De repente veio uma súbita saudade, trazida por um cheiro de nostalgia, inalado pelas pequenas narinas daquela delicada moça. Era um cheiro doce, como leite condensado, e um tanto amadeirado como casca de árvore, infância. Era também fragrância de perfume, de seu primeiro grande amor juvenil. Era um leve cheiro de cloro de piscina à noite. O odor de chuva forte na rua o meio da tarde, com aquela companhia gostosa, da que segura sua mão para correr para um lugar seco. Cheiro infanto-juvenil.

Não havia barulho nas ruas movimentadas além dos carros e tráfego de pessoas nas calçadas, mas aquelas lembranças arrastaram outras com elas, e as melodias das músicas que marcaram sua vida — ainda curta — tocavam suaves e longínquas, porém claras, em sua mente. Ela estava tão feliz perdida em sua antiga inocência. Enquanto caminhava pela rua, a invadia o êxtase do júbilo.

Sem ao menos perceber, caminhando enquanto cantarolava, seus pés seguiam pelas ruas, quase flutuando como uma pluma e, ao se dar conta de onde se encontrava, sorriu. O condomínio onde morava seu ex-namorado, seu antigo e atual melhor amigo, a pessoa mais presente em sua memória daquela cidade. O amigo mais importante em tantos aspectos de sua vida... Ainda sorrindo, parou na portaria do prédio e interfonou para o apartamento onde ele morava. Ele atendeu bastante surpreso, entretanto sua voz soava feliz.

Ela subiu para o apartamento, ele a atendeu na porta com um abraço, ela deitou a cabeça no peito dele. Ambos sentiam saudades. Ela entrou para conversar apenas por alguns instantes, ele fez um café. Ela riu e perguntou se ele aprendera a cozinhar e esses eticéteras, ele riu respondendo que sempre soube. Ela foi para a janela da cozinha, puxou um isqueiro do bolso, hesitou e guardou-o. Ele olhando preocupado indagou se ela ainda fumava, e ela sinalizou que sim com a cabeça, sem graça e voltou a sentar na bancada de mármore da cozinha. Provou do café que ele fizera, forte e doce como ela gostava, e soube que ele se lembrou, sorriu novamente e conversaram.

Os \"alguns instantes\" duraram a tarde toda, sem nem perceberem. Então já anoitecendo ele a acompanha até onde ela estava hospedada. Caminhando de mãos dadas pelas ruas iluminadas e frescas. Parando da portaria do prédio, ele dá um beijo em sua testa. Mais um abraço longo, confortante, antes de ele ir. Amanhã ela irá para casa, quer dizer, a cidade onde agora ela vive. Casa mesmo, na verdade, ainda era aquela cidade, onde seu melhor amigo está. E eles apenas se veriam novamente nas próximas férias, ambos sabiam. Este foi o único assunto do qual não falaram o dia todo. Não queriam mostrar que ainda sentiam dor. Ou mesmo amor....

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