Júlio Maximus e Os Deuses do Norte
2 Um encontro com a mulher dos presentes da manhã
DOIS
Ф
UM ENCONTRO
COM A MULHER DOS PRESENTES
DA MANHÃ
— Isso é muito louco — eu disse.
Estávamos há 3 horas num avião a caminho de Miami. Não podíamos pagar por uma viagem na primeira classe, então tivemos que nos contentar com os assentos da classe econômica. Eles pinicavam a pele depois que você fica muito tempo sentado na mesma posição, o que fazia com que eu com minha hiperatividade me mexesse a cada 2 minutos.
Eu estava pra enlouquecer.
— Isso é muito louco — repeti e Henry pareceu despertar de seus pensamentos.
— O que a gente vai fazer quando chegar em Miami? — Henry perguntou.
— O que diz sua profecia mesmo?
— Nossa...
— Que seja — eu cortei. — O que ela diz?
— “Sol e mar ao norte devem voltar. Mais uma falha no acordo revelar. Arcos unidos apontam a flecha para o inimigo. Só assim o sul será conhecido” — ele citou como se tivesse decorado cada linha da profecia.
— Ela é bem pequena, né? — eu observei.
— Foi tudo que minha mãe me disse — Henry franziu o cenho.
— Talvez ela não soubesse do resto. Quem já viu uma profecia tão pequenas?
— Você já tinha ouvido profecias antes? — ele perguntou.
— Bom, não...
— Então nós não podemos dizer se ela está incompleta — ele encerrou o assunto. — O que vamos fazer quando chegarmos nos Estados Unidos? A profecia não dá nenhuma dica sobre onde procurar.
— Deuses, os Estados Unidos é um país enorme.
— É isso que estava querendo...
— Meat or chicken? — Uma comissária de bordo americana nos interrompeu.
Ela parecia que tinha saído de um filme de cowboy. Seu cabelo era muito loiro, num dourado brilhante, em uma chuva de cachos perfeitos que caiam de um coque malfeito. Era absurdamente bronzeada — artificialmente, eu acho —, e usava um batom rosa berrante! Era praticamente uma placa de: OLHEM PRA MIM! Mas ainda assim ela era bonita, muito bonita, apesar de ser um tanto brega e antiquada.
Nós piscamos atordoados e ela repetiu a pergunta:
— Carne ou frango? — Ela disse em inglês de novo, mas nós entendemos perfeitamente e dissemos juntos:
— Carne.
— Frango.
— Certo. Quem quer carne? — Ela pegou a refeição de carne na mão direita e eu levantei a mão. — E você quer frango, certo querido? — A comissária falou colocando as refeições nas nossas mesinhas. Ela sorriu pra gente e continuou a servir os outros passageiros.
Comemos em silêncio pensando na resposta que não tínhamos.
Fomos despachados pra um país desconhecido, para achar um acampamento que não fazíamos ideia de onde ficava. O pouco dinheiro não ia adiantar pra sair rodando por todos os cantos à procura do Acampamento Meio-Sangue. Eu me perguntava como ele era, o que íamos encontrar lá e o que teríamos que enfrentar até chegar lá.
*****
Depois de 8 horas de voo você já estaria muito agoniado sendo um meio-sangue, eu estava para morrer.
Mas não literalmente, calma.
— Você pensou em alguma coisa? — perguntei a Henry.
— Júlio, eu sei tanto quanto você — ele soou perdido. — Não é porque eu sou um pouco mais velho...
— Oito anos não é pouca coisa — eu apontei.
—... que eu tenho experiência com isso. Não sabia de nada assim como você — ele completou, fingindo que não ouviu minha piada. Ele costumava ser mais bem-humorado, esse lance de ser semideus estava acabando com seu bom-humor.
— Certo — eu disse sério. — Mamãe disse que devíamos chegar bem Miami e que a partir daqui as coisas ficariam complicadas.
— Exatamente, nosso cheiro já vai estar forte e monstros virão atrás de nós.
— Eu queria que nossos pais nos ajudassem — encarei minhas mãos, fazendo uma prece silenciosa pra seja lá quem fosse nossos pais.
— Eu também.
O fato de eu não saber mais quem era meu pai era perturbador. Eu cresci acreditando que sabia tudo sobre minha família e de repente fiquei sabendo que minha mãe tivera um caso com um deus grego — sem piadas — e que eu era fruto desse romance. Agora eu entendia porque minha mãe nunca me deu descanso e sempre fez o máximo para que eu treinasse bem como um semideus, ainda que ela não tivesse revelado isso pra mim. Acho que Henry passou pela mesma coisa, pelo menos ele parecia estar passando exatamente pelo que eu estava.
— Precisamos achar um jeito de despistar os monstros do nosso cheiro.
— E precisamos de armas para nos defender — Henry completou.
— Mas como vamos conseguir armas? Nós somos turistas.
— Você está chegando a América, querido — falou a comissária de bordo. — Todos conseguem armas aqui.
— Desculpe, mas a senhora...
