Itsumo Yakusoku
1 Capítulo 1 - Aitai
Notas iniciais
http://letras.mus.br/scandal/1754294/traducao.html
Eu quero vê-lo, quero vê-lo agora
Nas noites em que não consigo dormir, ou mesmo nos meus sonhos
Sempre, sim, eu sempre irei lembrar-me daquela promessa
Eu quero te ver, quero te ver agora
Se isso se tornar realidade, você estará ao meu lado
E nesse dia, não precisará voltar
Capítulo 1
~
Aitai
Ele andava sem nenhuma pressa pela rua, com seu enorme sobretudo escuro, e as botas pesadas nos pés. As árvores quase secas da rua derrubavam folhas amareladas, sendo carregados pelo vento frio. Os prédios inabaláveis, com séculos de história, erguiam-se dos dois lados da rua, tornando a atmosfera ainda mais pesada e imponente. O garoto se encolheu, enquanto uma lufada de vento levou para trás os seus enormes cabelos violáceos, regelando-o quase que instantaneamente. Se não se apressasse em chegar à sua casa, iria ficar congelado naquele lugar para sempre… Estava frio demais para ser apenas outono, mas isso não era incomum naquele lugar. Abrindo os olhos, de um belo tom de âmbar, que pareciam apenas sem nenhuma expressão como sempre, ele continuou seu caminho.
Era sábado. Um sábado cinzento, como eram, aliás, a maioria dos dias em Londres. Mas ar denso e quase sempre monocromático caía como uma luva para aquela cidade, e para o estado de ânimo daquele garoto. Ele estava de recesso da escola, onde cursava o primeiro ano do Ensino Médio, porém nesse momento, voltava da sua aula de dança, e retornaria para lá no período da tarde. Tudo o que queria era um longo banho, e uma cama quentinha e confortável, embora isso não importasse tanto. Apesar do horário sempre cheio, das aulas de teatro e de dança, e ainda da escola, a sua vida era absolutamente desprovida de fundamento. Ele apenas deixava-se seguir o fluxo da correnteza, sendo levado pelos eventos sem nenhuma vontade própria, sem nenhuma motivação. Estava em um lugar onde não queria estar, fazendo coisas que não queria fazer, para agradar aqueles que não se importavam com os sentimentos dele… que tipo de pessoa vazia havia se tornado?
Percebeu que estava se perdendo mais uma vez nos seus pensamentos, algo que acontecia com muito mais frequência do que seria considerado natural, quando esbarrou em alguém na rua. Pediu desculpas, em inglês, e suspirou, cansado. Queria poder dormir logo, e então sonhar. Quando sonhava, as coisas eram mais simples, e muito mais felizes. Nos seus sonhos, ele sempre aparecia. E seu sorriso, a sua presença… aquilo enchia o coração de Nagihiko, de tal forma, que acordar era apenas um martírio, algo que ele preferia não ter que fazer. A realidade era tão vaga, e doía tanto, que ele não queria enfrentá-la, dia após dia.
— Hey, Nagi! – uma voz chamou sua atenção, e ele se virou. Reconheceu o garoto que andava na sua direção, Christopher. Ele tinha cabelos medianos, ondulados e claros, divididos em dois lados, e seus olhos eram verdes. Estava usando alguma roupa cara, da loja de marca onde trabalhava, e sorria cordialmente para ele. Era um dos únicos amigos que havia feito na escola, que também ingressara no programa de artes assim como ele. Um dos motivos para isso era o fato de que ele falava japonês muito bem, mas também havia outros assuntos em que eles tinham afinidade, e que contribuiu para Nagihiko abrir-se para ele, muito embora não tivesse a intenção.
— Oi, Chris… — Com um sorriso fraco, cumprimentou o amigo que encontrara, em japonês, e continuou a andar do seu lado. – Como foi a sua aula hoje?
