It's a Good Life
3 Capítulo 3 - Quebrada
Eram 20h10 quando cruzei as portas do restaurante e meu corpo estaqueou, não conseguia dar nenhum passo. A atendente veio ao meu encontro com um largo sorriso, como se aquele fosse o melhor dia da vida dela.
— Boa noite, você tem uma reserva? – A encarei por alguns minutos, quando abri a boca para responder, me virei de costas para ela e corri em direção a porta pela qual eu havia passado a 3 minutos atrás.
Na verdade, eu só consegui andar dois passos, pois uma voz conhecida falou meu nome e praticamente no mesmo instante sua mão segurou meu braço impedindo a minha fuga. Me virei para encarar e perguntar o que diabos ele estava fazendo, mas novamente nada saiu da minha boca quando meus olhos encontram os dele e depois notei seu sorriso de lado.
— Você quase me fez acreditar que não viria. Desde quando você começou a gostar de atrasos? — Ele perguntou sorrindo, o que me fez ter vontade de tirar aquele sorriso idiota a socos do seu rosto. Aquela não era uma noite legal e muito menos feliz, então porque diabos ele sorria tanto?
— Vamos acabar logo com isso. – Eu disse bufando entre dentes e caminhando em direção a mesa que a atendente, o ser mais feliz desse universo, me guiava. Agora eu tinha certeza que isso seria um desastre.
— Quer pedir algo para comer ou quer beber algo primeiro, ou alguma outra preferência?
— Quero acabar com isso logo. – Respondi secamente. Ele sorriu.
— Está com fome?
— Não
— Ótimo, que tal então conversar em um lugar mais reservado? Tem uma ótima praça aqui na frente. – Ele mal havia terminado de favar e eu já me levantava em direção a porta de saída praticamente correndo, novamente, enquanto ele vinha em meu encalço e a atendente nos desejava uma boa noite.
Assim que coloquei meu corpo para fora daquele lugar, foi como eu tivesse voltado a respirar. Aquele lugar havia se tornado um tanto tóxico para mim, apesar de ser meu favorito, com o tempo eu passei a odiá-lo. Momentos que eram para terem sido guardados com carinho em minha memória, se tornaram momentos dolorosos na mínima lembrança deles. Matt não sabia disso, eu acho, até porque se soubesse, ele também não viria aqui. E era por esse fato que havia aceitado vir, ele não sabia de tudo, ele não sabia que Ed havia me pedido em casamento ali e me prometido o mundo, por exemplo. Ele não sabia de toda a história. Bem, pelo menos as partes que também me diziam respeito.
Matt apontou um banco em um canto da praça, onde ninguém poderia nos ouvir e nem nos atrapalhar. Sentei-me e continuei calada observando alguns casais e algumas famílias aproveitando a noite aconchegante. Senti Matt me observar nervoso, eu pude perceber que ele não sabia o que fazer, esfregava uma mão na outra. Ele estava procurando as palavras certas, o que quer significa que seja lá o que ele quer me falar, vai ser uma merda digna de desgraçar minha mente por dias. Ele estava me deixando nervosa, além do que eu já estava.
— Pelo amor do meu coração, desembucha logo seja lá o que você queria me falar ou esclarecer, não precisa ser delicado. Essa sua busca eterna pelas palavras certas está quase me fazendo enfartar. – Falei sem nem ao menos cruzar com seu olhar. Se eu o olhasse, tudo iria por água a baixo. Ele riu baixinho e se endireitou no banco.
— Você é um saco na maior parte do tempo, sabia? – O olhei de canto e sorri de lado. Se tinha algo que não havia mudado, era isso.
— Você é um saco todo o tempo. Essa é a nossa diferença, detetive. – Falei debochando de sua cara. Ele apenas rolou os olhos e suspirou. Suspirei também enquanto observava uma família chegar na praça. Os pais e suas duas crianças, ao meu ver um tanto hiperativas. O casal sorria observando seus filhos correrem livres e alegres, abraçados um ao outro. Suspirei novamente, aquela cena de família perfeita me deixava enjoada. A vida não era boa e muito menos perfeita.
