Itsumo Yakusoku

59 Capítulo 59 - Gomen nee, Watashi


Um pequeno céu azul em um quebrado no gelo.
Você parece espiar com uma expressão preocupada,

Enquanto eu estou agora abaixo desse céu.
Ei, oque será que você está fazendo agora?
Ainda há tempo? Ou é tarde demais?
Na verdade, isso não foi por vontade de ninguém.

"Desculpa"quando foi que essa palavra se tornou tão difícil?
Quando essa grama irá se espalhar nesse sol de verão?
"Desculpa" quando foi que nos tornamos tão hesitantes?
Eu quero falar, mais não falo.

Ei, será que você está sorrindo?
Espere,me mostre seu sorriso.
Me desculpe.
Me desculpe.


Capítulo 59

Gomen ne, Watashi

Nagihiko havia planejado um Dia Para Esquecer os Problemas. Ah, sim, esse era um nome digno de Yaya, certamente, mas ela não podia nem sonhar que ele havia reservado aquele final de semana para ir no Parque de Diversões sem tê-la convidado. Não que ele não apreciasse a sua explosiva companhia, claro que não, mas a intenção que tinha naquele passeio não iria se cumprir com alguém tão agitado por perto.

Era um plano simples. Ele queria que Chris e Tadase se acalmassem, e esquecessem de tudo o que os afligia, nem que fosse por alguns momentos, distraindo-se no parque de diversões. Era uma tarefa complicada, mas Nagihiko achava que estava indo bem. Com somente os três ali, era fácil gerir os arredores, e garantir que eles não parassem nem por um momento para pensar. Pensar estava proibido por enquanto! Eles deveriam apenas se divertir naquela tarde.

Já haviam percorrido quase toda a extensão do parque da cidade (que nem era tão grande assim). Na Roda Gigante, Chris fez questão de ressaltar que ela não chegava nem aos pés da London Eye. Tadase não gostou muito da Mansão do Terror, mas Nagi fez questão de ir com ele no Carrossel, e ele quase morreu de vergonha, porque além deles, só havia crianças pequenas montadas nos cavalinhos que giravam. Tiraram várias fotos, e Chris também se divertiu bastante com os dois, parecia muito mais leve depois de ter tomado a decisão de voltar para a Inglaterra no dia seguinte, e conversar seriamente com Jamie.

Nagi teve a certeza de segurar a mão de Tadase durante todo o passeio. Parecia algo natural, vindo dele, mas eles nunca haviam feito isso em público. Tadase hesitou, no início, e algumas pessoas até mesmo os observaram, intrigadas, mas ninguém pareceu ligar muito. Aquela sensação de poder estar um ao lado do outro livremente e sem medo, realmente, não tinha preço. Tadase ficou feliz por estar ali, e de repente, todas as preocupações foram varridas da sua mente por um tempinho, e ele pode sorrir verdadeiramente.


Depois de comer alguma coisa na praça de alimentação, eles estavam se preparando para ir para casa. Chris estava com uma máscara de raposa comprada lá, virada de lado acima da cabeça, e ria relembrando de como Tadase gritou e se agarrou nele pensando que fosse Nagihiko, dentro da Mansão do Terror. O loiro resmungava, envergonhado, segurando de um lado o balão de gás vermelho que havia ganhado, e do outro, a mão de Nagihiko, que ria também, do semblante dele.

Quando estavam quase chegando na frente do Hotel onde Chris se hospedara, ele parou subitamente de rir, e seu rosto ficou pálido. Logo, Nagihiko entendeu o que acontecia. Logo em frente à porta do Hotel, estava Jamie. Ele estava sentado na escadaria da entrada, e assim que viu que eles se aproximavam, saltou de pé, e veio na direção de Chris, como se só visse ele a sua frente.

Chris estremeceu, e hesitou. Olhou para trás, para Nagi e Tadase, buscando alguma resposta talvez, e parecia pronto para sair correndo a qualquer instante. Tadase sorriu para ele, incentivando-o, e Nagihiko deu um pequeno empurrãzinho para que ele fosse na direção de Jamie.

