It's a Good Life

1 Capítulo 1 - Desconhecido


Notas iniciais
Bem vindos(as) a minha primeira história original. Esse é um capítulo mais de apresentação a uma parte dos fatos. Os personagens são de minha autoria, assim como as situações em que eles estão sendo colocados, mas não quer dizer que isso não possa acontecer na vida real, afinal, esta é uma história baseada em fatos reais. Espero que gostem e boa leitura ;)

Eu já não sabia mais para onde correr, ou se deveria correr, não sabia mais se eu deveria começar a ouvir a opinião alheia ou continuar fingindo que eu fazia isso. Nunca fui uma garota boa, mas também nunca fui uma garota má. Eu era simplesmente eu. Não possuía rótulos, apesar de que as pessoas adoravam tentar me arranjar um. Não possuía nem apelidos, pois minha adorada mãe me fez o favor de escolher um nome que impossibilitava qualquer tentativa de arranjar um. Como eu disse, eu sou eu.

Então porque estou escrevendo esta história? Bem, essa é a minha tentativa de tentar entender o que foi, ou onde, que eu errei. Sinceramente, não sei se posso definir como um erro, mas essa é uma tentativa de tentar compreender os fatos de alguma maneira. Então já vou avisando, essa não é uma história feliz, nem triste. Obviamente não é um romance e principalmente não é um drama, apenas uma história. Não fique desmotivado caro leitor (se é que você ainda está lendo isso), esta é simplesmente uma história, sem definições, até porque se eu fosse definir, teria que definir a minha vida e não sei se consigo fazer isso.

A meu ver tudo começou a parar de fazer sentido na minha cabeça naquele sábado quando vi minha encrenca pela primeira vez. E agora você deve estar se perguntando: “achei que não era um romance” ou até pensando: “amor? Que coisa mais clichê!”. Pois eu digo a vocês, respirem fundo, não é mais um clichê adolescente até porque não tenho mais idade pra isso. Que falta de educação a minha, quase ia esquecendo, olá! Eu sou Claire. Muito prazer!

Era sábado à noite. Eu estava sentada pensando se pegava mais um copo de café ou tirava mais um cochilo na minha, nada confortável, cadeira. Enquanto meu cérebro lerdo devido ao horário, passava das 3h da madrugada, tentava decidir o que era melhor, o telefone tocou, e eu não queria que ele tocasse e que principalmente alguém do outro lado da linha gritasse desesperadamente meu nome pedindo ajuda.

A contra gosto levantei-me e devido a minha demora acabei ficando sem café e o cochilo. Obriguei minhas pernas a correr o mais rápido possível e ao meu cérebro a acordar, pois tinha certeza que iria precisar dele para seja lá o que tinha acontecido. Adentrei a emergência dando de cara com um enfermeiro extremamente apavorado.

—Ele levou dois tiros, não consigo estancar o sangramento e tem mais dois, um foi um tiro de raspão e uma facada, o outro foi apenas um tiro de raspão. – Ele falou tão rápido que mal pude assimilar tudo.

—Quem é esse aí? – Perguntei

—Um detetive, os outros dois são traficantes, parece que ele estava investi... – Não o deixei terminar, ele já havia me dado a resposta que eu queria.

—Não preciso saber da história de vida dele! – Falei ríspida. – Vamos tratar dele primeiro, vai ser nossa prioridade, os outros se der tempo, deu, se não der são dois bandidos a menos na sociedade. Faça os procedimentos para hemorragia, vou pedir bolsas de sangue. Vou mandar ele urgentemente para cirurgia, precisamos remover as balas e tudo mais que não faça parte dele. Nossa prioridade vai ser esse detetive aí, entendido?

—Sim, mas aqueles dois também são vidas doutora, querendo ou não precisamos salvá-los e... – Novamente não deixei ele terminar, o que era normal, para mim as pessoas falavam demais e normalmente eram coisas desnecessárias.

—Não me diga o óbvio, não temos pessoal para três pessoas, cuide desse e faça o que lhe disse, eu me responsabilizo pelos outros dois. – E saí de sua frente antes que mais constatações viessem.

Você deve estar pensando que eu sou uma pessoa horrível por escolher quem salvar, mas se você estivesse no mesmo lugar que eu, certamente salvaria o menos pior. E foi isso que eu fiz, ou que tive que fazer. Eu trabalho em um hospital onde pessoas que não podem pagar por um plano de saúde são atendidas. Atendemos de crianças a idosos, vítimas de acidentes de trânsito, pessoas queimadas, quebrados, entre outros. Mas nosso principal público são bandidos ou traficantes, sejam baleados ou esfaqueados, e que normalmente estão acompanhados de algum policial para que não façam nenhuma bobagem ou machuquem alguém.

