Notas iniciais
Cassis - The Gazette http://letras.mus.br/gazette/451307/

Mesmo que a tristeza vier, não chore sozinha.

Mesmo estando separados, vamos continuar acreditando em nós dois.

Quero permanecer sorrindo desse jeito, não quero te machucar mais.

Mesmo que o tempo volte, não quero que essas lembranças se repitam.

Amanhã, mesmo que seus sentimentos se separem de mim,

Com certeza continuarei te amando.

Amanhã, mesmo que você não possa me ver,

Com certeza continuarei te amando.

Por favor, olhe para mim.

Por favor, deixe eu te alcançar.

Capítulo 17

Cassis

A noite estava calma e escura, e quase não havia estrelas no céu. A lua estava encoberta pelas nuvens, a única luz que os iluminava era proveniente dos postes. Com facilidade, Nagihiko alcançou Tadase antes que ele dobrasse a esquina da casa de Rima. Avançando um último e longo passo, segurou Tadase pelo cotovelo, girando-o para que ficasse de frente para ele.

— O que você quer? – Tadase sibilou, mordendo os lábios trêmulos com força. Não queria chorar, não queria parecer fraco. Desejava apenas voltar para casa e sumir nos seus cobertores, esquecer que Nagihiko existia, apagar todas aquelas memórias da sua mente.

— Por que você está assim, Hotori-kun? Vamos conversar, por favor… — Nagihiko insistiu, sem soltar o braço do garoto – Eu não quero ver você assim!

— Não tem nada para conversar, eu já disse tudo o que queria – Tadase relutou, tentando se soltar – Me deixe ir para casa!

— Não! Eu não vou deixar você sair assim, depois de tudo! – Nagihiko o pressionou contra a parede, impedindo a fuga. Tadase baixou o rosto, evitando trocar olhares com o maior.

Não queria ouvir mais nada do que ele dissesse, pois já estava convencido de que seriam ainda mais mentiras, ilusões forjadas pela sua mente e pela dele. Nada do que existia entre eles era concreto, sólido. Eram apenas sonhos… sonhos lindos, mas apenas sonhos. Sonhos eram instáveis e Tadase estava cansado de sonhar. Queria a realidade, a verdade… por mais que ela machucasse, o corroesse por dentro. Qualquer coisa seria melhor do que aquela sensação no fundo da sua garganta, que dizia que tudo poderia acabar em um piscar de olhos.

— O que você quer ouvir, Fujisaki-kun? Que eu o amo? Você já sabe disso! – Tadase replicou, controlando o tom de voz para que não acabasse chorando – Mas talvez apenas isso não seja mais o suficiente…

— Do que está falando, Hotori? – Nagihiko se exasperou. Soltou os pulsos de Tadase, e passou a mão pelos cabelos, nervosamente – Eu sei que aquela brincadeira da Yaya foi longe demais, mas eu não ia fazer o que ela dizia!

— Quem garante isso? Você não parecia propenso a negar, e eu aposto como a Nanami-san, ou até mesmo a Mashiro-san, quem sabe, não iriam reclamar se você as escolhesse! Eu sei que a Mashiro-san gostava de você! E a Nanami não esconde isso de ninguém! Você poderia escolher qualquer uma delas, e ficaria muito bem!

— Eu não ia beijar garota nenhuma, Hotori! E mesmo que eu fizesse, seria sem significado nenhum! Eu não gosto de nenhuma delas, eu não sentiria nada se as beijasse, de qualquer forma!

— Então quer dizer que você seria capaz de beijar alguém por quem não sente nada?

— Não distorça o que eu estou dizendo, Hotori-kun! – Nagihiko perdeu a paciência, e começou a andar a passos rápidos de um lado para o outro na frente de Tadase – Eu não entendo, por que você está tão nervoso? Yaya vive fazendo esse tipo de piada sem graça, e você nunca a levou a sério!

— Não é apenas isso! – Tadase argumentou, cerrando os punhos – Depois de todo esse tempo, nós crescemos longe um do outro, eu sinto que não conheço mais você, Fujisaki-kun… — ele baixou o olhar, e abraçou os próprios braços, encolhido pelo frio da noite – Você estuda em outra escola, com pessoas que eu não conheço. Você passa a maior parte dos dias longe de mim, e eu não sei mais o que você faz! Tem dias que nós nem mesmo conseguimos nos falar! Eu não aguento mais essa situação!