O inglês vinha com uma expressão indecifrável no rosto. Tadase ficou impressionado com a imagem dele, com aqueles brincos nas orelhas e tatuagens aparecendo por baixo das mangas dobradas da camisa preta. Parecia mesmo um astro do rock, muito legal. Mas não tão legal quanto Nagi, obviamente. Ele vinha tão obstinado que Chris achou que ele fosse brigar, xingá-lo por ter fugido daquela forma, terminar de vez o seu relacionamento, porém, supreendentemente, a primeira coisa que ele fez quando chegou perto de Chris, foi abraçá-lo o mais apertado possível, enterrando o rosto em seu ombro. Ficou assim por alguns segundos, e Chris permaneceu paralisado. Tinha sentido tanta falta daquele abraço que agora não conseguia acreditar que pudesse ser real.

Nagihiko e Tadase se entreolharam, e sem precisar dizer nada, saíram dali o mais discretamente possível, deixando os dois terem o tempo deles. Depois de mais algum tempinho, Jamie finalmente se afastou, ainda segurando Chris pelos ombros, o suficiente para encará-lo diretamente.

— J-jamie… por que? — Chris balbuciou, em um inglês trêmulo.

— Você achou realmente que eu deixaria que você fugisse daquela forma, sem fazer nada?

— M-mas… eu pensei que você tinha ficado bravo… e… e…

— Shh, vamos conversar lá dentro, pode ser? — ele segurou a mão de Chris. Ele logo se sentiu mais seguro para prosseguir.

— Como você sabia onde eu estava? — indagou, enquanto ia sendo conduzido para dentro do hall.

— Você é mesmo muito descuidado. — ele disse, enquanto andavam até o elevador — Pretendia fugir de mim, mas usou a passagem e a vaga do hotel que nós compramos juntos. É claro que eu descobriria. Só levei mais dias do que o esperado por que tive alguns problemas para adiantar meu vôo, e ele atrasou. Eu teria vindo imediatamente, se pudesse, para parar essa sua loucura.

Chris não sabia o que dizer diante daquela situação. Nem em seus mais loucos sonhos, pensaria que Jamie — que era sempre tão sério, centrado, calmo — iria vir atrás dele no Japão, depois de uma briga. Parecia surreal demais.

Assim que o elevador parou no seu andar, ele puxou a chave do quarto e foi entrando. Jamie largou a mochila — que só então Chris notou que ele levava nas costas, e sentou na beirada da cama, fitando-o com aquele olhar enigmático e profundo que havia conquistado seu coração desde o primeiro instante em que se perdeu neles.

— Então… aquele era o namorado do Nagihiko? — ele indagou. Chris conseguiu relaxar ao ouvir aquele tom de voz, porque não se sentiu pressionado a ter uma conversa séria ou decidir sobre o seu futuro. Poderia apenas ser ele mesmo e conversar com Jamie, como fazia sempre. Sentou ao seu lado, não tão perto quanto estava acostumado, sorrindo fracamente.

— Sim. É o famoso Tadase Hotori de que tanto ouvimos falar. Ele é tão adorável quanto dizem as lendas. Mas é bastante ciumento. — ele riu, e Jamie o acompanhou, olhando para frente — Aqueles dois são um casal perfeito, na verdade. Passaram por muitas coisas juntos. Observando eles nesses dias, eu aprendi muitas coisas…

— Chris… eu sei que fui precipitado e te pressionei com aquela história de ir morar juntos, mas você não precisa…

— Não, não, Jamie! Eu estava errado! — a voz de Chris falhou, e ele sentiu que se falasse qualquer coisa a mais, choraria. Isso soava patético, mas ele sempre havia sido um bebê chorão. — Eu fiquei com medo… com medo de errar e estragar tudo… de não ser bem o que você imaginou, ou que você acabasse cansando de mim muito rápido…

— Isso nunca iria acontecer, seu bobo… — Jamie segurou o rosto de Chris com uma das mãos, secando com o polegar a lágrima que ameaçava cair. — Você sabe.. que eu não sou muito bom em lidar com pessoas, nem sou sociável e tudo mais… então, se eu disse que quero passar a minha vida com você, é porque eu tenho certeza de que quero passar a vida inteira com você. Não duvide disso. Eu sei que foi meio repentino, e eu não te dei tempo suficiente para pensar…

Chris balançou a cabeça em negação.

