Its not like the movies
1 New year, new life. (Novo ano, nova vida.)
Notas iniciais
Tudo começou assim: Minha avó morreu. A última membra da família do meu pai, antes dele. Ele estava completamente sozinho no mundo. Só tinha eu e minha mãe. Mas antes dela morrer, o casamento já estava completamente ferrado. Meu pai bebia, se drogava e traia minha mãe com a secretária do escritório dele, aonde ele era o chefe. Minha mãe no começo, até se sentiu mal por se divorciar quando ele só tinha a gente, mas ai lembrou que tem foto dele dando amasso na secretária “prostituta”. Minha mãe me disse, que sempre desconfiou. Depois de ver a foto, ela chorou tanto. Até jogou o celular na rua. Um Iphone 5s! Porque ela ficou completamente ferrada, assim como o casamento. Então além da minha avó favorita morrer, eu fiquei num luto praticamente eterno. É estranho em um minuto, você estar falando com a pessoa que você ama e no outro, ela desaparece do mundo. Sem nenhum aviso de que vai voltar. Você sabe que ela não vai voltar. Eu vi minha avó morrer, as últimas palavras dela foram gastas comigo. Eu perguntei à ela no hospital se estava bem. Ela respondeu “Estou bem”, então no mesmo segundo ela teve um ataque cardíaco. Sou meio traumatizada e desde isso, foi difícil voltar a ter uma vida social e sorrir. Eu sinto que todos ao meu redor um dia morrerão, por isso eu prefiro não me apegar, porque de qualquer forma, se alguém se apegar em mim, irá sofrer quando eu partir. Me sinto mal sabendo que farei pessoas sofrerem, sem nenhum aviso antes. Já sofri isso, sei como é. Então... Eu sou uma granada. Você, de qualquer forma, irá machucar alguém, porém você pode escolher quem vai ser ferido e quem não vai. Perdi todos meus amigos, porque simplesmente parei de ir na escola e passei alguns meses trancada no meu quarto, aceitando visita de ninguém. Eu não era popular, tinha um amigo e uma amiga. Eles, obviamente, também eram esquisitos como eu. Eram as pessoas mais importantes da minha vida, depois da minha família, então com certeza não queria feri-los. Sabrina me ligava muitas vezes. Vinha em casa muitas vezes. Uma vez eu atendi. Disse que eu faria um intercâmbio para Estados Unidos por um ano e estava praticando um projeto se afastar das pessoas. Ela lacrimejou um pouco, mas depois aceitou, quando eu meio que prometi que iria falar com ela quando voltar. Mandei ela passar esse aviso para Chris. Depois disso, nunca tive mais nenhum sinal de vida deles. Lógico que eles não estavam mortos. Eu passava a maior parte do tempo stalkeando eles nas redes sociais, vendo se eles estavam sendo felizes como eu queria. A vida deles até melhoraram sem mim. Eles começaram a fazer mais amigos e viver sem se preocupar com o que os outros pensam. Quando eu disse que eles eram esquisitos como eu, é porque os populares nos chamam disso. Incrivelmente, eles se sentem bem quando rebaixam os outros. Eu nunca me preocupei com essas coisas fúteis, por isso, eu era praticamente a líder do nosso grupo. Eu tentava fazer eles não se preocuparem também. Eles eram ingênuos e bem santinhos. Pareciam aquelas crianças de 9 anos alienadas que fazem tudo o que os pais pedem. Eu era mãe aos 12 anos. Prometi pra mim mesma que não iria ser que nem as outras, mas foi contra minha vontade.
