Já não somos tão jovens
12 Lágrimas de gelo
Notas iniciais
AGORA
“Eu me arrependi tanto! De cada palavra que pronunciei naquela noite! Eu me culpei, e me culpo tanto, por ter sido tão egoísta, tão mesquinha! Se pudesse voltar no tempo, eu o teria amado mais, teria feito mais. Mas eu estava muito ocupada sendo uma idiota!"
Adrien ouve M e resgata alguns detalhes em sua mente. Ele ficara bem magoado naquela noite chuvosa, mas depois tudo havia desaparecido. Só restara uma convicção. Destruir Ladybug e seu pai. Ele se lembrava de nutrir um único desejo, constante e obstinado, de estirpar o vetor de toda a dor.
Havia realmente um plano articuloso de Hawk Moth ao contaminá-lo. Seu objetivo era conseguir seus Miraculous apostando na proximidade de Ladybug e Cat Noir. Ele só não pôde prever o resultado de uma variável muito significativa. Nenhuma de suas vítmas anteriores tinha conhecimento de quem era o seu manipulador. Nenhuma tinha o poder de um Miraculous impregnado em suas entranhas.
Nenhuma tinha o seu sangue correndo nas veias.
“Eu fui atrás de você, sabia?” M volta a narrar. “quando você não apareceu no dia seguinte eu soube que havia algo muito errado. Eu sei que você não vai entender tudo o que se passou naquele dia… se houvesse uma forma de fazê-lo entender…mas é certo que eu queria acertar tudo, queria ouvir o que tinha a dizer, e ficar com você.”
“Lady… eu a feri?”
M leva a mão ao pescoço num reflexo. Perto de sua orelha podia-se ver três pequenas linhas brancas, que desapareciam debaixo dos cabelos.
Sim, ele a tinha ferido um pouco, mas não era nada perto da dor que se seguira depois daquilo.
ANTES
Marinette passa a manhã toda olhando para a porta da sala de aula. O tempo lá fora ainda está chuvoso e enjoado, refletindo o temperamento dela. Estava extremamente chateada consigo mesma, e esperava poder acertar a situação com Adrien. Namorados brigam, não? Deve ser normal. Não precisa ser o fim do mundo, certo?
Errado. Ela não sabia o quanto estava errada. Poderia sim ser o fim do mundo… deles.
“Oi Mari, tudo bem? O Adrien não apareceu hoje, né?”
“Não Alya. Eu acho que dei mancada…”
“Como assim?”
“Preciso te contar uma coisa. Eu e Adrien… bem… nós temos nos encontrado.”
“Vocês estão namorando escondido?” Alya exclama um pouco alto demais, chamando a atenção de alguns transeuntes próximos, também porque está dando pulinhos e batenho palmas.
“Chhhhh sua louca! Quieta, quer que toda a Paris fique sabendo?”
“Amiga, você está contando pra dona de um blog um babado quentíssimo sobre um modelo famoso! Deixe-me pensar… como poderia eu ignorar o fato sem ofender meus princípios jornalísticos?” Ela fica batendo o polegar no lábio, pensativa, mas logo olha pra amiga e começa a rir, divertida.
“Relaxa, linda! Você é mais importante pra mim do que o trabalho da minha vida!”
Marinette ama Alya naquele momento. Ela percebe o quanto está sensível quando seus olhos ficam marejados. Era uma pena que não conseguisse falar toda a verdade pra ela. Se Alya soubesse seu segredo, poderia perdoá-la um dia por mentir?
“Então, sem escândalo, apenas ouça, ok? Bom. Eu estou sim passando mais tempo com Adrien. Nós temos nos encontrado de forma “reservada”, por assim dizer.”
Alya dá uma risadinha marota, e Marinette a fulmina com os olhos.
“Então. Acontece que ontem nós tivemos um tipo de discussão. Alguma coisa aconteceu e ele ficou bem chateado. Ele precisava de mim mas eu estava chateada também e, enfim, acho que falamos o que não devíamos… na verdade acho que só eu falei.”
“Vocês já transaram?”
“Alya!!” Marinette faz uma cara de chocada, mas o rubor acentuado deixa Alya quase convencida.
“Ah, pára de ser boba. Só quero saber se é bom como falam por aí!”
“Eu não vou falar sobre isso com você agora!”
“Ta bom, ta bom. Mas uma hora você vai ter que falar!”
Marinette fica calada, pensando em seu estado emocional pelo simples fato de ter passado uma manhã sem vê-lo. Fica ali de prosa com Alya mais um tempo, e depois que ela vai embora, tenta pela vigésima vez ligar pro celular de Adrien. Caixa Postal. Deixa o décimo oitavo recado e, como a chuva cessara, ela resolve então ir até a casa dele. Quinze minutos depois está em frente à mansão. Toca a campainha e se identifica, mas recebe a resposta de que ele ainda não chegou da escola.
