Ive Been Losing So Much Time
1 It's You and Me, And All Of The People
Mais uma noite com milhares de garotas gritando pra qualquer um de seus movimentos em cima do palco, mais duas horas de uma noite qualquer em qualquer dia da semana de qualquer mês em qualquer ano, mais um país visitado, mais uma cidade atendida, mais um fim de show em uma noite quente que você tentava ignorar sentado na ponta da cama de casal vazia do seu quarto no hotel cinco estrelas que reservaram para David.
Era só mais uma noite que Pierre e Lachelle se divertiam no lounge.
Era só isso que tudo isso significava pra ele.
Só mais um dia em que ele iria ficar bêbado e festejar com seus amigos, depois de mais um banho e mais uma troca de roupas. Seria mais um vídeo vergonhoso seu na coleção de “vídeos vergonhosos do David” que Pat estava fazendo, e segundo ele, já tinha vídeo o bastante para montarem um longa-metragem de Hollywood. Não, perto dos seus amigos já não tinha mais nenhuma reputação, principalmente depois de algumas doses viradas de qualquer bebida que lhe oferecessem, e não era difícil de querer ficar bêbado quando o via com ela.
No começo David achou que estava ficando louco, que tinha algum problema por desejar que Lachelle simplesmente caísse dentro de um buraco sem fundo, e ficasse lá, caindo por toda eternidade e nunca mais visse Pierre.
Depois começou a achar que gostava bastante de Lachelle, e que por isso estava sentindo tanta raiva por ela e Pierre não se desgrudarem um segundo sequer.
E se sentia péssimo por isso. Não queria gostar da namorada de um dos seus melhores amigos, não queria!
Porque queria que Pierre fosse feliz.
Porque queria fazer Pierre feliz.
E foi só quando entendeu que o problema era que não era ele quem estava fazendo Pierre sorrir, ou que não era pra ele que Pierre ligava pra contar as novidades, ou que não foi pra ele que Pierre deu uma aliança de compromisso, que percebeu que não era por Lachelle que estava sofrendo daquele jeito.
E foi quando decidiu que não pensaria no assunto, porque estava se sentindo muito bem sendo apenas hétero.
Era muito complicado tentar aceitar que queria dividir um quarto com Pierre porque no meio da noite provavelmente acabariam dormindo de conchinha na mesma cama. Ou que não seria só para ele que Pierre iria dar o primeiro sorriso do dia, ou o último da noite. Era difícil aceitar que tinha que dividir a pessoa que amava e pior ainda aceitar que a pessoa que amava também era um homem.
Não gostava de pensar o que isso o tornava.
Não queria pensar nisso.
E quando o assunto era não pensar nas coisas, David conseguia ser um mestre. Sua DDA só o deixava orgulhoso em momentos como esse.
E não pensava, já fazia um ano. Quando começava a pensar no assunto saía, ou ia procurar Seb para irem comer em algum lugar, ou deixava que Pat o filmasse fazendo alguma bobagem para que pudesse correr atrás dele até conseguir roubar a fita, que acabava devolvendo de qualquer forma.
Amava seus amigos, porque eles sabiam que quando ele tinha seus ataques hiperativos, era porque precisava de atenção, e eles sempre estavam lá o agüentando fazer todas as coisas desnecessárias nas quais conseguia pensar, e não o repreendiam.
Bom, não sempre.
E agora, as batidas na porta do quarto anunciavam que Chuck o estava chamando para descer, afinal, tinham que ficar bêbados depois do show, iriam viajar na manhã seguinte e o que melhor do que dormir a viagem toda pela exaustão causada pela festinha da noite anterior?
Era ótimo.
Evitava que ele se prendesse a detalhes daquele assunto que ele não gostava de ficar pensando sobre.
Quando pisou de volta no corredor de seu quarto, gostaria de saber qual das dezenas de portas brancas era a sua, e não estava com muita vontade de testar a chave em todas elas. Deu dois passos tortos para fora do elevador, tentando se lembrar se deveria virar pra esquerda ou para a direita.
- Se eu fizer “minha mãe mandou...”...
- É pra esquerda, David! – uma voz sugeriu atrás dele. Não precisava se virar para saber que encontraria Pierre bem ali. Mas se virou mesmo assim, cambaleando um pouco, fazendo o outro rir.
- Tem certeza? Porque estamos aqui falando do meu quarto, sabe, não do seu, porque o seu eu sei que você sabe onde é. E cadê a Lachelle? Você não largou ela sozinha lá embaixo com aquele monte de bêbados, não é? –fingiu preocupação, começando a caminhar para a direita. Tinha certeza que era para a direita!