Continuando, minha mãe ficou tão magoada e parou de se preocupar com os outros, que acabou divorciando-se do meu pai e o deixou sozinho. Não aceitou o fato de perder a filhinha. Meu pai brigou por mim, usando o argumento que nasci do pênis dele. Eu queria rir tanto no tribunal, mas tive que segurar. Quase tive um ataque. Quase. Mas enfim, fiquei com minha mãe. Infelizmente. Minha mãe era muito em insegura de si, isso me incomodava, porque não éramos parecidas. É difícil conviver com uma pessoa 24 horas por dia, sendo que vocês não tem nada em comum. Às vezes, penso que sou adotada. Mas realmente nasci da barriga da minha mãe e eu tive a honra de ter uma cara parecida com a do meu pai. Se eu cortasse meu cabelo curto, eu seria meu pai. Eu sou meu pai, numa versão feminina. Pior ainda é que eu já uso aparelho, isso me torna mais feia ainda. Estava sendo bem difícil para minha mãe e eu. Eu não gosto muito dela. Toda mãe, é carinhosa em certos momentos, chata em outros. Minha mãe era mais um exemplo, porém, eu realmente não conseguia amá-la. Tudo nela me irritava. Sua voz. Seu jeito de falar. Seu sotaque. Até sua escrita. Quando ela é fofa comigo, me dá vontade de vomitar. E quando ela é grossa, me dá vontade de bater nela. Não acho que pelo fato da pessoa ter limpado tua bunda, você tem que amá-la. Amor é uma construção. Não é de repente. E não é porque os outros te agradam, você deve amá-los. Eu acredito que na verdade você gosta das coisas que a pessoa te faz, não dela. Eu já preferia meu pai, mas depois de pensar na ideia de que ele estava sozinho, eu era a única família dele, porque nasci do pênis dele, me deu mais vontade de ficar com ele. Mas não lutei. Não sei o que me deu na cabeça.
Depois de alguns meses na nossa cidade natal, Presidente Prudente, mudamos para São Paulo, não sei porquê. O bom de ficar em Presidente Prudente, é que mesmo morando com minha mãe insuportável, depois da escola, eu podia almoçar com meu pai e dar uns rolés com ele. Na boa, ele era bem divertido. Eu adorava sair com ele. Eu não tinha vergonha, como muitos outros. E ainda me comprava coisas, mas não é por isso que eu apenas adorava as coisas que ele fazia. Eu realmente gostava dele. Me fazia sorrir. Minha mãe só me dá ânsia.
Eu nunca tinha viajado. Então andar de avião foi uma novidade para mim. Não tão boa, pois tenho medo de altura e acabei vomitando no avião. E não foi no plástiquinho que oferecem. Nunca tinha passado tanta vergonha na minha vida. Isso era ainda em Janeiro. Eu nem queria saber o que me aguardava em SP. Todos riram de mim e quase morreram de nojo. Alguns chegaram a vomitar. Foi uma situação bem nojenta. Me senti tão bem quando pousamos. Finalmente ia sair daquele avião demoníaco. Odeio aviões. Com todas minhas forças. Embarcamos no aeroporto de Guarulhos. Era tão bonito. Comprei um Bob’s, enquanto esperava o táxi junto com minha mãe. Nosso prédio era bem grande. Era bem lindo. Minha mãe tinha gastado todo o dinheiro que tinha juntado para uma viagem fora do país. Tinha piscina de hidromassagem, sauna e entre várias coisas legais. Até que não seria tão ruim mudar para cá, eu comecei a pensar. O problema é que só tinha ricos lá, eu também era rica, mas a diferença é que eu não era metida à besta e sinceramente, não queria me juntar com eles. Não é porque eu sou rica, que compro tudo o que eu quero. Minha mãe é egoísta! Eu só tenho algumas mudas de roupa e sempre as repito. Fazer o quê. As pessoas da minha cidade natal me chamavam de esquisita, como já mencionei, e ainda achavam que eu era lésbica. Alguns me confundiam com um menino. Nunca tinha me preocupado com o que os outros pensam e planejava fazer que isso não mudasse. Mas minha opinião mudou no momento em que vi um garoto de olhos verdes, alto, musculoso, com camiseta de The Beatles, calça rasgada, segurando um cigarro e um violão, passar na recepção. Ele passou mais ou menos no meu lado e mesmo assim nem sequer olhou para mim. Não é como se eu tivesse algo chamativo, porém sou dessas que espera sentada por um milagre. Então aí decidi que aqui seria tudo diferente. Novo ano. Nova vida. Nova pessoa. Nova “eu”. Eu não seria mais aquela esquisita. Eu faria simplesmente tudo o que eu quero e eu não estava nem aí para a opinião dos outros. E claro, conseguiria tudo o que eu quero. Mesmo que fosse difícil, eu iria me esforçar o máximo que puder. Seria o melhor ano da minha vida! E pra começar, eu queria aquele garoto.
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