— Depois de observar o Nagi com o namorado dele, eu entendi… Nós não temos tempo para desperdiçar com essa insegurança, Jamie! Já imaginou, se nós tivéssemos que esconder nosso relacionamento, ou se nos obrigassem a ficar separados por anos? Eu não aguentaria…

— Chris…

— Não, não, não posso desperdiçar as chances que eu tenho de ser feliz ao seu lado. Se eles, que estão juntos apesar de tudo e dariam qualquer coisa para estar nessa situação, não se abalam, então por que eu deveria me abalar? Isso seria até mesmo injusto, que eu fuja somente por medo, quando eles estão sendo tão fortes para ficar juntos.

— Então…? Você quer morar comigo?

— Eu quero, quero muito!

Jamie sorriu discretamente, enquanto Chris se jogava dramaticamente nos seus braços, fazendo com que os dois caíssem para trás na cama. Riram mais alto. Sim, era dessa maneira que devia ter sido.


~


— Você acha que o Chris-kun está indo bem?

Nagihiko sorriu, segurando com firmeza a mão de Tadase na sua.

— Tenho certeza que sim. Conheço aqueles dois, agora mesmo, devem estar fazendo as pazes na cama do hotel…

— Nagihiko-kun! — Tadase o repreendeu, corando ligeiramente. Falando sobre isso, fazia algum tempo desde que eles…

— Está pensando em indecências, Ta-da-se-kun? — Nagihiko se inclinou e soprou no ouvido do menor, que pulou para o lado, o rosto em chamas, e a pele arrepiada.

— C-c-claro que não! Você é que está com uma expressão indecente no rosto!

— Eu? — ele sorriu, disfarçando — Claro que não… — Tadase ainda resmungou mais alguma coisa, antes de voltar a andar ao lado de Nagihiko. — Você quer ir a mais algum lugar?

— Acho que não… podemos voltar para o apartamento da Utau-san, quem sabe? Assistir um filme… você não tem que ir para casa agora, não é?

— Não, não tenho — Nagi trouxe Tadase para mais perto — Posso ficar com você mais um tempinho… Ah, acho que hoje ia passar na televisão aquele filme com o…

Antes que ele pudesse terminar a frase, seu telefone começou a tocar. Os dois pararam na calçada para Nagihiko atender.

Nagihiko ainda sorria ao dizer “alô”, mas logo sua expressão ficou tensa, e ele lançou um olhar preocupado para Tadase, que ficara tenso só em ver o comportamento do namorado mudar. Depois de responder somente com “sim, sim, ok, entendi, vou dizer a ele, está bem, tchau”, ele desligou, e deu um longo suspirou, antes de voltar-se novamente para Tadase.

— Tadase-kun… o Tsukasa-san quer conversar com você… — ele falou pausadamente, esperando pela reação do outro. Tadase recuou um passo. Toda a alegria do passeio recente havia se esvaído em um segundo.

— E-eu não sei se estou pronto para… falar com ele. — ele estava amedrontado, e Nagihiko sabia disso.

— Ele está esperando por você na casa da Utau, foi ela quem ligou agora. Ele disse que você pode decidir se quer ou não falar com ele, e ele não vai pressionar você a fazer isso. Se você quiser, é só aparecer lá. Se não quiser, então não vá. Ele irá embora, e não vai mais insistir. É a sua escolha.

— O q-que… o que eu faço? — ele parecia prestes a chorar. Nagihiko o abraçou, mesmo que houvessem pessoas na rua, e elas estivessem olhando. Tadase escondeu o rosto.

— Você quer saber minha opinião? Acho que você deveria ir. — ele sentiu Tadase estremecer e balançar a cabeça em negação — Você ainda não ouviu a história do Tsukasa-san, não é mesmo? Eu acho que vale a pena escutar. É a sua história, afinal. E você tem esse direito. Você está com medo?

O loiro afirmou com a cabeça

— Sim… — disse, com a voz fraca.