- Tenho, tenho sim! – riu Pierre o segurando pelos ombros pequenos, o virando para o outro lado, o guiando para a esquerda no corredor, na direção da porta do seu quarto. – E a Lachelle já foi dormir, David, antes de você subir.
- Ah, é? Não vi. – disse parado em frente à porta do seu quarto, segurando o cartão em mãos. Era só passar no buraquinho, e a porta se abriria, mas estava vendo tantos buraquinhos na sua frente que não conseguia decidir em qual tentar primeiro. –E o que você está fazendo aqui? Pode ir embora, eu sei entrar no meu quarto, eu sei dormir sozinho, e tomar banho sozinho... não que eu me importe que você me ajude.
Ops.
Não queria ter dito isso, mas disse. Odiava ficar bêbado e ter Pierre por perto, sempre acabava soltando alguma bobagem que virava a maior tiração de sarro no dia seguinte. Como já disse, não era como se tivesse uma reputação mesmo...
- A Lachelle diz que eu ronco quando fico bêbado, como você está sozinho no quarto eu resolvi vir dormir aqui, e não – riu – não vou te ajudar a tomar banho, Dave. Abre a porta.
Ótimo. Muito bom. Estava bêbado, não conseguia segurar a língua e ainda dividiria uma cama com Pierre.
Certo, continuar conversando no corredor não era uma opção.
Passou o cartão no primeiro buraco que viu – escolheu o do meio – e conseguiu abrir a porta, se virando para Pierre com um sorriso de triunfo, querendo mostrar que não estava tão bêbado assim, e há!, podia abrir a porta sozinho.
Entrou no quarto, tropeçando no que seria um de seus tênis, se jogando na cama em seguida, como se os passos largos que deu para frente fossem propositais, rindo.
- David, você não está bem! – Pierre riu, encostando a porta, colocando o cartão no interruptor para manter a luz acesa. David continuou rindo, se sentando na cama para tirar o tênis que agora começava o incomodar.
- Eu tô ótimo! – exclamou com um largo sorriso, fitando o rapaz maior encostado à porta, que o encarava com um sorriso divertido. Pierre também não estava sóbrio. A diferença era que Pierre conseguia conter suas energias, e David gostava de colocar suas energias pra fora, e gritar, e pular, e correr... e se o dito cujo continuasse o olhando daquele jeito ele também ia começar a gostar de gastar suas energias agarrando o colega.
- Você anda bebendo demais! – riu Pierre. – Você não era assim. Bebia, mas não tanto.
- Eu nem estou bêbado! – exclamou David indignado, abrindo os braços. –Eu posso até dançar se você quiser!
Pierre gargalhou.
- David, chega. Vai tomar banho. – pediu Pierre. David torceu o nariz para ele, se sentindo um tanto quanto ofendido com o comentário. Tinha certeza de que estava bem cheiroso, sim. Estava! Já havia tomado banho, e não havia suado, além disso, passou perfume. Não pretendia tomar outro banho.
- Eu não estou fedendo, Bouvier. Aposto que estou mais cheiroso que a Lachelle. – disse e não conseguiu evitar pronunciar o nome da garota com certo asco. Lógico que se arrepender nos segundos que se seguiram, porque a cara que Pierre fez não foi das melhores.
- Ela te fez alguma coisa? – perguntou preocupado, caminhando em passos lentos, se abaixando para encarar David, que fazia a sua melhor expressão neutra e tentava focar no quadro colocado na parede atrás de Pierre.
- Esses quadros são de extremo mau gosto. Não gostei. – disse. Com sorte Pierre mudaria de assunto também. Mas ele nem se virou para ver os quadros.
- O que ela te fez? –perguntou novamente. É, era difícil lidar com pessoas que não tem DDA.
- Ela... – começou, mas não conseguiria continuar. Não conseguiria porque não queria dizer para ele que Lachelle não havia feito nada a ele, ela só estava fazendo Pierre feliz, e isso o deixava louco, e isso estava acabando com ele. Não queria ter que dizer que ele não estava feliz com isso, e que não tinha culpa de estar fazendo tudo que podia para não pensar nesse assunto, e que se havia dito o nome da garota – que sim, era uma boa pessoa, coitada – desse jeito, era porque estava bêbado porque estava triste!
Mas se dissesse tudo isso, assustaria Pierre pra sempre.
E pior do que não ter Pierre com ele mas ter Pierre por perto, era não ter Pierre nenhum.
- David? – Pierre chamou, parecendo um tanto quanto preocupado, e sem ter a menor idéia do que um mero toque seu causava no baixista, afastou de leve a franja preta que cobria seus olhos. – O que ela te fez?