— Eu tive aula de ballet com a Mrs. Middlefort. Ela gritou com todos, e disse que ninguém naquele lugar tinha talento, como sempre. Normal. – Nagihiko sorriu, solidário, e Christopher continuou – Mas eu não quero pensar nisso agora, vamos até o café de sempre, comer alguma coisa?
— Claro. – Nagi respondeu, mesmo que não estivesse com vontade nenhuma de sair. Tudo o que queria era afundar-se nos travesseiros, e não ter que sair dali nunca mais. Mas Chris era um bom amigo, e Nagihiko estava sempre tentando se distrair de alguma forma ou outra, para não acabar sempre retornando aos mesmos pensamentos. Para não pensar o tempo todo em… Tadase. Ele pensava Tadase ia adorar andar por aquelas ruas de Londres, no inverno, e fazer bonecos de neve na rua, ou então ir ver as flores do parque nos dias de primavera… Visitar os museus, os palácios históricos, o London Eye, o Big Bang… ele ia achar tudo tão lindo! Mais uma vez a imaginação torturou o coração dele, e aquela pontada dolorida, já conhecida, se mostrou mais uma vez – Vamos lá… — Nagihiko balançou a cabeça e começou a andar mais rápido, para que pudesse deixar isso de lado pelo menos por um pequeno momento, nem que fosse superficialmente.
— Você fez aquilo de novo… — Chris comentou monotonamente, acompanhando o passo apressado do outro.
— Aquilo o que?
— Ficou olhando para frente, com uma cara estranha. Perdido em pensamentos, eu acho… Sua expressão era… de angústia. – ele baixou o olhar – Você estava pensando nele de novo, não é? Naquela pessoa que você deixou para trás…
— Você sabe, não sabe? – Nagihiko não tinha como negar, e apenas assentiu. Os dois entraram na pequena cafeteria clássica, que ficava espremida entre dois prédios maiores. Era um lugar aconchegante, e Nagihiko adorava o chá de lá, embora tomar chá agora fosse sempre um hábito nostálgico.
— Eu estou sempre notando isso em você, Nagi… Você já me contou sobre o que aconteceu com você e o seu namorado, e eu realmente entendo que você não tinha nada que pudesse fazer antes… mas você não acha que já está na hora de parar de fazer o que a sua mãe quer que você faça, e começar a pensar por si próprio? Bem, eu não consigo compreender todo esse problema de famílias tradicionais, não faço ideia de como funciona, e não consigo nem imaginar como as famílias japonesas se comportam, mas… você já tem 16, quase 17 anos, não é? Logo, ficará velho demais para sair por aí perseguindo seus sonhos, e será tarde quando você resolver retornar, e perceber que o tempo passou e que já não há mais volta para vocês. É agora, a hora de buscar a sua felicidade, Nagi… e qualquer um pode ver que ela não está aqui.
— Chris-kun… — Nagihiko ergueu os olhos, admirado. A maneira como seu amigo o encarava agora, parecendo realmente preocupado, e ainda determinado em fazê-lo entender, era muito surpreendente.– Eu…
— Can I help you? – a atendente do café indagou, interrompendo-os. Nagihiko engoliu em seco, repentinamente nervoso. Aquele assunto havia vindo à tona tão subitamente que ele não conseguia esboçar reação.
— I'll have hot cocoa and ... a strawberry cupcake. – Chris respondeu para a garçonete, com os olhos fixos em Nagihiko – E você?
— Green tea. And brownies, please. – Nagihiko pediu, com um pensamento melancólico se formando. Aquele tipo de comida fazia ele se lembrar daquela época no Royal Garden… mas ele insistia em se torturar pedindo sempre a mesma coisa. A atendente sorriu e se afastou, deixando-os a sós mais uma vez.