— Utau falou que se você quisesse, eu poderia ficar junto com você. Mas… eu acho que você deveria conversar sozinho com o Tsukasa-san. E então?

Tadase se afastou, e enxugou as lágrimas com as costas das mãos. Respirou fundo, tentando se acalmar, e fitou Nagihiko com os olhos escarlates cintilando úmidos. Queria demonstrar que estava resoluto com sua decisão, mas Nagi só enxergava o quanto ele era frágil, e que queria protegê-lo.

— Eu… eu vou. Eu vou falar com ele.


Tadase esperou mais alguns minutos até se acalmar completamente, e Nagihiko o acompanhou até o apartamento de Utau. Ficaram ambos em silêncio até chegar em frente à porta, e Tadase soltou a mão de Nagihiko, lançando a ele um significativo olhar. Sim, ele precisava ser forte, e precisava enfrentar isso sozinho. Nagihiko não deveria protegê-lo de tudo para sempre, ele tinha que crescer e fazer isso por si só. Era a hora de liderar o seu próprio mundo.

Apertou a campainha, e esperou. Utau foi quem abriu a porta, e ao notar Tadase ali, soltou um arquejo de surpresa. Provavelmente não esperava que ele viesse realmente. Depois de abrir a porta, saiu por ela, sem nada dizer, e deu um fraco sorriso na direção de Nagihiko. Tadase soltou o ar, e deu o primeiro passo. Não sabia o que esperar, mas enfim, encontraria a verdade. Tinha tanto medo dela… e ainda assim, precisava saber. Olhou para Nagihiko, e ele assentiu de maneira incentivadora. Estaria lá, para ele, assim que tudo terminasse, não importando o que acontecesse.

— Que tal tomar um café ali embaixo? — com um sorriso condolente, Utau sugeriu.

Bem, não havia muito mais que eles pudesse fazer ali, e lançando um último olhar preocupado para a porta, Nagihiko a seguiu.


Tadase nem sentiu seus pés o conduzirem até a sala da casa de Utau. Tsukasa estava lá. Sentado no sofá, curvado, com as mãos na cabeça. Quando sentiu o movimento próximo, ergueu-se em um só movimento, e suas feições se atenuaram ao ver Tadase ali. Ele sorriu, e era um sorriso que Tadase não conhecia ainda. Um sorriso quebrado, arrependido. Os olhos sempre tão compreensivos, estavam fundos, resultado de noites mal dormidas, e Tadase conseguiu enxergar um reflexo de si mesmo naquele que, agora sabia… era o seu pai.

— Tadase, eu… eu não consigo imaginar o quanto deve ser difícil para você estar aqui agora… e eu agradeço por ter se esforçado tanto — Sua voz também parecia diferente. Mais rouca, hesitante… como se medisse com cuidado cada palavra para não afastar Tadase ainda mais. — Eu não vim até aqui para pedir o seu perdão, até por quê… sinto que não mereço isso, depois de ter errado tanto com você. Mas eu acredito que você tenha o direito de ouvir a verdade.

— Eu estou aqui para ouvir… — Tadase murmurou. Segurava uma mão na outra, nervosamente e era evidente o quanto estava desconfortável com toda aquela situação.

— Eu deveria fazer um chá? — ele inclinou os cantos dos lábios, e era quase um sorriso verdadeiro. Tadae lembrou de Nagihiko falando para Chris, que os guardiões resolviam sempre seus problemas com um chá. Parecia uma boa ideia.

Tsukasa sumiu na cozinha e Tadase sentou-se no canto do sofá, respirando e tentando acalmar seu coração. A luz que entrava pela janela da sacada era tênue, e estava nublado lá fora agora. Durante esse pequeno espaço de tempo sozinho, conseguiu organizar melhor sua cabeça, que estava uma bagunça. Quando Tsukasa retornou, com duas canecas fumegantes para os dois. Sentou na poltrona ao lado do sofá, afastado de onde Tadase estava, e deixou a xícara para ele na mesa de centro. Tadase percebeu que ele fazia o possível para não deixá-lo desconfortável.