Suspirou.
Olhou para o outro lado, fugindo do toque dos dedos – agora meio calejados – de Pierre.
- Esquece. – pediu. – Vou tomar banho. – mas não saiu do lugar.
Pierre o encarava, preocupado.
- Eu não sei o que pode estar acontecendo, David, mas eu queria que você voltasse ao normal de uma vez. – disse cansado, se levantando e caminhando na direção oposta à cama. – Nossa, esse quadro é feio mesmo.
- Oi?! –exclamou mais do que perguntou. Como assim voltar ao normal? – Do que você está falando, Pierre? Por acaso eu não estou normal? Não estou rindo e sendo idiota? Não estou sendo o cara perfeito que todas as meninas querem ter como namorado quando estou em cima do palco? Como assim eu não estou normal? –queria se levantar e sacudir o rapaz maior, mas tinha a impressão de que se fizesse isso ia acabar caindo de cara no carpete caro do hotel.
E manchar o carpete caro do hotel com sangue do seu nariz não era uma coisa muito legal de se fazer. Já até imaginava: “O quarto 702 é mais caro, senhorita, porque o carpete está manchado com o sangue do nariz de David Desrosiers, o baixista gay do Simple Plan.”
Argh!
Gay.
Havia pensado.
- Você não conversa mais comigo, e está mais bobo que o normal. E bebe mais também, e com maior freqüência. E parece que o tempo todo quer chamar atenção... mais do que antes. O que está acontecendo? Você costumava tratar a Lachelle tão bem, e agora faz caras e bocas quando vai falar dela! Parece até que é... ciúmes. –Pierre soltou incerto. – Se bem que você não está sóbrio o bastante para falar disso. Vai tomar banho.
Okay. Então estava exagerando? Se Pierre queria falar disso, então iriam falar disso. Se levantou ainda tonto demais para ficar parado, e começou a andar de um lado para outro do quarto, dando passos largos para não cair, tentando focar em algo que o fizesse explicar a situação sem soltar o que realmente sentia.
Mais uma mentira que precisava criar.
-Eu não faço caras e bocas quando vou falar dela! Eu gosto da Lachelle! Eu gosto dela longe, não perto! –fez uma pausa. Não era exatamente o que queria dizer, afinal, não era pra sair falando o que sentia. –Não. Não é isso.
Pierre o estava olhando de braços cruzados, a boca entreaberta, confuso.
- Você não gosta quando eu trago a Lachelle pra turnê com a gente, é isso? –perguntou tentando entender.
- Não, eu não gosto. E não gosto que você namore ela. – soltou.
- Não? –perguntou Pierre coçando a cabeça, agora realmente mais confuso que antes. David bufou, parando de andar, o encarando agora. Já havia perdido tanto tempo, e estava bêbado, tudo girava, e talvez, se disse agora tudo que precisava, Pierre fosse o deixar em paz.
- Não, não gosto! Não gosto porque não sou eu. Não gosto porque eu tenho que fingir que eu estou feliz, na frente daquele bando de histéricas ridículas gritando na frente do palco eu tenho que fingir que eu estou bem, e eu tenho que fingir que estou fingindo gostar de quando você me abraça, ou chega perto, quando eu estou é gostando de verdade. – gritou. Não havia percebido que havia aumentado o tom de voz gradativamente enquanto falava. As paredes pareciam irreais, sua voz parecia irreal, e distante, e tudo acontecia como se estivesse em um sonho, um torpor.
Estava mesmo muito bêbado.
- Como é? Como assim, David? – perguntou. Como era burro, meu Deus. David bufou novamente, querendo rir. Queria muito rir. Se soubesse que Pierre não percebia, teria aproveitado mais quando se esfregavam no palco.
- Como assim, David? — imitou Pierre falando. – Como eu fui me apaixonar por uma criatura tapada dessas? – perguntou inconformado. – É, sua anta, eu te amo. Eu te amo mas eu não quero pensar que você é um homem, porque pensar nisso me dá medo, porque eu não sou gay, e o fato de gostar de você é uma fraqueza que eu tenho. E vai passar. Já faz um ano, e não passou, mas vai passar. E eu não gosto da Lachelle e você juntos. Eu gosto dela, lá longe, longe de você, sem as mãos dela em cima de você, sem ela inteira em cima de você na verdade. Ela está onde eu deveria estar! E sou quem devia estar te fazendo rir, te fazendo feliz... e eu não estou fazendo sentido nenhum, né?
Pierre o olhava pasmo.
- Você bebeu demais. Eu vou pro meu quarto, e amanhã nós conversamos. – disse indo na direção da porta.