— O que você quer que eu faça, Hotori? Nada disso que você falou está sob meu controle, eu não posso fazer o que bem entendo, e nem você pode! – Nagihiko parou de andar, e encarou Tadase firmemente – Você acha realmente que se eu pudesse, eu não estaria com você em todas as horas do meu dia? Você acha que eu não gostaria de estudar com meus amigos na mesma escola, de ver você todos os dias, ou de poder sair com você sem precisar me esconder? É o que eu mais quero!

— Como eu posso saber disso se você não me conta nada? – Tadase reclamou, voltando a erguer a voz.

— Eu não digo nada por que não quero preocupá-lo!

— Não queria me preocupar? Você sempre dá essa desculpa, diz que esconde as coisas pra o meu bem, mas faz apenas o que bem entende pelas minhas costas! Eu já não sei mais no que posso acreditar! – as lágrimas se juntavam nas bordas dos olhos de Tadase, e ele lutava para contê-las, com a garganta ardendo enquanto gritava. A rua estava deserta, e ninguém escutaria, mas Nagihiko tinha a impressão de que não seria diferente, mesmo se estivessem no meio de uma multidão.

— Você sabe que eu nunca seria capaz de mentir para você, Hotori-kun! De todas as pessoas, você sempre foi o único para quem eu não precisava fingir… eu nunca consegui enganar você!

— Será mesmo? Antes de nós começarmos a namorar, você fingia muito bem que não gostava de mim. Até mesmo encorajou que eu me declarasse para a Amu-chan! Quem garante que agora não está fazendo o contrário, fingindo para me fazer acreditar que você ainda me ama, quando está somente se divertindo com toda essa situação? Eu não sei o que você esteve fazendo nos últimos três anos! Você pode ter arrumado um monte de outros namorados, para se distrair! Ninguém o culparia por isso, não é? E eu fui o único idiota que continuou esperando por você, esse tempo todo, me iludindo, pensando que você pudesse sentir a minha falta da mesma forma que eu senti a sua…

— Para de falar besteiras, Hotori-kun!!! Você está se ouvindo? Está prestando atenção no que diz? Nada disso faz sentido!! – Nagihiko gritou de volta, quase desesperado – Eu nunca estive com ninguém além de você! Esse tempo todo, ninguém! Consegue entender isso? Eu amo você, seu idiota, só você! – ele berrou ainda mais alto, querendo apenas fazer Tadase entender aquele simples fato.

— Mas você parece bem à vontade com aquelas garotas da sua escola! Elas são bem bonitas, são ricas também! Você pode se divertir à vontade com elas, eu nem ficaria sabendo!

— Talvez eu devesse fazer mesmo isso, elas reclamam muito menos do que você! – Nagihiko rebateu, com a face retorcendo-se de irritação. Seu sangue fervia, e ele já havia perdido a cabeça há muito tempo – Você acha que eu gosto de saber que você está noivo de outra garota, então?

— Não é a mesma coisa! Isso foi decidido pelos nossos pais, e a Nanami-san sabe muito bem que quem eu amo é você e não ela! Na verdade, ela se interessa muito mais por você do que por mim, você sabe disso, então não finja que não entende!

— Você está agindo como uma criancinha mimada, Hotori, me acusando de todas essas coisas que nem são minha culpa! – Nagihiko revidou, exacerbado – Eu também sinto a sua falta, eu também desejo poder estar ao seu lado!! Depois de tudo o que eu fiz para que nós pudéssemos ficar juntos…

— Mas nós não estamos juntos! – Tadase contrapôs, e com um arquejar de último esforço, as lágrimas enfim começaram a correr livremente pelo seu rosto, marcado pela dor – Tudo que eu mais queria… t-tudo o que eu mais queria era poder dizer para cada uma daquelas garotas, para todo o mundo, que você é meu! Apenas meu! De mais ninguém!! Eu sou egoísta, eu sei disso, esse é o meu verdadeiro eu! – a voz dele embargou, engasgado pelo choro – E eu quero você somente para mim, nenhuma delas tem o direito de sequer olhar para você! Eu não aguento ter que ver você agindo dessa forma tão convincente, conquistando tão facilmente os corações de cada uma daquelas garotas. O único coração que você deveria se preocupar em conquistar é o meu, ouviu bem?

