Izvor - Interativa
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Dust observava prédios se afastando e carros passando pela via através do vidro do vagão. Ela e seus companheiros do Vor rumavam de metrô até o centro da cidade, que fora marcado como ponto de encontro com a equipe Tyo. Lembrou-se do e-mail que lera em voz alta ontem:
“ É com prazer que apresentamos a segunda etapa da missão número 3. As regras são:
1. Encontrem-se no centro da cidade, na Praça Forb, Rua Doutor Kain, às sete horas da manhã nos próximos três dias, válidos a partir de amanhã; o horário de retorno ao ponto de encontro é nove horas da noite;
2. É proibido que duas, ou mais, duplas fiquem no mesmo local. Durante os horários da missão, não tenha contato com outros participantes além de seu acompanhante;
3. Ao final desses três dias, escreva um relatório sobre o adversário que o acompanhou. Quanto mais informações, maior a chance de ganhar o desafio para seu time; o prazo para o relatório é de vinte e quatro horas;
4. Divirtam-se! Vocês estão em uma bela cidade!
Atenciosamente,
Organização Izvor.”
Apenas ela julgava entediante a ideia do desafio. Python parecia se divertir com a ideia de passar tanto tempo com uma única garota – uma bem-apessoada. Luna questionava em tom baixo se Lex seria uma pessoa legal, já que admitira, no dia em que vigiavam o almoço de Ed, que sua aparência não era das piores.
– Você foi a mais sortuda, Moon! – Luna suspirou. – O Aidan é o cara mais bonito que vi desde que cheguei aqui.
– Ou ele que foi sortudo – Feluriel brincou, piscando para Dust.
“Isso não é programa para encontrar um relacionamento...”, pensou com chateação enquanto abandonavam o trem, mas sorriu rapidamente.
Na saída da estação, um grupo de cinco adolescentes, na faixa dos quinze anos, aproximou-se do Vor, cercando-o com murmúrios e exclamações de felicidade.
– Moon, Moon! Pode tirar uma foto comigo?! – uma das garotas do tumulto a segurava com ambas as mãos.
– Luna! – outra menina fitava a ruiva com entusiasmo. – Seu cabelo é tingido? É lindo!
“O que eu faço?”, entrou em pânico. Percebeu que o restante das garotas tentava conversar com Ann e Tsunaime, que respondiam simpaticamente com poucas palavras. Assim como eles, não era acostumada a falar demasiadamente e com tantas pessoas desconhecidas, chamando atenção. A cena lhe rendeu uma risada interna, conseguindo se acalmar perante toda a agitação da juventude.
– Obrigada, Rainha! – a menina agradeceu após abraçá-la e fotografar. – Pode contar como está o Izvor? – perguntou animada.
– Hm...Cada vez mais difícil – respondeu naturalmente, embora não visse algo de normal em responder seu possível fan clube.
– Vocês estão em uma missão, né? Li na notícia de hoje cedo!
– Sim – concordou com a cabeça e reclamou mentalmente por Sorren permitir a publicação da evolução do projeto.
– Mas não falaram quais são as duplas! – contou aborrecida, mas logo apresentou o anterior brilho nos olhos. – Pode me dizer o seu?! Por favor, eu quero tanto que seja você e o Rei!
– Quem sabe? – sorriu rapidamente. – Temos que ir agora, mas obrigada por nos reconhecer.
Surpreendentemente, o “motim” de adolescentes aceitou a despedida sem objeções, mexendo freneticamente nos aparelhos celulares enquanto o Vor se virava em direção à rua.
– Nós já somos famosos?! – Python falou, rindo.
– Não imaginava que se interessariam pelo Izvor assim – pensativa, Luna comentou.
Para Dust, a maior parte das pessoas não encontrava algo de útil para fazer. Restava um “reality show sem câmeras” para acompanhar através de sites de notícia.
– Certo, é ali – mirou um lugar arborizado logo à frente.
– Ah, eles já chegaram – Luna avisou.
A miopia da Rainha a deixava deprimida nessas situações. O que conseguia ver se limitava a seis silhuetas próximas a mais quatro.
Alcançando a turma maior, deparou-se com as faces descontraídas do Vor às sete horas em ponto.
– Vejo vocês mais tarde – Aidan virou para o Tyo, tomando a primeira atitude, divergindo os grupos.
Dust acenou para sua equipe, vendo-a se afastar em duplas. A hora do tédio começaria.
– O que gostaria de fazer, Rainha? – encarou-a com olhos doces.
– Não tenho preferências, desde que não acabemos em um cemitério que vende bolos – fez uma careta, lembrando-se de seu último sonho.
– Isso existe? Parece lucrativo – sorriu. – Hm... – levou a mão esquerda até o queixo. — Já foi no Museu do Crime?
