It's time to move on... INTERATIVA
1 Changing is not that bad... I think...
Notas iniciais
O sinal toca. As instruções já foram dadas, chegou a hora do teste de aptidão.
Levanto-me e arrumo o longo vestido amarelo e as sandálias que estou usando. Dirijo-me à porta, prendendo os longos fios dourados de meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Combinei de encontrar minha amiga, Tiana, para irmos juntas até o auditório, aonde esperaremos o início do teste de aptidão. Assim que chego ao corredor do auditório ela está lá, sentada no chão, comendo uma maçã.
– April, você é muito lerda! – diz ela rindo, mexendo em seu liso cabelo preto e se levantando.
– Falou a senhorita pontualidade! – brinco, dando um empurrão de leve em seu ombro.
Continuamos andando, até que chegamos à porta. Coloco minha mão na maçaneta, mas antes que eu consiga abri-la alguém abre, me fazendo dar um esbarrão involuntário. É Georgia, uma menina da franqueza, que revira os olhos e finge limpar o ombro onde eu esbarrei.
– Só podia ser essa Hippie! – diz ela olhando para uma amiga e rindo.
Eu e Tiana nascemos na Amizade. A nossa facção tem uma certa antipatia pela Franqueza, apesar de tentarmos ignorar isso e tratá-los de maneira educada, eles não cansam de lançar provocações. As pessoas da amizade, normalmente, ignorariam e tentariam ser o mais amigáveis possível, mas eu não tenho estômago para isso.
Antes que Georgia possa ir muito longe, me viro e questiono se ela acha que o mundo gira ao seu redor. Ela se aproxima e me empurra, mas não consegue grande feito, apenas dou alguns passos para trás. Quando corro em direção a ela, Tiara e um menino de minha facção me seguram e me carregam para o lado de dentro do auditório. Primeiramente me irrito, meu sangue estava fervendo e eu queria acabar com ela, mas depois agradeço por não terem me deixado cometer uma loucura.
Ficamos alguns minutos sentadas, até que os nomes começam a ser chamados. De dois em dois somos chamados e a sala vai se esvaziando.
– Da Amizade: April Carllyte e Clarybell Sanders! – chama uma voz pelo sistema de som.
Troco um olhar assutado com Tiana que continua sentada. Ela parece muito mais tranquila que eu.
Tiana é a única pessoa a quem contaria meus resultados.
Entro na sala, há uma mulher da Abnegação aqui. Ela me entrega um copo e eu bebo o líquido laranja sem pestanejar. Ela me explica calmamente o que irá acontecer e minhas pálpebras pesadas fecham meus olhos.
Quando volto a abrir os olhos estou sozinha em um corredor. Há um armário aberto no fundo dele. Corro até ele e vejo uma rosa e um bastão, junto a eles está um bilhete que me manda escolher. Escolho a rosa. O armário some e estou só, de pé e com a rosa na mão esquerda. Sinto algo frio e asqueroso em minha perna. Olho para baixo, é uma cobra, ela sobe cada vez mais. Não me mexo, não quero que ela me ataque. Não sinto medo, sei que isso é apenas uma simulação.
Quando percebo, a cobra já se enrola em meu braço esquerdo. Ela ergue a pequena cabeça na altura da minha. Mantenho os olhos fixos nela, mexo a cabeça levemente para a direita e ela me segue. Continuo com os movimentos por algum tampo, até que, quando ela está totalmente distraída, ou pelo menos é o que penso, agarro seu ‘pescoço’ e o torço, não funciona, ela está se remexendo. Lembro-me de uma presilha que uso para prender os cabelos e quanto é afiada. Em apenas um ato, arranco dos fios e finco no animal, que morre.
O cenário da simulação muda pela terceira vez. Estou em uma sala, pessoas estão me encarando. Cinco ao total. Cada uma delas me faz uma pergunta e eu as respondo, falando a verdade e em algumas não. O primeiro homem pergunta-me sobre o quão culpada eu me sinto em mentir. Conto a verdade, muito.“Você guarda algum segredo?” Pergunta o segundo. “Não”, eu respondo, estou mentindo. As perguntas seguem e eu respondo as três. Uma verdade. Outra. Por último uma mentira. Minhas pálpebras estão pesando novamente.
Abro-os. Estou novamente na cadeira, junto a mulher da Abnegação.
– Querida, irei verificar seus resultados! – diz ela sorrindo e tocando meu ombro – Voltarei em menos de dois minutos!