- Não vai, não! Agora que eu comecei eu vou terminar, porque eu estou bêbado, e bêbados não mentem. Eles se arrependem quando amanhece, só isso. – se encostou na porta, porque suas pernas estavam começando a amolecer, e iria cair loguinho se não tivesse algo em que se apoiar. – Você ama a Lachelle? Não, mas ama de verdade? Porque, você seria capaz de não deixar que ela soubesse que você a ama só porque isso talvez a afastasse de você? Digo, talvez ela se afastasse de você se você fosse uma mulher apaixonada por ela, se bem que eu acho que entre garotas isso não é tão complicado, não é mesmo?
E tinha uma capacidade incrível de mudar de assunto. Pierre cruzou os braços, pensativo.
- Talvez, eu dissesse a ela que gosto dela mesmo eu sendo uma mulher, porque afinal, eu gosto dela, e quero saber se eu tenho uma chance. E sim, com mulheres esse negócio de homossexualidade é bem mais simples. – parou – David, eu não sou uma mulher!
- Ahá! – exclamou apontando para ele. – É isso que torna tudo difícil, porque eu também não sou uma mulher! Porque se eu fosse uma mulher você estaria louco por mim, porque eu sou lindo. – e sem perceber foi escorregando pela porta, até se sentar no chão. – Eu sou lindo, Pierre. E você me adora. Se eu fosse uma garota, eu tenho certeza que eu seria a sua primeira opção, não a Lachelle. – Ergueu o rosto, olhando Pierre de pé. Estava mordendo o lábio inferior, braços cruzados sobre o peito, o olhando, preocupado. – É difícil fingir que está tudo bem, e sorrir. Abrir os olhos e acordar todos os dias sabendo que mesmo que você esteja por perto eu não posso fazer nada, porque você não é meu. É difícil pular em cima do palco e fazer graça pro público, sabendo que mesmo que eu arrote vão achar lindo, e que... que quando nós voltarmos pro hotel eu só vou conseguir me lembrar de como você esteve ótimo, e não vou conseguir lembrar nem da cara de ninguém, nem do que eu fiz, nem do que ouvi. – sentiu o nó se formar na garganta, e viu Pierre ficar embaçado com a quantidade de lágrimas que começavam a se formar nos olhos perfeitamente delineados. – É horrível chegar aqui e tentar me ocupar e não pensar no assunto, e não conseguir porque dói demais! Porque dói e nada do que eu faça vai fazer parar de doer! Porque eu sei que você nunca vai ser nada mais do que um grande amigo meu. E não, Pierre, eu não tenho a ilusão idiota de que depois de tudo que eu falei você vá pular nos meus braços e dizer que me ama, porque você é hétero, tem a Lachelle, e se pulasse em mim ia acabar me quebrando.
Pierre soltou um risinho fraco devido à última parte da confissão de David. Era uma situação complicada, para ambos. David viu quando Pierre se ajoelhou na frente dele, sentindo ele o puxar pelos ombros para um abraço que não conseguiu negar. Estava chorando compulsivamente, não conseguia mesmo parar.
- Dave... eu não sabia. Eu... eu não sei o que falar. Eu não vou me afastar de você, eu acho que eu nem consigo. – disse baixinho enquanto afagava o cabelo do rapaz, o abraçando forte.
- Não quero que você me odeie... – pediu se afastando um pouco, olhando Pierre, que sorriu.
- Nunca. Eu fico realmente lisonjeado por ter alguém que gosta tanto assim de mim, principalmente por ser você, mas... – Pierre foi cortado por David.
- Mas você não pode retornar os meus sentimentos. Eu sei. – disse começando a se levantar com dificuldade. – Dorme aqui. Eu juro que não vou te agarrar no meio da noite nem nada do tipo. – enxugou os olhos com as costas das mãos.
Pierre sorriu, assentindo.
- Vai pro banho! – exclamou apontando o banheiro. Cambaleando, David entrou e fechou a porta.
Pierre tinha uns vinte minutos pra pensar no que fazer, e achava isso muito injusto porque David teve um ano e muitas bebidas pra pensar no que fazer.
Quando David saiu do banho – se sentindo um completo idiota – a cama estava arrumada para que dormisse, e Pierre já estava deitado, com as mãos atrás da cabeça, encarando o teto.
- Sabe, ele não vai criar braços, pernas e boca e cantar pra você nem que você o encare por dez anos. – mencionou. Por algum motivo não estava se sentindo desconfortável na presença de Pierre. Por algum motivo aquilo parecia normal.
Pierre o olhou, rindo.
- Tá menos bêbado, Dave? – perguntou. David riu, se jogando ao lado dele, já de pijama, cabelo molhado.