— Sabe, Nagi… eu conheço você já faz algum tempo, não é? Desde que você veio para cá. – ele sorriu, e olhou pela janela, cuidando o fluxo de pessoas apressadas que passavam, encolhidas em seus casacos pesados, apoiando a cabeça na mão. – No início, você não queria se aproximar de ninguém… bem, você ainda é assim, de todo jeito. Demorou um pouco, mas você acabou começando a falar comigo, e de alguma forma, nos tornamos amigos, ou é assim que eu gosto de pensar sobre você. Mas mesmo passado tanto tempo, eu nunca vi realmente, mesmo tendo estado perto de você, um único sorriso verdadeiro seu. – ele olhou para Nagihiko, profundamente, e seu semblante era o de um observador atento – Você é bom em fingir que está tudo bem que quase não se percebe a diferença, quando você está constantemente tãoempenhado em esconder seus problemas… mas eu também sou um ator. Mesmo antes de você me contar sobre o seu namorado, e tudo mais… eu já sabia que, embora você estivesse aqui, sua mente e seu coração ainda estavam lá no Japão, quase do outro lado do mundo. Eu consigo ver claramente, nos seus olhos, que você nunca esteve realmente feliz por viver aqui.
— Você está certo… — Nagihiko baixou os olhos – Mas não há nada que se possa fazer quanto a isso. Eu não esqueci o Hotori-kun. Eu ainda o amo. E eu não estou nem um pouco disposto a desistir desses sentimentos, apesar de parecer impossível realizá-los agora… Acho que já aceitei que vou ficar dessa forma incompleta, incapaz de ser feliz de verdade…
— Esse Hotori… ele deve ser uma pessoa incrível, não é? – Chris voltou-se para Nagi, e sorriu, apoiando o rosto em ambas mãos.
— Sim, ele é… — Nagihiko olhou para a mesa, e mais uma vez seu olhar pareceu perdido. Ele estava, mais uma vez, lembrando o quão incrível Tadase podia ser. Dessa vez quem o libertou desses pensamentos foi a atendente, chegando com seus pedidos. Logo depois, ela se afastou novamente. Nagihiko assentiu, sorvendo um gole de chá. O gosto amargo e nostálgico o pegou em cheio, no meio daquela conversa. Mas nada se comparava ao gosto do chá que ele tomava com Tadase no Royal Garden.
— Tenho certeza que sim. Para deixar alguém como você desse jeito… Eu gostaria de conhecê-lo. – Chris tomou um pouco do seu chocolate quente, parecendo medir cada palavra com precisão, e viu o rosto de Nagihiko se iluminar, por um centésimo de segundo. Provavelmente estava imaginando uma situação como essa.
— Eu adoraria apresentá-los! Hotori-kun certamente ficaria bastante embaraçado, ele é tão tímido… mas acho que vocês se dariam bem… — ele disse, em voz baixa. — Mas… acho que eu não o deixaria muito perto de você. Você poderia acabar se apaixonando por ele!
Chris riu, dessa vez, com vontade.
— Sem chance. Eu tenho o Jamie, você sabe. – ele abanou a mão, revirando os olhos. Sim, aquele era o ponto em comum entre Nagihiko e Chris, que acabou por aproximar-lhes. Ambos gostavam de garotos, e acabaram se tornando amigos de alguma forma. Nagihiko se sentia bem em saber que não estava sozinho nessa, e tinha alguém para conversar sobre assuntos que não podia contar com ninguém mais. Chris era o seu refúgio, em todo aquele vazio que se tornara sua vida. Um verdadeiro amigo. – E eu não podia imaginar que você é tão ciumento!
— É… acho que eu sou… — ele parecia um tanto surpreso também. Fazia tanto tempo que não se sentia dessa forma… aquele súbito calor, causado pela aceleração dos seus batimentos… aquela energia que de repente corria em suas veias… aquela sensação de possessividade, de proteção, e a irritação superficial… ele estava sentindo ciúmes! Depois de tanto tempo, era até estranho sentir qualquer coisa.
— De qualquer forma… você sabe como ele está agora? – Chris mudou o tópico, depois de sentir o clima relaxar com aquela mudança.
