a cabeça.
— Cara, por favor... — supliquei.
— Você devia beber de vez quando, Gabriel. Cala a merda dessa boca. Ah pera, sei um ótimo jeito de calar ela.
Então colou os lábios nos meus, sem mais nem menos. Tentei lutar contra minha própria vontade e resistir, mas acabei me entregando em pouquíssimos instantes. Rapidamente, sua língua alcançou a minha e ambas começaram uma brincadeira quente e selvagem. Era incrível. Agarrei seu pescoço e puxei alguns tufos de cabelo. Beijar Pedro parecia ser um sonho bem antigo, que eu tinha enterrado nalgum momento da minha vida anos antes.
Entretanto, uma vozinha gritou na minha mente: Ele é homem, seu idiota! E eu não sou... Eu não era... O que eu tou fazendo?
— Pára, Pedro, pára. — levantei-me do chão num salto. — Pára.
— Ah não. Um dia eu vou te embebedar e vou fazer pior. — Pedro rolou as órbitas. — Eu não vou lembrar disso, por que ficar de cu doce?
Respirei fundo.
— Porque eu vou lembrar.
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