Após fazer os encaminhamentos finais dos dois energúmenos, que mesmo feridos não calavam a boca e conseguiam me irritar cada vez mais, eu ri internamente e contemplei feliz o olhar apavorado de ambos quando se depararam com a algema no punho de cada um e que os obrigava a ficar na maca. Eles não precisariam mais sair dali já que os ferimentos eram todos superficiais, quem havia se dado mal era o tal detetive, que mesmo desacordado e baleado tinha um rosto sereno e bonito. Sacudi minha cabeça na tentativa de afastar tal pensamento e fiz meu cérebro se deter em prestar atenção ao preenchimento correto da ficha de cada um. Acabei entregando a um residente qualquer que me olhou apavorado, certamente ciente de minha fama e me dirigi ao bloco cirúrgico.

Eu iria me arrepender amargamente, mas o tal detetive não saía dos meus pensamentos e consequentemente comecei a me preocupar com seu estado, pois sinceramente, do pescoço para baixo a cena não era nada agradável. Depois de horas em pé atrás de um vidro assistindo meus colegas fazerem o trabalho deles, eu saí dali, mas só porque havia acabado a cirurgia e não tinha mais o porque de eu ficar ali e principalmente pelo fato que eu não poderia demonstrar essa preocupação insistente que eu tinha de saber o estado dele.

Agora você me pergunta, mas que porra foi essa? E eu te respondo: eu não sei. Sinceramente, eu sempre tenho tudo sobre controle, até meus sentimentos. Dominei meu coração até o ponto de não sentir mais nada, e acredite, eu não estou falando isso da boca para fora até porque eu sou conhecida nesse hospital por ser extremamente (ênfase no extremamente) fria e calculista, até porque minha profissão adorada exige isso de mim. Então porque eu me senti balançada? Essa era a pergunta que rodava em minha cabeça e de alguma forma eu não tinha a mínima noção de como responder. Entretanto, algo naquele ser humano me chamou atenção e criou um sinal luminoso o suficiente na minha mente para que eu não conseguisse deixar de lado.

Ao final do meu plantão, o detetive já havia saído da cirurgia, estava estável e ia sobreviver aparentemente sem seqüelas (e eu respirava aliviada sobre essa última parte). Os outros dois também sobreviveram, então no final de tudo fiquei com meu saldo positivo e poderia ir para casa tranquilamente.

Cheguei em minha amada casa e fiz o que queria fazer desde que saí, tirei meus sapatos e deixei pelo caminho, fiz o mesmo com minha bolsa, jaqueta, blusa, calça, vesti meu pijama e me joguei em minha cama para finalmente poder esquecer de tudo, respirar profundamente e me entregar ao sono que já me consumia.

Certamente eu havia gastado bilhões de litros de água durante meu banho. Isso era culpa da minha cabeça que não parava de girar entorno de constatações desnecessárias, me fazendo ficar parada debaixo do chuveiro com as mãos apoiadas na parede controlando minha respiração e meu coração. Ás vezes a pior parte da minha vida é dormir, pois infelizmente ainda não consigo controlar meu cérebro durante meus sonhos, ainda.

Cheguei ao hospital recebendo olhares e perguntas sobre o que eu estava fazendo ali se era meu dia meu dia folga, é claro que eu não iria ser honesta pois se eu fosse, me mandariam diretamente a um psicólogo alegando estresse pós-traumático ou algo do gênero que eu como sempre, não dava a mínima. Chequei tudo que eu poderia checar da evolução do meu paciente enquanto eu não estava presente pois estava em casa dormindo. Fiz isso umas três vezes, e admito, fiz tempo no quarto em que ele estava e fiquei o observando por um tempo. Eu o conhecia de algum lugar, não lembrava de onde e essa parte me frustrava.

Passou-se uma semana desde que aquele estranho não estranho passou pelas portas da emergência, eu estava quase de saída. Enquanto eu anotava uma troca de medicamentos, ele acordou e eu levei um susto quando ouvi sua voz me perguntando onde estava. Tentei tranquiliza-lo o máximo que pude, expliquei tudo o que ele queria saber, tentei pedir, em vão, que não se esforçasse muito que não falasse também. Então ele me chamou pelo meu nome. Eu era uma covarde, acho que sempre fui, chamei os enfermeiros e saí dali o mais rápido que pude, se eu olhasse mais um segundo para seus olhos verdes, certamente iria acabar desabando e a próxima a receber soro e passar a noite em uma maca seria eu. Eu o conhecia, sabia bem quem ele era, mas o pior não era isso, o pior era ele saber quem eu era. Ótimo momento para eu aceitar aquela vaga em outra cidade.

Notas finais
E aí, o que acharam? Não sei ao certo sobre como vai ser a frequência das postagens (talvez uma vez na semana), não sei ainda. Não será uma história longa, no mínimo uns 8 capítulos e no máximo 10. Beijos e até mais!