— Eu não faço ideia… — Nagi admitiu, comendo um pouco – Mas costumo pensar muito nisso… Acho que ele não deve ter crescido tanto quanto ele esperava, sabe? Ele queria ficar mais alto do que eu, imagine! – ele ergueu os olhos, fitando a mesa de modo sonhador – Isso deve ter o deixado desapontado, mas eu gosto de pensar nele pequeno como sempre. E eu aposto como ele deve ter conseguido o cargo de Presidente do Conselho Estudantil como queria, ele é ótimo cuidando desses assuntos. – Nagihiko sorriu ao se lembrar de conversas passadas. Era como se fosse parte da vida de outra pessoa. – Ele é tão gentil, tão prestativo… e deve estar lindo, também, tenho certeza de que recebeu muitas declarações até agora, mais do que se pode contar… ele deve ser bastante popular na escola, também… mas, ah! Eu tenho certeza de que a Yaya não deixaria nenhuma garota chegar perto dele! E a Amu-chan também, embora ela não admita, afinal, ela era a minha melhor amiga, não é? Será que ele está indo bem com a mãe dele? Eu espero que sim… ah! E o Hotosaki! Ele é um cachorro muito esperto, você sabia… — ele parou de súbito, reparando que Chris o observava atentamente – Q-que cara estranha é essa?
— Não é nada! – Chris tentou disfarçar a risada que estava dando, mas era inútil – Ah, é só que… bem, eu nunca vi você falar tanto! E você até sorriu! Não foi um grande sorriso, é verdade, mas… pareceu sincero, dessa vez. Então… esse é o tipo de pessoa que o seu Hotori é, não é mesmo? Alguém capaz de causar essas mudanças tão rapidamente em você, só pode ser alguém absolutamente extraordinário!
— Sim. – ele baixou a voz, sentindo-se constrangido por ter ficado tão empolgado de repente, mas ainda surpreso por isso – Eu queria tanto poder vê-lo agora… queria saber como ele está… — Nagihiko voltou a ficar melancólico, com esse pensamento – Ele certamente brigaria comigo, se visse como estou agora…
— Você não tem como contatá-lo? Algum desses seus amigos deve ter como falar com ele. Ou pelo menos mandar uma foto para você!
— Impossível. Minha mãe tomou o cuidado de cortar qualquer relação minha com eles, e ela tem algum método de vigiar o meu celular, inclusive. Não tem maneira de eu conseguir falar com qualquer um. Mesmo por cartas, ela interceptaria todas.
— Sua mãe parece uma Yakuza… assustador! – Chris se encolheu por um momento – Mas… se você quiser, eu ajudo você. Sabe, a procurar os contatos deles… talvez eu consiga…
— Não. Obrigado, Chris-kun, mas acho que é tarde para isso. Passou muito tempo… esse tipo de coisa tem que ser feito pessoalmente depois de tantos anos, não acha?- ele passou a mão pelos cabelos, olhando através do vidro, parecendo subitamente cansado demais para continuar – Se ao menos…
— “Se ao menos” nada! Se você quer que algo aconteça, então faça acontecer, Nagi! Ficar sentado aqui se lamuriando pelo que passou não vai adiantar nada. – Chris pareceu repentinamente motivado – Sei que eu devo estar me metendo demais nessa sua história, mas se tem uma coisa certa nisso tudo, é o quanto você o ama! Então, pare de pensar nos outros. São os seus sentimentos! É a sua história! É você que tem que escrevê-la, Nagi… se você não tem coragem para enfrentar sua mãe agora, então tente convencê-la a deixa-lo voltar para o Japão!
— Você acha que isso é possível? – Nagi tentou, mas não conseguiu deixar de sentir uma chama fraca de esperança acender-se em seu peito.