— Eu faço isso por nós dois, Hotori! Não é apenas diversão, é por que é necessário! Eu faço isso por que quero ficar do seu lado! – Nagihiko segurou a mão de Tadase, mas ele se desvencilhou, recuando um passo para o lado da parede. – Você pensa que isso é algo fácil de fazer? Eu não gosto de garotas, droga, eu não gosto de ter que fazer isso! Mas eu faço por você!

— Eu já não sei se quero quer você faça isso. Se for assim tão problemático para você, não precisa mais se esforçar por mim, nem nada disso! Apenas volte para a Inglaterra, para a sua escola de dança e para os seus amigos ingleses! Eu não preciso de você, e não preciso das suas mentiras! – ele retorquiu, alterado. Estava fora de si, e nem sabia mais do que estava falando. Livrou-se de Nagihiko, secando as lágrimas que insistiam em cair sem parar, e recomeçou a andar pelo lado oposto. Nagihiko o acompanhou, tentando alcançá-lo.

— Pare de agir como criança, Hotori, me escuta! – Nagihiko tentava o conter, mas ele continuava a andar assim mesmo, fingindo que não o ouvia.

— Eu não tenho nada mais para escutar, você já tomou sua decisão, certo? – Tadase objetou, andando ainda mais rapidamente – Lidar comigo é muito difícil, você prefere as garotas da sua sala, e então está arrumando as malas para voltar para os seus amigos legais da Inglaterra, que não sentem ciúmes, não reclamam de nada, não agem como crianças mimadas, e deixam você fazer o que quer! É uma ótima decisão! Você deveria ter feito isso desde o início, então me pouparia de tanto sofrimento! Não deveria nem ter voltado, para começar!

— Ótimo! – Nagihiko parou de tentar pará-lo, e gritou, erguendo as mãos para o alto em sinal de conformidade – Eu vou fazer isso mesmo, obrigado pela ajuda!

— Disponha! – Tadase gritou ao longe, marchando a passos duros e apressados em direção a sua casa.

Nagihiko assistiu Tadase sumir na escuridão da noite, e girou o corpo, meio cambaleando, de volta à casa de Rima. Ele não queria ter dito nada daquilo, toda aquela discussão havia sido infundada e sem sentido. Nenhum dos dois estava com a cabeça no lugar, e acabaram falando coisas as quais se arrependeriam mais tarde.

Ele ainda estava irritado com toda aquela infantilidade inexplicável de Tadase, e com a crise de ciúmes que ele provocou. Não imaginava que ele pudesse estar se sentindo daquela maneira, logo agora que tudo parecia ir tão bem entre eles. Ele foi negligente, ao pensar que estava tudo indo bem para Tadase assim como estava para ele? Deveria ter se preocupado mais, perguntado mais vezes, insistido para que Tadase se abrisse para ele?

Eles não se viam com frequência, muitas vezes passavam mais de um dia se nem se falar. E quando se encontravam escondidos, Tadase agia normalmente, não parecia que havia nada de errado. Ele não dava sinais de que se sentia assim tão desconfortável com tantas coisas. Se ele tivesse ao menos falado, eles poderiam conversar sobre isso, e Nagihiko tentaria melhorar. Ele faria o possível para tentar ser mais atencioso, para fazer Tadase feliz… e isso tudo não teria acabado dessa forma. Nagihiko não se conformava com esse estado das coisas.

— Vamos, Hideyoshi, para casa… — ele murmurou sem emoção alguma, ao adentrar novamente na sala de estar de Rima, onde todos o encaravam mortalmente silenciosos, com apreensão e curiosidade visíveis. Apenas o semblante de Nagihiko era suficiente para saberem que nada ia bem, e ninguém, nem mesmo Yaya, ousou fazer quaisquer perguntas.

