It's a Good Life
9 Capítulo 9 – Caso perdido
Notas iniciais
Acordei com uma bela dor de cabeça, resultado do meu excesso de álcool da noite anterior. Noite anterior! Essas duas palavras ascenderam uma luminária enorme em minha cabeça, como que eu cheguei em casa?
Me ajeitei na cama, pronta para me levantar quando um braço repousou em minha cintura. Hein???
Levei um belo susto com isso, na verdade meu susto só não foi maior pois o prêmio de maior susto foi quando percebi que eu não estava em casa. Mentira, o maior susto foi quando eu me sentei na cama e vi quem estava ao meu lado: Pedro.
Tentei recapitular a noite anterior, merda. Eu só lembrava até o beijo. MEU DEUS, beijo. Alguém me interne, por favor, acho que estou enfartando ou algo do gênero.
Tirei delicadamente seu braço de cima de meu corpo, enquanto tentava sair da cama com o mínimo de elegância e tentando fazer o máximo de silencio possível. Vocês já devem saber que não deu certo né?! Eu levei um belo tombo no chão gelado, certamente isso deixaria um belo roxo em minha bunda, e enquanto tentava procurar minhas roupas, ele acordou.
— O que você faz fora da cama a essa hora da manhã? – Ele me observava com um sorriso de lado e apoiado em um dos braços como quem não quer nada. Qual é o ser humano que consegue acordar pleno e maravilhoso assim?
— E-eu...roupas...é...minhas roupas, eu preciso achar minhas roupas. – Ele riu, melhor, ele gargalhou alto, como se aquela fosse a piada do século.
— Vem para a cama, Claire.
— Hein?
— Vem pra cá. – Ele estendeu um dos braços e eu ainda continuava sentada no chão atônita. Bufou e decidiu vir até mim. Abaixou-se e pegou meu rosto.
— Volta para cama, Claire. Comigo. – Sussurrou, sua respiração batendo contra meu rosto. Não consegui proferir nenhuma palavra, apenas acenei com minha cabeça, ele pegou minha mão, ajudou a levantar-me e fomos até a cama onde acabei deitada em seu peito, ouvindo seus batimentos rápidos enquanto sua mão percorria e decorava os ossos de minha coluna.
— Você ia embora sem falar nada? – Não respondi.
Eu estava apavorada demais. Eu além de tê-lo beijado, não contente o suficiente passei a noite com ele, as memórias estavam se alocando aos poucos, mas posso afirmar que foi uma noite memorável, aquele homem é maravilhoso na cama, mas eu não poderia ter mais um round e não poderia deixar mais esse tipo de coisa acontecer. Agir assim, de forma impulsiva, não era do meu feitio e agora que havia acontecido eu precisava contornar a situação. Não queria perde-lo, isso era óbvio, por mais covarde que eu fosse, não aguentaria vê-lo longe, ainda mais depois dessa noite, mas eu não estava pronta para tê-lo tão próximo a mim, não que fossemos ter um relacionamento, eu sei que não era essa a ideia, mas a proximidade ainda me assusta, assim como a distância.
Ele me tirou de seu peito e se sentou na cama, repeti seu gesto. Pedro me encarava olhando fundo em meus olhos, como se tentasse me ler ou ver minha alma, qualquer uma das opções não eram boas, odiava ser analisada dessa forma.
— O que te assusta tanto?
— Você. – A palavra simplesmente pulou da minha boca. – Quer dizer...isso...o que aconteceu...sabe, isso. – Ele riu, de novo.
— Isso. – Ele respondeu pensativo. – Nós. – Engoli em seco.
— Nós?
— Você tem um sério problema com relacionamentos anteriores ruins, bem-vinda ao clube aliás, só não deixe que isso atrapalhe sua vida, o raio não cai três vezes no mesmo lugar. – Deu um beijo em minha testa, meu corpo estremeceu com seu contato e saiu da cama, deixando para trás uma mulher de boca aberta e sem reação.
Consegui sair da sua casa na metade da tarde, não tivemos um segundo round assim como não voltamos a ter aquela conversa. No caminho até minha casa minha cabeça não parava, dava voltas e mais voltas tentando entender a merda que eu havia me enfiado, novamente. Quando dei por mim, estava no facebook investigando toda a vida dele, eu precisava entender o que havia acontecido com ele. Já era de madrugada quando obtive uma resposta satisfatória. Pedro casou-se, um casamento lindo, diga-se de passagem, sua ex-mulher era uma loira que mais parecia uma modelo feita em computador, mas claro, ela não era perfeita. Eles se divorciaram apenas três meses após o casamento, motivo? Traição. Ela o traía com todos os caras possíveis do antigo hospital que ele trabalhava, uma vagabunda de primeira. É claro que nossas situações são extremamente diferentes, o meu é um caso digno da página policial do jornal, ou até a capa. Mas ambos casos nos fecharam, para ele dar esse primeiro passo deve ter sido difícil, pois para mim, estava sendo impossível. É claro que já havia estado com outros caras antes, já havia dormido com eles e todo o resto, mas Pedro era diferente, eu não queria machucá-lo, ainda mais por entender o quão fechado ele está, porém eu me conheço, e muito bem, sei como eu estou agora e também sei que poderia feri-lo sem nem perceber.
Eu não era mais uma mulher carinhosa e querida, eu havia me tornado uma general cabeça dura. Vários psicólogos e psicanalistas tentaram dar um jeito na personalidade que eu havia moldado em mim pós meu primeiro incidente e não havia dado certo, na verdade segundo eles, eu era um caso sem solução, um caso perdido. E eu me sentia exatamente assim agora, então decidi ligar para alguém que pudesse me ajudar a tomar a melhor decisão, pois metade de mim queria sair correndo e ir para o apartamento dele jogar-me em seus braços, já a outra metade queria sair correndo e pegar o primeiro avião para o lugar mais longe possível.
Pedro tinha razão, algo me assustava, eu achava que era a noite que tivemos, quando o eu e ele se tornou um grande nós, mas não era isso, nem de perto era isso. O que realmente me assusta é que eu sou um grande “se”, um caso perdido. Tudo na minha vida era resumido a “e se”, eu sempre achava que algo iria dar errado, e na maioria das vezes dava pois em partes eu sempre acabava ajudando nisso. Ser essa coisa indefinida era o me deixava aterrorizada, eu não estava pronta, não estava completa e muito menos me sentia digna, pois ao meu ver ele merecia algo melhor e não um grande “e se”.
Uma batida rápida em minha porta tirou-me do meu momento de auto piedade. Era ele. Suado, respiração descompassada e apoiado no batente de minha porta.
— Claire...
— Pedro? Mas o que voc... – Não consegui terminar minha frase, pois um minuto atrás ele estava na minha porta, e no minuto seguinte ele estava dentro da minha casa com sua boca colada na minha. Eu não poderia reclamar nunca desse fato, era um caso que eu perderia sempre e com prazer.
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