Izvor - Interativa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
“Torkness e seu projeto Izvor brilham em Hacoshi e prometem prêmios deslumbrantes!
Na manhã desse sábado, os diretores da aclamada empresa de publicidade e marketing anunciam os jovens escolhidos para representar a Realeza e os desafiantes de cada equipe. O programa, que visa desenvolver a capacidade lógica e a paciência dos participantes, colocará os mesmos em prova para cuidar de um indivíduo desconhecido.
Apesar de estarem se preparando para as diversas questões, que envolverão desde conhecimentos gerais a habilidades artísticas, também aguardam pelo momento em que saíram vencedores e terão um pedido realizado.
Serão capazes esses rapazes e moças de manterem sua fé durante o programa, enquanto são ameaçados pelos boicotes de outras equipes participantes? Valerá tudo, segundo os organizadores, para ver quem aguenta mais tempo em meio a tanta pressão enquanto protegem a jovem Moondust Horlle, que representará a Rainha da equipe Vor, e Aidan Zachary, o Rei do grupo Tyo.”
Ao terminar de ler a matéria publicada no site de notícias de sua cidade, a Hacoshi, Dust balançou a cabeça negativamente e fechou o notebook. Ter seu codinome publicado em um texto sobre algo manipulador a fazia querer sair e explodir o edifício de marketing da Torkness – pois trabalhava e gostava da Doness, unidade de publicidade — com uma C4. Aquilo era tosco.
Seu celular vibrou assim que se levantou para separar alguma muda de roupa casual, já que era dia de entrevistas e jantar de comemoração por ser escolhida para o grande Ivzor.
“Era isso que estava escondendo? Bobona, eu não ia contar para ninguém.”
Olhou para a tela e sorriu com a mensagem mandada por Ed. Sem uma pausa para poder respondê-lo, recebeu uma chamada do garoto no Skype.
– Dust!
– Ed? – respondeu-o calmamente enquanto abria o guarda-roupa.
– Deveriam ter me colocado como o Rei, poxa.
– Eles não aceitariam um rapaz tão fraco...
– Como te aceitaram então? Você é igualmente um rapaz, e nem preciso comentar da parte fraca.
– Sou sim, por isso apanharia de mim, certo?
Ouviu a risada do garoto pelo aparelho.
– Então hoje ficará fora o dia inteiro para mostrar sua cara maravilhosa ao mundo?
– É, só terei uma pausa no almoço e antes do jantar para poder me trocar.
– Entendi.
– Quer vir comigo? Você será o escudeiro real, embora pareça mais com alguém acusado por bruxaria.
– Não disseram que o tema era a Idade Média – suspirou.
– Gosto de imaginar assim – sorriu, embora o amigo não a visse.
– Posso passar na Doness e te encontrar lá. Só não ficarei para o jantar, certo? Imaginando que seja apenas para os colaboradores, diretores, mídia...
– Tudo bem. Estarei lá em uma hora.
– Ok, até depois então.
Após desligar o telefone, sentiu vontade de religar para o amigo e deixá-lo tagarelando até que saísse de casa, espantando o medo que a possuíra desde que concordara em ser a Rainha. Não estava acostumada a se expor em propagandas, apenas em organizá-las, e a ideia de fazê-lo a incomodava. “Terá um bom retorno”, pensou consigo esperançosamente.
Finalmente escolheu as vestes do dia, optando por um vestido liso bege acompanhado pelo seu kimono florido especial, deixado para momentos perturbadores – um momento que seria apenas a fase mais fácil do jogo.
(...)
Moondust se aproximava da entrada do edifício quando Ed, antes parado, girou os calcanhares em sua direção. Ao vê-la, riu.
– Será tão ruim assim para você? – Lançou um breve olhar no kimono.
– Sabe que sim – deu um sorriso de lado.
– Bem, esse kimono já te ajudou na maioria dos casos, então espero que faça efeito nesse também – respondeu dissimuladamente.