Hideyoshi já havia se trocado minutos antes, e depois de rapidamente se despedir de todos, seguiu Nagihiko para fora. Ele nem mesmo olhou para trás para ver se o primo já estava o seguindo, e começou a andar, com as mãos no bolso e sem dizer nada. Hideyoshi tentou iniciar algum diálogo, para perguntar se estava tudo bem, mas Nagi apenas trincou os dentes em resposta, e ele percebeu por si só que não era o melhor momento para perguntas.

Quando chegaram em casa, Nagihiko entrou direto para o seu quarto, e Hideyoshi não o viu mais. Pensou em talvez tomar um banho antes de dormir, e ler um livro… não estava com sono. Ele era naturalmente desinteressado por tudo o que acontecia ao seu redor, e normalmente se distraia com tanta facilidade que nada prendia sua atenção, porém nesse momento, queria saber o que acontecia entre seu primo, Tadase, e possivelmente Nanami. Por que para ele, ela era o motivo da briga, enfim.

Hideyoshi estava ainda pensando sobre isso, enquanto entrava em casa, quando viu sua tia vindo pelo corredor oposto. Ela parecia tão séria e austera como sempre, e Hideyoshi sabia que ela desejava falar com ele, apenas pelo olhar que enviava silenciosamente. Ele a seguiu até o escritório, e assim com havia deduzido, Kaoruko ordenou que ele sentasse a sua frente, e tomou seu lugar do outro lado da mesa.

— Vocês foram a uma festa na casa da Mashiro Rima-san, estou certa? – Kaoruko afirmou, e Hideyoshi confirmou com um aceno de cabeça. Periodicamente, ele passava por essas sessões de interrogatório, onde Kaoruko perguntava tudo o que podia sobre as atividades diárias do seu filho, e já estava tão acostumado a isso que não pensava em perguntar o motivo de tudo isso, e apenas obedecia à tia. Como estava vivendo na casa dela, era o mínimo que podia fazer. – Quem estava lá?

— Todos os amigos do Nagihiko-kun estavam lá…

— E Hotori Tadase, estava lá também? – ela franziu os olhos, e Hideyoshi sentiu um arrepio agourento na base das costas. Sua tia dava muito medo.

— Sim, ele estava… — ele respondeu, mesmo sem entender.

— Eu sabia. – Ela bateu na mesa, e Hideyoshi se encolheu, pensando que talvez devesse ter sido melhor não dizer nada. – Aquele garoto acha mesmo que pode me enganar! Pensa que eu não vou descobrir o que ele está planejando… — Kaoruko pareceu perceber que estava assustando o garoto e perdendo a sua compostura usual, então voltou a sentar da maneira correta na cadeira, cerrando os olhos e se acalmando. Uma mulher jamais deveria perder a calma, jamais. Ela respirou fundo, e continuou. – Como eles estavam agindo um com o outro, Hideyoshi-kun, diga-me.

— Ah, bem… eles brigaram. – ele contou, e Kaoruko pareceu ficar bem surpresa com a resposta inesperada – Eles discutiram na festa, e então o Hotori-san saiu correndo… Nagihiko-kun foi atrás dele, e dava pra ouvir os gritos deles mesmo lá dentro… a briga foi bem feia, mesmo…

— Hm… então eles se desentenderam… — Kaoruko não pode deixar de sorrir com a notícia, e pareceu se acalmar instantaneamente – E você conseguiu perceber qual era o motivo da briga?

— Bem, eu não entendi muita coisa, eles estava gritando muito… mas pareceu que eles estavam brigando por causa da noiva do Hotori-kun, a Nanami-san…

— Noiva? Bem, eu ouvi falar que a Mizue-san havia feito isso mesmo… então, o Nagihiko parecia… com ciúmes, foi por isso que eles brigaram? – ela continuou a interrogar o garoto.

— Não pareceu ser isso… bem, o Hotori-san parecia muito mais alterado, é verdade. E a Nanami-san parece ter algum… interesse romântico pelo meu primo. Eu penso que, talvez, o Hotori-san estivesse com ciúmes da sua noiva. Acho que foi esse o motivo da briga entre eles. E o Hotori-san ainda citou o fato de Nagihiko ser popular entre as garotas da nossa escola, acho que ele não quer que o primo leve a noiva dele também…

— Entendo… — Kaoruko assentiu – E eles pareciam propensos a fazer as pazes depois disso?