O que estava acontecendo? Ele não estava em casa, tampouco estivera na escola. Onde estaria?
Ela volta pra casa frustrada. Uma hora ele iria aparecer e poderiam conversar.
——-
Uma semana se passa, e nada de Adrien. Marinette não deixa mais recados, pois a caixa postal dele atinge o seu limite. Numa das tardes em que fora procurá-lo, ela encontra Gabriel, seu pai. Ele se dirige a ela com indiferença, e quando inquirido sobre o paradeiro do filho, responde evasivo que o garoto está numa viagem.
Fora a pior semana da sua vida. Não tinha idéia do quanto seu amado poderia fazer falta. Dia e noite seus pensamentos eram pra ele, e o fato de não saber onde estava agravava mais o desespero de sua ausência.
Sempre que podia, ligava pra ele, outras vezes perambulava nos arredores da mansão Agreste, até que numa tarde cai em si, percebendo que está parecendo uma perseguidora, estilo Chloe Bourgeois. Decide então desistir de procurá-lo e esperar que ele retorne a fim de conversarem.
—__
Do alto ele a vê. Há dias vem seguindo-a a distância, como um gato espreitando a presa, analisando e esperando que ela baixe a guarda para, enfim, dar o bote.
Já tinha esperado demais. Quanto mais tempo protelava o ataque, mais suscetível ficava às sensações que ameaçavam derrubar seu bloqueio emocional. A cada noite observando-a dormir, andar, comer e, muito raramente, sorrir, sua convicção de dar cabo ao que tinha planejado enfraquecia.
Viu-a dobrando a esquina próximo à sua casa e decidiu agir.
Era hora de fazer algo a respeito. Era hora de botar uns insetos pra correr.
———
“Perdeu o gatinho de estimação?”
Marinette dá um pulo. Ela faz a varredura com o olhar e o encontra, empoleirado no alto de uma árvore.
"Podemos pendurar uns cartazes por aí!”
“Adrien?…O que está fazendo aí em cima?”
Ele desce e começa a caminhar na direção dela. Está como Cat Noir. A princípio ela exulta em vê-lo, aliviada por estar aparentemente bem, mas conforme ele vai se aproximando, começa a notar uma mudança nada sutil na forma como ele a olha.
Os olhos estão… vitrificados.
“O que houve? O gato comeu sua língua?…Ah, eu tinha me esquecido… o gato não tem comido nada ultimamente!”
De onde vinha aquele desdém? Tá, ela tinha sido uma megera, e ele sempre fora meio engraçadinho… mas não se tratava disso… tinha uma coisa muito errada ali.
“Adrien… que bom ver você! Está tudo bem? Você está...bem?”
“Mais do que bem, joaninha. Livre. Eu estou livre, de tudo, de todos, e de você!”
O golpe das palavras a atinge em cheio. Joaninha? O que havia com ele? Lágrimas nublam seus olhos. Ele estava rompendo com ela? Na primeira briga?
“Eu vou te dar uma vantagem. Decidi que não podem existir dois de nós nessa cidade. Excesso de contingente, entende? E gatos e insetos não costumam coabitar. Você tem até o anoitecer para desaparecer, ou para me entregar seu miraculous. Pra mim tanto faz.”
É aí que ela percebe que não é apenas uma briguinha de casal. Um tremor começa a envolvê-la. Medo. Ela sabe que está na hora de se transformar, mas simplesmente não consegue se mover.
“Adrien… eu não queria ter dispensado você naquela noite… eu só estava cansada e…”
“Não existe mais Adrien! Não existe nós! E em breve não existirá mais você!”
Ele ergue sua garra e a golpeia na nuca, lançando-a com força contra o chão. Depois coloca o pé em suas costas e pressiona com força, imobilizando-a. Ela vira a cabeça tentando olhar pra ele. um filete de sangue escorre na base do seu pescoço. Cat Noir vê o sangue, em seguida os olhos dela molhados, e uma sombra cruza o seu semblante, uma sensação quente e pegajosa… dor.
Não! Não seria vencido pela dor. Nunca mais!
“Você tem até o anoitecer… Ladybug.” E desaparece como um gato no beco.
Ela continua deitada no chão. É uma vizinhança deserta, mas algum vizinho uma hora passa por ali e resolve acudi-la.
“Ei, garota! Está tudo bem? Está ferida?”
Depois dele, mais três pessoas aparecem, e tentam ajuda-la a se levantar enquanto observam intrigadas o sangue que começa a manchar o colarinho de sua camisa.
“Você precisa ir a um hospital. Está ferida! Precisa de ajuda?”
Ela se afasta das pessoas e segue caminho, sem olhar pra trás, sem sequer responder.
Ela estava ferida sim. Lá no seu mais profundo âmago algo se partiu, irremediavelmente. Havia marcas sangrando, em seu coração.
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