— Bom, sorte de vocês que sou eu quem vigio as fronteiras depois que Hélio se aposentou e Apolo tomou o lugar dele — Ela se virou para Henry e fez um “legal’ com os polegares.
— Vocês jovens semideuses precisam de armas, certo?
— Sim, senhora, mas como...
Fui cortado por ela:
— Eu estive guardando estas aqui por um bom tempo. Eu teria que entrega-las a dois meio-sangues que passassem pelas fronteiras da América. Isso faz séculos, finalmente alguma coisa legal pra fazer além de vigiar, vigiar e vigiar — Ela falava alto e gesticulava bastante, eu me perguntava como os outros passageiros não estavam nos escutando.
Henry olhou em volta nervosamente.
— Não se preocupem, queridos, eles não estão entendendo nossa conversa. A Névoa, não deixa — ela piscou o olho, falando como se lesse nossos pensamentos. — Agora venham, me sigam — Ela deu as costas e saiu falando:
— É claro que com minha mãe sendo uma deusa primordial, os Olimpianos não confiariam em mim para um trabalho realmente legal. E Afrodite, aquela... Ah, deixa pra lá. — Ela agitou as mãos num gesto de descaso. — Mas, honestamente, eu estou sentindo falta de algum drama, nada acontece durante meu expediente sabem?
Olhei inquisidoramente pra Henry enquanto nos dirigíamos para o fundo do avião.
— Senhora, quem é... — tentei perguntar de novo.
— Bom, vejamos, vejamos... Onde eu as coloquei? — A comissária estranha começou a abrir vários compartimentos minúsculos e a procurar alguma coisa. Enquanto isso, continuava a falar e gesticular com a cabeça.
— Ah, ah! Aposto que minhas irmãs chatinhas já vão estar lá no aeroporto pronta para destruírem vocês — ela sorriu. — Não é ótimo?
— Suas irmãs? — Henry perguntou.
— Sim, as Três Fúrias — ela falou colocando a cabeça dentro de um cubículo do tamanho da minha mão. Como ela consegue fazer isso?
— Mas se a você é irmã delas por que está nos ajudando? — Henry continuou, eu ainda estava tentando entender como a cabeça dela coube naquela gavetinha.
— Você quer mesmo que eu as ajude, querido? — ela falou se virando para ele.
— Não, mas...
— Eu não me envolvo nos assuntos delas com o Senhor dos Mortos e além do mais, não é meu lance. E apesar de filha da Senhora da Escuridão, eu gosto da luz — ela falou encerrando o assunto. E então começou a gritar empolgada:
— Ah, achei! ACHEI!
Fiquei surpreso que todo o avião não estivesse vindo olhar o que ela tinha achado e fiz uma nota mental para pergunta-la sobre a Névoa.
— Aqui estão.
Ela nos entregou duas correntes com um pingente de aljava cada, e dois anéis de bronze. Os anéis tinham um disco achatado com um arco e flecha talhado nessa parte. Encaramos as nossas armas.
— Isso são armas? — Henry perguntou.
— Nós não podemos nos defender com joias, senhora — eu falei.
— Ah, novatos — ela falou rolando os olhos. — Vocês podem, por favor, usar o armamento de vocês?
Decidimos fazer o que a deusa-comissária de bordo pediu. Cada um pegou um uma corrente e um anel e colocou no pescoço e na mão. O meu anel coube perfeitamente, embora eu tivesse a impressão de que ele era maior antes de colocá-lo no dedo, era como se ele tivesse se ajustado a mim.
A comissária bateu palmas:
— Excelente, couberam perfeitamente — ela nos sorriu brilhantemente admirando os nossos presentes.
— Senhora, como isso pode ser... — tentei perguntar.
Ela me cortou:
— Ah claro. Batam os anéis nos pingentes.
Fizemos o que ela mandou e aconteceu, de repente nós tínhamos armas. O anel foi convertido em um arco leve e longo que coube perfeitamente em minha mão, já a corrente virou uma aljava de couro marrom-escuro com flechas com ponta de bronze.
É parece que ela tinha razão.
— Uau, isso é... — eu tentei falar.
—... demais. — Henry completou.
— Sabia que você ia gostar, querido — ela falou olhando para Henry. — Agora, nós já vamos pousar daqui a pouco. Voltem para seus lugares, vou entrega-los um presentinho meu na hora da saída.
Ela nos empurrou para nossos lugares bem no meio do avião na hora em que o piloto pedia pra que colocássemos o sinto e avisava sobre o pouso. O cara do nosso lado finalmente acordou, um senhorzinho mirrado, provavelmente surdo, que dormiu desde que entrara no avião. Bom pra ele, eu passei horas de sufoco e agonia até encontrar a deusa-comissária.
— Quem é ela? — Henry me perguntou — Faz alguma ideia?
— Eu não consigo me lembrar.
— Sua mãe não estuda essas coisas?
— Ela sim, eu não! — falei nervosamente.
