Itsumo Yakusoku
11 Capítulo 11 - Hitotsu Dake
Notas iniciais
Eu não quero culpar nossa idade
O fato é que todos os dias não são como nós queremos
A gentileza que você me mostrou naquele tempo
Faz com que eu tenha vontade de chorar em alguns dias
Eu vou ser capaz de ver seu sorriso novamente em algum dia
As promessas e as lembranças que eu quero manter
Para passar essa tristeza – a sua voz
Quero sempre acreditar nela
Capítulo 11
–
Hitotsu Dake
— O que você acha desse, Nagi? – abrindo a cortina do provador, Amu mostrou o vestido preto, cheio de babados na barra. Nagihiko colocou a mão no queixo, avaliando seriamente a peça. Já havia perdido a conta de quantas lojas e quantos vestidos, saias, blusas e outras peças de roupa já havia visto hoje com Amu, mas ela simplesmente não conseguia escolher qual comprar.
— Hmm… talvez… — ele franziu os olhos, sério. Levantou-se do sofá onde havia sentado, e deixando as sacolas de compras de lado, pegou um colar que estava pendurado no mostruário logo ao lado do provador – Se você usar um acessório mais colorido, ele se destaca mais… dessa maneira! – ele colocou o colar no pescoço dela, a girou até que ela estivesse de frente para o espelho, e os olhos de Amu brilharam.
— Ah, você tem razão, Nagi! Ficou lindo com esse colar… Eu vou levar esse! – ela exclamou, e Nagihiko suspirou um “finalmente” meio contido, antes de voltar para seu sofá.
— Ei, ei, Nagi! – Yaya chamou, e ele se encaminhou para a arara onde ela estava remexendo já havia algum tempo – A Yaya não consegue encontrar nada aqui! Vamos logo ir comer alguma coisa!!
— Espere só a Amu-chan terminar… — ele respondeu, virando-se para o lado onde estavam as roupas masculinas. Moveu alguns cabides, e tirou de lá um suéter cor-de-creme com discretas listras em marrom mais escuro na horizontal. Examinou-o por alguns segundos – Será que tem um tamanho menor…?
— Você está pensando em comprar isso para o Tadase, nee? – Yaya abriu um largo sorriso, de alguém que já entendeu tudo em um segundo.
— Por que você diz isso? – Nagihiko respondeu com outra pergunta, tentando despistá-la.
— Porque a Yaya sabe que você não usa esse tipo de roupa, e é a cara do Tadase um suéter todo certinho desses! E porque a Yaya sabe que vocês estão tendo um caso escondido, sabe sim!
— Sabe como? Você não tem provas de nada disso – Nagihiko pegou o casaco nos braços, e começou a olhar em outra arara, procurando por mais alguma coisa.
— Não tem provas do que? – com o vestido e o colar que acabara de provar nas mãos, Amu entrou na conversa, olhando de um para o outro.
— Provas de que o Nagi e o Tadase estão saindo escondido!! Não é necessário ter provas, a Yaya sente o cheiro disso de longe! – ela apontou para o próprio nariz, confiante – É claro que vocês estão se vendo de uma maneira ou de outra.
— É verdade, Nagihiko? – Amu indagou para ele, preocupada – Vocês estão mesmo se vendo? Olha, eu sei que você veio para cá só por causa dele, qualquer um pode perceber isso aliás, mas agora ele tem uma noiva e…
— Aqui não é lugar para discutir isso, meninas… — Nagihiko interrompeu-a, olhando ao redor – Vamos comer alguma coisa, e então conversamos sobre isso, está bem?
— Certo! – Yaya concordou, indo pegar as sacolas de compras. Estava ansiosíssima para saber das novidades, apesar de tudo.
Depois de pagar e sair da loja, eles andaram pelo shopping, mas ao invés de ir para a praça de alimentação que estava repleta de pessoas, optaram por um café mais afastado, que era menor e mais reservado. Nagihiko sabia que já havia adiado aquela conversa com suas amigas por tempo demais, e que devia a elas alguma explicação, mas não tinha ideia do que deveria dizer para elas agora.