– Sim. Aquela ala de “piores esquartejamentos” é incrível... – disse com uma ironia quase oculta.
– Você não deve ter visitado a de casos estrangeiros. Imagine vir alguém, segurando uma lanterna vermelha, e te roubar?
– Parece muito pior do que perguntar ao Jack das facas onde é o mercado mais próximo.
Aidan sorriu. Ao mesmo tempo, ouviu um grito abafado vindo de trás. O garoto, virado para a direção, já estava ciente do ocorrido, desviando o olhar para o chão. Dust se mexeu de modo a enxergar a fonte do barulho e reconheceu o grupo de garotas do metrô a metros de distância, agora apontando os celulares para a Realeza.
– Tem um fan clube – encarou o garoto com diversão.
– Elas não estavam me seguindo, Rainha – rebateu com um sorriso brincando no rosto. – O que acha de tomarmos algo? Não comemos nada antes de sairmos, certo?
Guiada por Aidan, adentrou uma padaria calma após passar algumas esquinas. Concordaram em fugir de fotos e jovens paparazzi.
– Como acha que está se saindo no Izvor? – perguntou educadamente após a garçonete se distanciar com os pedidos anotados.
– Não fui útil para o Vor até agora – encarou a mesa bege que tinham escolhido.
– Posso dizer que entendo. Na primeira missão consegui vinte fotos... – contou como se estivesse se divertindo.
– Não diga isso perto das minhas míseras nove fotos – deu um sorriso fechado.
Aidan riu.
– Tudo bem, ganhou. Está se dando bem com todos?
– Normalmente. Ah, tenho que me lembrar de que isso tudo pode ser usado no questionário – fitou-o com um olhar falso de desconfiança, fazendo-o sorrir.
– Tinha me esquecido disso também. Por que nos escolheram para a Realeza? – perguntou pasmo.
– Somos horríveis – assentiu.
Após um tempo, o garoto retornou a falar:
– Como te convidaram para representar a Rainha?
– Meu chefe me sugeriu para o senhor Sorren.
– Entendo. Nada melhor que uma bela funcionária da própria empresa, não?
Deu de ombros e sorriu rapidamente.
– E qual sua história?
– Fiz alguns ensaios fotográficos porque minha tia pediu. Ela é dona de uma agência de modelos – contou sem interesse. — Eles buscaram perfis que coubessem no papel de Rei, e acabaram me selecionando.
“Então rastreiam dessa forma...?”. Sentiu que Aidan seria uma boa fonte de informações – não para a missão, como ele imaginaria.
– Os outros perfis deviam ser apavorantes então... – provocou-o.
– Me disseram que o nível deles era baixíssimo – suspirou falsamente.
Dust sorriu por coletar mais possíveis dados. Quando voltasse para casa, procuraria o endereço on-line dessa agência.
A garçonete se aproximou outra vez e depositou um chocolate-quente e um suco de laranja. Antes de sair novamente, encarou-os com uma expressão ansiosa. Talvez tivesse reconhecido a Realeza “recém-famosa”.
– Rainha – o rapaz chamou lentamente após um gole do suco. – O que faria se pudesse criar uma dimensão apenas sua, e da forma que quisesse?
– Eu criaria várias, cada uma com um cenário de filmes e jogos diferentes – disse enquanto encarava a xícara à frente.
O rosto do Rei se iluminou com um sorriso.
– Seria um bom uso.
Dust estava tão concentrada em sua bebida, que apenas mais tarde, quando estava prestes a dormir, que vira o real significado na pergunta do garoto.
– Tive uma ideia para esses três dias: faremos, cada um, uma lista de coisas que ainda não realizamos. Tentaremos completá-la ao máximo possível até sexta – sugeriu com entusiasmo.
– É uma ideia interessante... – respondeu distraidamente entre goles de chocolate-quente.
– Ou podemos experimentar todos os chocolates-quentes da cidade – disse com voz magoada pela falta de atenção da garota, mas sorriu, divertindo-se com a adoração da mesma por doces.
Dust despertou e se desculpou, rindo brevemente.
– Hm, estou querendo viajar faz um tempo, mas não tinha horário para isso. Ou dançar no meio de uma livraria.
– Podemos dar um jeito – sorriu docemente. – O que eu sempre quis tentar é experimentar baiacu.
– Não tentou até agora com medo de morrer? – questionou com um sorriso sarcástico.
– Preciso revelar que sou muito azarado... – disse descontraidamente.
Sorriu, dessa vez de forma natural. Além de ter a chance de descobrir mais sobre os planos da Torkness, estava se divertindo mais do que imaginara. O Rei não parecia ter mudado suas maneiras desde a segunda missão, tornando o clima agradável com uma boa conversa. Talvez, por um momento, pudesse apreciar verdadeiramente sua presença.
Fale com o autor