Itsumo Yakusoku
54 Capítulo 54 - Shinjitsu no gensou to
Notas iniciais
Cortando o corpo dele, um poeta fala com sangue
Esta alma te puxa pela mão para uma longa jornada
Casper enclausurado e vagando
Num sonho sem fim
Entreguei destino e desejo
Para um mar de ondas quebrando
Como flamas flutuando na baía
Me abrace numa noite quando a gaita ressoa
Acenando para um homem que foi domado
Uma dança repetindo a razão pela qual nasci
Realidade e fantasia
Tudo que meus olhos refletem
Antes que este corpo seque e desapareça
Ordeno minhas palavras no vento que sopra
Neste mar e nesta margem
Que são a prova da minha existência
Realidade e fantasia
Tudo que meus olhos refletem
Antes que este corpo seque e desapareça
Capítulo 54
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Shinjitsu no gensou to
Tadase via sua mãe andando de um lado para o outro na cozinha, parecendo prestes a ter um ataque de nervos. Estava sentado na mesa, com uma xícara de chá que ela havia silenciosamente feito, como se isso pudesse ajudar em alguma coisa. O chá estava amargo, e ele não aguentava mais esperar que ela dissesse alguma coisa. Quando já estava ficando impaciente, e ia se pronunciar, ela finalmente parou de andar, e virou-se na sua direção.
— O que você quer que eu diga, Tadase? — repentinamente ela suspirou, exausta, abraçando a si mesma. Sabia que talvez tivesse que enfrentar um dia como esse, e agora, lamentava os erros do passado. Não havia mais conserto, remendo, desculpa que pudesse restaurar o que havia se perdido. E Tadase a fitava com seriedade, ela sabia que ele não aceitaria meia verdade. — Você não é meu filho. É isso o que está escrito naquele papel, não é? Adotado. — ela falou aquela palavra sem hesitação alguma. Era isso o que Tadase havia lido, no que pareciam ser horas atrás, e ainda remoía internamente, sem saber como digerir essa informação. Aquela palavra, aquela simples palavra, mudava tudo o que ele sabia sobre a sua existência. Sobre si mesmo, e sobre sua vida inteira. — Eu não podia ter filhos, então adotei você, porque Yui queria muito ter um filho. — ela explicou, como se isso fosse apenas mais um detalhe irrelevante.
Tadase sentia que queria chorar, mas as lágrimas não vinham. Só sentia aquele ardor desesperador na garganta, e apertava os punhos com força. Os pensamentos lutavam para se ordenar na sua cabeça. Ele tinha percebido os sinais. O falta de fotos suas recém-nascido. O seu tipo sanguíneo que não combinava com o de Mizue. A relutância dela em responder suas perguntas. Ele nunca havia sido mesmo muito parecido com ela ou com seu pai, fisicamente… Se ele tivesse juntado todas essas peças, teria deduzido. Na verdade, lá no fundo, já desconfiava. Algo dentro dele sempre soube que não pertencia àquele lugar, e desde que Tsukasa fora embora, essa sensação só aumentou.
— Quem são meus pais? — ele conseguiu perguntar, a voz baixa. Mizue sentou à sua frente, mas ele não queria olhar para ela, não queria olhar para ninguém.
— Sua mãe não queria você. Ela apareceu aqui pedindo ajuda, e deixou você. Eu senti pena. — A voz dela era fria, quase sem emoção. Era outra pessoa diante ele, e ele não a reconhecia — E como meu casamento estava com problemas e Yui queria muito ter um filho, aproveitei a oportunidade… Adotamos você.
— V-você fala como se eu fosse alguma coisa que você comprou no mercado! — ele se indignou — Por que escondeu isso por tanto tempo? Eu merecia saber!
— Não, você não precisava saber de nada! Viveu muito bem até agora sem saber, não é? Eu criei você como meu filho! Não deixei que fosse para um orfanato, dei um futuro para você! Isso é o suficiente!!
— Todo esse tempo… todo esse tempo que você me controlou como quis… — ele mordeu os lábios para tentar se conter, as lágrimas queimando seus olhos, começando a deslizar pelo rosto.