Já haviam arrumado uma mesa no café, e feitos os pedidos, tanto Amu quanto Yaya o encaravam com olhares ansiosos e inquisitivos. Nagihiko perguntava-se se todos no mundo tinham uma ou outra amiga tão insistente quanto essas duas, ou se esse privilégio era reservado a ele. Ah, graças aos céus Rima tinha recusado o convite de fazer compras, ou seria mil vezes pior.
Ele se sentia, para dizer o mínimo, pressionado. Era como se naquele momento Yaya estivesse apontando para ele uma lâmpada com luz forte, enquanto Amu lhe dava tapas na cara, ordenando que contasse tudo o que sabia. Certo, isso foi um pouco dramático, mas era quase isso…
— Bem… — ele passou a mão nervosamente pelos cabelos, sentindo que se prolongasse mais isso poderia ser desastroso – O que vocês querem saber…?
— Como assim “o que?” Não é óbvio? TUDO! – Yaya foi direto ao ponto, quase subindo em cima da mesa para encará-lo com vigor – Você anda se encontrando com o Tadase pelas nossas costas, Nagi?
— E você ainda tem dúvidas, Yaya? – Amu revirou os olhos, como se tivesse entendido tudo sem que Nagihiko sequer se pronunciasse – Olha como o Nagihiko anda tranquilo desde que chegou! E o Tadase, está tão alegrinho que só falta saltitar pelos corredores! Ontem eu o flagrei cantarolando enquanto organizava os arquivos! Você sabe quanto tempo faz desde que ele esteve tão feliz??
— Claro, desde que o Nagi foi embora, ué! – Yaya novamente foi direta, e Nagihiko se remexeu, sentindo que as meninas nem precisavam dele ali para interrogar, podiam muito bem tirar conclusões sozinhas.
— Então, Nagihiko… quando foi que vocês se acertaram de vez? E o que vocês pretendem fazer?
— Bem… vocês já perceberam sozinhas, eu retornei para o Japão apenas para ter o Hotori-kun de volta…
— Ei, e a Yaya? Não queria ver a Yaya de novo? – ela fez beicinho, magoada. Mas logo os pedidos chegaram, e ela atacou seu bolo de morango e rapidamente esqueceu a rejeição.
— Claro que eu queria ver vocês de novo, Yaya-chan! Mas vocês devem imaginar, Hotori-kun é sempre a minha prioridade… — ele sorriu como quem se desculpa, enquanto brincava com o garfo na sua torta de frutas, imaginando que Tadase adoraria saborear uma dessas.
— Nós já sabemos disso. Mas… como você fez para a sua mãe… te deixar voltar? Ela parecia bem disposta a te manter tão longe do Tadase, e de todos nós, por quanto tempo fosse possível, e eu não acho que ela fosse desistir assim facilmente, ou permitir que você ficasse com ele. – ponderou Amu, tomando um gole de chocolate quente.
— Eu menti. – Nagihiko deu de ombros, revezando o olhar de uma para a outra – Eu disse para ela que não amava mais o Hotori-kun, que tudo aquilo não passou de um devaneio de crianças, uma fase confusa… bem, foi a pior mentira que eu já tive que dizer em toda a minha vida, podem ter certeza.
— E ela acreditou? – Yaya parecia surpresa.
— Parece que todos os anos me obrigando a viver uma farsa agiram contra ela dessa vez… — ele tentou sorrir, porém sem sucesso dessa vez. – e então eu voltei, no entanto, ela fez o Hideyoshi-kun vir junto para me “vigiar”. Eu ainda tive que prometer que ficaria longe do Hotori-kun, e que voltaria a dançar e me apresentar como sempre.