— Eu queria conversar com você, Tadase, principalmente depois das coisas horríveis que Mizue gritou naquele dia… eu não quero que você acredite nem por um segundo no que ela disse. Foi por isso que pedi para você aceitar falar comigo. Acredito que você mereça saber a verdade, e isso é tudo.

Tadase provou o chá. Tinha um sabor familiar e reconfortante, e ele se sentiu vontade de chorar. Como é que havia chegado naquele ponto, sem um lugar para voltar, sem um porto seguro, sem saber quem ele era? Olhou para Tsukasa, em um pedido mudo de ajuda. Ele só queria entender aquele caos todo em que havia se metido, sem nem saber a razão, sem ter feito nada.

— Q-quem é a minha…. mãe? — ele deixou a pergunta escapar como nada muito além de um suspiro fraco. Tsukasa parecia esperar por aquela questão.

— Eu vou te contar tudo… — ele pareceu esperar por alguns segundos para acessar àquelas memórias tão distantes, e quando abriu os olhos novamente, parecia estar perdido em algum tempo inalcançável. — Sabe Tadase… eu sempre gostei de garotos, desde que eu era pequeno. — Ele sorriu fracamente, como se tentasse disfarçar a dor. Tadase se surpreendeu ligeiramente, não com aquela afirmação, mas com a maneira com que Tsukasa falou. Aquele era um início bastante estranho para explicar como ele havia nascido, de fato… — Acho que você pode compreender parcialmente como eu me sentia sobre isso, exceto que… bem, havia um garoto que eu gostava muito, mas não havia nenhuma maneira de isso se tornar recíproco. — O olhar dele se perdeu, e Tadase decidiu que não iria interrompê-lo enquanto contava.

“Eu gostava muito dele, muito mesmo, e por isso, pude me conformar em assistí-lo apenas de longe sem nunca revelar como eu me sentia verdadeiramente. Nós crescemos, e ele tinha uma vida muito bem arranjada, com uma esposa, filhos… eu deveria estar feliz por ele, não é? Eu deveria desejar que ele fosse feliz, fosse com quem fosse… e deveria procurar o meu caminho, e me afastar de vez… mas… mas parecia impossível…”

Tadase podia apenas imaginar, como seria se ele tivesse crescido para ver Nagihiko se casar com alguma garota, e ter filhos com ela, longe dele. Seu peito doeu com o pensamento, e ele mordeu os lábios, aflito com aquele sentimento inquieto que se assoava no seu coração.

— Eu me sentia péssimo todos os dias. Ainda estava no ensino médio, e não tinha decidio o que deveria fazer com a minha vida, mas pensava em talvez ir para algum lugar distante, onde eu não precisasse pensar em nada disso, e me afastasse de todos. Se eu não o visse, talvez esse sentimento fosse embora… Eu sei que eu era imaturo e estava errado em agir assim, e eu espero que você nunca faça o mesmo que eu fiz, mas eu estava tão cansado de tudo… de ter que ser o filho exemplar, um bom aluno, o melhor amigo… e de esconder tudo aquilo que eu era de todos eles… Eu perdi a cabeça, estava tão perdido… acabei indo para algum lugar longe durante a noite, e fui parar em um bar… Ninguém me conhecia, e nem sabia a minha idade ou de onde eu vinha. A atendente do bar… ela devia ter algo em torno de 20 anos. Ela me deu algo para beber, e ouviu minha história. No final da noite, ela pagou o taxi para me levar para casa, e disse que eu poderia voltar sempre que quisesse conversar. Foi assim que eu a conheci. A sua… mãe, Tadase.

— A minha… você diz, a mulher do bar, ela e você… ela foi… ela era..

— Depois de alguns dias eu voltei, e nós conversamos mais. Ela era muito engraçada e irresponsável, falava muito, estar com ela fazia as minhas preocupações sumirem por algum tempo. Ela não se parecia muito com você, na verdade. — ele riu fracamente — Então eu pensei… por que não, tentar ser um garoto como os outros? E ela também, insistia muito para que eu saísse com ela pelo menos por uma noite. Então… em uma noite em que eu bebi mais do que devia, e ela estava muito insistente… acabou acontecendo. Eu não lembro de nada dessa noite…

— Como ela era? — a pergunta de Tadase não pareceu surpreender Tsukasa. Ele tirou algo do bolso da calça.