— Não. Hotori-san saiu de lá com muita raiva, e o Nagihiko-kun ainda parece irritado. Ele foi direto se trancar no seu quarto quando chegamos. Parece que eles já vinham se estranhando a algum tempo, pelo que eu entendi das conversas. Talvez, o desentendimento entre eles seja definitivo… – Hideyoshi deu a sua humilde opinião.

— Ah, espero que sim… — Kaoruko suspirou aliviada, e então fez um gesto contido com a mão – Pode ir, Hideyoshi. Se eu precisar saber de mais alguma informação, eu o chamo.

— Hm, então, com licença, Oba-san… — mesmo sem entender nada, Hideyoshi se afastou, e seguiu rumo aos banheiros.

Enquanto ele vagava pela mansão, já habituado ao caminho dos corredores escuros, distraído com as próprias preocupações como estava, não seria capaz de ver entre as sombras a silhueta de alguém se esgueirando para o lado de fora.

— Você vai mesmo fazer isso, Nagi? – Temari sussurrou, embora não fosse necessário, já que ninguém além de Nagihiko a ouviria.

Nagi prendeu a respiração, vendo sua mãe passando pelo outro corredor, e então continuou.

— Claro que vou. Acha mesmo que eu vou deixar as coisas terminarem assim, depois de tudo o que eu já fiz? Não mesmo… — ele disse bem baixinho, quase num sopro, enquanto atravessava o corredor quase se arrastando pelas paredes, de tão sorrateiro.

— Não acha melhor ir falar com ele de dia? Depois que dormir, esfriar a cabeça, Hotori-kun vai estar melhor amanhã, eu sei que vai…

— Eu não posso esperar tanto tempo, Temari…

— Yey! Isso aí, assim que se faz, Nagi! – Rhythm comemorou, orgulhoso do dono – Você não deve deixar nada pela metade, um garoto tem que construir o seu próprio ritmo!

— Ah, boa sorte, então… — Temari suspirou, sentindo que era voto vencido entre os garotos, e com preocupação no olhar, ela escondeu o rosto na manga do kimono, vendo Nagihiko sumir pelo corredor escuro que levava à entrada.

Tão logo havia colocado os pés dentro de casa, Nagihiko já se arrependera do fundo da alma por cada palavra amarga que saiu da sua boca. Não queria ter dito nada daquilo à Tadase, não queria ter brigado com ele por motivos tão sem importância. Tadase estava agindo de maneira ilógica, e não estava dando ouvidos à ele… bem, ele estava. Mas todo mundo tem momentos em que perde a paciência, e chega ao seu limite. Aquele havia sido o limite de Tadase, e era até compreensível, quando Nagihiko se permitia pensar melhor do assunto, que ele tivesse explodido tão de repente.

A soma de fatores que levaram a esse resultado, como os ciúmes pelas garotas que cercavam Nagihiko, o fato de eles não poderem se ver com tanta frequência quanto gostariam, os problemas que tinham que enfrentar com suas famílias em casa, e ainda a insegurança, de não poder saber se iriam estar juntos no futuro. Tudo isso se acumulou, até o ponto em que Tadase não conseguiu mais aguentar.

Ele até podia não sentir isso, mas Tadase já deveria estar exacerbado de tantas coisas na sua cabeça. Nagihiko deveria ter agido de forma mais franca, ter apoiado, consolado, o seu namorado. Era para isso que ele estava ali, afinal. Tadase só precisava de um abraço, de carinho… ele estava inseguro, triste… e provavelmente estava guardando isso só para si, sem querer preocupar ninguém, como ele sempre fazia. E Nagihiko foi idiota de pensar que estava tudo bem apenas por que ele não dizia nada, e não prestou atenção o suficiente na pessoa que mais amava no mundo. Ele era irresponsável, desatento… merecia que talvez Tadase nunca mais quisesse falar com ele, afinal.

