I've Loved For A Thousand Years
3 Feira - parte 1
Notas iniciais
Feira — parte 1
As ruas próximas a paróquia estavam atulhadas de bancadas improvisadas na madeira com a lã dos monges e os simples tecidos grosseiros das freiras. Alguns comerciantes de vilas próximas passavam pelas bancadas e negociavam com os religiosos, mas a maioria se interessava muito mais pelos porcos das irmãs e o doce mel do frei Tûk que ficavam mais afastados do centro, próximos à cerveja e do pátio da quadrilha.
Blaine ficara responsável por ajudar Tûk a vender o mel, ele ingenuamente pensou que teria pouco a fazer supondo que o comércio da lã, o foco da feira, ofuscaria o mel, entretanto, verificou-se o oposto e sem contar que Tûk pouco o ajudava e ficava batendo palmas enquanto assistia à quadrilha. O garoto, então, ficou responsável pelo inventário, pelas contas e até a venda propriamente dita, ele observou a fila se estendendo metros a frente e suspirou “ Como as pessoas arranjam dinheiro par ao mel nesses tempos?”.
Conversavam no meio da fila dois irmãos. Um deles, um garoto incrivelmente alto, não parava de falar sobre o mel que iriam comprar enquanto o outro olhava ao redor distraído.
-Você acha que ela iria gostar?
-O que? – Kurt falou ainda em transe.
-Você está me ouvindo? – Finn olhou o olhar confuso do irmão e respirou fundo – Você acha que Rachel iria gostar de ganhar um pote de mel? Com flores, é claro.
A fila avançou alguns passos.
-E de quem ele iria ganhar? De você? – ironizou – Com que dinheiro você pretende fazer isso? Não, deixe isso para lá. Você acha que ela precisa ganhar mel?
-Eu guardo o troco toda vez que saio com os garotos para beber. Além do mais acho que ela nunca provou mel do Tûk, é o melhor que existe.
-Porque é o sonho de toda mulher ganhar comida...
-Exatamente! – concluiu Finn feliz.
Kurt revirou os olhos, mas se conteve, já estavam em frente à barrada. Tûk estava sentado num canto vendo as pessoas dançarem, havia poucas pessoas considerando que ainda não havia escurecido. Ele batia palmas excitado, mas quando ouviu a voz estridente de Kurt falando com o irmão ele se virou a tempo de poder atendê-los.
-Kurt! – o frei deu um berro antes que Blaine pudesse sequer pensar em atender o garoto que ele havia visto na celebração. Ele viu o menino abrir um sorriso genuinamente feliz para Tûk.
-Tûk! Há quanto tempo. Por que não veio mais nos visitar?
-Will resolveu apertar as rédeas aqui no mosteiro, os noviços estavam achando que podiam burlar as regras – e olhou acusadoramente para Blaine como se a indisciplina geral fosse inteiramente culpa dele – Eu sendo mais velho tenho que dar o exemplo, não posso ficar saindo sempre que quero. Todavia, devo admitir que sinto sua falta e de você também, grandão – dando um tapinha no braço de Finn que fora deixado de lado toda a conversa.
-Fico feliz em saber que não nos esqueceu. Senti sua falta também, não há muitas pessoas fãs de poesia por aí para eu conversar...
-Então, só sentiu minha falta por isso? Muito interessante saber...
-Não seja ridículo, Tûk, sinto falta do mel também – rindo junto com ele – É por isso que estamos aqui e não para atrasar as pessoas atrás de nós.
Eles conversaram enquanto o religioso e Blaine separavam o pedido deles. Blaine não conseguia parar de olhar para Kurt, ele precisava conhecê-lo. Então, como que para atender suas preces Kurt se voluntariou para ajudá-los.
-Tem certeza disso, jovem? – disse Tûk.
-Claro, quero colocar o assunto em dia com você, aliás, o senhor achar que não vi você todo distraído aí. E seu pobre ajudante fazendo tudo sozinho.
-Blaine é jovem ainda, trabalha incansavelmente.
-Blaine tem ouvidos e fica cansado como qualquer um – disse o noviço para Tûk, então voltou-se para Kurt – Adoraríamos sua ajuda, mas sinto obrigado a te informar que o movimento está intenso e o trabalho será duro.
-Para quem costumava passar o dia trabalhando na terra... Finn, leve as coisas para meu pai e vá se divertir, ficarei aqui com eles.
-Sim – disse pegando os produtos – até mais!