— Eu sabia que você iria querer saber. Como eu disse, a personalidade dela era expansiva e agitada, nada parecida com você. Ela era imatura e muito impulsiva também. Mas… acho que você tem alguns traços dela. Veja por si mesmo…

Ele mostrou à Tadase uma foto, já envelhecida e com as cores desbotadas. Era de um bar, considerando as bebidas logo atrás, e a luz baixa. De um lado do balcão de madeira escura, estava Tsukasa jovem, e ele se parecia exatamente como Tadase era agora, apenas com o cabelo mais escuro… e de alguma forma, seus olhos já pareciam mais maduros. Já a mulher do lado de dentro do balcão… ela tinha os cabelos mais claros, ondulados e longos, e seu rosto parecia muito mais jovem do que deveria ser. Ela era bonita… mas usava roupas excessivamente provocantes, e batom vermelho que acentuava os lábios delicados, iguais aos de Tadase. Seus olhos também, eram iguais aos dele. Tadase sentiu um nó na garganta ao perceber essas semelhanças.

— Onde… onde ela está agora?

— Eu não sei… — Tsukasa ergueu os olhos para a janela. — Depois que isso aconteceu, eu disse que não iria se repetir nunca mais. Ela concordou. Alguns semanas depois, ela parou de trabalhar lá, e eu também não fui mais para aquele lugar.

— Mas como…

— Certo dia, ela apareceu na nossa casa. Eu não faço ideia de como ela descobriu meu endereço. E ela disse que estava grávida, e não sabia o que fazer. Queria abortar o bebê. Foi então que Mizue ouviu toda a história dela, e fez um acordo. Ela ficaria com o bebê quando ele nascesse, e registraria ele como seu filho.Tudo o que ela tinha que fazer, era aguentar até o final da gestação, sem fazer nenhuma besteira, e sua mãe pagaria todas as despesas. Para o seu pai, ela apenas disse que queria adotar uma criança. Ela não podia ter filhos, e eles até mesmo chegaram a visitar alguns orfanatos. Eu entendo que fosse difícil para ela, afinal, todas as suas amigas estavam tendo filhos, e com suas famílias formadas, e ela não… mas isso ainda não justifica a maneira como ela agiu…

— Então… você deixou que ela me tomasse como filho?

— Eu era apenas um estudante recém-formado, que iria entrar para a faculdade naquele ano… eu nem tinha feito os exames de admissão ainda… E Mizue parecia desesperada. Era a única forma de ter você, meu filho… por perto… sem precisar sair de casa. E você teria uma família correta, uma mãe, um pai decente, e não essa pessoa errada que eu sou… Seria a melhor decisão. E então… bem, o resto da história você já sabe. Eu me formei, assumi como diretor de Seiyo, e pude ver você crescer e se tornou esse rapaz incrível do qual eu tanto me orgulho. Eu nunca, jamais, em momento algum, pensei em não ficar com você, Tadase. Eu te quis, desde o exato momento em que eu soube da sua existência. E se tem algo do qual eu me arrependo, é de não ter enfrentado a minha irmã antes, não ter deixado ela tomar tanto o controle da sua vida, e contado a verdade antes. Porém… como você deve imaginar, nós não temos como saber o que teria sido de uma situação. As decisões foram tomadas naquela hora, e não se pode modificar o passado. Apenas… podemos tentar melhorar o futuro. Era isso… o que eu tinha para falar.

Tadase tinha lágrimas pendentes nos seus olhos, e seu chá já havia acabado. Ele pousou a xícara vazia, já fria, na mesa, e fitou Tsukasa. Era hora de tomar uma decisão, agora. Como seria sua vida a partir de agora? O medo e o vazio de não saber o fizeram hesitar. Mas ele tinha Nagihiko, e essa era uma certeza que jamais saíria do seu coração.

Ele respirou fundo, e quando voltou a olhar para o mais velho, parecia muito mais decidido do que outrora. Era quase um homem. Tsukasa não pode evitar um meio sorriso orgulhoso por vê-lo crescer tanto — Tsukasa-san. Eu...