Os dois começaram a caminhar em linha reta, até a unidade de Marketing que ficava a sete quadras dali – a vida de uma estagiário, ambos sabiam, fazia-os andar e usufruir de transporte público pela ausência de veículo particular. Por sorte, a cidade contava, além de um bom sistema do primeiro tipo de locomoção, com cidadãos pacientes e educados, evitando aglomerações ou debates, e possíveis batalhas ferozes, sobre quem chegou antes no assento livre.
Chegando ao objetivo, subiram por um dos elevadores até o terceiro andar, onde recebiam repórteres e outros profissionais para reuniões de negócios. Diferentemente da Doness, aquela construção era alta e mais “escura”, adjetivo encontrado por Ed durante a primeira vez que estivera ali. As mobílias eram todas de tons cinza ou preto, contrastando somente com o bronze do papel de parede e o assoalho rústico; as janelas extensas, apesar de muitas, eram cobertas por cortinas beges, diferentes das que estavam ali há um mês, quando foi chamada por um dos diretores para conversar sobre o projeto atual. Moondust torceu para que o amigo não fizesse uma comparação entre ela e os longos panos.
– Sempre sem vida... – Ed cochichou enquanto batia na porta de vidro da sala de encontro.
De dentro do cômodo, um senhor de cabelos platinados acenou para que entrassem. O local já estava cheio de equipes representando sites informativos e emissoras de televisão. Estava sufocante.
Além de Ed e Dust, apenas outro jovem participava da reunião. Este estava sentado com as pernas cruzadas em um sofá cinza, vestindo uma camisa estampada e jeans colado. Era um ponto chamativo em meio àquele ambiente obscuro e coberto por ternos.
– Senhor Zachary, começaremos a entrevista com você e a senhorita Horlle em dez minutos. Por favor, ambos se encontrem com a produção visual agora.
Um homem, parecido com o senhor de antes e considerado aleatório pela garota, ordenou e foi para um canto da grande sala, provavelmente para dar mais instruções. Ed a acompanhou até a área contrária, onde maquiadores a aguardavam.
– Você é mais bonita do que me contaram, Moon – uma das profissionais gesticulou em direção à cadeira em sua frente e sorriu.
Que afável, usando apelidos sem nem conhecer o cliente. Isso incomodava a Rainha mais do que saber que alguém andou falando besteiras de si.
– Ei, Dust... – Ed se aproximou e curvou o corpo para que alcançasse as orelhas da amiga, que estava de olhos cerrados para a maquiagem. – Minha mãe mandou uma mensagem agora pedindo ajuda. O Cornor – referia-se ao irmão menor, de três anos. – deixou o aquário cair e, bem, está no hospital agora – suspirou.
– Sem dúvidas seu irmão – sorriu. – Vai lá, depois me conte como ele está.
– Aham. Até depois.
Horlle aproveitou a pausa da mulher que acabara de passar sombra clara em seus olhos e abriu os mesmos, observando o amigo se distanciar até sair pela porta e passar pelas paredes de vidro que dividiam o cômodo do corredor. Seu olhar retornou para a esquerda de onde estava, deparando-se com Ainan Zachary. “Ou seria Aindan?”, confundiu-se. Sua memória estava longe de ser a melhor característica a apresentar. O mesmo, como um espelho, refletiu seus atos e encarou seu olhar, talvez sem essa intenção. Seus lábios pequenos se movimentaram até formar um sorriso fechado como resposta. Aquela demonstração de simpatia parecia, para a jovem, combinar com os olhos cor de mel e sobrancelhas levemente arqueadas da mesma tonalidade dos cabelos, castanhos e volumosos. A beleza do Rei, no entanto, não a surpreendia. Afinal, esse era um dos critérios para ser convidado à Realeza temporária e, na lógica da garota, espantosamente desejada por outros.
Fale com o autor