— Claro. Você é um ótimo ator, afinal – Chris piscou um olho – Conseguiria convencê-la de que tudo o que quer é voltar para o Japão, e que não pensa mais nesse garoto…
— Talvez… Minha mãe não esconde o fato de que gostaria que eu retornasse para me apresentar lá novamente. Seria complicado mentir para ela mais uma vez, mas…
— Por ele vale a pena, não é? – Chris leu os pensamentos de Nagihiko, e sorriu quando ele assentiu fracamente. – Eu vou lamentar perder o meu amigo aqui… mas se você será feliz lá, então, eu estou torcendo por você.
Nagihiko fitou Christopher, verdadeiramente grato. Tratar daquele assunto delicado tão repentinamente havia aberto seus olhos. Ele não queria acabar sozinho e amargurado em algum prédio antigo de Londres, dando aulas de dança para criancinhas e lamentando pelo seu passado trágico, não mesmo. Se queria alguma mudança… então, deveria fazê-la acontecer, correto?
— Hello, guys! – alguém chegou ao café, e foi se adiantando até a mesa dos dois – Eu sabia que vocês estariam aqui. – ele cumprimentou Nagihiko com a mão, rapidamente, e depositou um singelo selinho em Chris, sentando-se ao seu lado. Ninguém no café pareceu ligar para isso, Londres não era o tipo de cidade em que as pessoas se importassem com demonstrações públicas de afeto.
Aquele era Jamie, namorado de Chris. Ele tinha cabelos negros, meio bagunçados, e era membro de uma banda de rock, nem tão famosa, que costumava tocar em pubs durante a noite. Os dois eram inseparáveis, e vê-los tão espontâneos, andando juntos na rua ou estando tão perto um do outro sempre, deixavam Nagi com certo arrependimento. Ele desejava poder estar daquela forma com Tadase também. Nesse momento, essa visão só reforçou a vontade de retornar para o Japão, e poder estar com o ele novamente. Se pudesse voltar a ser tudo como era antes, apenas isso…
— Então… eu vou voltar. – Nagihiko suspirou pesadamente, antes de confirmar. Chris sorriu, e Jamie o fitou, sem entender – Eu vou voltar para o Hotori-kun.
— É assim que se fala, Nagi! – Chris incentivou, olhando ligeiramente para Jamie com cara de “eu te explico tudo depois”.
— M-mas… três anos se passaram, afinal… — aquele pensamento atingiu em cheio Nagihiko, quando ele pensou melhor – E se ele tiver mudado muito? E se os sentimentos dele tiverem mudado? Eu não conseguiria lidar com isso…
— Pelo que você me contou sobre ele, Nagi… eu não acho que isso aconteceria. Vocês são tão apaixonados um pelo outro… e se conhecem desde crianças! Não é um sentimento tão efêmero, que possa sumir do dia para a noite. E a forma como vocês foram separados, tão bruscamente… na minha opinião, isso só reforça os laços entre vocês, apesar de estarem longe. E além do mais… dentro do seu coração, você já tem certeza do que ele pensa, não é?
— Sim… — Nagihiko se levantou, deixando o dinheiro da conta sobre a mesa, e se preparou para sair, resolvendo deixar os dois a sós e cuidar dos seus próprios assuntos – Isso por que… Nós fizemos uma promessa… — seus olhos brilharam com a lembrança, de uma forma que nenhum dos garotos ingleses jamais havia visto.
Depois de se despedir dos dois amigos, Nagihiko resolveu pegar o metrô para ir direto para casa. Afundou o rosto no cachecol azul-marinho que usava, e enfrentou o vento forte, que assoviava de maneira melancólica. Ele estava decidido. Não participaria das aulas do turno da tarde, e ao invés disso, ligaria para o seu pai. Se falasse com sua mãe diretamente, as chances de ela não aceitar o seu pedido eram altas, mas seu pai era sempre compreensivo, e de alguma forma desejava o melhor para ele. Se conversasse da maneira correta com ele, e convencesse de que tudo o que sentia era saudades do Japão, talvez colocar o plano de Chris imediatamente em ação pudesse realmente ser realidade, e não apenas devaneios em um café cedo da tarde.