- É, menos bêbado. Tô vendo um Pierre só. – se virou de lado, puxando a coberta por cima do corpo. –Apaga a luz.
- Não. – sentiu Pierre se mexer na cama. – Olha pra mim, David.
Devagar, David se virou de frente para seu amigo, que estava de lado, o olhando. Piscou quando os dedos de Pierre tocaram seu rosto.
- Eu não quero te ver triste, David.
- Impossível. – respondeu, sincero.
- O que eu posso fazer pra amenizar tudo isso? – David sabia que Pierre não o queria sofrendo, sabia que se pudesse ele faria David não sentir nada por ele. Na verdade, ele próprio o faria se pudesse, só que não conseguia evitar gostar do rapaz.
Mas não havia nada que pudessem fazer.
- Agir como se eu nunca tivesse te contado. – disse. Talvez assim pudesse continuar com a sua briga interna sobre “ser ou não ser gay” em paz.
- Impossível. – respondeu também. David mordeu o lábio, não queria chorar de novo.
- Por que? – perguntou.
- Porque você me confundiu. – respondeu.
David suspirou. Não queria se prender a um fio de esperança que poderia se romper a qualquer momento, queria algo concreto. Ou Pierre o queria, ou queria Lachelle, ele não poderia esperar, e não iria esperar para sempre.
- Você ama a Lachelle. – disse. Estava cansado, só queria dormir e esquecer que soltou tudo aquilo para Pierre.
- Me dá um beijo, Dave. – pediu. David fechou os olhos, suspirou. Queria o beijar, oras, sempre quis. Já havia passado horas imaginando como seria se um dia se beijassem, mas não era assim que queria que acontecesse.
- Não. – disse com dificuldade. – Não é uma boa idéia. – abriu os olhos, fitando Pierre o olhar decepcionado, tirando a mão de seu rosto. –Mas me beija logo que eu sei que você sempre sonhou com isso, só é enrustido demais pra admitir.
Pierre girou os olhos, rindo, se sentou na cama.
- Você é convencido demais, gente!
David se sentou também, se inclinando para o olhar.
- Mas você sabe que é verdade! – e se aproximou dele, falando entre dentes – Finge que é verdade, idiota.
Pierre o olhou, rindo mais.
- Ah, claro! Eu sempre quis te beijar. –disse ficando sério, aproximando o rosto do dele. David fechou os olhos quando sentiu a ponta do nariz de Pierre tocar o seu, e em seguida seus lábios sendo cobertos pelos dele.
Não acreditava que estava acontecendo.
Não conseguia acreditar que era a língua de Pierre que agora tocava a sua, em movimentos lentos dentro da sua boca. E não queria que Pierre tirasse a mão de sua nuca, nem que parasse de mordiscar seu percing. Não queria que aquele beijo acabasse nunca.
Mas acabaram ficando sem ar, eventualmente.
Pierre se afastou lentamente, fixando os olhos no cobertor.
Estavam em silêncio, um silêncio incômodo.
- Acho uma ótima idéia você apagar a luz e dormirmos. – disse David se deitando novamente, sem conseguir conter o sorriso bobo nos lábios.
- Eu... é. – sentiu Pierre se levantar e apagar a luz, e se deitar com ele depois. – E tira esse sorriso bobo da cara, Dave. – riu.
David se sentou na cama, indignado.
- Quem está com sorriso bobo na cara, Bouvier? Você, né? Você acabou de beijar uma diva, sinta-se privilegiado! –exclamou e se deitou novamente, resmungando um “eu mereço” enquanto tentava dormir, sem ter a chance de ver Pierre sorrindo ao seu lado.
No momento, David não queria pensar no que aconteceria quando amanhecesse, porque talvez não mudasse nada, e Pierre e Lachelle fossem felizes, se casassem, e ele continuasse sofrendo. Mas agora... agora que aquilo havia acontecido, mesmo que odiasse, queria se prender ao tal fio de esperança que poderia se quebrar a qualquer instante.
Porque a alguma coisa teria que se prender, não é? E então se prenderia ao fato de que héteros não pedem pra beijar seus amigos porque ficaram confusos. E que héteros, assim que pegam no sono, não abraçam seus amigos como Pierre fazia no momento.
E que amigos héteros não dormem de conchinha.
E que Pierre nunca roncou. Nem sóbrio, nem bêbado, e que estava ali por algum motivo, e ele queria acreditar que era pra cuidar dele.
Fechou os olhos ainda sorrindo.
- Boa noite, Pierre. Je t’aime.
- Je t’aime aussi, David. –respondeu sonolento.
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