Mas ele não iria deixar as coisas terminarem dessa forma. Precisava dizer logo a Tadase que tudo o que disse a ele foi da boca para fora, e que nada daquilo era verdade. Queria abraça-lo naquele exato instante, e dizer que tudo acabaria bem, mesmo que tivesse que convencer a si mesmo disso antes. Quando enfim conseguiu sair de sua casa e chegou à rua, Nagihiko ainda não sabia direito o que iria fazer.

Ele correu para o lado da casa de Tadase, já que ele provavelmente já teria ido para lá, sem nenhum plano na cabeça. Ele precisava urgentemente, naquele mesmo instante, dizer à Tadase que o amava. Que não ia deixa-lo fugir assim tão fácil. Que pertencia inteiramente à ele, e que nada no mundo poderia separá-los, muito menos uma briga boba como essa. Eles estavam ligados pela linha do destino, haviam feito uma promessa. Nagihiko nunca o deixaria ir embora, não dessa forma.

A rua, iluminada somente pelas luzes espaçadas dos postes, estava completamente vazia. Nagihiko não sabia direito como ia fazer quando chegasse à casa de Tadase. Só sabia que queria fazer algo logo, e que não podia deixar as coisas mal resolvidas entre eles dois. Talvez ele invadisse a casa de Tadase como já fizera outras vezes, escalando até a janela do quarto dele. Isso só daria errado no caso de Tadase não estar no quarto, mas se Nagi conseguisse falar com Tsukasa, já seria de grande ajuda, pois ele com certeza o apoiaria. Será que seria loucura demais apertar a campainha, e cumprimentar a Sra. Hotori com um sorriso, enquanto perguntava onde estava o filho dela? Ah, era perigoso, mas com certeza seria engraçado de ver a expressão no rosto de Mizue caso ele fizesse algo assim.

Nagihiko estava assim, no meio das suas ponderações sem sentido, quando passou em frente à pracinha onde ele e Tadase costumavam brincar quando pequenos, e que ficava próxima à casa dele. Uma figura familiar estava sentada no balanço, parecendo melancólica, encolhida de frio com os braços cruzados. Nagihiko suspirou de alivio, ao reconhecê-lo, e correu ao seu encontro.

— Hotori-kun… — chamou em voz baixa, quando chegou próximo dele. Tadase, que estava de cabeça baixa esse tempo todo, ergueu o rosto, incrédulo, e seu corpo inteiro formigou, com se tivesse levado um choque de volta à vida.

— F-fujis-saki-kun… — ele soluçou, com a voz embargada pelas lágrimas que lavavam seu rosto, e no mesmo instante, pulou de braços abertos para o pescoço de Nagihiko. – Me perdoa, Fujisaki-kun, por favor! Eu fui um idiota completo, agi como uma criança mimada, assim como você disse! Nenhuma daquelas acusações que eu fiz fazia sentido, eu só descontei em você toda a frustração que eu estava sentido, você não tem culpa de nada!! Eu te amo tanto, tanto… por favor... Perdoe-me, por ser tão imbecil, eu não…

— Calma, calma, meu amor… — Nagihiko entoou com voz suave, como se estivesse cantando uma canção de ninar ou algo do tipo, e com apenas isso, Tadase relaxou em seus braços. Ele enxugou as lágrimas abundantes com as costas da mão, e um sorriso afável se formou em seu rosto – Eu também devo desculpas a você. Eu não me esforcei em entender os seus motivos, estava agindo de maneira impensada… Eu deveria ter me preocupado mais com você, e com os seus sentimentos… acabei fazendo tudo errado…

— Não, não, Fujisaki-kun… — Tadase balançou a cabeça, e segurou o rosto de Nagihiko com as mãos, delicadamente – Eu estava voltando para casa, e quando vi esse lugar, e me lembrei de como nós costumávamos brincar aqui… Eu disse que já não conhecia mais você, mas isso foi uma mentira! Eu me apaixonei por você, por inteiro, sabendo cada um dos seus segredos, exatamente por quem você é… Se o sentimento que eu nutria por você naquela época, e agora, fossem comparados… ele ainda seria o mesmo. Exceto por que ele cresceu, e cresceu tanto que parece nem caber mais no meu peito! Eu só sei que eu amo você, e que quero passar o resto da minha vida ao seu lado. Nada mais importa para mim! Nem as garotas da sua escola, os seus amigos da Inglaterra, as nossas famílias, o meu noivado… nada, nada disso tem importância! Desde que você esteja sempre aqui comigo, Fujisaki-kun…