— Mesmo? – Amu exclamou – Mas como você vai se vestir como Nadeshiko agora? Quero dizer… você cresceu, não é? Seu corpo já não deve ser tão facilmente confundido com o de uma garota como era antes, eu imagino…
—Minha mãe tem seus próprios truques, eu acho… e ela tem um pouco mais de receio de me vestir como mulher agora, depois do que aconteceu. Meu pai vive dizendo que a culpa é toda dela, por me forçar a me travestir, que eu… bem, desenvolvi esses gostos… — ele riu da piada interna, obviamente desacreditando-a.
— Ah, mas a Yaya adora que o Nagi seja assim, muito mesmo! – ela segurou a mão do amigo, por cima da mesa – O Nagi não precisa fingir, nem tentar ser outra pessoa, a Yaya ama o Nagi do jeito que ele é!
— Obrigado, Yaya-chan – ele agradeceu do fundo do coração, sorrindo para ela, dessa vez sinceramente – Seria ótimo se todos no mundo pensassem um pouco como você. Mas a verdade é que não é tão simples, tem muitos problemas ainda que eu e o Tadase-kun teremos que enfrentar…
— Você enrolou, enrolou, e ainda não disse o principal – Amu se apressou em dizer – Vocês estão juntos afinal, ou não?
— Não tem como esconder nada de vocês, não é? – ele suspirou, quase cansado – É claro que nós estamos juntos. Bem, oficialmente Hotori-kun ainda é noivo da Nanami-san, pelo menos até ela ser maior de idade e poder recusar o noivado por si mesma… mas até lá, ela nos deu, por assim dizer, permissão para ficarmos juntos…
— Então vocês andam se encontrando mesmo? – apesar de o fato de Nanami aceitar pudesse invalidar como uma traição, Amu ainda pensava que aquilo poderia ser potencialmente perigoso – Nagihiko, se alguém pega vocês, você com certeza vai ter que ir embora de novo, e eu duvido que sua mãe vá aceitar essa desculpa duas vezes!!
— Nós só nos vemos algumas vezes, e sempre em algum lugar bem afastado! Até na loja do Ikuto nós fomos parar uma vez…
— Ah, você já conheceu aquele lugar, Nagi??? Aaah, você precisa comprar coisas lá, pra usar no Tadase!! – Yaya se empolgou de repente, quase derrubando o garfo que estava usando no chão.
— Pare de falar besteiras, Yaya! – Amu a censurou – E-eles nem tem idade para isso ainda… — ela corou furiosamente ao perceber que havia acabado de imaginar o que quer que os dois pudessem fazer com os “brinquedos” da loja de Ikuto. – A-agora eu imaginei coisas estranhas, olha só o que você fez!!!
— A Yaya não fez nada, você imaginou tudo sozinha, Amu-chii! – Yaya riu escandalosamente, enquanto Amu se retorcia na cadeira com as mãos na cabeça, atordoada com as imagens irritantemente nítidas da sua mente fértil. Influência do seu lado “Miki” com certeza!
Enquanto as duas discutiam, Nagihiko não pode deixar de rir. Havia sentido tanta falta desse tipo de situação enquanto estava na Europa! Sentira saudades das discussões, da agitação de Yaya e das risadas dela, de Amu tentando colocar um pouco de ordem em tudo, com sua personalidade “cool and spice”, enquanto na verdade estava morrendo de vergonha do escândalo que a antiga ás fazia… Nagihiko podia abraçar aquelas duas agora mesmo, para agradecê-las por não terem mudado nada durante esse tempo.
— Ei, Nagi! Responde para a Yaya! – ela chamou a atenção dele de repente, depois de conseguir fazer Amu recuperar a razão – O que você pretende fazer? Sair com o Tadase escondido pra sempre, ou escancarar a porta do armário, e assumir de vez tudo com ele?
— Ei, você está indo um pouco rápido demais, Yaya! – Amu bradou – Primeiro, eles ainda tem que resolver o problema do noivado, e então escapar da mãe maluca do Nagi… s-sem ofensas… – ela riu sem graça – Sem falar que os dois ainda estão no colegial! Não é como se pudesses fugir por aí, arrumar empregos de meio-período em lojas de conveniência e morar num trailer com o Hotosaki…
— Que ótima ideia você me deu, Amu-chan… — Nagihiko exclamou, surpreendido.