Andando tão depressa que suas pernas já estavam amortecidas, Nagihiko conseguiu finalmente chegar à estação. Sentou-se em um banco próximo a janela, no primeiro trem, e continuou batendo o pé ritmicamente, agitado demais para conseguir ficar parado. Sentia-se repentinamente vivo de novo. A chance de ver Tadase mais uma vez, ainda que remota, já fazia seu sangue correr pelas veias. A emoção causada pelo impulso inicial era tão grande que ele já estava com vontade de chorar, de gritar, de dançar, tudo ao mesmo tempo.
— Você vai mesmo fazer isso, Nagi? – a voz calma de Temari ecoou em seu ouvido, enquanto ele olhava pela janela do trem. Nagihiko fechou os olhos, tentando se acalmar, e assentiu uma única vez com a cabeça, para não ter que falar alto, em público.
— Ainda bem! Eu sabia que uma hora ou outra você cairia em si! – Rhythm deu uma pirueta no ar, empolgado com a ideia. Como a esperança retornara ao coração de Nagihiko, os dois estavam bem mais ativos do que o normal. A empolgação dos Charas deu a ele ainda mais certeza de que aquilo era o certo a se fazer.
Muitas vezes ele já tinha pensado em fazer alguma coisa para reverter a sua situação. Já havia feito milhares de planos malucos, e pensando em muitas formas de voltar para Tadase, uma mais fora da realidade do que a outra. No início, ele tentava escrever cartas escondido, mas todas elas retornavam ao remetente, intocadas, e era óbvio que a Sra. Hotori estava dando um jeito de que ele nunca as recebesse. Depois disso, Nagihiko continuou a escrever as cartas, mas escondia todas e não postava nenhuma. Era apenas uma forma de se sentir ligado à Tadase, mesmo que apenas para contar a ele as coisas cotidianas que aconteciam durante seus dias em Londres. Gostava de imaginar qual a resposta que Tadase daria para cada uma das suas cartas. De pensar em como ele sorriria, em como ficaria constrangido ou com ciúmes, dependendo do assunto.
Diferente de antes, pensar em Tadase não doía tanto nesse instante. Agora, com a perspectiva de poder vê-lo de novo, a viagem de trem que era tão maçante passou rápido como um piscar de olhos, enquanto Nagihiko fazia planos para o seu futuro. Um futuro que continha Tadase nele. Seu coração batia vivo novamente, e a sensação era de alguma forma revigorante.
Quando Kaoruko o mandou para a Inglaterra três anos atrás, Nagihiko teve que ficar na casa de uma tia, prima de seu pai, mas agora ele estava morando naquele apartamento antigo, em um bairro afastado do centro, e dividia o lugar com um primo, Hideyoshi, que também estudava no exterior assim como ele, embora seu objetivo fosse administrar as empresas do outro lado da família. Não era uma pessoa de difícil convivência, embora o seu jeito sério e focado em regras às vezes o levassem à loucura. Àquela hora, Hideyoshi estaria ainda na escola ou na biblioteca estudando, então Nagihiko poderia falar livremente, sem interrupções.
Chegando em casa, Nagihiko não pulou para a cama ou se afundou na banheira como era o planejado. Rhythm e Temari foram direto para o quarto dele, oferecendo ao menos um pouco de privacidade. Nagi pegou o telefone, e enquanto andava de um lado para o outro na pequena sala do apartamento, discou o número. Errou três vezes, antes de enfim conseguir digitá-los corretamente, ainda tremendo muito. Não tinha certeza sobre o fuso-horário, e o que seus pais estariam fazendo nesse momento, e antes que ele se sentisse preparado de fato, a voz do seu pai, que era bem parecida com o que a sua era agora, o saudou.
— Nagihiko! Que raro, você ligar para nós. Aconteceu alguma coisa? – o tom de Atsushi sugeria que ele estava acordado, e que a sua esposa não estava por perto. Ele sempre parecia mais amigável longe dela.