Nagihiko passou a mão no rosto de Tadase, sentindo seu peito estourar de tantos sentimentos empilhados, transbordando mais a cada segundo. Mal podia se conter, seu corpo, sua mente, seu coração… todo seu ser clamava por Tadase. A sensação de necessidade era tão grande que parecia insuportável, dolorosa… Tadase fechou os olhos, apreciando o toque, e se aproximando mais ainda no abraço de Nagihiko, até que eles estivessem tão próximos que nada passaria entre eles.

— Eu te amo, Hotori-kun… — ele ronronou a frase que mais adorava repetir, a única verdade imaculada que jamais se dispersaria. Tadase fez um som de concordância, perdido na sensação de estar nos braços de Nagihiko, incapaz de responder. Nada mais precisava ser dito, eles se entendiam sem precisar de palavras. Haviam agido sem pensar, dito coisas que não queriam dizer. Mas que casal que não se desentende, que não briga? O que importava não era o que eles diziam na hora da raiva, com a cabeça quente… mas a forma como se reconciliavam depois.

Nagihiko apertou o círculo ao redor de Tadase, cingindo a sua cintura de forma possessiva, enquanto entrelaçava a outra mão nos cabelos macios e dourados, trazendo seu rosto para cima. Seus lábios se tocaram, e foi como se uma chama ardente se espalhasse a partir daquele ponto, aquecendo os corpos de ambos no mesmo segundo. Nagihiko invadiu os lábios de Tadase sem pudor, necessitando daquele contato mais até do que oxigênio para sobreviver. O menor correspondia com a mesma avidez, agarrando-se ao cabelo longo de Nagihiko para obter algum apoio, tendo que ficar na ponta dos pés para compensar a diferença de altura entre eles, que já não era mais tão pouca.

Toda e qualquer discrepância que ainda pudessem ter tido se esvaiu naquele beijo, sôfrego, impaciente. Ofegantes, eles se separaram, abraçados ainda, espantando o frio da noite de outono para longe. Não tinham vontade de se separar nunca mais. Sentiam tanto a falta daquele contato, da presença um do outro, simplesmente… foram três anos, vazios e sem significado, que se passaram. Não era como se isso não fosse mudar nada, afinal. Mas ali estavam eles, querendo esquecer-se daquela época de sofrimento, e pensar somente no futuro. Um futuro incerto, com ainda mais brigas, dúvidas, obstáculos, provavelmente os aguardava. Era certo que ainda haveria uma boa dose de esforço a ser empregado, e não seria fácil enfrentar o mundo juntos. Mas a recompensa… apenas aquele sonho, de viverem felizes, e sem medo… um futuro onde pudessem ter um ao outro. Isso não valia a pena?

Notas finais
Yoo Minna-san!! Shiroyuki desu! Ah, finalmente uma frente fria pra acabar com esse calor desgraçado, ao menos aqui onde eu moro~ muito melhor assim -u- mas, quanto à fic~~ aahh, Nagi e Tada-kun brigaram, reataram... mas tudo indica que o problema não termina por aí....... veremos -u- O grande anúncio dessa postagem é~ tan~tan~~ Yakusoku está completando dois anos de existência amanhã!!!! Contando com a primeira temporada, são dois anos de postagem ininterrupta, só para vocês!!! Eu e a Teffy-senpai estamos muito felizes por isso, essa montanha de capítulos e toda nossa dedicação, isso só foi possível por causa do apoio de todos vocês, nos reviews!!! Só temos a agradecer, a quem nos acompanha desde o início, e a quem chegou depois, leitores ativos e leitores fantasmas, muuuito obrigada, de verdade!!! Bem, agora, digam o que estão achando! É um dia de comemoração, esperamos pela opinião de todos vocês~ e até a próxima~ um capítulo superespecial com a Teffy-senpai, que vai narrar um fato do qual muitos ficaram curiosos em saber........