— Ah, ótimo — Ele ironizou. O avião começou a balançar em direção ao solo. — Pelo menos estamos pousando.
*****
Quando o avião parou, todos os passageiros saíram e nós ficamos para esperar a deusa-comissária. Ela aparentemente já tinha se esquecido de nós, porque estava demorando muito, mas finalmente chegou com dois copos enormes com um líquido de um vermelho intenso.
— Prontinho, aqui está meu presente pra vocês.
— Sangue? — Henry perguntou.
Ela riu achando que era uma piada.
— Ah, você é tão engraçado, querido — ela falou. — Isso aqui vai ajuda-los a passar despercebidos por monstros.
— Isso é a Névoa? — eu perguntei e ela me olhou como se eu fosse a pessoa mais estúpida ali.
— A Névoa? A Névoa, Julios Maximus — ela falou usando meu nome latino, — não tem nada a ver com isso. Ela é o elemento que impede que os mortais vejam o que realmente se passa em sua frente. Isso não está entre os meus domínios, mas isto está — Ela exibiu os copos.
— Então o que é isso? — perguntei.
— Um novo dia está para começar daqui a algumas, trazendo uma vida nova, um caminho novo, uma luz nova. Podem me entender?
— Um disfarce — Henry concluiu.
— Exatamente, vocês precisam de um cheiro novo. Não vai durar muito tempo, é claro, mas é tudo que posso fazer por vocês, queridos — Ela nos entregou os copos. — Virem os copos no amanhecer do novo dia.
— Quanto tempo o efeito vai durar exatamente, senhora? — eu perguntei.
— Até o entardecer, por razões óbvias — ela continuava a me olhar como se fosse de alguma forma inferior ao Henry.
— Por que? — Henry indagou.
— Pela luz da manhã, vocês não sabem quem eu sou? — ela perguntou ultrajada.
Henry pareceu extremamente envergonhado com isso, mas agora eu tinha a resposta:
— Você é Hemera, deusa das manhãs.
— Lady Hemera — ela corrigiu. — Grande deusa da beleza matinal. Eu era mais bonita que Afrodite no meu tempo, sabe? Ela é muito instável, mudando toda hora.
— Mas o que isso tem a ver com seu trabalho? — Henry pareceu confuso.
— Ah bem, eu costuma trabalhar com Hélio, querido. Vigiando as fronteiras do mundo durante as manhãs, minhas irmãs faziam o trabalho pela tarde.
— Suas irmãs? As Três Fúrias? — perguntou Henry.
Ela riu de forma boba dele novamente e explicou:
— Minhas outras irmãs, as Hepérides. Agora elas trabalham pra Hera naquele jardim famoso, sabem? — Nós negamos com a cabeça. — Elas trabalham no Jardim de Hespérides. E eu cuido de todas as fronteiras agora, o tempo todo — ela finalizou exasperada.
— Ah! — concordamos com ela. Trabalhar eternamente de vigia deve ser muito chato.
— É exaustivo, mas pelo menos as manhãs continuam me trazendo alegria e beleza.
De fato, faltavam cerca de 5 horas para amanhecer, bastante tempo ainda. Mas Hemera aparentava estar mais jovem e mais bela do que algumas horas atrás quando era início da noite.
— Então não temos que beber os copos ao nascer do sol? — eu me certifiquei.
— Eu disse beber? — ela desaprovou. — Eu disse virar. Entornem os copos em vocês. Francamente, não é de se admirar que tantos de vocês morram. Vocês não escutam.
— Ok, jogar o líquido na cabeça — Henry falou apressadamente chamando atenção pra ele, porque estava obvio quem era o preferido dela ali. — Hum, obrigado, Lady Hemera.
— Oh, não há de que, querido — ela sorriu para ele. — Bom, tenho que ir. Esse país é enorme, muita coisa pra vigiar. Ah uma última dica: procurem a Ilha Longa. Agora lembrem-se de desviar os olhos.
E devíamos, eu sabia alguma coisa sobre mortes depois de contemplar um deus em sua verdadeira forma. Aparentemente Henry também lembrava disso. Sentimos um calorão e o avião foi tomado por um clarão intenso. E então a luz instantaneamente sessou.
— Sobrevivemos ao nosso primeiro encontro com um deus — Henry apontou de forma positiva. — E ganhamos presentes.
— Por que ela não gostava de mim? — lembrei
— Vai ver algo contra seu pai — ele sugeriu. — Quem sabe?
— Não tenho como saber — conclui.
— E onde fica a Ilha Longa? — ele perguntou.
— Não faço ideia, mas e qualquer forma, é melhor saímos do avião antes que imigração ache que estamos escondendo drogas.
— Mas e os copos? Como vamos passar pela segurança com eles?
Como num passe de mágica eles sumiram e viraram garrafinhas de grapefruit.
— Isso é muito legal — Henry se admirou.
— Sim, mas só devemos tomar na hora certa. Vamos.
E então saímos do avião para pisar no solo de Miami – Flórida, Estados Unidos.
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