— Gomen, Otou-san… é só que… eu pensei muito em um assunto, e precisava realmente falar com você. Hm… okaa-san está por perto?
— Não, ela acabou de sair para cuidar de alguns preparativos para uma apresentação em breve. Por que? Está com algum problema, filho?
— Não é bem isso, pai… eu só… — ele suspirou, tomando coragem para conseguir atuar bem nesse momento. Era ruim ter que fingir daquela forma para seus pais, mas se não havia outra maneira, era o melhor que ele podia fazer – Eu quero voltar para o Japão, Otou-san. Estou com saudades de casa, de você, e da Okaa-san. Quero voltar para casa…
— Nagihiko! O que está me pedindo é... – Atsushi pareceu realmente confuso. Aquilo não era o que ele esperava, de fato.
— Eu sei, pai, que estive perdido por um tempo, e fiz coisas das quais me arrependo profundamente – ele disse, fechando os olhos. Abriu-os, fitando o lado de fora da janela. Mentir daquela maneira era mais doloroso do que pensara. Mas ao olhar para baixo, e ver o tom dourado e avermelhado das árvores de outono, que lembravam Tadase de alguma forma, a sua motivação retornou – Eu queria muito poder encerrar esse ano junto com vocês, na minha casa. E também, eu aprendi tanto na escola de artes daqui, quero poder colocar isso em prática na minha dança, e me apresentar novamente, como antes. Será que você não pode me dar uma chance…?
— Você tem certeza disso, Nagihiko? Você tem certeza de que é isso o que você quer? – Atsushi insistiu, preocupado – Eu vou entender se você ainda não superou o que aconteceu e…
— Eu superei. – Nagi cortou, com a voz determinada e grave – Eu já superei tudo isso, e estou disposto a provar. Eu quero apenas voltar para o meu país, Otou-san, o que há de errado nisso?
— Está bem, Nagihiko… eu vou conversar com a sua mãe. Para falar a verdade, ela também sente a sua falta aqui, sabe? Ela estava pensando em trazê-lo de volta apenas para uma apresentação… mas como você parece disposto a deixar o passado para trás, e retornar para nós, eu vou convencê-la de que tê-lo aqui conosco é muito melhor, e mais fácil.
— Obrigado, Otou-san… Muito obrigado…
Nagihiko desligou, sentindo um peso assomar-se às suas costas. Ele era um mentiroso, afinal de contas, e era assim que sempre seria, pelo jeito. Mas… se pudesse apenas ver Tadase novamente… apenas um pequeno vislumbre dele, mesmo que de longe… isso valeria a pena. Agora, que finalmente havia conseguido sentir-se novamente no mundo, não iria apagar-se daquela maneira mais uma vez.
Segurando o colar que mantinha sempre junto de si, ele o abriu, e olhou para a foto já amarelada, de Tadase sorrindo para ele. Era o seu maior tesouro. Aquela figura, tão doce e gentil, fez o coração de Nagihiko transbordar de afeição, mais uma vez, exatamente na mesma forma que fazia três anos atrás.
— Eu estou indo, Hotori-kun… Estou voltando para você.
Notas finais
Ah, eu estava tãaao ansiosa pra começar logo essa fase da segunda temporada!!! Sim, finalmente *-* ah, estou feliz, sim, sim~
Como vocês podem facilmente notar, o tempo passou, e nossos menininhos cresceram! O que será do relacionamento deles agora, depois de anos separados? E depois de tanto tempo, os sentimentos entre eles podem ter mudado? Até onde o primeiro amor de infância é capaz de aguentar?
Espero sinceramente que vocês tenham gostado, por que eu realmente estou amando escrever essa fanfic!
Espero pelo review de vocês, com opiniões, críticas, e sugestões~ Eu e a senpai contamos com vocês nessa segunda temporada também, yoroshiku!!~
Fale com o autor