— O que? Não, não leva isso a sério, pelo amor de Kami, eu não estava falando sério garoto! Pensa direito!! – ela quase surtou, e Nagihiko começou a rir da reação exagerada dela.
— Calma, eu não vou fazer isso! Pelo menos não por enquanto… enfim, nós dois concordamos em continuar levando as coisas dessa maneira por enquanto, até podermos, de alguma maneira, contornar as situações com as nossas famílias… Mas ainda há muito com o que lidar, mesmo se ignorarmos o problema das nossas mães…
— Ei, a Rima contou pra Yaya que ouviu uns boatos rolando sobre vocês dois, é verdade? – ela indagou, ao lembrar-se desse fato.
— Realmente… eu e o Hotori-kun nos acertamos durante o show da Utau…
— Ah! Eu sabia! – Amu exclamou de repente – Ikuto está me devendo 500 yenes, eu sabia que tinha sido no show, e não no festival!
— A Yaya também apostou no show!
— É, certo… — ele tentou ignorar o fato de que agora sua vida romântica era alvo de apostas – Enfim, um tal de Tarou-kun nos viu, quando nós… conversávamos…
— Aham, conversas no banheiro masculino, não é? A Yaya sabe bem que tipo de conversa foi... – ela assentiu, com semblante de uma especialista estudiosa do assunto.
— Ele falou umas coisas muito ofensivas – Nagi continuou, ignorando o comentário – Eu me irritei… e bati nele – ele esperava alguma opinião negativa sobre partir para a violência, mas nada veio – Então, ele começou a espalhar, com algum exagero, sobre as coisas que viu…
— A versão que a Rima contou tinha detalhes até demais… — Yaya soltou uma risadinha maliciosa, e Amu a repreendeu:
— Se você tinha ouvido sobre isso, devia ter contado antes! – Amu censurou.
— Mas não são coisas que garotas decentes devem estar falando por aí! É muito obsceno… — ela fingiu vergonha, enquanto se retorcia de um jeito que pretendia ser inocente, embora ninguém fosse ser convencido por isso.
— Como eu ia dizendo – Nagihiko interrompeu – os boatos se espalham rápido, eu não podia deixa-los chegarem aos ouvidos da minha mãe… então… bem, eu… — ele baixou o olhar, completamente envergonhado do que havia precisado fazer para conter os comentários indesejados – Eu conquistei as garotas da minha escola, me tornei o ídolo delas, da mesma maneira que era em Seiyo… apenas para que elas me defendessem desses comentários, e parassem de espalhá-los. Agora, eu sou uma espécie de príncipe para elas, ninguém acredita nesses boatos mais…
— Hm… isso é bom, eu acho… — Amu coçou o rosto, tentando ser compreensiva – Embora eu ache que conquistar o coração de ojou-samas da sua escola de elite seja meio baixo para você… ainda foi necessário, não é? Se sua mãe descobrisse, você teria que voltar para a Europa… — ela suspirou. Não queria perder sua melhor amiga mais uma vez. Não mesmo.
— A Yaya acha isso incrível! – a garota exclamou, mas Nagihiko tinha certas dúvidas sobre o censo de “incrível” de Yaya – Queria ver as caras de idiotas das ojou-samas se soubessem o que você gosta de verdade, hahahhaha!