— Nunca foi sua culpa, acho que você deveria ter plena consciência disso. – Ele falou enquanto analisava o mesmo casal que eu. Suspirei. – Ele nunca foi santo, eu sei disso, mas achei que com você, algo dentro dele estava mudando. Bom, mudou, para pior, eu acho. – Matt passava a mão nos cabelos loiros, ele estava nervoso. Eu o encarei e ele fez o mesmo. Não seria uma conversa fácil.
— Eu sei disso. Eu sei. – Murmurei enquanto meu olhar caia para o lado, longe do dele. Sustentar seu olhar era difícil. – Você não sabe quanto tempo demorei para entender que não havia nada que eu poderia ter feito naquela noite. Eu sei que eu congelei...eu...eu...
— O fato dele ter morrido não é sua culpa, nunca foi e nunca será. Todos sabem disso. O que eu não consigo entender é o que aconteceu com você depois daquela noite. Quando você atravessou aquelas portas, não era você. – Eu absorvia suas palavras e tentava controlar o turbilhão de sentimentos e pensamentos, meu peito doía, parecia que todo o oxigênio do mundo não era suficiente. Ele arrumou-se no banco, levou uma mão até meu rosto, seu toque repentino assustou-me, mas ele não retirou sua mão do meu queixo. Virou meu rosto em direção ao dele. – O que você não está me contando? Deixa eu te ajudar, por favor.
— Que droga, Matt. – Virei meu rosto em direção a praça novamente. Respirei fundo, estava na hora. – Ele sabia que eu não havia conseguido fazer nada. Ele viu que quando eu o encarei na emergência e simplesmente congelei. Ele me viu parada como uma estátua enquanto os outros tentavam ajuda-lo. Ele olhou nos meus olhos e perguntou se a esposa dele estava bem. – Virei meu rosto em direção ao Matt novamente, contar aquilo não estava sendo doloroso como eu imaginei que seria. Estava sendo libertador. – E a esposa que ele estava preocupado, não era eu.
— Como é que é?
— Você não sabe porque ele foi para a França? – Perguntei confusa.
— Ele comentou algo sobre, mas não lembro ao certo.
— Ed conheceu uma garota, um dia após ele...bem...nós...ficarmos noivos. – Umedeci meus lábios, engoli em seco e baixei meu olhar ao chão, essa parte era um tanto difícil. – Ele me abandonou e foi atrás dela sem dar nenhuma satisfação. Descobri onde ele estava e o que estava acontecendo quando abri meu facebook, foi...inexplicável. – Voltei meu olhar ao Matt que me encarava boquiaberto, ele sacudiu a cabeça, como se tentasse colocar os pensamentos em ordem. Fazer tudo aquilo ter algum sentido.
— Quer dizer que ele te abandonou aqui? – Fiz que sim com a cabeça. – E não só a você, a todos nós. Idiota. Quando ele voltou, ele estava casado, ele tinha uma aliança, não era com você então?
— Não. – Murmurei. – Ele deixou bem claro isso. Bem claro que eu não fazia mais parte da sua vida. – Agarrei meu pulso esquerdo institivamente. Ele percebeu e colocou sua mão sobre a minha, o que me fez encara-lo novamente.
— Ed deixou claro as coisas te machucando?
— Hein? Não, eu...
— Claire, não precisa mais esconder as coisas, ninguém vai te machucar ou te criticar. Sempre soube que tinha algo errado naquele ser humano. – O olhei um tanto apavorada, ele percebeu. Passou a mão delicadamente por meu punho e olhou fundo em meus olhos. – Aquele primeiro encontro de vocês, era para ser eu, não ele. – Fiquei um tempo absorvendo suas palavras.
— Porque você não foi?
— Trabalho. – Respondeu envergonhado. – Então a vez do olho roxo? – Assenti envergonhada. – E você o protegeu durante tanto tempo pra que exatamente?
— Porque eu era idiota, achando que ele poderia mudar e coisas desse tipo. Porque você acha que eu trabalho com esse tipo de paciente? Eu sofri isso na pele, fui cega, não quero que ninguém passe pelo o que eu passei. Não quero que ninguém fique como eu.
— E como você ficou, Claire?
— Quebrada.
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