— Eu fiz tudo isso porque te amava, Tadase…
— Errado! Você não me amava, você amava a ideia de família perfeita que criou na sua cabeça. Mas nós nunca fomos uma família de verdade! — ele se ergueu, a voz se elevando outra vez. — Você nunca se preocupou de verdade comigo, com o que eu queria ou o que me fazia feliz! Nem mesmo tentou me entender! Não é assim que mães agem!! Todo esse tempo, tentando me afastar do Nagihiko-kun, só para proteger o seu próprio pensamento distorcido!
— Se você for falar desse pervertidinho que entrou na minha casa e bagunçou a sua mente…
— Não ouse falar do Nagihiko! Eu devia ter lutado mais para ficar ao lado dele, por que você nunca mereceu a minha consideração! Eu o amo! — ele gritou com afinco, sentindo a certeza reverberar em sua voz.
— Cale a boca! Calado, não diga mais nada! — Mizue gritou, os olhos em fúria quase saltando das órbitas — Eu sabia! O sangue prevalece, não é? Você saiu errado! Igual a ele! Não importa o quanto eu tenha tentado te consertar, você nunca vai ser normal! Eu me esforcei tanto, tanto…. e você continua sendo uma criança corrompida, com essas ideias estúpidas na cabeça! Exatamente como seu pai!
— Meu... pai?
Mizue pareceu perceber que havia falado demais, mas agora era tarde, e ela estava tão enfurecida que nem mesmo tentou se controlar. Naquele momento, o latido de Hotosaki anunciou novos visitantes. Yui parecia preocupado pelos gritos que ouviu do lado de fora, e adentrou em um rompante pela cozinha. Logo atrás dele vinha Tsukasa, aflito.
— Que propício! O que você está fazendo aqui, Tsukasa? Teve um daqueles seus pressentimentos asquerosos? — ela tinha um olhar cheio de desprezo na direção do irmão. Tadase queria correr e pedir ajuda ao tio, mas ainda estava paralisado. Tudo o que via e ouvia, pareciam cenas distantes, da vida de outra pessoa. Ele já não conseguia raciocinar direito.
— Pode se dizer que sim — ele lançou olhares angustiados para Tadase, e de volta para Mizue. Parecia ter figurado sozinho o que acontecia. Pelo jeito, todo mundo já sabia a verdade ali, menos Tadase.
— Eu estava aqui, dando ao Tadase—chan o que ele queria — Havia um tom de cruel ironia na sua voz. Tadase mal conseguia reconhecer aquela que poucas horas atrás chamava de mãe. — Ele quis a verdade. Está grandinho, o seu garoto. Exigindo coisas! Pois bem, estou dando a ele a verdade então! — ela voltou a andar de um lado para o outro, com as mãos gesticulando enquanto falava. — Quer saber quem é seu pai, Tadase? Sim! Seu pai sujo e depravado! Você deve saber, não é? Tão parecido com ele, até nos aspectos mais sórdidos, impossível não notar! Tsukasa! O tio que você tanto amou! Ele é o seu pai! Não está feliz? — ela riu, descontroladamente.
— Mizue, do que você está falando? — Yui foi quem se pronunciou primeiro, chocado. Tadase ainda absorvia a informação, sentando lentamente de volta na cadeira atrás de si, os olhos focados no nada, as lágrimas correndo livremente. Tsukasa fez menção de ir até ele, mas parecia também paralisado.
— É isso mesmo! — Mizue gritou então para o marido — Esse meu irmão estúpido, imbecil, repulsivo! Foi afogar as mágoas por causa do seu amor rejeitado por aquele cara depravado, acabou saindo com uma mulherzinha qualquer, e resultou nisso! — ela apontou para Tadase, cheia de raiva — Nove meses depois, ela voltou e entregou para ele o bebê! Achou que eu ia deixar um homem como ele criar uma criança? Claro que não! Eu fiz o que qualquer um teria feito!
— Você me disse que encontrou Tadase em um orfanato…- Yui mal conseguia respirar, desconsolado. O choque era um tanto dificil de absorver.
— Eu menti! Não queria que ninguém soubesse de onde ele saiu! — ela empurrou Yui, que parecia completamente sem ação agora — Mas não adiantou muito, não é? Apesar de eu ter tentando transformá-lo no filho que eu queria, ele ainda acabou se perdendo, do mesmo jeito que o pai dele!