— Bom, o melhor seria se elas nunca descobrissem… embora eu… bem, eu adoraria assumir meu namoro com o Hotori-kun… — ele sorriu embaraçado, mexendo no morango do topo da torta – Seria ótimo poder sair com ele sem precisar me esconder, e poder dizer para as pessoas que ele é meu namorado, sem ter medo do que elas vão pensar…
— Ah, Nagi… — Amu o fitou com olhar afetuoso, e sabia o quanto ele realmente estava triste sobre aquelas coisas. Realmente, devia ser muito ruim não poder contar às pessoas sobre a pessoa que você ama, e ainda ter que esconder-se para encontra-la, da sua própria família! E ainda ter que vê-lo sendo noivo de outra pessoa, ficar afastado dele por tantos anos… Amu não sabia se aguentaria passar por tantas coisas quando eles passaram…
— Pode contar com a gente! – Yaya afirmou, confiante, querendo animar novamente seu amigo – Nós vamos fazer uma graaaaaande festa para vocês, quando vocês assumirem o namoro! Uma festa de noivado!! – ela gesticulou amplamente, e Nagihiko sorriu, emocionando com a empolgação da garota – Mas, enquanto vocês ainda tem que se esconder, nós vamos ajudar a acobertar vocês, sempre! Pode usar a Yaya como álibi sempre que quiser, Nagi!
— E-eu também, você pode dizer que está comigo quando quiser sair com o Tadase, eu não me incomodo… afinal, ainda somos melhores amigas, não somos? — Amu sorriu sem jeito, e Nagi sentiu-se grato. Para alguém que não apoiava o relacionamento dos dois no início, Amu parecia muito mais prestativa e disposta agora. – Mas você vai ter que me prometer uma coisa…
— O que você quiser – Nagi assentiu, ainda contente com o apoio das suas amigas, querendo esquecer os problemas anteriores.
— Que quando você estiver como Nadeshiko, não importa que dia seja, vai ir me visitar! Eu estou com saudades dela também! – ela resmungou, e Nagihiko assentiu novamente, entendendo onde ela queria chegar – Tem muitas coisas que preciso conversar com ela…
— Como, por exemplo, sobre… o Sanjou-kun? – ele mexeu as sobrancelhas sugestivamente, inclinando-se sobre a mesa, e Amu corou imediatamente, deixando cair o bolo da colher de volta no prato.
— Aaaaah, acredita que o Iinchou está enrolando a Amu-chan desde aquela época? – ávida pelas fofocas, Yaya foi a primeira a falar.
— Verdade? – Nagihiko chocou-se – Pensei que vocês já estariam namorando a essa altura! E eu pensando que era o lento aqui era eu…
— Ah, imagina – Yaya balançou a mão, rindo alto – Ele nem chamou ela pra sair ainda!
— Para de falar da vida dos outros, Yaya!! – Amu se defendeu, mais corada do que um tomate maduro – R-realmente… e-ele continua com aquela história de “se tornar um homem decente” – ela imitou, muito convincentemente, o tom de voz de Kairi – m-mas… não é como se… e-eu estivesse esperando ele se declarar ou qualquer coisa assim!
— Francamente, até a Utau, que é uma cabeça-dura, aceitou namorar com o Kyouharu! O que o Kairi está esperando pra chamar você para sair? – Nagihiko exasperou-se – Será que eu vou ter que ir lá ter uma conversinha com aquele samurai de meia-espada? Eu vou perguntar pra ele quais são as intenções que ele tem com você…
— Não, Nagihiko, não faça isso!!! – Amu quase implorou, parecendo a beira de uma crise de choro – Eu acho que tudo tem seu tempo, não precisa se precipitar! Por favor! Ah, eu morreria de vergonha se você fizesse algo assim… já basta o meu pai…
— Nyaha, seria engraçado! Imagina a cara do Iinchou, sendo ameaçado pela naginata do Nagi! A Yaya não quer perder isso por nada!!!
— Isso me lembra, Yaya-chan… você teve algum avanço com o Kukai durante esse tempo? – Nagihiko sorriu maldosamente, vendo Yaya estancar, no meio de uma garfada.
— O que? A Yaya é só um bebê… – ela encheu-se de bolo, e falou com a boca cheia — naum enthendhe o que voshê eshtá ffffalhando…
Nagihiko riu com vontade, como há muito não fazia. Estar na companhia dos seus amigos era a melhor coisa no mundo, não havia nada que se comparasse a isso. Ele estava novamente se sentindo em casa, rindo e fazendo piadas, falando besteiras, e se divertindo… mas ainda faltava uma coisa para a sua felicidade ser completa. Sempre faltava.