O frei saiu, provavelmente para usar a latrina e Blaine pegou-se analisando o garoto de rosto jovial e modos delicados. Como algum dia ele pode trabalhar na terra? Suas roupas sugeriam que ele um nobre, provavelmente da baixa burguesia, mas mesmo assim para ele trabalhar na terra... E antes que pudesse refrear a língua se viu perguntando para ele quando havia trabalhado na terra.
-Desculpe-me por isso, não precisa responder se não quiser.
-Não se preocupe com isso – respondeu com os olhos num pergaminho anotando as últimas vendas para um casal camponês – Quando meu pai vivia na França ele tinha uma esposa de lá, minha mãe, que engravidou de mim fugiu para longe. Não sei bem o porquê, mas ela fugiu, deu a luz e durante os dez primeiros anos da minha vida eu vivi no campo e trabalhei lá enquanto minha mãe lavava roupas do castelo.
-Então... – não conseguindo se segurar.
-Senhora, não temos mais potes com favos e mel, desculpe-me. Gostaria de alguma outra coisa? Blaine? Pegue o pote grande ali do lado. Sim, esse mesmo. Não há de quê.
-Voltando a história, minha mãe adoeceu e em seu leito de morte redigiu uma carta e pediu para que eu fosse com o vizinho na próxima feira de lã – Ele sempre guardava parte da sua produção para vender lá – e entregasse a carta ao padre responsável pela paróquia, ela disse para o vizinho me levar até a igreja e ele atendeu como um último desejo. O padre havia celebrado o casamento dela e me levou a meu pai que já estava se mudando para a Inglaterra, ele ia se casar com Carole. Bem, cá estou eu há seis anos vivendo com minha nova família aprendi a ler, a ter modos... – ele corou e sorriu para Blaine que sentiu o coração derreter no peito.
-Você tem dezesseis anos?
-Impressionante, não é? Parece que ele parou nos doze – comentou Will que tinha acabado de chegar ali.
-Não exagera – Kurt fez uma careta – pelo menos uns catorze.
Will riu com a caro do garoto e entregou-lhes uma lista nova.
-Tûk já ai trazer mais alguns potes que ele tinha guardado para vender ao longo do ano, mas que pelo visto já se fez necessário. Aqui está a lista do que ele vai trazer.
-Quem escreveu isso? Essa letra não é de nenhum de vocês – perguntou Blaine.
-A irmã Emma escreveu – e virando-se para Kurt – você sabe como ela é com organização.
Ele estremeceu e corou, quando Will saiu o garoto se sentiu na obrigação de explicar.
-Eu vomitei nos pés dela da última vez que ela veio. Eu achei que Emma ia desmaiar ou me bater.
-Você o que? – riu Blaine.
-Era a primeira vez que eu tinha saído com os garotos para me divertir, eu bebi vinho demais e de manhã quando fui falar com Will ela estava junto e eu, bem, você sabe.
O outro quase chorava de rir e nem se sentia na obrigação evitar rir do garoto que ele acabara de conhecer, era como se eles fossem amigos há anos. Quando ele se acalmou encontrou Kurt completamente vermelho de vergonha e resolveu mudar de assusto.
-Agora que você já e contou sua vida inteira para mim, há algo sobre a minha pessoa que gostaria de saber?
-Não sei, seus gostos talvez ou será melhor descobrir com o tempo?
Blaine sorriu, eles iam se encontrar de novo.
-Minha história, alguma outra coisa?
-Sua história? Deixe-me adivinhar você é nobre com certeza (pelo jeito que você fala) e é o caçula da família também. Seu pai doou algumas terras para a paróquia em troca deles te aceitarem aqui, você questionou sem dúvida, mas acabou aqui de qualquer maneira, sem vocação, sem interesse e solitário.
-Kurt, como você...
-Vivi aqui durante cinco anos por causa da minha educação, vi muitos como você chegando, abandonando e até se tornando monges, os piores por sinal. É como um padrão se repetindo.
-E o que você sugere para quebrar o padrão – falou um pouco rancoroso.
-Primeiro: não fique bravo comigo – “Por favor não fique bravo comigo, por favor não fique bravo comigo...” ele pensava – eu não tenho culpa do que aconteceu. Segundo: não há destino você pode fazer o que quiser da sua vida, não que seja fácil mas você pode. Se for ficar por aqui sugiro que arrume um hobby, os irmãos mais felizes são aqueles que fazem algo além da vida monástica, como Tûk e suas abelhas. Como ele diria “eu cuido delas, e elas cuidam de mim”.
Os amigos viram Tûk se aproximando, voltaram rapidamente ao trabalho interrompido com Will e sorriram um para o outro cúmplices.
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