— A vovó… sabia? — de todas as perguntas que Tadase queria fazer, e todas as coisas que queria dizer, essa foi a única que encontrou espaço para escapar pelos lábios secos. Mizue riu.
— Claro que sabia. Por isso que ela sempre foi tão benevolente com você!
— Tadase… a voz de Yui se abrandou, quando ele se virou para o garoto. Mizue estava sendo absurdamente ríspida, justo com a pessoa que menos culpa tinha naquela situação. Aproximou-se dele, cuidadosamente, e Tadase podia ver nos olhos do pai que ele também lamentava toda aquela situação. — Tadase… para mim, nada disso nunca importou. Você sempre foi meu filho. Sabe disso, não sabe?
Tadase assentiu com a cabeça, incapaz de conseguir encarar Yui, mesmo que aquelas lágrimas todas não estivessem embaçando sua visão. Soluçou, tentando conter o choro com ambas as mãos. Se esforçou para abrir os olhos, e notou Tsukasa, logo a sua frente, fitando-o com apreensão. Parecia estar esperando para se pronunciar, como se precisasse da permissão de Tadase para falar naquele momento, ou então, ainda sem reação pelo inesperado da situação.
Ele não queria ver nenhuma daquelas pessoas. Toda a sua vida havia se baseado inteiramente em uma mentira, e ele não sabia mais em quem podia confiar. Quem poderia garantir que não fossem mentir novamente? Todos eles, sem exceção, o enganaram pela vida toda, e Tadase não poderia suportar nem mesmo um segundo a mais naquele lugar. Ergueu-se, e sem olhar para trás, saiu correndo. Sentia-se como se estivesse se afogando, e queria, com absurdo desespero, encontrar a superfície. Sabia que havia alguém o seguindo, mas não se importou. Ainda ouvia os gritos de Mizue discutindo com Yui mesmo do lado de fora da casa, e provavelmente a vizinhança inteira já devia estar sabendo do que aconteceu a essa altura. Ele correu até não poder mais ouvir a voz dela, mas como não corria tão rápido assim, Tsukasa, que era quem o seguia, logo o alcançou.
— N-não! — ele soluçou, enfim parando encostado em um muro, tentando recuperar o fôlego. Seu peito doía por muitos motivos, e sua cabeça latejava, impedindo-o de pensar. Tsukasa estava com a mão erguida, a meio caminho de abraçá-lo, mas ainda hesitante sobre como agir — Não q-quero ver você! Também mentiu para mim! Vá embora! Me deixe sozinho!
— C-como eu posso deixá-lo sozinho…? — Tsukasa tinha no rosto o semblante mais triste e agoniado que ele jamais vira. — Por favor… eu sei que você deve estar confuso, mas ao menos deixe eu explicar para você…
— Ela já disse tudo! Você não me quis, minha mãe não me quis! E me deram pra ela! E todo esse tempo… t-todo esse tempo que v-você me ajudou tanto… f-foi por que sentia culpa! — as lágrimas saiam sem controle, e a voz trêmula de Tadase quase não fazia sentido. Ele tremia por inteiro, e suas pernas fraquejavam. Respirar era uma tarefa impossível. Tudo doía.
— Não! Não é isso! Por favor, Tadase, por favor, deixe-me contar a você a verdade. A verdade completa…
— Você já teve tempo para me contar a verdade. Muitas oportunidades. — Tadase baixou a voz, tentando parecer ao menos um pouco recomposto. — E agora, eu nem sei mais se devo acreditar em você.
— Tadase… — Tsukasa tentou segurar o braço de Tadase, mas ele se desvencilhou.
— Não, me dê algum tempo para pensar! — ele gritou, recuando. Voltou a correr, ainda sem rumo, com a visão turva e a cabeça ainda mais. Não sabia o que faria agora, mas havia uma pessoa, uma única pessoa que queria ver, não importava o quê. Seu porto-seguro.
Uma vez, há muito tempo, Nagihiko disse à ele “você é a única verdade na minha vida”. Pois, agora, a situação revertia.
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