Porém, aquela conversa com Amu havia dado a ele uma ótima ideia…
–
O dia estava ensolarado e agradável, e nem estava tão frio quanto nos outros dias. Parecia que o tempo havia se adequado perfeitamente para aquele dia, e Tadase esperava pacientemente no ponto de encontro, embaixo do relógio do centro. Como estava em outro distrito, como ele e Nagihiko haviam combinado para se encontrar, não conhecia bem aquele lugar, e nem sabia direito de que lado ele viria, de forma que era inútil ficar olhando de um lado para o outro sem parar, apreensivo. Mesmo sabendo disso, ele não conseguia evitar. Já fazia mais de uma semana que não via Nagihiko direito, exceto por aqueles encontros rápidos no caminho para a escola, e isso o deixava ainda mais impaciente.
— Desculpe pelo atraso, Hotori-kun… — Tadase sobressaltou ao ouvir aquela voz, e ao virar-se, não encontrou exatamente o que esperava.
Parada a sua frente, com as mãos atrás das costas segurando uma bolsa branca. Usava um vestido longo, branco estampado com pequenas flores violeta, e uma jaqueta jeans cobrindo os braços. Nos pés, uma sapatilha baixa e delicada em roxo mais escuro. Os cabelos longos estavam presos em um rabo de cavalo perfeito, e um sorriso tranquilo faziam os olhos dourados brilharem ao verem o rosto surpreso do loiro menor.
— F-fujisaki-san… — ele murmurou, incrédulo – P-porque…
— Me perdoe por ter aparecido assim sem avisá-lo, Hotori-kun… mas foi uma maneira que eu encontrei para evitar os problemas que nós tivemos no último encontro… — ela se aproximou furtivamente, fitando Tadase por baixo dos cílios ainda mais alongados pela maquiagem discreta – Se eu estiver assim, nenhuma garota maluca vai surtar ao ver nós dois. E ninguém vai nos encontrar também. Naquele dia, Hideyoshi só nos encontrou por que saiu perguntando por aí se alguém havia visto um garoto alto de cabelos compridos e… bem, agora não tem nenhum garoto aqui – ela riu contidamente – Então não tem como ele nos achar. E nem nos interromper… — ela sorriu de forma sugestiva, e Tadase sentiu um arrepio percorrendo a linha da sua coluna. Os dois começaram a andar então, lentamente, sem um rumo definido.
— Ah… n-não tem problema nenhum… — Tadase conseguiu gaguejar, e Nadeshiko riu mais uma vez ao vê-lo corá-lo, e ainda mais ao seguir o olhar dele para o seu tórax.
— Bem, isso aqui foi necessário dessa vez… — ele apontou para o discreto enchimento que estava por baixo das suas roupas. Nagihiko não estava nem um pouco feliz por ter que usar isso, mas era o figurino de um personagem afinal, e se Nadeshiko necessitava que ele fizesse isso, então ele teria que fazer.
— Acho que sim, etto… v-você está bonita, Fujisaki-san… — ele segredou, fitando-a timidamente – M-mas… eu realmente prefiro o s-seu corpo… – baixando o tom de voz para um sussurro – da maneira que ele é, sem nada disso…
— Eu sei… — Nadeshiko sorriu, segurando a mão dele entre a sua. Foi com certa felicidade que Tadase percebeu que poderia andar com seu namorado de mãos dadas dessa forma sem que ninguém os fitasse de maneira estranha. – Onde você quer ir hoje?
— Q-qualquer lugar está bom para mim… — Tadase respondeu, sem ligar para onde iam desde que estivessem juntos, é claro. – A Hinamori-san me contou que vocês se encontraram no fim de semana passado…
— Ah, sim, nós fomos fazer compras com a Yaya-chan… — ela respondeu.