Sorrio de volta. Não digo nada. Sinto como se em algum momento precisasse abrir a boca, vomitaria.
Permaneço sentada, até que a porta é aberta novamente. O olhar da mulher é de como uma criancinha assustada, apavorada.
– April, preste muita atenção ao que vou te dizer, isso mudará sua vida para sempre! – ela diz fazendo com que meu rosto, refletido no espelho, assuma a mesma expressão do dela – Você é uma Divergente! Corre sérios riscos de vida! Apresentou aptidão para três facções, Amizade, Audácia e Franqueza! Vá embora e não conte à ninguém, mesmo que você confie, se não quiser morrer com apenas dezesseis anos! Me encontre na primeira rua do setor de minha facção daqui a duas horas, lhe explicarei melhor sua situação! Vá!
A mulher me empurra para fora da sala. Minha cabeça gira e não consigo fixar nenhum de meus pensamentos.
Me dirijo até o banheiro e jogo água gelado no rosto e no pescoço. Isso me desperta um pouco do estado de choque que fiquei. Morrer com dezesseis anos?
Decido não voltar para casa, pois a mulher vestida de cinza pediu que eu a encontrasse, então, se for até o setor de minha facção, será meio difícil para voltar a tempo e explicar a minha família porque quero (preciso) voltar.
Deixo que o tempo passe em seu ritmo, sem tanta ansiedade quanto antes. As duas horas se passam e eu me dirijo ao setor da Abnegação. Ela me espera, como combinamos.
– Querida, ser Divergente é algo muito perigo, pois você não pode ser controlada! — ela pausa para respirar — Não deixe que ninguém saiba o que é, nem quem acha que pode confiar, não... diga...nada! — ela beija minha bochecha e some por entre a paisagem cinza.
Volto para casa. Um nó parece ter se instalado em minha garganta e uma agitação em minha barriga, mas tento fingir que tudo continua igual.
Entro na casa de madeira e minha torta preferida, de maçã, está em cima da mesa. Sei que posso comê-la com tranquilidade, pois minha família é contra o uso do soro.
Subo as escadas em direção ao meu quarto. Apesar das casa da Amizade serem de madeira, elas são muito bem estruturadas e bonitas. Eu gosto de morar aqui, mas não sei se farei isso por muito tempo.
A cama, de cobertores vermelhos, está arrumada e aconchegante, por conta do aquecimento. Deito-me e fico pensando na vida.
Alguém bate na porta e gentilmente a abre. Minha mãe. Meus irmãos seriam menos gentis.
– April, trouxe um pedaço de torta para você! — ela me entrega um prato e eu me sento com os pés ainda na cama — Tire as sandálias quando for se deitar, meu amor!
Ela tira minhas sandálias, como fazia quando eu era criança.
– Como foi o teste? — ela pergunta acariciando meus cabelos.
– Foi... — a palavra 'Divergente' ecoa em minha cabeça — legal!
– Amanhã será o grande dia, meu amor, e quero que se seita confortável para fazer sua escolha! — ela sai, sorrindo.
Termino de comer e adormeço.
Desperto novamente com meu irmão mais novo, Dylan, pulando em minha cama.
– A mamãe...- ele respira fundo, por causa dos pulos — pediu... para que... chamasse você... para jantar!
Ele dá um último pulo que faz meu corpo saltar da cama e se espatifar no chão.
A noite passa, jantamos e eu me deito. Pego no sono pensando no resultado de meu teste de aptidão.
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Marcus, o líder da Abnegação, discursa sobre a importância de cada uma das cinco facções. Ele começa a chamar os nomes. Um garoto da Erudição... Uma garota da Audácia... Uma outra da Franqueza... Todos cortando as mãos e derramando seu sangue...
– April Carllyte! — meu estômago revira, mas eu me levanto.
Ele me entrega o objeto cortante e eu demoro um pouco, decidindo, mas corto a mão e deixo o sangue se acumular na palma.
A Franqueza, já descartei, pois seria a pior coisa para alguém da Amizade. Demoro mais alguns segundos e derrubo o sangue, quase roxo, no recipiente da Audácia. Ouço urros e me sento lá. Sem encarar minha família.
A garota que está sentada logo atrás de mim levanta e escolhe vir para a mesma facção que eu. Seu nome é Morgana Liviien.
Ela sorri e se senta a meu lado.
Agora, terei que me tornar um membro da Audácia ou uma sem-facção.
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