— Ela me contou que você vai voltar a se apresentar… — ele comentou, enquanto erguia o rosto para fitá-la – Eu adoraria poder ver você dançar novamente…
— Bem, minha mãe anda supervisionando meus treinos sempre, mas… quando eu vou ensaiar no estúdio que fica no centro ela não vai junto… — ela contou, e acariciando de leve a mão de Tadase junto da sua, sorriu para ele – Eu posso mandar uma mensagem para você, quando eu for ensaiar lá de novo… ninguém mais usa aquele estúdio, é o lugar perfeito… Não sei como não pensei nisso antes…
— Está certo então… — Tadase corou ligeiramente, e olhando para o lado, notou que algumas pessoas olhavam para ele e Nadeshiko, principalmente para ela. Primeiro, pensou que talvez eles estivessem percebendo através do disfarce de Nagihiko e notaram que se tratava de um garoto, mas então, ouviu os comentários de quem passava mais próximo.
— Olha só, ela é tão alta e bonita! Será que é uma modelo?
— Vamos lá falar com o garoto ao lado dela? Será que são irmãos?
— Não, veja, estão de mãos dadas! Mas ele é fofo mesmo…
— Ela é mais alta do que ele, mas ainda ficam bonitos juntos…
— O que houve? – Nadeshiko notou que ele parecia distraído, e o chamou.
— Ah… e-eu… é que estão falando sobre você na rua… — ele sussurrou, timidamente – Você sempre chama a atenção, Fujisaki-san, seja de que forma esteja vestida… acho que somente fiquei com um pouco de ciúmes agora… — ele admitiu, virando o rosto contrariado para o outro lado. Nadeshiko sorriu, desejando poder abraçar Tadase ali mesmo, com força, até que ele ficasse sem ar. Ele era tão fofo! Mas mesmo que estivesse vestida daquela maneira, havia coisas que simplesmente não podia fazer na rua… — Ah… por falar nisso… você continua conquistando as garotas da sua escola…?
— Bem… eu não me orgulho nem um pouco disso, mas ainda está funcionando… — ela respondeu – Pararam de comentar sobre aquele assunto…
— Que bom… — Tadase virou o rosto novamente, dessa vez quase irritado. Nadeshiko ergueu a outra mão, passando de leve no rosto dele, e trazendo ao seu encontro. Depositou um leve beijo nos seus lábios, tão rápido que ninguém na rua poderia ter notado.
— Você sabe que eu só me importo com o que você pensa, não sabe? Então, se você quiser, eu posso parar com essa farsa agora mesmo, e voltar a ignorá-las. É só você me pedir… — ela o encarou bem fundo nos olhos carmesins, e Tadase sentiu seu coração dar um solavanco.
— Não… se você fizer isso, e sua mãe ouvir sobre nós dois, ela pode te mandar para longe de mim de novo, eu não quero isso… — ele murmurou, baixando os olhos – Continue fazendo isso, então… por favor… Eu confio em você, Fujisaki-san. Eu não confio é nessas garotas… tome cuidado com elas, está bem?
— Não se esqueça de que eu sou em parte uma garota também, Hotori-kun! – Nadeshiko sorriu, recomeçando a andar – Sei exatamente como lidar com elas…
— Então está bem… — ele ergueu os olhos, mas ao ver Nadeshiko o encarando de canto, baixou-os novamente, sentindo o rosto queimar – Será que podemos ir para algum lugar m-mais… reservado? – a voz dele mal passava de um sopro, quando fez aquela sugestão. Antes que pudesse obter resposta, porém, um ruído longo e rouco cortou o ar entre eles. Era seu estômago roncando.
— Claro, Hotori-kun… mas antes, é melhor irmos comer alguma coisa… — ela sorriu e foi andando na frente, trazendo Tadase a reboque, até o restaurante familiar mais próximo. Mais tarde, iriam encontrar algum lugar onde pudessem ficar a sós e com privacidade. No entanto, até lá… só de poder estar na companhia um do outro, eles já ficavam felizes.
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